« Um novo blogue | Entrada | Que espera o ACIME para actuar? »
agosto 25, 2005
Sobre Céline, Marcel Aymé, Rebatet
A propósito do triste Fabius, palavra-puxa-palavra, eu, o Bruno e o Paulo começámos a discorrer sobre Marcel Aymé e Céline. Em particular sobre a estima que os grandes escritores nutriam um pelo outro e pela irritação que um conto do autor de “Uranus” causou a Céline.
A biografia de François Gibault, «Céline» (3 volumes, Mercure de France), está recheada de cartas do genial escritor, de entre as quais destaco duas que ajudam a perceber a relação entre os dois escritores.
«J’ai bien rigolé hier avec la nouvelle de Marcel = La légende Poldève (1) vraiment une merveille! Quel esprit Quel talent! Quel génie ce Marcel! Je le dirai à tout le monde!» (2)
«Voilà les emmerdements! Le vieux Montmartre s’agite, prépare l’arrivée des américains. On chasse la crapule... le vent est à la merde (…)» Gibault diz-nos que Céline tinha lido “Avenue Junot” de Aymé, em que ele detinha o papel principal. Voltando à carta: «Il suffit qu’on me mette en scène pour que ça me glace. (...) Marcel est un petit sournois. Il oriente toujours les vacheries sur les potes et sur moi en particulier. Je suis toujours le furieux, le boutte-juif, le maniaque, le fou dangereux… Il se dédouane ainsi Marcel, lui le raisonnable, l’impartial, le pas sectaire, l’humain et en fait le toujours bon ami des youtres (3). Il prépare ainsi son après-guerre et les bonnes graces N.R.F. (4). Il derive la foudre, que tout me retombe bien sur ma gueule. C’est humain…» (5)
(1) Novela publicada no semanário “Je suis partout” a 2 de Outubro de 1943 e incluída posteriormente no volume “Le Passe-Muraille” (Gallimard, 1943) (nota de François Gibault).
(2) Carta a Gen Paul (1943).
(3) Youtre = termo depreciativo para judeu.
(4) Nouvelle Revue Française (durante a Ocupação chegou a ser dirigida por Drieu La Rochelle).
(5) Carta a Gen Paul (Agosto de 1943).
Sempre que me ponho a ler coisas de ou sobre Céline nunca mais páro, salto de volume em volume. Foi assim que, pela n-ésima vez, li o soberbo texto que Lucien Rebatet escreveu sobre Céline e que foi publicado no Cahier de l’Herne / Céline (colectânea de textos publicada em 1972) (*). No seu estilo inconfundível, com uma verve fantástica, Rebatet descreve os encontros que foi tendo ao longo dos anos com “Ferdine” e a reacção que as obras deste lhe provocou. Lá para o final do texto, tenta caracterizar sumariamente o homem:
«Qu’était-il donc, au fait? Un anarchiste? Le mot est un truisme bien vulgaire pour ce conservateur, perpétuellement clochard dans sa propre vie, mais imbu d’ordre civique, de santé sociale. Non. Un poète, qui eut la bravoure de prêter sa voix d’Apocalypse à nos plus justes mais nos plus dangereuses colères. Et pour toutes les choses supérieures, un homme de bons sens, ce grand bon sens dont parle Baudelaire, “qui marche devant le sage comme une colonne lumineuse à travers le desert de l’histoire”.»
(*) Parte deste relato encontra-se reproduzida em apêndice ao volume “As Memórias de um Fascista” de Lucien Rebatet, edição arrojada da Europa-América traída por uma tradução deficiente.
Publicado por FG Santos às agosto 25, 2005 09:29 AM
Comentários
A edição portuguesa de «Les mémoires d'un fasciste» foi publicada, creio, pela Livros do Brasil, e não pela Europa-América. E a tradução da obra foi negligentemente confiada à filha do «general Coca-Cola», a Iva, que ainda não estava a 21%...
Mas quem devia esclarecer isto era o nosso camarada bloguista do Batalha Final...
Publicado por: BOS em agosto 25, 2005 10:01 AM
Tens razão, é mesmo da Livros do Brasil, não me dei ao trabalho de ir ver à estante e deu asneira.
Um dos erros de tradução que recordo (e escrevo de memória) tinha a ver com o termo "bluette": dizia Rebatet que Claude Autant-Lara, que a eminente tradutora desconheceria certamente que fora realizador de cinema (e, já agora, deputado europeu, com 89 anos nas listas FN), «avait signé une jolie bluette»; tradução: «escrevera um belo livrinho»...
Publicado por: FG Santos em agosto 25, 2005 10:38 AM