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setembro 10, 2005
Notas de uma viagem a Berlim (II)
Com o pouco tempo disponível, o meu “Spaziergang” centrou-se na Unter den Linden, partindo da Catedral (que fica no lado oriental) e indo até à Porta de Brandenburgo. Nestas centenas de metros os pontos de interesse são infindáveis: além da já citada catedral, com cúpulas bastante largas, temos a famosa Humboldt Universität; do outro lado da avenida o largo onde os nazis fizeram o auto-de-fé livresco anti-judaico e anti-comunista; junto à universidade temos o monumento ao Soldado Desconhecido, com uma estátua que se assemelha a uma Pietà; trata-se de uma réplica, omitindo-se na descrição se a original foi destruída pelos bombardeamentos aliados ou se foi surripiada pelo Exército Vermelho.
(Por falar em surripiar, num museu por perto exibem-se obras confiscadas pelos nazis aos judeus.)
Mais à frente, do outro lado da avenida (e ontem à tarde – factor importante – era onde se podia estar à sombra), a Embaixada da Federação Russa, propriedade descomunal que foi também a “Botschaft” da URSS (e certamente local de “aconselhamento” do camarada Erich e seus compinchas). Ainda desse lado da Unter den Linden, já bem perto da Brandenburger Tor, o belo Hotel Adlon; entramos agora na Pariser Platz, onde fica a Embaixada Francesa.
Chegamos enfim à Porta de Brandenburgo. Erigida nos inícios do séc. XVIII, era uma das catorze portas que existiam em volta da cidade e onde se cobravam as taxas aos produtos que aí se iam comerciar. Foi a única que sobreviveu e foi sendo engrandecida e embelezada, até se tornar na jóia arquitectónica que é hoje. Impressiona passear por este local onde ainda há dezasseis anos existia o Muro da Vergonha. Já do lado ocidental uma homenagem a algumas da vítimas da fuga para a liberdade, ignobilmente mortas a tiro pelos soldados da DDR. Mas uma homenagem modesta, não oficial. (Impressiona ver como os alemães fizeram tão grande contrição pelos seus actos da II Guerra, omitindo os massacres que os aliados lhes infligiram, ao mesmo tempo que a catarse do comunismo continua por fazer. Ainda temos perto da Ponte Liebknecht (!) as estátuas de Marx e Engels e manteve-se o nome da Karl Marx Allee, entre certamente muitos outros atentados toponímicos em que não pude reparar. E enquanto se continuam a erigir monumentos aos judeus vítimas do nazismo, as vítimas do comunismo são esquecidas.) Do lado direito da Porta (no sentido em que fui) temos o Reichstag (que ficou do lado ocidental), no topo do qual se construiu recentemente uma cúpula envidraçada, que proporciona uma vista certamente interessante sobre as redondezas e que explica a fila extensa de turistas que querem aceder ao antigo parlamento. Ao lado, numa construção completamente nova, o novo parlamento (sim, que Bona já deixou de ser a sede do poder político e da administração). A área em que está inserido é aprazível, aberta, verde, arejada. Simboliza, parafraseando a candidata Merkel, um novo começo para a Alemanha. Mas que, como vimos, está toldado pela excessiva contrição pelo que se passou há 60 anos e pela quase inexistente relativamente a um regime não menos opressivo, que ainda por cima dividiu um povo ao meio.
Tempo ainda para dar um pulo à Alexanderplatz (novamente do lado oriental) e ver de perto a impressionante Torre da Televisão. Na mesma praça a bela Marienkirche, local de culto católico.
Banhada pelo rio Spree, Berlim tem diversos canais bordejados por extensas alamedas de árvores. As construções em altura não são muitas mas do lado oriental, apesar de algumas obras novas, abundam ainda os horrorosos prédios destinados ao “homem novo”. O prémio da fealdade vai para o antigo parlamento da DDR, com as suas fachadas envidraçadas de um mau gosto e cinzentismo bem simbólicos. Está de resto a ser desmantelado mas “langsam”, que o local parece estar pejado de amianto.
Uma palavra ainda para a moda recente de comércio de produtos e objectos do tempo da “outra senhora”, que os alemães genialmente baptizaram Ostalgie (Ost = leste). Vi à venda chapéus, com a estrela vermelha, tanto do Exército como da polícia (Volkspolizei), livros, discos, objectos diversos. No parque adjacente, as estátuas de Marx e Engels permanecem como que atentas e expectantes em relação à evolução da nova Alemanha.
Para concluir, de referir a pobreza (em quantidade) das lojas tanto no aeroporto de Berlim como de Munique (onde fiz escala), este último mesmo assim melhor equipado. Para quem não teve tempo de ir à Kurfürstendamm (a Regent Street ou Rua Augusta ou Rua de Santa Catarina lá do sítio), desesperei por nem no aeroporto poder prover-me de alguns exemplares das extraordinárias edições de música clássica que os alemães promovem. “Schade”!
Publicado por FG Santos às setembro 10, 2005 11:15 PM
Comentários
Para uma tão curta estadia em Berlim a descrição deu, pelo menos, para ter vontade de conhecer essa cidade tão marcante do século XX.
Sem dúvida que o emblema do Belém dá um outro colorido aos "históricos".
É bom ter de volta i "digno subscritor" do blogue santos da casa!
Publicado por: M.Antónia Santos em setembro 11, 2005 07:16 PM