« Que diversidade? | Entrada | Glória ao Pai da Nacionalidade, nos 858 anos da conquista de Lisboa aos mouros »
outubro 25, 2005
Os ricos e o Reino dos Céus
Dissertam os nossos estimados Manuel e Bruno sobre a possibilidade de se enriquecer para lá de certos limites por meios absolutamente legais, pendendo ambos para a negativa.
Confesso que não compreendo esse ponto de vista. Em certos negócios emergentes há oportunidades extraordinárias que, a serem aproveitadas no momento certo, podem enriquecer o investidor. Quem é que se não lembra da "sorte grande" que saíu a quem apostou na chamada Nova Economia?
Tradicionalmente as grandes fortunas faziam-se pela expansão e diversificação: atitude agressiva no mercado, diluição da concorrência, entrada em novas áreas de negócio. É perfeitamente possível ter sucesso com esta estratégia sem colidir com a legalidade.
É claro que nos tempos actuais essa estratégia faz-se em grande medida pelo jogo de influências, pela manipulação do poder político (atribuição de mercados ou criação de legislação favorável a certos negócios). Mas tomar a parte pelo todo (e ninguém pode afirmar quantos é que cabem em cada categoria) é potencialmente injusto. Além de ser um sintoma de uma certa abordagem socialista e cristã do fenómeno do enriquecimento: para a primeira este é sempre resultado da exploração dos trabalhadores, para a segunda é imoral porque há quem tenha na sociedade necessidades prementes a serem supridas coabitando com grandes fortunas.
Esta crítica à riqueza tem ainda o efeito perverso de toldar a iniciativa individual, em particular em sociedades mediterrânicas de matriz católica. Sabe-se que no mundo protestante a perspectiva é diferente, como bem demonstrou Max Weber em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo". Infelizmente, em muitos páises como o nosso, por contingências diversas, ainda se espera que seja o Estado a resolver os problemas das pessoas, olhando-se para os homens de sucesso com desdém, que mais não é que inveja impotente: «só podem andar a roubar».
Onde condescendo com a visão dos nossos amigos é na questão do que é que os ricos fazem ao dinheiro. Admitindo-se que será o que quiserem fazer, louvados serão no entanto aqueles que canalizem alguma da sua riqueza em prol da sociedade, da forma que acharem melhor. Mas aí estamos no campo da ética pessoal e obrigar as grandes fortunas a fazê-lo, ou seja via impostos progressivos, é mais uma vez desincentivar aqueles poucos que têm iniciativa e coragem (algo que é frequentemente esquecido) para se lançarem num negócio. Mas no nosso país até um Alfredo da Silva, um dos pioneiros da melhoria de condições de vida do operariado, foi alvo de um atentado anarquista - certamente por ser um "odioso explorador".
Publicado por FG Santos às outubro 25, 2005 05:44 PM
Comentários
Meu Caro FG Santos:
Para a matriz Cristã - ou Católica, que é o que ao caso importa - a riqueza só é imoral quando conduz ao egoísmo. O problema é a frequência com que essa escorregadela acontece. Daí o passo Bíblico do «camelo pelo buraco duma agulha...», que deverá ser entendido como uma aproximação estatística, "avant la lettre".
A Santa Madre Igreja sempre realçou os Amigos ricos que Jesus tinha, Nicodemus, José de Arimateia, etc.; e S. Francisco de Assis, que ergueu o ideal de pobreza a cumes inimagináveis, sempre defendeu a existência dos ricos, como hipóteses acrescidas de disponibilidade para o bem e auxiliares dos necessitados por via das esmolas. Portanto, não há dúvida - o que conta é o espírito com que se encara a riqueza. Mas claro que estamos longe do calvinismo, para cuja interpretação popular os pobres estão pouco menos que excluídos do Paraíso..
Publicado por: Paulo Cunha Porto em outubro 25, 2005 06:01 PM
«Quem é que se não lembra da "sorte grande" que saíu a quem apostou na chamada Nova Economia?» Ó meu caro FG Santos, se o seu argumento é este, sou obrigado a concordar com o vetusto Honoré: por trás de uma grande fortuna, está sempre um crime. A Nova Economia, valha-nos Deus...! E o "boom" bolsista de 1987? Aquilo é que foi um 'bull market' em cheio, um "negócio emergente", uma "oportunidade extraordinária" que "aproveitada no momento certo", "enriqueceu o investidor"!
Fora isto, digo-lhe que o meu postal tinha muito de blague. Eu, nos formulários oficiais, posto que muito a contragosto, aponho a profissão de "Empresário". Sei muito bem que nesta terrinha de Deus confunde-se "honestidade" com "lorpice". Mas não creio que subsista a "abordagem cristã", segundo a qual as grandes fortunas seriam "imorais". Pelo contrário, as grandes fortunas são hoje muito bem vistas, estimadas, idolatradas até, copiadas as modas e os hábitos dos "ricos" e dos "vip" — num mimetismo que envergonharia o próprio Thorstein Veblen, se pudesse (re)fundar cem anos depois a sua Teoria da Classe Ociosa. Ao invés, ninguém quer saber dos "pobrezinhos" e dos menos abonados, mesmo os que não cheiram mal. Hoje em dai, "imoral" é ser pobre. Segundo a liturgia corrente, os pensionistas não entram no Reino dos Céus. A «Hola!», a «VIP», a »Caras», a «Exame», a »Fortuna», rebentam as tiragens com a carinha laroca dos ricos e dos famosos. Mas parece que já não se vende o «Cavaleiro da Imaculado» nem o «Seringador».
Publicado por: BOS em outubro 25, 2005 06:49 PM
Desta vez, totalmente de acordo.
Já é tempo de varrer o pensamento socialista da nossa sociedade.
Essas críticas de 'barbearia' que se fazem aos ricos em Portugal são , e desculpem-me a franqueza, resquícios (ainda que em 'reflexo involuntário') dessas instituições nacionais: a invejazinha, a maledicência, a tacanhez, o espírito ressabiado.
É frequente muitos desses 'críticos' serem também eles, por mais que esperneiem, burgueses abastados, ou seja, tudo menos pobrezinhos explorados.
"em particular em sociedades mediterrânicas de matriz católica. Sabe-se que no mundo protestante a perspectiva é diferente, como bem demonstrou Max Weber em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo"
Ora aí está uma evidência. Só não vê, quem não quer.
"Além de ser um sintoma de uma certa abordagem socialista e cristã do fenómeno do enriquecimento: para a primeira este é sempre resultado da exploração dos trabalhadores, para a segunda é imoral porque há quem tenha na sociedade necessidades prementes a serem supridas coabitando com grandes fortunas."
Ora nem mais.
Felizmente, o pensamento socialista começa a desvanecer-se por completo, sobretudo nas novas gerações. Felizmente.
Aidna há dias, a socialista Jamila Madeira desatou aos encómios (ainda que involuntários)ao prof.Cavaco, quando escreveu algo do género no JN:
"durante o cavaquismo foi inculcado na juventude um espírito de competitividade neoliberal incompatível com os valores progressistas e socialistas"
Foi o maior elogio que poderiam fazer a Cavaco.
Aquilo que é preciso é que estas 'coisas' sejam 'inoculadas' na sociedade portuguesa, já e em força, a partir da chefia do Estado.
"...olhando-se para os homens de sucesso com desdém, que mais não é que inveja impotente: «só podem andar a roubar».
Ora nem mais.
Basta comprar um carro novo ou, simplesmente, andar de camisa lavada, para lá vir a impotência dos ressabiados...que não passam de 'loosers'.
Eu, por exemplo, abandonei um lugar repimpado por conta de outrem para arriscar.
Do Estado só tenho tido: obstáculos.
Os outros....enfim...
Mas, felizmente, e com esforço, as coisas estão já a correr bem.
Não sou um desistente perante o monstro socialista.
"...ou seja via impostos progressivos, é mais uma vez desincentivar aqueles poucos que têm iniciativa e coragem (algo que é frequentemente esquecido) para se lançarem num negócio."
NA MOUCHE!
É também óbvio que uma das primeiras reformas que se deveriam fazer seria a ELIMINAÇÃO da noção de imposotos porgressivos e a instauração de impostos de percentagem fixa: iguais para todos.
E esta seria só a primeira reforma, mas há mais...
"odioso explorador"
ESSA SIM, é a retórica bacoca 'políticamente correcta'. A cassete.
para cúmulo, a socialista Europa cobre-se de ridículo, ao constatarmos que um operário europeu é, em geral, muuuuito mais explorado (e 'imobilizado') que os seus homólogos dos EUA, por exemplo.
Como se disse há uns dias, embora não haja nemnhum país da Europa estritamente liberal (a Inglaterra e a Irlanda estão lá perto) ele 'paira'.
E vai 'pairando' e 'corroendo' as velhas estruturas decrépitas do ogre socialista.
Um dia... o ogre vem abaixo.
Assim seja....'e o Sol brilhará para todo nós'!
:)
nota: é um prazer ler o FG Santos economista, sobretudo quando se aproxima das boas e sãs doutrinas dos seus colegas de Viena e Chicago.
LADY TATCHER - PRESENTE!
Friedrich von Hayek - PRESENTE!
Cato Institute - PRESENTE!
Ludwing von Mises - PRESENTE!
Rothbard - 'lets roll'!
Milton Friedman -HASTA LA VICTORIA, SIEMPRE!
;)
Publicado por: Nelson Buiça em outubro 25, 2005 07:17 PM
Estimados amigos, bastará pagar os impostos tal e qual como resultam da lei, sem faltas nem omissões, para ninguém poder enriquecer do modo como parece acreditar o FGSantos...
No nova ou na velha economia.
E aproveito para esclarecer que eu não estava a pensar em nenhum caso em que alguém por força de um investimento ou de uma iniciativa empresarial feliz tenha passado rapidamente de pobre a rico. Não consigo lembrar-me de nenhum exemplo assim, olhando à volta, embora na sociedade portuguesa do presente haja inúmeros exemplos de pessoas que eram pobres e agora estão ricos. Mas sem nenhum investimento de capital, nem nenhuma actividade empresarial antecedente.
Seus ingénuos!
Publicado por: Manuel em outubro 25, 2005 08:41 PM
"...bastará pagar os impostos tal e qual como resultam da lei..."
É por isso que, um pouco por toda a Europa continental, as pressões para reformas fiscais são cada vez mais insistentes.
brevemente (felizmente) essas pressões serão insustentáveis e conseguirão os seus objectivos.
É urgente por côbro ao ROUBO que essa entidade chamada Estado promove todos os dias, espoliando os cidadãos.
Quanto ao comentário do Manuel...desculpe lá...mas é 'retórica' socialista em estado puro.
O que nem será de estranhar.
Que ingenuidade a minha...
:)
Publicado por: Nelson Buiça em outubro 25, 2005 10:39 PM
Já agora, alinho mais um comentário.
O Alves dos Reis (parece que é "Alves Reis", mas eu sigo aqui a grafia corrente...), o Alves dos Reis — dizia eu, e ainda digo — esteve quase a passar à História como um "grande empresário", cheio de "visão" e "espírito empreendedor", como agora se diz. Foi por um triz que a marosca se descobriu. E foi por um triz que o Alves dos Reis perdeu o direito de enfileirar hoje nas monografias ao lado do Burnay, do Alfredo da Silva, do Sottomayor — todos eles tão ou mais ladrões que o dono do Banco Angola e Metrópole.
Está bem de ver que se o Alves dos Reis não tivesse sido apanhado — ai de quem ousasse hoje em dia duvidar da licitude da sua fortuna!... Seria logo apodado de "socialista em estado puro".
Tenho para mim que o Alves dos Reis não constitui a excepção. Ele é a regra. Nessas listas dos "mais ricos", exceptuados os casos de fortuna acumulada há várias gerações, se dos restantes "empreendedores" eliminarmos os que singraram com corrupção, com fogos postos nas fábricas para esfolar o dinheiro do seguro, com cambalachos vários, com negociatas ilegais, ficam as referidas listas reduzidas a 10% dos afortunados. Digo bem, dez por cento. Um em cada dez.
Até o PCP alimentou durante anos o seu "empresário", o seu homem de "visão", "estratégia" e "faro negocial" — o sr. Alexandre Alves, presidente da FNAC. (Da FNAC que faliu...) Enquanto o dinheirame chegava pontualmente de Moscovo e os déspotas africanos, também eles a soldo da União Soviética, iam encomendando aparelhos obsoletos de ar condicionado, a FNAC era um "grande projecto empresarial". A seguir a 1989, a tramóia ruiu como um castelo de cartas. E lá teve o "empresário vermelho", como era conhecido, muito afim do PCP, de pôr na rua uns milhares de trabalhadores. Curiosamente, sem "manifs" da CGTP à porta...!
Moral da história: nisto de "negócios emergentes", liberais e comunas são todos a mesma coisa.
Publicado por: BOS em outubro 26, 2005 10:32 AM