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agosto 30, 2005

O furacão mediático

Confesso que me causa perplexidade o destaque que jornais, televisões e até blogues dão ao furacão Katrina. Mais em geral, a todas as catástrofes naturais que se abatem sobre os States.
Inundações no Bangladesh podem causar centenas de vítimas que pouco destaque alcançam; um descarrilamento na China também pouca divulgação encontra. Mas inundações na Europa e desastres naturais nos EUA têm uma repercussão imensa. Já não sei qual é o texto de Eça de Queirós em que ele juntava pessoas numa sala, uma delas lendo as notícias num jornal; o impacto das mesmas ia aumentando com a proximidade geográfica das ocorrências; e o acontecimento que mais sensação e consternação causava aos circunstantes era o tornozelo partido da Exma. Sra. Fulana, vizinha e bem conhecida dos presentes...
Também é verdade que os países mais desenvolvidos, e em particular os EUA, difundem mais imagens, divulgam os acontecimentos com maior profusão de detalhes, aumentando o impacto que têm junto da opinião pública; e a "guerra cultural" que os americanos têm vindo a travar na Europa desde os anos 30 torna tudo o que diz respeito a esse país mais próximo dos ocidentais e, em última análise, dos consumidores de TV de todo o mundo; quantos jovens portugueses não conhecerão maior número de ruas nova-iorquinas que monumentos de Braga ou Guimarães? Ou maior número de actores de Hollywood que figuras da nossa história? Afinal de contas, Nova Orleães, que digo eu, New Orleans soa mais familiar aos ouvidos do cidadão lambda que Castanheira de Pêra.

Publicado por FG Santos às agosto 30, 2005 02:20 PM

Comentários

É de ponderar a hipótese de, para um grande número de pessoas, as catástrofes americanas valerem mais por isso mesmo — porque são americanas. As inundações no Bangladesh ou os descarrilamentos na China causam à maioria uma indiferença muda — e aos mais sensíveis causam pena. Ao invés, os acidentes nos «States» são uma grande alegria. O dr. Soares, por exemplo, recobra energias para a campanha eleitoral. E o dr. Freitas, que nunca foi a Castanheira de Pêra, recorda saudoso o edifício onusino — resistente a ventos e tempestades.
Tome o meu caro FG Santos esta explicação como mera hipótese académica. Nada mais.
Em quanto ao texto do Eça, é com prazer que lhe avivo a memória: é o último texto do «Cartas Familiares e Bilhetes de Paris» (julgo que da editora Lello). Ele vai lendo, de perna alçada, o jornal que relata uma sucessão de catástrofes pelo mundo. Terramotos, descarrilamentos de comboios, inundações, vulcões que entravam em erupção... Aquele jornal parecia o noticiário da TVI. Mas ninguém lhe ligava nenhuma. Até que a notícia caiu com estrépito na roda de amigos: a Luisinha Carneiro, era assim que se chamava a senhora, «desmanchara um pé». Foi um alvoroço! Todos preocupadíssimos! A criadagem a correr a casa da senhora, à cata de informações sobre o seu estado de saúde.
Os milhares de mortos dos outros acidentes haviam sido sepultados por aquela notícia aziaga: a Luísa Carneiro «desmanchara um pé»!

Publicado por: BOS em agosto 30, 2005 03:33 PM

Que memória prodigiosa! Obrigado pela lembrança.

Publicado por: FG Santos em agosto 30, 2005 03:51 PM

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