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setembro 25, 2005
D. João e a Máscara
Estranha peça, este “D. João e a Máscara” (1924), de António Patrício. O autor pega no mito criado por Tirso de Molina e dá-lhe uma aura mística, longe do libidinoso frio e conquistador.
Patrício, diplomata republicano, que impediu que um carregamento de armas, na Corunha, chegasse aos insurrectos liderados por Paiva Couceiro, era também um homem de letras de algum talento. Abraçando a estética decadentista, as suas obras são pesadas, as ambiências por vezes são de um silêncio de morte. A morte perpassa aliás por todo o “D. João”. Cansado das suas conquistas, que nunca o saciam verdadeiramente, D. João encara na morte o absoluto que nunca alcançou no leito. Narcisista impenitente, crê encontrar justificação na sua carreira de conquistador na busca do eterno representado na morte.
A escrita é algo pesada, o vocabulário, embora rico, encadeia-se em frases não muito escorreitas, obrigando o leitor a um esforço que não é claramente compensado pelo poético que se apreende melhor com a releitura.
Os diálogos com a Morte, ao contrário do resto da peça, são em verso, engenhoso mas que não chega a ser verdadeiramente cativante.
A autocomplacência decadentista acaba por exasperar um pouco, muito embora sintamos algumas passagens de génio, em que o simbolismo tem toda a sua força em analogias poéticas bem apanhadas.
Chega-se ao fim do livro com uma sensação estranha de termos lido uma obra com mérito, que não chegou a agarrar completamente o leitor, mas que o não deixou indiferente. Mesmo após fechado o volume, as ambiências pesadas, os jardins gélidos e petrificados, a Morte omnipresente, o convento onde D. João se afasta do século e se torna alvo da admiração de todos, ficam a ressoar na mente.
Publicado por FG Santos às setembro 25, 2005 11:43 AM
Comentários
Parabéns pela análise!
Publicado por: (IM)PARCIAL em setembro 25, 2005 07:57 PM