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setembro 30, 2005
95 anos de infâmia (I)
A caminho que estamos de se cumprirem 95 anos sobre a data infame do 5 de Outubro de 1910, vai este blogue publicar durante os próximos dias alguns textos alusivos ao infausto acontecimento que mergulhou o país no delírio republiano e atentou perduravelmente contra a Nação e os seus princípios.
Começamos com Alfredo Pimenta, socorrendo-nos de uma estupenda antologia de textos compilados pelo grande amigo desta Casa e seu ocasional comentador Nonas, a quem enviamos desde já um caloroso abraço.
«...Tenho por perigosas, contraproducentes, e dissolventes todas as discussões que se formularem ou se esboçarem à volta do Rei, da sua legitimidade e de seu poder. Entre a doutrina monárquica e a doutrina republicana há uma só diferença, mas essa fundamental, basilar: o poder do Rei é hereditário, o poder do Presidente é de origem electiva. Aqui, há ocasião para debates, discussões, propagandas, candidaturas. Além, não. O Presidente sai da luta dos partidos. Vai levado pelos votos de uns contra os votos de outros. O Rei não. O Rei está no poder, pela força da continuidade histórica. A família de que saiu detém uma função: a função real - superior às lutas dos homens, independente da instabilidade das opiniões. Dentro do princípio monárquico, dentro da filosofia monárquica, não sei pensar de outra maneira.» (1)
«...A Monarquia tem que se basear no princípio monárquico; não pode basear-se no princípio democrático. Por isso mesmo que, com a Monarquia o Rei está acima dos dirigidos, independente das suas vontades, fora das suas intrigas; por isso mesmo que o Rei não nos deve a função real - nem nós podemos ter a veleidade infantil de lhe exigirmos a paga de quaisquer serviços, nem ele tem que se sentir embaraçado com a gratidão que nos deva por quaisquer favores. O Rei é a Nação personificada - não pela vontade instável de uma maioria de ocasião, não pela pitoresca acção de um voto de acaso, mas sim pela influência do Passado, do que está fora de nós, longe de nós, independente de nós.» (2)
«...Há quem seja levado para a Realeza, pela inteligência esclarecida, pelas realidades passadas e presentes.
No campo da metafísica pura, das Nuvens, a inteligência ainda pode hesitar, arrastada por preconceitos ou sofismas.
No campo das realidades experimentais, encarada a vida dos Povos, dos agregados sociais - sejam naturais como a Família, sejam convencionais como as corporações - não há inteligência autónoma que não fuja horrorizada do regime electivo, e não reconheça a superioridade necessária da Realeza hereditária - da Monarquia que se transmite sem sobressaltos, consultas, agitação e subversão de valores.
Há, de facto, nos Povos, interesses permanentes e interesses transitórios, ocasionais.
O regime electivo pode defender os interesses do momento. Como há-de ele defender os interesses permanentes, os interesses eternos, se, por definição, passa constantemente, levado na crista das vagas da opinião?
Ele que passa, como há-de defender o que fica?
Ele que chegou hoje, como há-de defender o que era ontem?
Ele, que vai embora amanhã, como há-de defender o que passa para além de amanhã?
O regime electivo é o regime dos ambiciosos, dos que também querem ser. A Realeza é o regime do Dever. O Rei menos Rei sabe, desde o berço, que tem uma obrigação a cumprir: estar à frente da Nação, a conduzi-la e a defendê-la. E desde o berço que aprende esse dever sagrado. Tudo o mais que lhe ensinam é secundário, ou instrumento do essencial.
Os inimigos da Realeza falam de Acaso...
O argumento, se sincero, é imbecil.
Acaso? Pois quando é que há mais Acaso - do que nas contingências duma eleição? Pois quando é que há menos Acaso do que na lenta e sistemática preparação dum Rei?
Que cargo no mundo pode apresentar preparação tão longa, que vem desde o berço, como esse da Realeza?
A inteligência autónoma pensa tudo isto, verifica tudo isto, e conclui.» (3)
(1) «Solução Monárquica», pp. 22/23, ed. do Autor, 1915,.
(2) «Política Monárquica», p. 20, Empresa Lusitana Editora, 1920.
(3) «Palavras Insuspeitas», in «A Voz», n.º 4238, de 12.12.1938.
Publicado por FG Santos às 09:58 AM | Comentários (7)
setembro 29, 2005
Entrevista de Christian de la Mazière
Estive a rever a entrevista que é feita a Christian de la Mazière no filme em duas partes “Le Chagrin et la Pitié”, da autoria de Marcel Ophüls (filho do famoso realizador Max Ophüls).
Durante uma quinzena de minutos o ex-voluntário (aos 23 e não aos 17 anos como escrevera inicialmente neste postal) da Divisão Charlemagne das Waffen SS explica a sua evolução política e o seu comportamento durante a Ocupação. A entrevista decorre no castelo de Sigmaringen, local onde ficou instalado todo o governo de Vichy nos últimos meses da guerra (o dono recebeu ordens de Hitler para abandonar o castelo em 24 horas). O local, que este vosso servidor teve oportunidade de visitar há já quinze anos, em romagem de forte pendor (e fervor) céliniano, está recheado de história, inclusive portuguesa: a nossa Raínha D. Estefânia, esposa de D. Pedro V, chamava-se Stephanie Hohenzollern-Sigmaringen, havendo em sua homenagem uma sala no castelo denominada “Sala Portuguesa”.)
Crescendo num ambiente ferozmente anti-comunista, lendo os horrores da guerra civil espanhola nas páginas de “Gringoire” e de “L’Action Française”, de la Mazière foi incorporando na sua mente toda uma mentalidade marcadamente de direita e anti-semita (algo que era comum na França dos anos 30). O ambiente nos liceus era de grande agitação política e os confrontos entre comunistas e fascistas frequentes e violentos. Escolhendo este campo com naturalidade (“havia para nós duas ideologias que podiam mudar o mundo e o comunismo estva automaticamente fora de questão”), mais por rebelião contra o próprio conservadorismo familiar que por reflexão doutrinária, de la Mazière vem a ficar fascinado pelos cerimoniais nazis, pelas “missas” (como lhe chama) de Nuremberga.
A conclusão deste “engagement”, conclusão última e grave, foi envergar o uniforme alemão. Já em Sigmaringen, pedindo para serem recebidos pelo Marechal Pétain, ele e os seus camaradas que se preparavam para partir para a Frente Leste viram esse desejo recusado, um perfeito “désaveu” por parte do velho soldado e herói de Verdun. O que lhes deu vontade de partir o mais rapidamente possível.
Interrogado sobre o que é que sabia do tratamento que era reservado aos judeus pelos nazis, de la Mazière afirma que sabia que havia deportações e campos de concentração. Nunca imaginou o que lá se passaria nem que havia extermínio (palavras textuais); tal como havia cerca de dois milhões de prisioneiros franceses na Alemanha, também haveria prisioneiros judeus. Não suspeitava de mais nada. Quem leu o livro aqui citado ou viu “Le Chagrin et la Pitié” não pode duvidar da sinceridade de de la Mazière, que nunca tenta desculpar-se do que quer que seja e algumas afirmações que podem aligeirar o seu caso à face da cartilha politicamente correcta resultam de perguntas muito directas e não de longas tentativas de auto-justificação.
No final é-lhe perguntado se mudou, se as suas ideia políticas mudaram. Que sim, que só os imbecis é que se atêm rigidamente às mesma ideias. «Hoje tem medo das ideologias?» «(Pausa) Sim. (Nova pausa) Mesmo muito.»
Publicado por FG Santos às 12:15 AM | Comentários (4)
setembro 28, 2005
Sabra e Chatila vinte e três anos depois
Na noite de 16 de Setembro de 1982 as tropas israelitas que ocupavam militarmente parte do Líbano e milícias falangistas entraram nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila. Homens, mulheres e crianças - nenhum palestino fugiu à fúria liquidadora das tropas chefiadas por Ariel Sharon. Morreram entre 1500 e 2500 civis. Os bárbaros não se limitaram a fuzilar os refugiados, praticando toda a sorte de sádicas atrocidades, mesmo com crianças.
O criminoso de guerra Sharon é hoje primeiro-ministro de Israel. Em Dezembro de 1982 declarou a Amos Oz que estava disposto a ser "voluntário para o trabalho sujo em prol de Israel, a matar quantos Árabes seja necessário, a deportá-los, a expulsá-los e queimá-los (...) O que vocês não compreendem é que o trabalho sujo em favor do sionismo não está terminado, muito longe disso. Podem charmar-me o que quiserem, um monstro ou um assassino. Antes um Judeu-Nazi vivo que um Santo morto."
Este senhor é hoje tido como "um homem de paz" (Bush dixit) e mesmo a Bélgica, que tem legislação que permite julgar no seu território crimes contra a humanidade cometidos noutros países, já desistiu da ideia de prender Sharon caso este penetre em território do Reino.
Nota final: contava remeter os leitores com mais estômago para um site com registos fotográficos arrepiantes da "façanha" israelita mas, por obra e graça de imagine-se quem, o endereço desse site remete actualmente para um portal anódino...
Publicado por FG Santos às 06:20 PM | Comentários (1)
setembro 27, 2005
Duplo suicídio de adolescentes
Há poucas semanas o blogue "Fascismo em Rede" publicou dois textos perturbantes sobre o rock satânico e a sua nefasta influência nas mentes juvenis.
Vem agora a notícia do duplo suicídio de duas adolescentes franceses, conhecidas no seu meio como tendencialmente depressivas, mórbidas, vestindo-se de negro e consumindo música gótica em dosses massivas.
Distração dos pais, dos amigos, da sociedade. E dos políticos, que se recusam a censurar formas ditas musicais que são um apelo ao lado mais negro da existência, incluindo sugestões ao suicídio (lembram-se da editora de música alternativa "Invitation au Suicide"?), ao assassinato. Ou filmes repugnantes como os de Cronenberg que, nas palavras de um distinto crítico do Expresso, representava "o horrendo como forma de manifestação do belo" (sic).
Numa sociedade em que os valores estão invertidos, em que os maus exemplos vêm de cima (políticos e opinion makers), como é que nos podemos espantar que os mais frágeis mentalmente, que são os adolescentes, por natureza insatisfeitos e procurando um rumo e um significado para a vida, sejam amiúde as suas vítimas?
Publicado por FG Santos às 03:55 PM | Comentários (7)
setembro 26, 2005
Mourir pour des Idées
Aqui se deixa a letra da extraordinária música (de 1972) que a leitura de "Le Rêveur Casqué", de Christian de la Mazière, inspirou a Georges Brassens:
Mourir pour des Idées
Mourir pour des idées, l'idée est excellente .
Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu .
car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante,
En hurlant à la mort me sont tombés dessus .
Ils ont su me convaicre et ma muse insolente,
Abjurant ses erreurs, se rallie à leur foi
Avec un soupçon de réserve toutefois :
Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente .
Jugeant qu'il n'y a pas péril en la demeure,
Allons vers l'autre monde en flânant en chemin
Car, à forcer l'allure, il arrive qu'on meure
Pour des idées n'ayant plus cours le lendemain .
Or, s'il est une chose amère, désolante,
En rendant l'âme à Dieu c'est bien de constater
Qu'on a fait fausse rout', qu'on s'est trompé d'idée,
Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente .
Les saint jean bouche d'or qui prêchent le martyre,
Le plus souvent, d'ailleurs, s'attardent ici-bas .
Mourir pour des idées, c'est le cas de le dire,
C'est leur raison de vivre, ils ne s'en privent pas .
Dans presque tous les camps on en voit qui supplantent
Bientôt Mathusalem dans la longévité .
J'en conclus qu'ils doivent se dire, en aparté :
"Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente ."
Des idées réclamant le fameux sacrifice,
Les sectes de tout poil en offrent des séquelles,
Et la question se pose aux victimes novices :
Mourir pour des idées, c'est bien beau mais lesquelles ?
Et comme toutes sont entre elles ressemblantes,
Quand il les voit venir, avec leur gros drapeau,
Le sage, en hésitant, tourne autour du tombeau .
Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente .
Encore s'il suffisait de quelques hécatombes
Pour qu'enfin tout changeât, qu'enfin tout s'arrangeât !
Depuis tant de "grands soirs" que tant de têtes tombent,
Au paradis sur terre on y serait déjà .
Mais l'âge d'or sans cesse est remis aux calendes,
Les dieux ont toujours soif, n'en ont jamais assez,
Et c'est la mort, la mort toujours recommencé ...
Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente .
O vous, les boutefeux, ô vous les bons apôtres,
Mourez donc les premiers, nous vous cédons le pas .
Mais de grâce, morbleu ! laissez vivre les autres !
La vie est à peu près leur seul luxe ici bas ;
Car, enfin, la Camarde est assez vigilante,
Elle n'a pas besoin qu'on lui tienne la faux .
Plus de danse macabre autour des échafauds !
Mourrons pour des idées d'accord, mais de mort lente,
D'accord, mais de mort lente .
Publicado por FG Santos às 11:43 PM | Comentários (2)
Memórias de um ex-Waffen SS francês
Christian de la Mazière foi voluntário da Divisão Charlemagne das Waffen SS com vinte e três anos, numa altura em que a guerra estava totalmente perdida para o Eixo. Insensatez de adolescente? Ou seguiu de la Mazière a máxima de José Antonio Primo de Rivera segundo o qual a vida só tinha sentido se dedicada de corpo e alma a uma grande causa?
O que é certo é que esta decisão quase lhe custou a vida, primeiro na frente leste depois num tribunal francês. Agraciado e libertado no início dos anos 50, uma nova vida se abria perante o antigo jornalista do período da Ocupação.
É esta nova vida que de la Mazière descreve em um livro saído há dois anos e que se lê de um trago: “Le Rêveur Blessé” (Editions de Fallois). A epopeia na Charlemagne fora alvo de um livro-escândalo no início dos anos 70: “Le Rêveur Casqué”, que por sua vez sucedia ao escândalo que foi o depoimento prestado a Marcel Ophüls e que faz parte do filme deste “Le Chagrin et la Pitié”.
Embora já tenha lido “Le Rêveur Blessé” logo depois de ter saído, a obra ficou-me na memória. O autor conta o seu extraordinário percurso após a saída da prisão de Clairvaux: como retomou a actividade jornalística, como integrou uma produtora de filmes, como se tornou amigo de grandes nomes do cinema francês, como o grande Jean Gabin. Ou de como se tornou “attaché de presse” (e algo mais...) da cantora Juliette Gréco. Também compartilhou por uns tempos a vida de outra cantora de sucesso: Dalida, de quem foi amigo até à morte desta, por suicídio.
Seu amigo íntimo foi também o actor Robert Le Vigan, grande amigo de Céline e que de la Mazière ajudou a exilar em Espanha.
Conta também o seu amor platónico por uma jovem judia, ou a confissão sobre o seu passado que fez ao futuro rabino de França. Fá-lo com sinceridade, com a tristeza de quem lamenta a divisão da França em dois campos opostos, inconciliáveis.
Na narrativa revivemos o ambiente efusivo da França dos “trinta gloriosos” anos do pós-guerra, com as marcantes etapas da guerra (e abandono) da Argélia e do Maio de 68. A sua relação com os pais também é abordada longamente.
Após os escândalos referidos acabou-se a vida ligada ao cinema: o autor era vítima do sistema, impossível manter relações profissionais com tal personagem. Lentamente recompõe a sua vida, trabalhando para uma agência espanhola (Beta Press) dedicada a combater o marxismo na América Latina – oportunidade para conhecer a região. Vem ainda a ser o conselheiro do presidente Eyadéma, do Togo...
No último capítulo, ao melhor estilo de quem “não se esquece nem se arrepende”, presta homenagem aos seus mestres: Lucien Rebatet, antes de mais: «superbe écrivain, auteur de ce grand Livre “Les Deux Étendards” que je n’ai cessé de relire, Rebatet, le surdoué, imbattable musicologue, et qui se promenait comme chez lui dans la poésie et la philosophie». Outros gigantes para o nosso autor: Arletty, a grande actriz (amiga de Céline – como este, natural de Courbevoie), o já citado Le Vigan, Roger Nimier, Jacques Chardonne, Paul Morand, Léautaud, Anouilh, Marcel Aymé («le taciturne dont l’ouevre entière est un enchantement, le père du “Confort Intellectuel”, inégalable pamphlet, et l’auteur d’”Uranus”, livre qui a tout dit sur la Libération»). Também Brasillach, «si doué, si charmeur et gentil qu’on ne pouvait qu’aimer, dont la prose est légère et poétique, immolé à la haine imbécile», Jean Cau, Henri Coston e muitos outros. Sem esquecer Georges Brassens, autor da música “Mourir pour des Idées”, inspirada na leitura de “Le Rêveur Casqué”.
Se ainda não conhecem este relato sincero e despreconceituoso, que nos transporta para uma época já tão distante com tanta vivacidade, que não pretende desculpabilizações nem tenta impor uma visão distorcida das coisas, então não percam a oportunidade de o lerem.
Publicado por FG Santos às 11:33 PM | Comentários (16)
O dólar e o Irão
«Há uma conspiração mundial, levada a cabo por indivíduos extremamente poderosos, que nos seus níveis mais elevados são relacionados por consanguinidade, que inclui membros de topo da alta finança mundial, política e mundo empresarial, bem como das antigas famílias reais europeias (a chamada nobreza negra), especialmente a inglesa, cujo objecto é instalar um governo e uma Nova Ordem Mundial. Esta elite aprendeu ao longo de séculos a arte de manipulação de massas, que agora usa a seu bel-prazer.»
Este é o cartão de apresentação do blogue "Saber a Verdade", que só hoje conheci. Apesar de ainda não ter lido mais que quatro postais, parece-me um espaço prometedor, com um olhar atento aos subterrâneos da política e às verdadeiras motivações dos actos públicos.
E para começar, nada como uma interpretação do que pode estar por trás da eventual intervenção militar americana contra o Irão. Curiosamente, não há menção ao papel que Israel poderá estar a desempenhar neste contexto. Mesmo assim, a ler.
Publicado por FG Santos às 03:00 PM | Comentários (1)
setembro 25, 2005
D. João e a Máscara
Estranha peça, este “D. João e a Máscara” (1924), de António Patrício. O autor pega no mito criado por Tirso de Molina e dá-lhe uma aura mística, longe do libidinoso frio e conquistador.
Patrício, diplomata republicano, que impediu que um carregamento de armas, na Corunha, chegasse aos insurrectos liderados por Paiva Couceiro, era também um homem de letras de algum talento. Abraçando a estética decadentista, as suas obras são pesadas, as ambiências por vezes são de um silêncio de morte. A morte perpassa aliás por todo o “D. João”. Cansado das suas conquistas, que nunca o saciam verdadeiramente, D. João encara na morte o absoluto que nunca alcançou no leito. Narcisista impenitente, crê encontrar justificação na sua carreira de conquistador na busca do eterno representado na morte.
A escrita é algo pesada, o vocabulário, embora rico, encadeia-se em frases não muito escorreitas, obrigando o leitor a um esforço que não é claramente compensado pelo poético que se apreende melhor com a releitura.
Os diálogos com a Morte, ao contrário do resto da peça, são em verso, engenhoso mas que não chega a ser verdadeiramente cativante.
A autocomplacência decadentista acaba por exasperar um pouco, muito embora sintamos algumas passagens de génio, em que o simbolismo tem toda a sua força em analogias poéticas bem apanhadas.
Chega-se ao fim do livro com uma sensação estranha de termos lido uma obra com mérito, que não chegou a agarrar completamente o leitor, mas que o não deixou indiferente. Mesmo após fechado o volume, as ambiências pesadas, os jardins gélidos e petrificados, a Morte omnipresente, o convento onde D. João se afasta do século e se torna alvo da admiração de todos, ficam a ressoar na mente.
Publicado por FG Santos às 11:43 AM | Comentários (1)
setembro 23, 2005
Revelação: um dos maiores desastres da história do EUA

Pilhado a "tonalatonal".
Publicado por FG Santos às 05:41 PM | Comentários (0)
"Os Belenenses" fazem 86 anos
Relegado para segundo plano pelos pasquins desportivos e pelas televisões, como n-3 dos clubes deste país, o Clube de Futebol "Os Belenenses" tem uma história rica de triunfos e serviços ao desporto português.
Destacam-se um campeonato nacional, três campeonatos de Portugal (prova antecessora daquela) e três taças de Portugal - isto no futebol, pois, além desta modalidade, foi também campeão nacional de andebol, basquetebol e râguebi, feito que compartilha com apenas mais um emblema: o Benfica.
Por todos estes motivos continua a ser o 4º grande clube português. Infelizmente dois factos contribuiram para alguma decadência: a perda do campeonato nacional de futebol de 1954, a dois minutos do fim do último encontro, é um trauma que parece pesar ainda hoje no subconsciente azul; e a marcha forçada das Salésias, em favor de um projecto imobiliário que se não concretizou, obrigando o clube a fazer um estádio novo de raíz, ainda por cima numa pedreira (para o ano comemora-se o cinquentenário do Estádio do Restelo).
Pelo seu rico passado, pelo seu ecletismo nunca renegado, pelas magníficas infraestruturas de que dispõe (e todas no mesmo local, não se perdendo a ligação de proximidade entre o clube e os adeptos), pela aposta ambiciosa numa equipa de futebol de grande categoria, "Os Belenenses" têm todos os motivos para estarem orgulhosos e confiantes no futuro.
Publicado por FG Santos às 04:44 PM | Comentários (2)
A barbárie de Estado na China
Comércio de órgãos de vítimas de execuções, camiões para execuções, abortos forçados (até em mulheres no 9º mês de gravidez) - estes exemplos são apenas uma amostra da barbárie oficial que reina na China comunista, referidos em artigo do "Prison Planet".
Poder-se-ia acrescentar o trabalho forçado, tanto de prisioneiros como de crianças; as deslocações forçadas de populações sempre que há algum empreendimento que as impõe; as relações laborais baseadas na submissão total; o genocídio de minorias e o genocídio cultural (opressão de qualquer manifestação cultural ou religiosa de uma minoria); a censura demencial, inclusive na internet (com a colaboração da Yahoo, Microsoft, etc.); a obrigatoriedade de inscrição no PCC para se poder singrar na carreira.
Tudo coisas que se passam na nação que tem estatuto de país mais favorecido na Organização Mundial de Comércio.
Publicado por FG Santos às 03:57 PM | Comentários (0)
Roubar
Fátima Felgueiras, Isaltino de Morais, Ferreira Torres e Valentim Loureiro são nomes conhecidos de autarcas a braços com a justiça - sinónimos de promiscuidade entre o poder local ("conquista de Abril") e o poder económico, nomedamente dos poderosos construtores civis, que têm sempre porta aberta nas câmaras.
São eles o rosto visível de um mal profundo da classe política que temos, que já mal disfarça a rapina do Tesouro por "representantes do povo" ávidos de benesses e de ética inversamente proporcional à ambição desregrada.
Os autarcas citados são incómodos para a classe política não por o que fizeram mas por o terem feito com menos discrição do que seria suposto, caindo nas garras da justiça. Têm obra feita, sendo populares por isso mesmo. Só lhes falta dizer, como o político brasileiro Ademar de Barros: "Eu roubo - mas faço!"
Os outros, os que não foram (ainda) apanhados em flagrante, olham-nos de soslaio - desmancha prazeres! Ao menos podiam sair de cena para não lançarem o opróbrio da (fraca) contestação popular sobre toda a classe.
Publicado por FG Santos às 11:35 AM | Comentários (0)
setembro 22, 2005
Ocultar a etnia
«A Comissão Nacional de Protecção de Dados proíbe que a etnia dos menores [candidatos à adopção] seja divulgada, como garantia de não discriminação.» Não discriminação, porquê? Quem é que se pretende enganar? Os pais? A população em geral?
Em França, cúmulo do jacobinismo casado com politicamente correcto, é proibido fazer menção à etnia dos criminosos, o que além de dificultar o trabalho da polícia, impede que se façam estudos rigorosos sobre o fenómeno criminal, como por exemplo existem nos EUA.
A discriminação que vence sempre é a ocultação da realidade, com intuitos de promoção multicultural.
Publicado por FG Santos às 12:23 PM | Comentários (0)
setembro 21, 2005
A grande vaga homossexual
«Depois de qualquer guerra, depois de qualquer revolução, tal como depois de uma fome ou de uma epidemia, sabe-se que os costumes decaem. Nos jovens, a corrupção dos costumes é tanto um facto moral quanto fisiológico e confina facilmente com a anormalidade. O seu aspecto mais frequente é a homossexualidade (...)
Desta vez, contudo, a corrupção dos costumes na juventude europeia tinha precedido e não seguido a guerra, fora um anúncio, uma premissa da guerra, quase uma preparação para a tragédia da Europa, não uma consequência desta. Já muito antes dos dolorosos acontecimentos de 1939, parecera que a juventude europeia obedecia a uma palavra de ordem, era vítima de um plano, de um programa há muito preparado e dirigido com frio cálculo por um espírito cínico. Poder-se-ia dizer que existia um Plano Quinquenal da homossexualidade para corrupção da juventude europeia. Certo ar equívoco nos modos, nas atitudes, nos ditos, no tom das amizades, na promiscuidade social entre jovens burgueses e jovens operários, certo conluio entre a corrupção burguesa e a corrupção proletária, eram fenómenos já dolorosamente notados muito antes da guerra, especialmente na Itália – onde em certos círculos de jovens intelectuais e artistas, principalmente pintores e poetas, se fazia pederastia e se supunha estar a fazer comunismo – e já denunciados à opinião pública por observadores, por estudiosos, e até por políticos geralmente desatentos aos factos alheios à vida política.
O que acima de tudo me surpreendia era o facto de tal corrupção dos costumes juvenis, tanto na classe burguesa, como na classe proletária (...) se verificar com o pretexto do comunismo, como se a inversão sexual, mesmo não consumada, mas só mimada, representada, fosse uma iniciativa indispensável às ideias comunistas. E já várias vezes perguntara a mim mesmo – pois a questão parecia-me de fundamental importância – se isso sucedia espontaneamente, por íntima corrupção moral e fisiológica, como reacção aos costumes, aos modos, aos preconceitos, aos moribundos ideais burgueses, ou se em consequência de uma subtil, cínica e perversa propaganda comandada de longe e apostada em dissolver o tecido social europeu, na previsão do que os espíritos fracos do nosso tempo saúdam como a grande revolução da idade moderna. (...)
Os invertidos disseminados pela Europa inteira, e naturalmente também na Alemanha e na URSS, haviam demonstrado ser elementos preciosíssimos para os serviços de informação ingleses e americanos, tendo realizado, desde o início da guerra, um trabalho político e militar especialmente delicado e perigoso. Os invertidos, como se sabe, constituem uma espécie de confraria internacional, uma sociedade secreta governada pelas leis de uma amizade terna e profunda, que não está à mercê das fraquezas e da proverbial inconstância do sexo. (...)»
Curzio Malaparte, "A Pele" (cap. V), Edição Livros do Brasil, Lisboa (tradução de Alexandre O'Neill).
Publicado por FG Santos às 08:59 AM | Comentários (6)
setembro 20, 2005
Fim dos bochimanes?
Lembram-se do filme "Os deuses devem estar loucos", que mostrava o confronto entre o estilo de vida urbano numa megalópole sul-africana e a vida na tribo dos bochimanes? A película começava com uma garrafa de Coca-Cola a acertar na cabeça de um pacato bochimane...
Pois a tribo em causa, que habita no deserto do Kalahari, está em riscos de desaparecer ou, pelo menos, de se diluir na população do Botswana, dado o projecto de expulsão que o governo quer levar por diante.
O motivo é puramente económico: se as autoridades admitem que têm custos incomportáveis para assegurar alguns serviços públicos, a verdadeira razão prende-se com a descoberta de diamantes na zona. Refira-se que vários membros do executivo pertencem à Administração da empresa mineira (estatal) Debswana.
Aqui, como em todo o lado, o rei-dinheiro é que manda e a ele se têm que sujeitar os modos de vida das populações.
Publicado por FG Santos às 03:17 PM | Comentários (2)
Alianças
Uma sondagem online no Die Welt dá os seguintes resultados para as preferências de coligação por parte dos leitores deste jornal próximo da CDU:
13.6 % CDU/SPD
17.2 % SPD/FDP/Verdes
11.6 % SPD/PDS/Verdes
52.6 % CDU/FDP/Verdes
5.0 % Outra coligação
Os conservadores preferem uma aliança que inclua os filhos de Maio de 68 transmutados em defensores do ambiente!
Publicado por FG Santos às 12:45 PM | Comentários (0)
setembro 18, 2005
A manifestação
A manifestação que ontem decorreu em Lisboa, visando contestar a influência crescente do lobby gay na sociedade e na política, bem como condenar a pedofilia, gerou várias perplexidades.
Antes de mais, pode-se falar em sucesso da iniciativa? Por um lado, sim: teve algum destaque noticioso e deu a conhecer mais uma vez a acção do PNR; mas se pensarmos no número de participantes, que não terá excedido os 200, a coisa foi um relativo fracasso, pois estivemos na presença de três vezes menos pessoas que há três meses no Rossio.
Tal como alertámos na altura, a euforia não é boa conselheira: tende a toldar o discernimento, leva a crer em ondas imparáveis. A manifestação de ontem representou o regresso à realidade: o meio nacionalista, se crescer, fá-lo-á muito lentamente.
Também causa perplexidade a orientação política do PNR: a tentativa de abarcar todas as tendências nacionais num só movimento está a ser, quanto a mim, contraproducente: tenta-se juntar pessoas que passam a vida a insultar-se na internet, por motivos ideológicos ou mesmo pessoais, numa luta fratricida que fará sorrir os que são hostis a qualquer ideologia nacionalista. A aceitação tácita do apoio da Frente Nacional está a afugentar muito boa gente que não se quer misturar com “extremistas” e skinheads, seja o que for que esta imagem tem de verdadeiro.
A imagem, na SIC, de um manifestante com uma cruz suástica ao peito e um emblema do PNR na lapela, deve ter levado à loucura a esquerda, mostrando a amálgama que ela bem gosta de fazer.
Se o PNR quer o apoio de franjas da sociedade como as citadas, deve ao menos doutriná-las, dar-lhes um enquadramento teórico do nacionalismo, deve organizar workshops de ideologia, acção política, história de Portugal, filosofia política – hipóteses não faltam. Assentar a estratégia no “barulho” das manifestações, nas frases feitas, nos slogans mais ou menos ocos é ganhar algum tempo de antena no presente mas desperdiçar uma conjuntura que, em teoria, poderia ser favorável ao crescimento do nacionalismo em Portugal.
Publicado por FG Santos às 08:00 PM | Comentários (13)
setembro 16, 2005
Obra
O discurso dos candidatos às câmaras municipais, por muitas voltas que dê, desemboca sempre no mesmo: fazer obra, deixar obra. É uma obsessão, a cavalo na mágica palavra "progresso": fazer, criar, erigir, construir, desenvolver, crescer, CRESCER, CRESCER.
Autarca que não deixe "obra" é um fracasso, entendendo-se obra no sentido acima exposto, ou seja: obra = obras.
As nossas sociedades assentes no mito do progresso infinito (é preciso crescer x% neste ano, y% no próximo) levam a uma febre construtiva que delapida o património natural, inferniza a vida nas cidades, descaracteriza as mesmas, opondo o futuro ao passado: não construir é morrer, é estar parado no tempo, é o oposto de desenvolvimento, é menor nível de vida, de bem-estar.
Os políticos, neste afã desenvolvimentista, nem param para pensar que o nível de vida das populações, que o seu grau de satisfação com a vida não tem necessariamente que estar associado ao dinheiro, à riqueza, ao milagres da multiplicação dos euros. De passagem por Bruxelas, em missão de recolha de esmolas, abeiram-se dos comissários europeus, perguntando ansiosamente: «isso que levais no regaço, caro cidadão decisor, que é?» Ao que este, com sobranceria, responde: «são euros, senhor».
A marcha para o abismo, a que a crença no progresso infinito conduz, não preocupa as excelências legisladoras. Preocupados com um horizonte máximo coincidente com a legislatura, quem é que pode dispersar energias a pensar nas gerações futuras? «No longo prazo estamos todos mortos», dizia Keynes...
Em torno do conceito de desenvolvimento vigente, gera-se um consenso entre eleitores e eleitos: estes investem, fazem obra, dão subsídios, incentivam o crescimento; aqueles medem a sua realização pessoal pela quantidade de vil metal (quem é que ainda usa esta expressão?) que conseguem arrecadar nas suas actividades diárias (lícitas e/ou ilícitas).
Quando um político inaugura um novo espaço comercial está a abraçar o ideal de vida do seu povo. De onde se vê que o divórcio entre população e classe política é mais superficial que de fundo. O ideal de sociedade é o mesmo, só que uns safam-se melhor que outros, sendo mais invejados que propriamente detestados.
Publicado por FG Santos às 06:19 PM | Comentários (4)
setembro 15, 2005
Pesquisa de blogues
Para quem, como eu, se queixa da lentidão do Technorati, há agora uma alternativa para quem quer fazer pesquisas de blogues ou, muito simplesmente, apanhar referências ao seu próprio blogue: o Google Blog Search. Já lá fui e pude verificar a rapidez da ferramenta.
Não esquecer, entretanto, que os senhores da Google são pioneiros da censura na internet, excluindo certos sites dos resultados das pesquisas.
Publicado por FG Santos às 03:04 PM | Comentários (4)
setembro 14, 2005
A linda obra da esquerda americana
A tragédia que se abateu sobre Nova Orleães foi mais uma ocasião para a habitual litania sobre as desigualdades raciais nos EUA, ou seja sobre o alegado racismo de que os negros são vítimas.
Não ocorreu a esses insignes comentadores que muitas outras raças vivem nos EUA, tendo uma boa parte delas melhores condições de vida que os chamados afro-americanos.
E porque será, se se não trata de racismo por parte dos brancos?
Tendo em conta que discutir as capacidades inatas das raças é um tabú, não deixa de ser politicamente incorrecta e pertinente a hipótese de que os negros foram vítimas dos brancos de esquerda, que terão «encorajado entre os negros os piores instintos na natureza humana, imprimindo-os na legislação».
Dado que para esses brilhantes ideólogos a violência quando cometida por "vítimas" de discriminação e de pobreza era compreensível, os negros eram quase absolvidos dos crimes que cometiam.
Outra consequência foi o estímulo à preguiça, dado que boa parte dos negros passou a viver à conta da Segurança Social. E, não menos importante, o aumento da natalidade negra, criando-se gerações de jovens que nunca viram os pais trabalhar e que se dedicaram a pequenos (ou grandes) crimes.
Estarei, assim, a citar um texto de algum membro ilustre do KKK? Felizmente, hoje em dia é cada vez mais difícil ocultarem-se as consequências do experimentalismo social dos ideólogos de esquerda, que, das universidades de além Atlântico às ruas de Paris e Roma, semearam as mentes e influenciaram as políticas com a sua nefasta visão do mundo.
Isto para dizer que os extractos acima provêm de um artigo de opinião de John McWhorter que se pode ler no "Times Online".
(Via "A Arte da Fuga".)
Publicado por FG Santos às 05:22 PM | Comentários (8)
setembro 13, 2005
De tanto bater o meu coração parou

É o título do filme que vi no passado fim de semana, obra de Jacques Audiard.
Devo dizer que o cinema francês, desde que se libertou da "Nouvelle Vague" (que de "nouvelle" já há muito que só tinha o nome), só tem ganho em interesse e qualidade. A nova geração de cineastas conta histórias e conta-as bem, sem intelectualices bacocas mas também, regra geral, sem concessões à vulgaridade.
"De tanto bater o meu coração parou" é um desses filmes. Seguimos o jovem Tom (magnífico Romain Duris - já o víramos no divertido "O Albergue Espanhol") nas suas actividades imobiliárias (seguindo as pisadas do pai) mais ou menos ilícitas (espalhar ratos em prédios para os desvalorizar e poder comprar mais barato) ou simplesmente cruas (expulsar imigrantes ilegais que se instalam em casa alheia). A realização é nervosa, com movimentos bruscos, acompanhando a actividade febril do jovem. (Felizmente) não há lições de moral sobre os pobrezinhos dos ilegais que não têm onde estanciar para a noite - mostra-se simplesmente a crueza do dia a dia.
Um dia o nosso herói redescobre a música que tinha abandonado anos antes: a magia do piano, uma tocata de Bach, uma peça de Debussy... Um ex-agente da mãe (que fora pianista) incentiva-o a retomar o estudo do instrumento, para o qual parecia particularmente dotado.
Entramos então numa espiral de acontecimentos frenéticos ligados à sua actividade imobiliária, que vai desprezando cada vez mais em prol do piano.
Especulação, ameaças, violência, mafia russa, comunicação pela música (a professora de piano é chinesa e mal arranha o Francês), enamoramento, sexo - e música, muita música, numa pesquisa de um sentido mais harmonioso e enriquecedor para a vida. Numa Paris nocturna, crua, o oposto da cidade das luzes.
A não perder.
(Em exibição em Lisboa e Porto.)
Publicado por FG Santos às 05:16 PM | Comentários (0)
Os amanhãs que correm... para a morte
Vão finalmente ser indemnizados os ex-atletas "contemplados" no programa sistemático de dopagem levado a cabo na ex-RDA.
Com o objectivo de arrecadar medalhas e prestígio internacional para o regime comunista, as autoridades de Berlim-Leste desenvolveram um esquema científico de dopagem de atletas, alguns desde tenra idade.
As consequências para a saúde destes foram terríveis. Alguns morreram prematuramente.
Publicado por FG Santos às 05:02 PM | Comentários (1)
setembro 12, 2005
Sobre a educação sexual
Em postal de hoje, o blogue “Combustões” dá-nos a sua perspectiva do papel que a educação sexual pode e deve ter na formação das pessoas e na sua responsabilização na assunção de uma sexualidade consciente.
O autor proclama que ao Estado compete promover (fala-se mesmo em “inculcar”!) a educação sexual, libertando-se os jovens das limitações à sua felicidade que o puritanismo terá instituído.
Esta argumentação parece-me ser algo ingénua, que me desculpe o Miguel. À boa maneira republicana, assume-se que a educação forma os homens de amanhã, que os liberta das grilhetas do passado, que permite a todos uma formação integral como pessoa. É crer demasiado no homem enquanto ser racional e "educável". Esquece que a educação começa em casa, que a família é a base da formação do indivíduo e, em última análise, o último reduto de liberdade do homem face a um mundo potencialmente totalitário e nivelador - das consciências e dos comportamentos.
A educação que o Miguel crê libertar o homem é hoje em dia, como o era nos regimes comunistas, uma forma não de formar os homens mas de os formatar: o pensamento único está a ser instituído, reage-se pavlovianamente aos estímulos da propaganda (como nos “cinco minutos de ódio” orwellianos), fala-se em paixão pela educação quando o objectivo de quem o faz é aprisionar o ser humano numa redoma de ideias aceitáveis e incapacitá-lo a ir contra a corrente.
O que a educação sexual faz regra geral é levar aos jovens informação que eles, enquanto seres em crescimento, ainda não estão preparados para compreender na sua integralidade, provocando regra geral comportamentos e pulsões descontrolados, criando a confusão no seu espírito quanto a afectos e ao acto sexual, tornando-os escravos da pornografia e criando conflitos com a/o parceiro.
Um jovem que não sofra estímulos prematuros, seja da educação seja dos meios de comunicação, filmes, etc., estará apto a viver a sua vida sexual a seu tempo, quando as circunstâncias da vida o proporcionarem, quase sem que ele se aperceba. É essa liberdade que ele merece.
Publicado por FG Santos às 06:57 PM | Comentários (8)
setembro 10, 2005
Notas de uma viagem a Berlim (II)
Com o pouco tempo disponível, o meu “Spaziergang” centrou-se na Unter den Linden, partindo da Catedral (que fica no lado oriental) e indo até à Porta de Brandenburgo. Nestas centenas de metros os pontos de interesse são infindáveis: além da já citada catedral, com cúpulas bastante largas, temos a famosa Humboldt Universität; do outro lado da avenida o largo onde os nazis fizeram o auto-de-fé livresco anti-judaico e anti-comunista; junto à universidade temos o monumento ao Soldado Desconhecido, com uma estátua que se assemelha a uma Pietà; trata-se de uma réplica, omitindo-se na descrição se a original foi destruída pelos bombardeamentos aliados ou se foi surripiada pelo Exército Vermelho.
(Por falar em surripiar, num museu por perto exibem-se obras confiscadas pelos nazis aos judeus.)
Mais à frente, do outro lado da avenida (e ontem à tarde – factor importante – era onde se podia estar à sombra), a Embaixada da Federação Russa, propriedade descomunal que foi também a “Botschaft” da URSS (e certamente local de “aconselhamento” do camarada Erich e seus compinchas). Ainda desse lado da Unter den Linden, já bem perto da Brandenburger Tor, o belo Hotel Adlon; entramos agora na Pariser Platz, onde fica a Embaixada Francesa.
Chegamos enfim à Porta de Brandenburgo. Erigida nos inícios do séc. XVIII, era uma das catorze portas que existiam em volta da cidade e onde se cobravam as taxas aos produtos que aí se iam comerciar. Foi a única que sobreviveu e foi sendo engrandecida e embelezada, até se tornar na jóia arquitectónica que é hoje. Impressiona passear por este local onde ainda há dezasseis anos existia o Muro da Vergonha. Já do lado ocidental uma homenagem a algumas da vítimas da fuga para a liberdade, ignobilmente mortas a tiro pelos soldados da DDR. Mas uma homenagem modesta, não oficial. (Impressiona ver como os alemães fizeram tão grande contrição pelos seus actos da II Guerra, omitindo os massacres que os aliados lhes infligiram, ao mesmo tempo que a catarse do comunismo continua por fazer. Ainda temos perto da Ponte Liebknecht (!) as estátuas de Marx e Engels e manteve-se o nome da Karl Marx Allee, entre certamente muitos outros atentados toponímicos em que não pude reparar. E enquanto se continuam a erigir monumentos aos judeus vítimas do nazismo, as vítimas do comunismo são esquecidas.) Do lado direito da Porta (no sentido em que fui) temos o Reichstag (que ficou do lado ocidental), no topo do qual se construiu recentemente uma cúpula envidraçada, que proporciona uma vista certamente interessante sobre as redondezas e que explica a fila extensa de turistas que querem aceder ao antigo parlamento. Ao lado, numa construção completamente nova, o novo parlamento (sim, que Bona já deixou de ser a sede do poder político e da administração). A área em que está inserido é aprazível, aberta, verde, arejada. Simboliza, parafraseando a candidata Merkel, um novo começo para a Alemanha. Mas que, como vimos, está toldado pela excessiva contrição pelo que se passou há 60 anos e pela quase inexistente relativamente a um regime não menos opressivo, que ainda por cima dividiu um povo ao meio.
Tempo ainda para dar um pulo à Alexanderplatz (novamente do lado oriental) e ver de perto a impressionante Torre da Televisão. Na mesma praça a bela Marienkirche, local de culto católico.
Banhada pelo rio Spree, Berlim tem diversos canais bordejados por extensas alamedas de árvores. As construções em altura não são muitas mas do lado oriental, apesar de algumas obras novas, abundam ainda os horrorosos prédios destinados ao “homem novo”. O prémio da fealdade vai para o antigo parlamento da DDR, com as suas fachadas envidraçadas de um mau gosto e cinzentismo bem simbólicos. Está de resto a ser desmantelado mas “langsam”, que o local parece estar pejado de amianto.
Uma palavra ainda para a moda recente de comércio de produtos e objectos do tempo da “outra senhora”, que os alemães genialmente baptizaram Ostalgie (Ost = leste). Vi à venda chapéus, com a estrela vermelha, tanto do Exército como da polícia (Volkspolizei), livros, discos, objectos diversos. No parque adjacente, as estátuas de Marx e Engels permanecem como que atentas e expectantes em relação à evolução da nova Alemanha.
Para concluir, de referir a pobreza (em quantidade) das lojas tanto no aeroporto de Berlim como de Munique (onde fiz escala), este último mesmo assim melhor equipado. Para quem não teve tempo de ir à Kurfürstendamm (a Regent Street ou Rua Augusta ou Rua de Santa Catarina lá do sítio), desesperei por nem no aeroporto poder prover-me de alguns exemplares das extraordinárias edições de música clássica que os alemães promovem. “Schade”!
Publicado por FG Santos às 11:15 PM | Comentários (1)
Notas de uma viagem a Berlim (I)
Para uma viagem de trabalho que, entre o momento em que descolei de Lisboa e o momento em que aterrei novamente na nossa capital, medearam 32 horas, não se pode esperar que possa ter visto muito de Berlim e que traga muito para contar. Ainda assim, deixo-vos aqui umas impressões de viagem.
Lufthansa: a companhia aérea alemã mostra competência e organização. As aeromoças são educadas e prestáveis; já a simpatia oscila entre um sorriso amável e umas “trombas” de todo o tamanho. Os pilotos, nas aterragens, comportam-se como cowboys num rodeo: em vez de aproveitarem a pista toda para aterrar com suavidade, travam logo à bruta e assim que podem viram logo em direcção ao local de paragem. Inaudito.
Em Berlim estava um calor monstro: máxima de 32 graus. Até deu para jantar ao ar livre até à meia-noite e meia (hora local) – num óptimo restaurante turco (as empregadas de mesa eram alemãs).
Taxistas turcos também não faltam, mais a música da sua terra natal. Um deles passava por um condutor português, enfim sem desprimor para nós – era mais tipo italiano!
Com as legislativas agendadas para dia 18, os cartazes com propaganda eleitoral enxameiam a cidade: Schröder, com ar de poucos amigos, fala em coragem e atitude; Merkel, num novo começo; o FDP promete baixar os impostos, ao passo que o sinistro PDS (herdeiro do SED) assume-se como “a esquerda”. Já o NPD reclama “Arbeit für die Deutsche”, o que dispensa tradução, tendo também cartazes com Erich Hoenecker a saudar a multidão e com a legenda “Alles vergessen?” (“Já se esqueceram?”). Diga-se que só vi cartazes deste partido em ruas secundárias. Os Verdes não investiram muito nos “outdoors”, limitando-se a pespegar com a “fronha” do sr. Fischer.
Putin esteve por lá no dia 8, tendo-se anunciado a construção de um gasoduto da Sibéria até à Alemanha, via Báltico. A viagem estava agendada para Outubro; interrogado sobre se, com esta antecipação, tinha vindo dar um impulso à campanha do seu “camarada” Gerhard, Putin disse que não – um esclarecimento que me deixou mais sossegado.
Berlim impressiona pelo tráfego relativamente fraco, tendo em conta a dimensão e a importância da cidade: a excelente rede de transportes (nunca esperei mais de um minuto tanto no U como no S Bahn) deve ser a grande responsável. Plana, a cidade também convida ao uso da bicicleta.
Berlim é sem dúvida umas das capitais europeias com menor número de negros; vêem-se efectivamente muito poucos, topando-se mais frequentemente com turcos. Ainda apanhei com uma manifestação (termo descabido, pois não vi mais de dez pessoas!) contra a expulsão de imigrantes ilegais camaroneses.
As mulheres berlinenses são amiúde vistosas; com mais uns dias em Berlim ainda me arriscava a um torcicolo!
Publicado por FG Santos às 11:12 PM | Comentários (0)
setembro 08, 2005
Nach Berlin
Caros leitores,
Dado que dentro de poucas horas irei em trabalho para Berlim, de onde regressarei amanhã à noite, só prevejo actualizar o blogue no sábado.
Até lá, passem bem.
Tchüss.
Publicado por FG Santos às 09:25 AM | Comentários (4)
setembro 07, 2005
Nova Orleães: inacção deliberada
O Vice-Ministro do Tesouro da administração Reagan, Paul Craig Roberts, afirma que a estranhíssima demora das autoridades em responder à crise provocada pelo furacão Katrina foi deliberada, de modo a criar caos e anarquia, permitindo ao governo fazer uma demonstração de força com os militares, justificando mais uma vez o que se assemelha à instituição de um estado policial.
Roberts não deixa de criticar o Patriot Act e a limitação de liberdades civis que representa, bem como a aparentemente imparável tendência de limitação das competências locais em favor do centralismo de Washington.
A ler.
Publicado por FG Santos às 06:29 PM | Comentários (3)
setembro 06, 2005
A primeira sinfonia de... Mendo
O postal anterior, sobre a longa gestação da Primeira Sinfonia de Brahms, foi inspirado pelas pressões a que tem sido sujeito o nosso amigo e amável leitor Mendo Ramires para que inaugure o seu blogue.
Conhecido na blogosfera nacional pelos seus comentários reveladores de bom sentido de observação e grande cultura, Mendo "teima" em não abrir um blogue, pese os incentivos nesse sentido.
Embora faça parte dos que anseiam por tal momento blogosférico, não concordo que ele seja pressionado. De certeza que quando achar conveniente o Mendo nos presenteará com um óptimo espaço de reflexão "às direitas". Até lá aguardemos pacientemente - como fizeram os admiradores de Brahms.
Publicado por FG Santos às 03:58 PM | Comentários (1)
As sinfonias de Brahms

Em 1876, Johannes Brahms (1833-1897), já com 43 anos, terminava a sua primeira sinfonia. Brahms demorou a compô-la por receio da sombra que as sinfonias de Beethoven faziam pairar sobre qualquer compositor que decidisse escrever uma sinfonia. O que é certo é que, pese a influência do mestre de Bona, a 1ª, como as três que se lhe seguiram, tem os seus próprios méritos e revela um extraordinário talento de compositor.
O severo crítico vienense Hanslick (que demolia sistematicamente as geniais criações brucknerianas), disse que nunca uma obra tinha sido tão aguardada como a Primeira Sinfonia de Brahms. Admirado pelas suas obras para piano solo, pelas suas composições de câmara e pelo seu Primeiro Concerto para Piano (o segundo foi terminado em 1881), o mundo musical esperava ansiosamente a estreia da primeira sinfonia.
Pese algumas comparações com Beethoven, a obra teve um sucesso extraordinário. Sucesso que também premiou as sinfonias seguintes: a 2ª, a meu ver mais acessível aos iniciados; a melancólica e belíssima 3ª (quem é que nunca ouviu o terceiro andamento?); e a dramática 4ª, conclusão apoteótica de uma vida musical notável. A ovação que se seguiu à execução desta obra deve ter comovido Brahms: o concerto ocorreu um mês antes de o compositor falecer, de cancro. No Elba, os barcos tocaram as sereias melancolicamente, homenageando o filho de Hamburgo.
Publicado por FG Santos às 03:50 PM | Comentários (2)
setembro 05, 2005
O Regresso dos Mortos-Vivos
Não sou apreciador de filmes de terror mas aproveito o cenário de terror em que se tornou a política portuguesa para me apropriar do título de uma dessas películas.
E quem são esses regressados do túmulo? Josef Stalin, personificado pela n-ésima versão da cassete: o inefável Jerónimo; Léon Trostski, grande amante das liberdades, comandante do Exército Vermelho, carrasco de Kronstadt e aquele que se vangloriava de "ter acabado (sic) com os anarquistas": na pele do seu admirador luso Anacleto; e Soares, as himself: oportunista, despido de princípios e pruridos; amante do poder e das benesses associadas; arauto da descolonização vergonhosa; péssimo primeiro-ministro; presidente-bis conciliador com o cavaquismo inicialmente, demolidor no segundo mandato, exercendo uma forma muito peculiar de magistério para todos os portugueses, oferecendo ao país dois governos do inenarrável Guterres.
E Cavaco? O homem que entregou de bandeja o que ainda se podia defender de soberania nacional; que destruiu as pescas e a agricultura; que concedeu escandalosos aumentos e prebendas aos funcionários públicos com o único fito de assegurar as suas reeleições; que chegou ao cúmulo de acertar a hora portuguesa pela da Europa Central (mais exactamente pela hora de Bruxelas e das principais bolsas europeias), produzindo o fantástico efeito de ser dia depois das 22 horas ou de amanhecer pelas 9; que teve a oportunidade única e irrepetível de, dado o afluxo de dinheiro europeu, promover as mudanças estruturais de que a economia e o Estado ainda hoje continuam fortemente necessitados; que foi conivente, quanto mais não seja por inércia, com a construção de uma monstruosa máquina de corrupção, envolvendo Administração Central, autarcas, construtores civis, advogados, empresários (nacionais e estrangeiros), "estimulados" pela liberalidade na aplicação dos fundos estruturais; promotor de imigração desregrada, abusando do dumping social inerente para embaratecer as obras públicas (que mesmo assim acusavam sempre desvios escandalosos).
Podia estar aqui a listar outros feitos deste quilate obra dos candidatos à Presidência com hipóteses de vitória. Mas o meu desprezo não me permite continuar.
Publicado por FG Santos às 06:30 PM | Comentários (9)
Novo blogue
De vez em quando surgem boas surpresas na blogosfera. Acabadinho de surgir, o "Euro-Ultramarino" parece uma delas; em apenas três postais a crítica feroz às taras modernas surge demolidora. Democracia e Soares são tratados sem piedade. E não falta uma evocação de Garcia Moreno, o presidente equatoriano assassinado pela maçonaria.
Publicado por FG Santos às 04:36 PM | Comentários (0)
Admiração por Cunhal
O amigo Sarto alerta-nos para a triste figura que fez Carmona Rodrigues, de visita à Festa do Avante, declarando que Álvaro Cunhal «foi uma referência que sempre admirei, pela sua postura, pela sua forma de estar na vida».
Este é mais um exemplo de como a "direita curva" está disposta a todos os travestimentos políticos para angariar votos e ganhar respeitabilidade junto da esquerda. Calcorreando a Estrada de Damasco do Politicamente Correcto, os políticos do extremo-centro mostram perante o olhar céptico e altaneiro dos "papas" da esquerda que viram a luz dos "grandes princípios", que a luta pelos ideias de esquerda é sempre de elogiar, que a coerência e determinação de quem os trava devem ser alvo da nossa admiração. Nem uma palavra sobre as conivências com regimes contra-natura e genocidários, nem uma palavra sobre os fundos recebidos directamente de uma potência estrangeira, nem sobre a entrega de documentos confidenciais à mesma.
O que mostram, despudoradamente, é que o único princípio por que norteiam a sua acção é o desejo de serem eleitos. Abdicaram completamente de combater a ditadura cultural de esquerda, renderam-se - mas não desistem da luta pelo poleiro. Se calhar com tanta determinação e coerência como o Dr. Cunhal lutou pelos seus "ideais".
Publicado por FG Santos às 12:06 PM | Comentários (1)
setembro 04, 2005
Pedantismo intelectualóide
Hoje, ao reler algumas páginas de “Notre Avant Guerre”, de Brasillach, topei com um episódio curioso: relatava o autor de “La Conquérante” como conhecera um casal: porque eram eles quem, além de Robert, ria enquanto decorria uma peça de teatro; o resto da sala assistia impávido ao decorrer da mesma.
Há uns anos atrás outro casal, eu e a minha futura mulher, estivemos uma semana em Paris em casa de uma pessoa amiga. Certa noite fomos a um pequeno cinema no Quartier Latin, pois exibia-se o excelente “Sorrisos de uma Noite de Verão”, de Bergman (filme anterior às psiquiatrices dos anos 60 e 70). O filme é divertidíssimo, com um humor muito apurado e com soberbos actores. Pois na bendita sala éramos apenas nós os três, mais um casal francês que o fazia muito discretamente, a rir com a hilariante película. O resto da sala conseguiu assistir a todo o filme sem um riso que fosse.
A falta de humor dos pseudo-intelectuais (sobretudo de esquerda), misturada com um pedantismo de quem está a assistir a um filme fundamental da história do cinema, leva a esta postura caricata da assistência.
Algo que também testemunhei há uns anos na Cinemateca. Exibia-se o óptimo filme de piratas “Captain Blood”, de Michael Curtis, com Errol Flynn. Em toda a sala (cheia) só eu e mais dois amigos nos ríamos a bandeiras despregadas com as cenas mais divertidas da película. E até notávamos rumores de desaprovação algures na sala. Estávamos certamente a desconcentrar os cinéfilos, que perderam o fio à meada dos planos sequência, do campo-contracampo, dos plongés...
Publicado por FG Santos às 08:30 AM | Comentários (5)
setembro 02, 2005
Expropriação dos agricultores brancos na Namíbia
Começou a anunciada expropriação de terras pertencentes a agricultores brancos na Namíbia. O objectivo do governo é redistribuir as terras assim obtidas por cerca de 200.000 agricultores negros.
Ao contrário do que sucedeu no Zimbabwe, Windhoek oferece determinado montante pela expropriação, em vez de se servir de supostos "veteranos" da independência (alguns deles mais novos que a própria independência) para expulsar (eventualmente matando) os brancos das terras que lhes pertencem.
No entanto, há várias questões que ficam em suspenso:
- legitimidade da expropriação;
- justiça do valor pago;
- implicações económicas da redistribuição de terras;
- capacidades técnicas e de gestão por parte dos agricultores "premiados";
- lógica de emparcelar largas extensões de terras mais rentáveis em exploração extensiva.
Apesar da aparente "civilidade" como decorre o processo, o Ministro da Terra (e provável futuro presidente) já afirmou, no que pode ser entendido como uma ameaça velada aos recalcitrantes, que não há tempo a perder, pois de outra forma "poderemos ter que fazer face a uma revolução dos sem-terra - algo que não pretendemos que ocorra -, que a todos afectaria".
Publicado por FG Santos às 03:50 PM | Comentários (3)
setembro 01, 2005
"You loot, I shoot"
É o que dizem cartolinas postadas em lojas de Nova Orleães, face à onda crescente de saques de que os comerciantes têm sido vítimas. Há lojas de onde desapareceram todas as armas de fogo, os meliantes actuam de uma forma cada vez mais agressiva e as forças de segurança estão esgotadas. Um cenário de Terceiro Mundo.
Ler o relato do "El Mundo".
Publicado por FG Santos às 07:01 PM | Comentários (6)
A sucessão no Conservative Party
Insta-me o meu amigo "misantropo" a falar sobre a sucessão de Michael Howard à frente do Conservative Party.
Após a primeira vitória de Blair, em 1997, nunca mais os conservadores conseguiram encontrar um líder que lhe pudesse fazer frente nas eleições. William Hague, Iain Duncan Smith e Michael Howard foram os rostos da impotência. Derrotado já em duas ocasiões, o ex-ministro das Finanças (Chancellor of the Exchequer) Kenneth Clarke tenta novamente a sua oportunidade, confiante de que a sua oposição à crescentemente impopular invasão do Iraque lhe dê votos acrescidos. Com um recuo que roça o cinismo, afirma-se agora menos entusiasta da adesão ao euro.
Os seus concorrentes são em número de 7 (!), podendo o seu perfil ser aqui analisado.
O problema com o CP é que as eleições se ganham ao Centro. Se quiser mostrar firmeza de princípios (como aparenta David Davis, o mais sério rival de Clarke) alienará eleitores menos direitistas; se mostrar flexibilidade na sua actuação irritará muitos militantes de base. Um verdadeiro beco sem saída.
Publicado por FG Santos às 02:16 PM | Comentários (0)
Um ano após o drama de Beslan
Já neste blogue abordámos a questão chechena, a hipocrisia de Putin, tão ou mais terrorista que os fundamentalistas islâmicos, bem como a questão mais geral da ofensiva islâmica mundial.
Um ano após os dramáticos acontecimentos ocorridos na escola de Beslan, na Ossétia do Norte, tudo continua por elucidar. Como frisa muito bem Krystyna Kurczab-Redlich (*), antiga correspondente polaca na Chechénia, «abundam as perguntas sem resposta: como é que os terroristas conseguem atravessar todos os postos de controlo para chegar a Beslan com tantos explosivos? Como é que foi possível montar depois os engenhos na escola? E mais uma vez, como no teatro de Moscovo, a maioria das vítimas morre em consequência da acção das forças especiais, pois foi o incêndio provocado pelo lança-chamas usado contra o edifício que levou à derrocada do tecto da sala de ginástica e matou a grande maioria das crianças».
Sobre esta matéria preferia não ter tido razão, mas o que escrevi em Março deste ano é corroborado por Kurczab-Redlich: «Como explicar que durante mais de cinco anos o exército e os serviços secretos não tenham conseguido apanhar Bassaev, que se diz o iniciador de todos estes atentados? Entretanto, mataram o presidente Mashkadov, um homem que várias vezes apelou a conversações de paz. Só se compreende isto se o Kremlin precisa dos atentados terroristas. E se os planos de radicais como Bassaev são escritos no Kremlin.»
O terrorismo islâmico é uma ameaça séria. E encontra aliados de ocasião onde menos se esperaria.
(*) Entrevista a "O Independente", 29 de Julho de 2005, pág. 36.
Publicado por FG Santos às 01:13 PM | Comentários (0)