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outubro 23, 2005

A cruzada

A pressa com que a potência ocupante promoveu o referendo à proposta de Constituição Iraquiana demonstra uma vez mais o desespero de quem tenta a fuga para a frente.
Dois anos e meio após a invasão do Iraque de Saddam Hussein, que balanço se pode fazer?
- 2000 soldados americanos mortos, quase 100 ingleses e outros 100 de diversas nacionalidades;
- dezenas de milhar de civis mortos em atentados e confrontos entre a força ocupante e os insurgentes;
- toda a estrutura do Estado desmantelada de um momento para o outro, lançando o caos no dia a dia, infernizando-o; “oferecendo” o desemprego a dezenas de milhar de militares, muitos dos quais abraçaram o terrorismo ou simplesmente se dedicaram ao banditismo;
- “aberta” a Caixa de Pandora do fanatismo religioso, os xiitas, embora forçados a contemporizar os seus ímpetos proselitistas com os ocupantes, não escondem a agenda religiosa que têm para o futuro Iraque, pese as salvaguardas de liberdade religiosa contidas no projecto de Constituição;
- num país que, pese todos os defeitos e críticas merecidas que recebia, se orgulhava do laicismo, em que as mulheres tinham uma liberdade pouco vista noutros países árabes, caminha-se a passos largos para uma... talibanização, regime que os EUA ajudaram a impôr no Afeganistão e que posteriormente depuseram.
Tendo a minoria sunita detido as rédeas do poder no tempo de Hussein, ao passo que os curdos e xiitas eram reprimidos, é uma reviravolta tremenda aquilo que a Constituição, a ser aprovada, irá legitimar: um país com uma estrutura federal que de modo algum garante a coesão nacional, abrindo fortes possibilidades de independência para os outrora reprimidos. Os curdos, a viver num regime semi-independente desde que Saddam deixou de ter mão no Norte, por via das limitações impostas pela ONU, avança rapidamente para a independência. O que até há pouco parecia impossível face à postura turca de intransigência a esse respeito, tornou-se uma forte possibilidade, não sendo de excluir que a estranha passividade com que Ancara olha para esta situação seja uma contrapartida do forte apoio que Washington lhe tem dado no dossier de adesão à UE.
Os xiitas também não se queixarão se conseguirem a independência ou pelo menos a predominância política no Iraque: após décadas de repressão política e religiosa, de degradação do nível de vida muito maior que a dos sunitas, o facto de o território em que são maioritários ter as maiores reservas petrolíferas do país dá-lhes risonhas perspectivas.
A minoria sunita, quem mais perdeu com a ocupação, arrisca-se a ficar reduzida politicamente aos territórios ocidentais, dramaticamente pobres em termos petrolíferos. O federalismo que a Constituição quer impor funciona, voluntariamente ou não, como uma vingança.
No meio deste barril de pólvora quem é que ganhou com a ocupação? Em primeiro lugar, o lobby armamentista americano: os EUA não “aguentam” estar uma década sem se envolver em conflitos militares, quase sempre por si provocados ou incentivados. Depois, os ferozes e zeladores defensores de Israel no Congresso americano, que conseguiram eliminar um inimigo declarado do Estado hebreu; também as grandes companhias petrolíferas, entretanto, podem agora negociar com o governo iraquiano. A Federal Reserve deve também estar satisfeita por um regime que se preparava para tabelar o seu petróleo em euros em vez de dólares ter passado à história. Dick Cheney e os seus amigos da Halliburton conseguiram vultosos contratos sem concurso. Os fundamentalistas, sob capa legal ou terrorista, receberam um impulso que nem nos seus melhores sonhos podiam achar credível.
Resumindo: foi, de facto, uma cruzada moral, uma vitória do bem sobre o mal.

Publicado por FG Santos às outubro 23, 2005 04:34 PM

Comentários

Meu Caro FG Santos:
Prepara-te para o próximo anel na espiral de cegueira daquela política externa: os EUA a
bombardear alegremente o amigo curdo de hoje...

Publicado por: Paulo Cunha Porto em outubro 23, 2005 09:51 PM


Nesta matéria de crítica à política externa imperialista dos EUA, os seus pontos de vista coincidem substancialmente com os que perfilho. O cinismo da política da grande potência é, infelizmente, uma realidade: quando o vice-PR Cheney é simultaneamente um empresário que assegura vultuosos lucros na «reconstrução do Iraque» está tudo dito.

Publicado por: f.limpo. em outubro 23, 2005 10:26 PM

" O cinismo da política da grande potência..."

ahahah

O F.Limpo já viu, por acaso, uma ÚNICA 'grande potência' que não seja minimamente cínica??

A História o demonstra.
Se sempre foi assim, porque seria diferente hoje em dia?!

É que...para se ser uma grande potência é necessária uma dose elevada de cinismo.
De contrário: não há 'grande potência' p'ra ninguém.

ACORDEM!

Os EUA não detêm o 'monopólio' do cinismo ou do tal de imperialismo (o que quer que essa treta seja....)

Publicado por: Nelson Buiça em outubro 24, 2005 10:46 PM

Mais um artigo atento e certeiro. Bravo!

Publicado por: Mendo Ramires em outubro 25, 2005 05:13 PM


Neste momento, os EUA hegemonizam a teia imperialista mundial. O N. Buíça, como liberal conservador, tem um fraquinho pelo «american way of life» e pelo papel de «baluarte do mundo livre» exercido pelos EUA... E isso leva-o a apoiar a invasão do Iraque, cruel, sangrenta, optima para a indústria de armas dos EUA. Olhe, o De Gaulle, um defensor do mundo livre, um europeu iluminista, atacaria seguramente Bush e a sua clique. Não temos que alinhar sistematicamente com o padrinho americano. Sobretudo agora que o perigo estalinista do Leste desapareceu.

Publicado por: f.limpo em outubro 25, 2005 10:59 PM

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