« Entrevista de Christian de la Mazière | Entrada | Doutrina Monárquica »

setembro 30, 2005

95 anos de infâmia (I)

A caminho que estamos de se cumprirem 95 anos sobre a data infame do 5 de Outubro de 1910, vai este blogue publicar durante os próximos dias alguns textos alusivos ao infausto acontecimento que mergulhou o país no delírio republiano e atentou perduravelmente contra a Nação e os seus princípios.
Começamos com Alfredo Pimenta, socorrendo-nos de uma estupenda antologia de textos compilados pelo grande amigo desta Casa e seu ocasional comentador Nonas, a quem enviamos desde já um caloroso abraço.

«...Tenho por perigosas, contraproducentes, e dissolventes todas as discussões que se formularem ou se esboçarem à volta do Rei, da sua legitimidade e de seu poder. Entre a doutrina monárquica e a doutrina republicana há uma só diferença, mas essa fundamental, basilar: o poder do Rei é hereditário, o poder do Presidente é de origem electiva. Aqui, há ocasião para debates, discussões, propagandas, candidaturas. Além, não. O Presidente sai da luta dos partidos. Vai levado pelos votos de uns contra os votos de outros. O Rei não. O Rei está no poder, pela força da continuidade histórica. A família de que saiu detém uma função: a função real - superior às lutas dos homens, independente da instabilidade das opiniões. Dentro do princípio monárquico, dentro da filosofia monárquica, não sei pensar de outra maneira.» (1)
«...A Monarquia tem que se basear no princípio monárquico; não pode basear-se no princípio democrático. Por isso mesmo que, com a Monarquia o Rei está acima dos dirigidos, independente das suas vontades, fora das suas intrigas; por isso mesmo que o Rei não nos deve a função real - nem nós podemos ter a veleidade infantil de lhe exigirmos a paga de quaisquer serviços, nem ele tem que se sentir embaraçado com a gratidão que nos deva por quaisquer favores. O Rei é a Nação personificada - não pela vontade instável de uma maioria de ocasião, não pela pitoresca acção de um voto de acaso, mas sim pela influência do Passado, do que está fora de nós, longe de nós, independente de nós.» (2)
«...Há quem seja levado para a Realeza, pela inteligência esclarecida, pelas realidades passadas e presentes.
No campo da metafísica pura, das Nuvens, a inteligência ainda pode hesitar, arrastada por preconceitos ou sofismas.
No campo das realidades experimentais, encarada a vida dos Povos, dos agregados sociais - sejam naturais como a Família, sejam convencionais como as corporações - não há inteligência autónoma que não fuja horrorizada do regime electivo, e não reconheça a superioridade necessária da Realeza hereditária - da Monarquia que se transmite sem sobressaltos, consultas, agitação e subversão de valores.
Há, de facto, nos Povos, interesses permanentes e interesses transitórios, ocasionais.
O regime electivo pode defender os interesses do momento. Como há-de ele defender os interesses permanentes, os interesses eternos, se, por definição, passa constantemente, levado na crista das vagas da opinião?
Ele que passa, como há-de defender o que fica?
Ele que chegou hoje, como há-de defender o que era ontem?
Ele, que vai embora amanhã, como há-de defender o que passa para além de amanhã?
O regime electivo é o regime dos ambiciosos, dos que também querem ser. A Realeza é o regime do Dever. O Rei menos Rei sabe, desde o berço, que tem uma obrigação a cumprir: estar à frente da Nação, a conduzi-la e a defendê-la. E desde o berço que aprende esse dever sagrado. Tudo o mais que lhe ensinam é secundário, ou instrumento do essencial.
Os inimigos da Realeza falam de Acaso...
O argumento, se sincero, é imbecil.
Acaso? Pois quando é que há mais Acaso - do que nas contingências duma eleição? Pois quando é que há menos Acaso do que na lenta e sistemática preparação dum Rei?
Que cargo no mundo pode apresentar preparação tão longa, que vem desde o berço, como esse da Realeza?
A inteligência autónoma pensa tudo isto, verifica tudo isto, e conclui.» (3)

(1) «Solução Monárquica», pp. 22/23, ed. do Autor, 1915,.
(2) «Política Monárquica», p. 20, Empresa Lusitana Editora, 1920.
(3) «Palavras Insuspeitas», in «A Voz», n.º 4238, de 12.12.1938.

Publicado por FG Santos às setembro 30, 2005 09:58 AM

Comentários

"... o poder do Presidente é de origem electiva."

FALSO!

TODAS as DITADURAS do Séc.XX foram sob a forma de República.

A República não é sinónimo de Democracia.
Às vezes, muito pelo contrário.

Publicado por: Nelson Buiça em setembro 30, 2005 12:16 PM

Nelson, aqui a questão é hereditariedade vs. eleição. Se esta eleição é por sufrágio universal, por escolha de uma junta militar após um golpe de Estado ou por uma assembleia restrita, isso é irrelevante para o princípio que estamos a discutir.

Publicado por: FG Santos em setembro 30, 2005 12:55 PM


Mas «infame» o 5 de Outubro de 1910, porquê? E o João Franco com a sua ditadura que desembocou no regicídio de 1908 não foi infame? O FG Santos queria que a classe operária continuasse sem direito à greve como aconteceu sob a monarquia liberal de 1832 a 1910, para já não falar no absolutismo anterior? Como é «belo» condenar a república quando se vive longe dos bairros populares e das aspirações dos seus moradores...

Publicado por: f.limpo em outubro 1, 2005 12:22 AM

Para os que ainda acreditam na bondade da 1ª República aconselho a leitura do livro "O poder e o povo - a revolução de 1910" de Vasco Pulido Valente.

Publicado por: JLL em outubro 1, 2005 09:41 AM

Excelente recomendação, caro JLL. Desse livro já aqui deixei em tempos um excerto:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2005/05/o_28_de_maio_79_1.html
Sobre a "pagaille" da I República também por aqui ficou um exemplo:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2005/05/o_28_de_maio_79.html
F. Limpo: tal como eu não alvitro sobre a sua condição social, dispense-se de o fazer sobre o meu background familiar, que desconhece. São argumentos ofensivos para quem se preocupa em expor as suas ideias honestamente, além de que é usar a cartilha republicana com um acriticismo que a simples ingenuidade não pode desculpar.

Publicado por: FG Santos em outubro 1, 2005 10:24 AM

Oportuna publicação.
Extraordinário que ainda haja gente que não percebe que tratamos de regimes concorrenciais e não de regimes perfeitos, que não existem. Gente que decerto aspira ao "paraíso" na terra!!!
Gente que está contente com aquilo que tem, mas não quer responsabilizar-se por isso! Em referendo, naturalmente.
Um abraço e parabéns pela iniciativa. Para esclarecimento da "campina rasa".
JSM (Interregno)

Publicado por: Interregno.Blogspot.Com em outubro 1, 2005 01:49 PM


Parece que o FG Santos se doeu por eu ter sugerido que a monarquia é sustentada por alguns dos que vivem longe dos bairros populares, em chalés burgueses e aristocráticos, longe da «canalha»...Isto não é uma ofensa pessoal, é um facto sociológico objectivo. Prefere que o silencie? Além disso, entre a extrema-direita não é consensual a «solução monárquica»: julgo que a Falange, do Primo de Rivera, com alguma implantação popular em 1933-1936 em Esanha, não advogava a monarquia porque, em regra, esta degenera numa elite de privilegiados duques, condes, viscondes, barões, etc, que exaurem as finanças públicas e «feudalizam» o país. Monarquia, para quê? O próprio Salazar evitou a «solução monárquica» dentro da ditadura do Estado Novo. Não há justificação política coerente para a monarquia se exceptuarmos a teológica («O Reinado Social de N.S. Jesus Cristo» como dizia o arcebispo francês Lefebvre). E esta última pertence à metafísica, não aos que estão atentos ao tempo presente.

Publicado por: f.limpo em outubro 1, 2005 09:58 PM

Comente




Recordar-me?