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agosto 21, 2005
Juan Valera
O nosso amigo BOS discorreu há poucos dias sobre literatura espanhola, domínio em que estou longe de ser um conhecedor profundo. Fiquei no entanto satisfeito por ter sido referido o nome de Juan Valera (1824-1905), autor cordobés de talento.
De Valera posso recomendar “Juanita la Larga”, crónica dos amores de um cinquentão por uma moçoila, passada numa povoação andaluza. O estilo é sóbrio, a lembrar o nosso Júlio Dinis, com uma crítica de costumes muito subtil, sem excessos. Num castelhano muito acessível, sentimo-nos facilmente transportados para outro tempo e para uma mentalidade que sentimos não muito diferente da deste lado da fronteira, tal a habilidade do autor em pintar personagens, cenários, preconceitos, cenas cómicas...
Como exemplo, deixo aqui um parágrafo do primeiro capítulo, em que é notória a similitude do retratado com o nosso caciquismo do séc. XIX (e não só).
«No era Villalegre la cabeza del partido judicial, ni oficialmente la población mas importante del distrito electoral de nuestro amigo, pero cuantos allí tenían voto estaban tan subordinados a un grande elector, que todos votaban unánimes y según suele decirse, volcaban el puchero en favor de la persona que el grande elector designaba. Ya se comprende que esta unanimidad daba a Villalegre, en todas las elecciones, la más extraordinaria preponderancia.»
Publicado por FG Santos às agosto 21, 2005 10:56 PM
Comentários
Valera é, de facto, um belo panoramista, que nos oferece a cada passo frescos admiráveis e nítidos sobre os lugares, as pessoas e os comportamentos. Em novelas como a citada, ou noutras — como «Mariquita y Antonio» ou «Pepita Jiménez».
De raro fôlego são também os seus contos, de entre os quais prefiro claramente os 'contilhos', isto é, narrativas breves de dois ou três parágrafos, não mais de 1500 ou 2000 caracteres — exemplos de escola em matéria de concisão e economia vocabular. 'Contilhos', assim lhes chamo, como «Las gafas» ou «A quien debe darse crédito».
Como poeta, Valera merece igualmente um grande plano. O seu estilo supera simultaneamente o romantismo e o realismo, sendo que alguns traços da sua poesia sugerem já o modernismo vindouro.
Diplomata de carreira, saiba o FG Santos que este Juan Valera aderiu incondicionalmente às teses iberistas, parece que por influência do pessoal da embaixada de Lisboa, cidade onde residiu e trabalhou por um curto período de tempo.
Publicado por: BOS em agosto 22, 2005 10:55 AM
Pois é, na altura estavam muito em voga as ideias iberistas, mesmo em Portugal, de que são exemplo figuras como Latino Coelho e Elias Garcia. Após o Ultimato o iberismo ganhou novo fôlego, muito à custa das manifestações de "solidariedade" (desinteressadas, claro) por parte dos iberistas espanhóis.
Publicado por: FG Santos em agosto 22, 2005 12:22 PM