« julho 2005 | Entrada | setembro 2005 »
agosto 31, 2005
Triste espectáculo republicano
Toda a encenação à volta da candidatura de Soares à Presidência da República, o tabú - versão II - de Cavaco, a candidatura fantasma de Jerónimo de Sousa, a passividade de CDS e BE face a todas estas movimentações, são bem o reflexo do triste espectáculo republicano.
O amigo Paulo já hoje caracterizou bem a coisa, como eu o fiz sumariamente aqui. Na verdade, o poder democrático, e em especial em regime republicano, é uma coutada onde se movimentam apenas alguns "eleitos" (nos dois sentidos), trocando alegremente (este advérbio de modo é altamente penalizante para outro candidato fantasma!) de poleiro mas mantendo o essencial das políticas, privilégios, decisões, compadrios. E, sobretudo, mostrando o enorme desprezo que têm para com a população e o país, que saqueiam despudoradamente: de meios e princípios.
Publicado por FG Santos às 06:09 PM | Comentários (3)
Vaga de incêndios... em Paris
O segundo incêndio em poucos dias num prédio parisiense habitado por imigrantes veio lançar um debate mais ou menos feroz entre o PSF, que detém a mairie, e a oposição UMP, que a deteve antes da vitória de Delanöe.
As acusações mútuas prendem-se com quem é que faz menos ou mais para minorar a insalubridade de centenas de edifícios na Cidade Luz. Mas por trás de todas estas preocupações de circunstância, as afirmações de Jacques Chirac, frisando que as condições de habitação desses edifícios são "indignas das exigências naturais de acolhimento que se deve ter para quem está no nosso país, independentemente da sua origem e nacionalidade", dão o toque para mais manifestações de solidariedade e indulgência para com os imigrantes ilegais.
Publicado por FG Santos às 05:43 PM | Comentários (3)
agosto 30, 2005
Cindy Sheehan
Cindy Sheehan é texana. Tornou-se conhecida nos Estados Unidos por ter exigido de George Bush que explique aos americanos os verdadeiros motivos que levaram o seu país para a guerra no Iraque. Guerra essa que, entre os 15.000 mortos e feridos, vitimou mortalmente Casey Sheehan, o seu filho mais velho.
Pegando no mote leninista de que «a mentira é a principal arma no combate bolchevista», Karl Rove, especialista em denegrir quem se afirma como opositor da Administração Bush e da agenda política neo-conservadora, começou já a sua campanha anti-Sheehan.
O Propaganda Matrix dá uma óptima resenha do que está realmente em causa com o dossier iraquiano. Questiona o papel servil dos media, seja por não pôr em causa nada de realmente essencial na actuação do Governo, seja por ocultar dados fundamentais para compreender as motivações verdadeiras por detrás da decisão de invadir o Iraque. E pergunta, pertinentemente: «Alguém já ouviu falar na irmã israelita de Paul Wolfowitz? Quem é que sabe que Douglas Feith tem escritórios de advogados em Jerusalém? E sobre a posição de Richard Perle na gestão de topo do Jerusalem Post?»
Obviamente não é esquecido Dick Cheney, que ganhou contratos milionários sem concurso público para a sua ex-empresa Halliburton.
Quem levou os EUA para uma guerra que não tinha fundamento sólido a não ser fortalecer politicamente e tranquilizar militarmente um país vizinho do invadido; enriquecer elementos da Administração e seus acólitos em grandes empresas; que provocou um aumento do terrorismo não só na área como em todo o mundo; que está a desestabilizar economicamente todo o planeta; deveria um dia prestar contas. Alguém acredita que isso seja possível?
Publicado por FG Santos às 05:07 PM | Comentários (5)
O furacão mediático
Confesso que me causa perplexidade o destaque que jornais, televisões e até blogues dão ao furacão Katrina. Mais em geral, a todas as catástrofes naturais que se abatem sobre os States.
Inundações no Bangladesh podem causar centenas de vítimas que pouco destaque alcançam; um descarrilamento na China também pouca divulgação encontra. Mas inundações na Europa e desastres naturais nos EUA têm uma repercussão imensa. Já não sei qual é o texto de Eça de Queirós em que ele juntava pessoas numa sala, uma delas lendo as notícias num jornal; o impacto das mesmas ia aumentando com a proximidade geográfica das ocorrências; e o acontecimento que mais sensação e consternação causava aos circunstantes era o tornozelo partido da Exma. Sra. Fulana, vizinha e bem conhecida dos presentes...
Também é verdade que os países mais desenvolvidos, e em particular os EUA, difundem mais imagens, divulgam os acontecimentos com maior profusão de detalhes, aumentando o impacto que têm junto da opinião pública; e a "guerra cultural" que os americanos têm vindo a travar na Europa desde os anos 30 torna tudo o que diz respeito a esse país mais próximo dos ocidentais e, em última análise, dos consumidores de TV de todo o mundo; quantos jovens portugueses não conhecerão maior número de ruas nova-iorquinas que monumentos de Braga ou Guimarães? Ou maior número de actores de Hollywood que figuras da nossa história? Afinal de contas, Nova Orleães, que digo eu, New Orleans soa mais familiar aos ouvidos do cidadão lambda que Castanheira de Pêra.
Publicado por FG Santos às 02:20 PM | Comentários (2)
agosto 29, 2005
O Estrangeiro
Os leitores da minha idade ou mais velhos devem-se recordar de um simpático herói da Banda Desenhada franco-belga, obra de Derib e Job, de nome Yakari. Trata-se de um índiozinho sioux, corajoso e nobre. As histórias decorrem em cenários magníficos, onde a beleza natural é regra.

Yakari tem o dom de poder falar com os animais (será que o autor se inspirou no Siegried de Wagner que, após derrotar o dragão Fafner, engoliu uma gota do seu sangue, ficando a partir daí a compreender a linguagem dos pássaros?).
Dos mais de 30 álbuns editados, 11 foram em tempos traduzidos para português. Tenho andado a adquiri-los junto de um alfarrabista portuense especializado em BD. O meu filho mais velho tem um prazer enorme em que eu lhe conte as aventuras do gentil sioux.
Uma das aventuras, a número 7, "Yakari et l'étranger", é uma fábula sobre a dificuldade de aceitação de um elemento estranho a uma comunidade, no caso um pelicano terrivelmente constipado, que dá espirros sonoríssimos, pondo os nervos em franja aos nativos...

Só o jovem Yakari o vai apoiar, ajudando-o a curar-se da doença e a arranjar-lhe alimento. Até aqui parece que estamos na presença de mais um exemplo de literatura juvenil "bem pensante", cheia de boas intenções humanitárias. E até certo ponto é verdade; mas o final da história acaba por ser exemplar noutro sentido: curado, o pelicano decide-se a retribuir a ajuda dos castores e lontras, ganhando a sua afeição. Eis senão quando chegam os seus amigos pelicanos para o levar de volta para a sua terra; o que acabam por fazer, pois apesar de finalmente ser bem acolhido, aquele não era o meio dele.
Gostei sinceramente da conclusão, não se enchendo a cabeça dos miúdos com utopias perniciosas mas mostrando que todos têm o seu espaço... no seu espaço.
Publicado por FG Santos às 03:37 PM | Comentários (3)
A política de imigração é um falhanço rotundo?
É isso que afirma o novo director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Manuel Palos. Sê-lo-á por as fronteiras serem porosas? Desenganem-se, caros leitores.
Segundo o douto alto funcionário, "é preciso mudar a lei portuguesa da imigração, baseada em quotas, que é a mais restritiva da Europa, além de «rigorosa e intransigente»".
Para além de se insurgir contra as alegadas restrições, Palos afirma que não deve ser obrigatório ter um contrato de trabalho para se permitir a legalização de um trabalhador estrangeiro. Fala ainda em "agilizar a imigração legal" (sic).
Já todos estamos habituados a que as autoridades "agilizem" normas, ética, conduta, respeito pelos princípios de boa governação. Agora temos uma nova proposta de "agilização". E não se pode agilizar a forma de correr com esta malta?
Publicado por FG Santos às 12:21 PM | Comentários (1)
agosto 26, 2005
O cockney em vias de extinção
A famosa língua falada no East End londrino, o cockney , está em risco de desaparecer. A composição demográfica daquela parte da capital alterou-se com os bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial, com o fim das barracas e subsequente realojamento dos seus habitantes nos subúrbios.
No seu lugar aparece um falar mesclado de expressões usadas por originários do Bangladesh, que agora povoam em largo número aquela parte da cidade. Expressões essas que entram igualmente no falar dos jovens de origem europeia.
Dickens, que empregou amiúde o cockney nos seus romances, não reconheceria o que agora se fala no East End.
Publicado por FG Santos às 04:55 PM | Comentários (4)
Como se "fabrica" um holandês
Uma bandeirinha, um exemplar da Constituição, um belo queijinho (que as vacas holandesas têm muito prado verde à disposição), uma cervejola e música de acordeão.
Uma integração de sucesso garantida!
Leiam com os próprios olhos.
Publicado por FG Santos às 04:47 PM | Comentários (0)
Cunhas e rodriguinhos
Não é segredo para ninguém que no longuíssimo (por diversas ordens de razões) consulado de Cunha Rodrigues à frente da Procuradoria Geral da República, a palavra de ordem era: arquivar. Escândalos os mais diversos (da Caixa Económica Açoreana ao pobre Rúben que morreu electrocutado numa rua de Lisboa, passando pelo Aquaparque) tinham sempre o destino de prémio aos prevaricadores.
A chegada de Souto Moura à frente da instituição significou uma postura bastante diferente, começando a ser inquietados os poderosos, o que gerou não poucos anti-corpos. A investigação em torno do escândalo de pedofilia foi a face mais visível desta mudança. Jornais e figuras públicas começaram uma campanha visando denegrir o nóvel PGR. Pressões para a sua demissão multiplicaram-se. Os socialistas, facção política mais visada nas investigações do escândalo de pedofilia, agora no poder têm uma tentação cada vaez maior de se verem livres de Souto Moura. Que saudades devem ter do seu antecessor: recrodam-se de quem é que fez questão de estar presente no jantar de despedida e homenagem a este último? O actual candidato socialista à câmara de Sintra e filho do octogenário putativo candidato à presidência da república. Os amigos são para as ocasiões.
Publicado por FG Santos às 10:33 AM | Comentários (3)
agosto 25, 2005
Que espera o ACIME para actuar?
Caso flagrante de racismo e apelo ao ódio. Prendam já esse Charles-qualquer-coisa e apreendam as suas obras!
Publicado por FG Santos às 02:50 PM | Comentários (0)
Sobre Céline, Marcel Aymé, Rebatet
A propósito do triste Fabius, palavra-puxa-palavra, eu, o Bruno e o Paulo começámos a discorrer sobre Marcel Aymé e Céline. Em particular sobre a estima que os grandes escritores nutriam um pelo outro e pela irritação que um conto do autor de “Uranus” causou a Céline.
A biografia de François Gibault, «Céline» (3 volumes, Mercure de France), está recheada de cartas do genial escritor, de entre as quais destaco duas que ajudam a perceber a relação entre os dois escritores.
«J’ai bien rigolé hier avec la nouvelle de Marcel = La légende Poldève (1) vraiment une merveille! Quel esprit Quel talent! Quel génie ce Marcel! Je le dirai à tout le monde!» (2)
«Voilà les emmerdements! Le vieux Montmartre s’agite, prépare l’arrivée des américains. On chasse la crapule... le vent est à la merde (…)» Gibault diz-nos que Céline tinha lido “Avenue Junot” de Aymé, em que ele detinha o papel principal. Voltando à carta: «Il suffit qu’on me mette en scène pour que ça me glace. (...) Marcel est un petit sournois. Il oriente toujours les vacheries sur les potes et sur moi en particulier. Je suis toujours le furieux, le boutte-juif, le maniaque, le fou dangereux… Il se dédouane ainsi Marcel, lui le raisonnable, l’impartial, le pas sectaire, l’humain et en fait le toujours bon ami des youtres (3). Il prépare ainsi son après-guerre et les bonnes graces N.R.F. (4). Il derive la foudre, que tout me retombe bien sur ma gueule. C’est humain…» (5)
(1) Novela publicada no semanário “Je suis partout” a 2 de Outubro de 1943 e incluída posteriormente no volume “Le Passe-Muraille” (Gallimard, 1943) (nota de François Gibault).
(2) Carta a Gen Paul (1943).
(3) Youtre = termo depreciativo para judeu.
(4) Nouvelle Revue Française (durante a Ocupação chegou a ser dirigida por Drieu La Rochelle).
(5) Carta a Gen Paul (Agosto de 1943).
Sempre que me ponho a ler coisas de ou sobre Céline nunca mais páro, salto de volume em volume. Foi assim que, pela n-ésima vez, li o soberbo texto que Lucien Rebatet escreveu sobre Céline e que foi publicado no Cahier de l’Herne / Céline (colectânea de textos publicada em 1972) (*). No seu estilo inconfundível, com uma verve fantástica, Rebatet descreve os encontros que foi tendo ao longo dos anos com “Ferdine” e a reacção que as obras deste lhe provocou. Lá para o final do texto, tenta caracterizar sumariamente o homem:
«Qu’était-il donc, au fait? Un anarchiste? Le mot est un truisme bien vulgaire pour ce conservateur, perpétuellement clochard dans sa propre vie, mais imbu d’ordre civique, de santé sociale. Non. Un poète, qui eut la bravoure de prêter sa voix d’Apocalypse à nos plus justes mais nos plus dangereuses colères. Et pour toutes les choses supérieures, un homme de bons sens, ce grand bon sens dont parle Baudelaire, “qui marche devant le sage comme une colonne lumineuse à travers le desert de l’histoire”.»
(*) Parte deste relato encontra-se reproduzida em apêndice ao volume “As Memórias de um Fascista” de Lucien Rebatet, edição arrojada da Europa-América traída por uma tradução deficiente.
Publicado por FG Santos às 09:29 AM | Comentários (2)
agosto 24, 2005
Um novo blogue
Damos as boas vindas a "O Jogral", nóvel blogue que, a julgar pelo que já publicou em um dia de existência (bem como pelos blogues recomendados), promete.
Publicado por FG Santos às 05:52 PM | Comentários (1)
Fabius, PSF, judeus...
O nosso amigo Paulo Porto discorre hoje sobre a crise no PSF, que pode ser mais aprofundadamente analisada aqui, e que não é mais que uma crise típica de grandes partidos que andam arredados do poder.
Aparecem os conflitos de personalidades, mais que os ideológicos. Os candidatos multiplicam-se, as divisões aumentam - nada de novo sob o sol democrático.
Lembra o nosso amigo que a figura de Fabius gera no PSF não poucos anti-corpos, seja pelo seu posicionamento mais atlantista e compreensivo pela causa de Israel, seja por ter sido figura de proa no "não" à Constituição Europeia. Sobre o primeiro aspecto, nomeadamente sobre a sua postura face a Israel, é de referir que nenhum primeiro-ministro ou presidente francês dispensa antes e depois das eleições uma visita à "comunidade", tentando obter o seu beneplácito. Sendo o número desta pouco expressivo (700 mil numa população de sessenta milhões de habitantes), a vassalagem citada é um sinal claro do peso político, ideológico, jornalístico, que a dita comunidade detém em França. E também de que, independentemente da origem dos detentores dos citados cargos, essa vassalagem não desaparecerá.
Publicado por FG Santos às 02:28 PM | Comentários (0)
A Direita perdida
Apreciei bastante o artigo que Rebatet publicou no “Batalha Final” sobre a “direita perdida”.
Creio, no entanto, que são feitas algumas generalizações quanto a mim não muito correctas. Quando o estimado blogueiro fala em consenso da direita contra o marxismo, que levou aquela a abraçar o capitalismo, está a omitir o facto de que muitos movimentos e pensadores de direita, embora resoluta e naturalmente anti-marxistas, nem por isso deixaram de marcar distâncias em relação ao capitalismo e ao materialismo consumista. Basta pensar em Maurice Bardèche, por exemplo, que travou um combate incansável durante décadas nas páginas da “Défense de l’Occident”, não só contra a mistificação histórica pós-1945 como também contra o parlamentarismo, o gaullismo, o americanismo, o marxismo.
Um movimento político da importância do MSI foi a face mais visível desta corrente que preconizava, no fundo, uma terceira via entre o comunismo e o capitalismo. Movimentos estudantis em França, em Itália e mesmo em Portugal adoptaram esta perspectiva.
Feito este esclarecimento, dou o meu aplauso ao Rebatet pelo seu ensaio, que faz aquilo que a melhor blogosfera tem conseguido: analisar a realidade, ter uma perspectiva crítica, definir quais devem ser os combates a travar, propor soluções.
A única abordagem a esse texto que conheço veio pela pena do Paulo Porto. Tendo as minhas dúvidas sobre a solução que propõe no último parágrafo, pelas mesmas razões que o Rebatet expõe no seu comentário; abraço no entanto sem hesitações a sua proposta de combate cultural. A luta pela divulgação das ideias, pela promoção da cultura silenciada pelo sistema é para mim fundamental. Sem ela todo o combate político será estéril e sem sentido.
Publicado por FG Santos às 12:26 PM | Comentários (4)
agosto 23, 2005
Schroeder candidato a Nobel da Paz!
A notícia da provável nomeação do chanceler alemão Gerhard Schroeder para o Prémio Nobel da Paz, embora ridícula, não surpreende.
Desde há muito que o Nobel, tanto da Paz como da Literatura, serve como instrumento ideológico de promoção de figuras de esquerda e/ou politicamente correctas. Pouco importa que o seu contributo para a causa da paz seja pouco evidente (Annan), ou que o laureado até tenha as mãos sujas de sangue (Arafat, Peres, Kissinger, Mandela, Gorbatchev) (*); ou que a obra literária não tenha efectivamente qualidade (Saramago, Jelinek). O que importa é dar como exemplo figuras e ideias "exemplares", para admiração e consumo das massas, orientando-lhes as opções ideológicas.
O que efectivamente espanta neste caso concreto é o descaramento de esta notícia vir a lume a menos de um mês da realização de legislativas antecipadas na Alemanha, para as quais contribuiu Schroeder. O Nobel agora é também uma arma de propaganda eleitoral.
(*) Isto não significa que de vez em quando não haja justiça, como por exemplo em 1998 com John Hume e David Trimble.
Publicado por FG Santos às 12:21 PM | Comentários (2)
Os fogos

Ano após ano o mesmo drama, a mesma impotência, a mesma raiva perante a indiferença dos governos face à tragédia que destrói o país.
Alterações climáticas, terrenos agrícolas ao abandono, desleixo, criminosos de isqueiro na mão, ganância de madeireiros, apetites imobiliários, solos cada vez mais secos - o diagnóstico é conhecido de todos mas o drama repete-se.
Uma vergonha nacional.
Sobre o tema, recomendo a leitura da "Nova Floresta" e dos "Actos Irreflectidos".
Publicado por FG Santos às 12:12 PM | Comentários (1)
agosto 22, 2005
Visitantes
No mês de Agosto 642 visitas a este blogue (num total à data de ontem de 1036) tiveram origem em blogues amigos que tiveram a gentileza de fazer o respectivo link.
A eles deixo aqui o meu agradecimento, mostrando-se em seguida quais os principais contribuintes de visitas:
Blogue Visitas (%)
Nova Frente 117 (18,25%)
Último Reduto 70 (10,92%)
SG Buiça 60 (9,36%)
O Sexo dos Anjos 51 (7,95%)
O Misantropo Enjaulado 30 (4,68%)
O Porta-Bandeira 24 (3,74%)
Batalha Final 22 (3,43%)
A Arte da Fuga 21 (3,28%)
O Velho da Montanha 15 (2,34%)
A Casa de Sarto 12 (1,87%)
Pena e Espada 12 (1,87%)
Cegos, Mudos e Surdos 11 (1,72%)
Publicado por FG Santos às 05:40 PM | Comentários (0)
A guerra fria entre a Polónia e a Federação Russa
Escudada no apoio norte-americano, a Polónia tem assumido um papel cada vez mais activo nos assuntos dos países fronteiros, entrando em rota de colisão com as posições moscovitas. Revolução "laranja" na Ucrânia, questão chechena e democratização da Bielorrússia têm sido os temas de confronto entre as duas chancelarias.
A ler, a análise do "Le Figaro".
Publicado por FG Santos às 05:28 PM | Comentários (0)
Agitação social na África do Sul
Onze anos após o fim do apartheid, cresce a tensão social na África do Sul. O crescimento económico tem beneficiado a classe alta (incluindo os "novos ricos" negros), ao passo que o número de pessoas em situação periclitante não diminui, estando a taxa de desemprego a rondar os 30% da população activa. Os contestatários esquerdistas lamentam a orientação económica liberal do governo. Não esquecer igualmente a desastrosa gestão (?) deste último no que se refere ao crescimento exponencial da sida.
A classe média e alta de origem europeia foi, ao longo dos anos, abandonando as grandes cidades para a periferia, fugindo ao crime igualmente galopante desde que o ANC assumiu as rédeas do poder. Crime que, como é sabido, tem fustigado a comunidade portuguesa.
Na frente internacional, o papel de grande potência regional mediadora de conflitos no continente negro tem sido mais uma figura de retórica que uma concretização prática.
Publicado por FG Santos às 05:04 PM | Comentários (3)
Sua Excelência
O estimado Paulo Porto, num arremedo muito saudável de anti-igualitarismo, zurze na mania niveladora vigente nas sociedades anglo-saxónicas que ganharam a independência da elitista Grã-Bretanha.
Curiosamente, nas sociedades de cunho mediterrânico como a nossa, existe a mania oposta, que é de salientar o estatuto de quem governa, presume-se que com a intenção de manter uma diferença de tratamento entre governantes e governados.
No nosso país os políticos tratam-se por sr. Dr. Isto, sr. Eng. Aquilo, sr. Presidente da República, etc. Adoram fazer inaugurações nem que seja de viadutos, centros comerciais, centros de dia, em que podem contemplar uma placa em que para a posteridade (para eles, para a eternidade) ficará o nome do sr. Ministro, do sr. Secretário de Estado, do sr. Presidente da Câmara. A situação é tanto mais anedótica quanto os mesmos ilustres representantes da Nação passsam a vida a falar em igualdade, em exclusão, em integração e outros termos que expressam a sua permanente preocupação com quem supostamente é vítima de... desigualdade.
Nas empresas também é habitual o tratamento reverencial para com o sr. Dr. ou o sr. Eng. Na nossa ex-colónia brasileira brinca-se dizendo que, por lá, para se ser tratado por Dr. basta vestir fato e gravata.
Voltando ao início, isto é, aos anglo-saxões, de referir que na elitista Grã-Bretanha é normal, pelo menos a nível empresarial, o tratamento pelo nome próprio, mesmo para com as chefias. A hierarquia está definida, o respeito impera, portanto a diferença pressente-se mas não se agita como uma bandeira.
Publicado por FG Santos às 10:13 AM | Comentários (2)
agosto 21, 2005
Juan Valera
O nosso amigo BOS discorreu há poucos dias sobre literatura espanhola, domínio em que estou longe de ser um conhecedor profundo. Fiquei no entanto satisfeito por ter sido referido o nome de Juan Valera (1824-1905), autor cordobés de talento.
De Valera posso recomendar “Juanita la Larga”, crónica dos amores de um cinquentão por uma moçoila, passada numa povoação andaluza. O estilo é sóbrio, a lembrar o nosso Júlio Dinis, com uma crítica de costumes muito subtil, sem excessos. Num castelhano muito acessível, sentimo-nos facilmente transportados para outro tempo e para uma mentalidade que sentimos não muito diferente da deste lado da fronteira, tal a habilidade do autor em pintar personagens, cenários, preconceitos, cenas cómicas...
Como exemplo, deixo aqui um parágrafo do primeiro capítulo, em que é notória a similitude do retratado com o nosso caciquismo do séc. XIX (e não só).
«No era Villalegre la cabeza del partido judicial, ni oficialmente la población mas importante del distrito electoral de nuestro amigo, pero cuantos allí tenían voto estaban tan subordinados a un grande elector, que todos votaban unánimes y según suele decirse, volcaban el puchero en favor de la persona que el grande elector designaba. Ya se comprende que esta unanimidad daba a Villalegre, en todas las elecciones, la más extraordinaria preponderancia.»
Publicado por FG Santos às 10:56 PM | Comentários (2)
agosto 19, 2005
O "Último Reduto" está de parabéns
Há dois anos nasceu o “Último Reduto”, o blogue animado pelo meu amigo Pedro Guedes. Monárquico, de direita assumida e não enviesada (ou curva, como ele gosta de dizer), de Cruz de Cristo ao peito, nacionalista avesso a radicalismos que só fortalecem os inimigos, o Pedro tem mantido uma qualidade, constância de princípios (e de actualizações, refira-se) e pertinência que constituem um exemplo para muitos dos que o lêem diariamente.
O “Último Reduto”, que vai buscar o nome a uma publicação nacionalista dos anos 80, orgulha-se de influências culturais e ideológicas que vão de Evola a Gentile ou de Céline a Drieu, pairando sempre a sombra de Primo de Rivera (filho). A gesta de 36-39 é aliás o mote inspirador deste ilustre blogueiro que “não se arrepende nem se esquece”.
Mais insultado e criticado à direita que à esquerda ou ao centro, o blogue está aí para nos mostrar que muitas vezes os maiores rancores e invejas vêm de onde menos se suspeitaria.
Um grande abraço ao Pedro e votos de longevidade para o “Último Reduto”.
Publicado por FG Santos às 02:59 PM | Comentários (3)
Pauwels e Sérant
Gostei do texto de Manuel Azinhal sobre as diferentes formas de encarar a realidade por parte de Louis Pauwels e Paul Sérant.
Acrescentarei uns dados curiosos sobre os dois homens de letras.
Pauwels, no início dos anos 90, acusava o PSF de ser o principal interessado no sucesso eleitoral do Front National, pois este retirava votos à direita institucional. E acusava a FN de na prática contribuir para a perpetuação dos socialistas no poder, sendo um dos seus principais sustentáculos.
A imprensa mais ou menos próxima de Le Pen ripostou ferozmente. Não sendo da idade do estimado Manuel, foi na verdade este o meu primeiro contacto com a personalidade de Louis Pauwels.
De Paul Sérant é de recordar que foi o autor de um livrinho intitulado “Salazar et son temps”, editado pela Les Sept Couleurs de Maurice Bardèche.
Publicado por FG Santos às 02:56 PM | Comentários (0)
agosto 18, 2005
Sobre Rudolf Hess
Ontem cumpriram-se 18 anos sobre a morte de Rudolf Hess. Morte ou assassinato? Suspeita-se em certos círculos que foram os serviços secretos britânicos que teriam levado a cabo essa sinistra tarefa, quando havia suspeitas de que os soviéticos estariam dispostos, em plena perestroika, a dar o seu aval à libertação do mais velho prisioneiro do Mundo.
Toda a história da missão de Hess levanta questões. Teria sido iniciativa própria, à revelia de Hitler, ou pelo contrário uma manobra deste último? E afinal que tinha Hess a propor ao Duque de Hamilton? A paz com o Reino Unido, com a contrapartida de este se manter neutral em caso de conflito entre a Alemanha e a União Soviética. E aqui é que, quanto a mim, está o busílis da questão: se Churchill poderá não se ter oposto à proposta, já Roosevelt, que sempre mostrou ser escandalosamente favorável à URSS, terá recusado terminantemente tal “heresia”.
E, convenhamos, percebe-se o seu ponto de vista: estaria Hitler antes de mais interessado numa paz com as potências ocidentais ou, após o fracasso da batalha de Inglaterra, convinha-lhe assegurar que teria as mãos livres para invadir a URSS (o que sucedeu pouco mais de um mês depois do vôo de Hess)? Roosevelt terá certamente percebido esta intenção por parte do Führer e convenceu os britânicos a prender Hess.
Em face disto, parece-me descabido falar de Hess (e de Hitler) como arautos da paz entre as potências ocidentais. O que a Alemanha nazi pretendia era invadir a URSS, assegurando a não intervenção do Reino Unido. Nada mais.
Os EUA de Roosevelt, ferozmente anti-nazis e mal dissimuladamente favoráveis a Estaline, deram, ainda mesmo antes de entrarem oficialmente em guerra, mais um passo na guerra total que “alguns” haviam declarado ao nazismo.
Publicado por FG Santos às 11:46 PM | Comentários (1)
Sonhos e pesadelos
A meio das minhas férias relatei-vos um sonho que tive em certa noite, não um desejo mas efectivamente um sonho autêntico. Infelizmente houve quem não interpretasse bem o que escrevi, embora me pareça que a coisa tenha ficado bem clara.
Caro ACR, não desejo varrê-lo para lado algum; divirjo das suas opiniões em vários aspectos mas creio que o debate de ideias, se civilizado e construtivo, é sempre bem vindo – mas é necessário antes de mais que se interprete correctamente o que diz a outra parte e que se não vejam intenções onde elas não existem.
Publicado por FG Santos às 10:52 PM | Comentários (1)
agosto 15, 2005
Caminha
Estou desde quinta-feira passada em Caminha, a vila costeira mais a norte do nosso (estrelicadinho) território.
Ao contrário do habitual, está por aqui um calor sufocante, maior que aquele que apanhei há duas semanas no Algarve. As festas da vila terminaram ontem. Ou melhor: as festas da "Vila", que é como aqui se designa a parte norte da localidade, mais virada para o comércio e onde se situam os principais monumentos (Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia, Torre dos Pitas, etc.); a parte sul é o humilde bairro dos pescadores, que tem as suas festas próprias, daqui a uma semana. Dois mundos na mesma terra.
Por falar em monumentos, a casa onde nasceu o "Presidente Rei" Sidónio Pais está em remodelação, rodeada por uma enorme tela onde se homenageia aquele que corporizou a esperança de Portugal se livrar da praga republicana e do Partido Democrático do sinistro Afonso Costa em particular. O percurso de Sidónio está sumária mas sobriamente descrito. Uma surpresa.
Os incêndios não pouparam o concelho, sendo visível o fumo nos montes circundantes. Hoje na praia de Afife (já no concelho de Viana do Castelo) era visível a cinza depositada nas areias.
A água do mar - essa é que é o gelo dos costume. Impossível.
Para a semana já volto ao trabalho, mas antes disso conto regressar ao vosso convívio. Graças a espaços como este de onde vos escrevo, onde por um euro por hora (!) se pode pôr a leitura dos blogues amigos em dia!
Publicado por FG Santos às 04:46 PM | Comentários (4)
Gaza
Congratulo-me com a retirada da Faixa de Gaza por parte do exército israelita. Como se vê com Sharon, é possível haver boas medidas na frente diplomática tomadas por quem tem as mãos sujas de sangue.
Avatares das relações internacionais, complexidade da natureza humana.
Publicado por FG Santos às 04:43 PM | Comentários (1)
agosto 10, 2005
Os candidatos
Como abomino o sistema republicano de governo nunca me digno votar nas eleições presidenciais (houve uma excepção, em que votei nulo). O espectáculo é tão degradante que só o desprezo serve de resposta. Nos dois putativos candidatos mais mediáticos há uma característica bem comum: um, contribuiu, e de que maneira, para a alienação de mais de 90% do território nacional, estilo toma-lá, não dês nada em troca; o outro, na euforia dos dinheiros que choviam em barda de Bruxelas, abdicou alegremente de largas áreas de soberania nacional (em alguns casos, como no dossier agrícola, antecipou as datas de abertura de mercados), foi em suma o "bom aluno" que curou apenas de ir assegurando as suas maiorias absolutas. Resumindo: a característica que lhes é comum é obviamente a traição à pátria - de resto dois conceitos que nem lhes devem entrar bem na mioleira.
Publicado por FG Santos às 09:14 AM | Comentários (5)
agosto 09, 2005
Hiroshima
Este postal, o número 500 deste blogue, é dedicado aos martirizados habitantes de Hiroshima e Nagasaki, vítimas do fanatismo democrático americano.
«Poucos dias antes do aniversário do lançamento da bomba, o sr. Tanimoto escreveu, numa carta para um americano, algumas palavras (...): «Que cena confrangedora era a da primeira noite! Perto da meia-noite, desembarquei na margem do rio. Jaziam no chão tantas pessoas feridas que abri caminho passando por cima delas. Repetindo-me: «Desculpe-me», avancei e trouxe comigo uma bacia de água e dei um copo de água a cada um deles. Eles soerguiam-se lentamente e aceitavam o copo de água com uma mesura, bebiam serenamente e, sorvendo a água até à última gota, devolviam o copo com a expressão carinhosa da sua gratidão, e diziam: «Não pude socorrer a minha irmã que ficou enterrada debaixo da casa porque tinha de socorrer minha mãe que sofrera um profundo ferimento num olho, a nossa casa não tardou a incendiar-se, e nós escapámos a custo. Olhe, perdi o meu lar, a minha família e, por fim, eu fiquei gravemente ferido. Mas agora dispus o meu espírito a sacrificar tudo quanto tenho e a levar a guerra ao fim pelo bem-estar do nosso país.» Assim me afiançavam, até mulheres e crianças faziam o mesmo. Totalmente esgotado, deitei-me no chão entre eles, mas não pude dormir nada. Na manhã seguinte encontrei muitos homens e mulheres mortos, a quem dera água na noite anterior. Mas, para minha grande surpresa, nunca ouvi ninguém a gritar, desorientado, mesmo que estivessem a passar por uma grande agonia. Morriam em silêncio, sem nenhuma hesitação, cerrando os dentes a fim de aguentarem. Tudo pela pátria!»
John Hersey, «Hiroshima», Edição Livros do Brasil, colecção Miniatura.
Publicado por FG Santos às 11:30 PM
Nagasaki, 60 anos
Após o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima, os exemplares democratas norte americanos reservaram a mesma sorte a Nagasaki. Cidade com a maior comunidade católica do Japão, terá por isso recebido a sua "paga" por parte do maçon Truman?
Publicado por FG Santos às 11:26 PM | Comentários (2)
Um sonho real
Garanto-vos que o que segue é verdade. Esta noite, sem dúvida com o inconsciente já a pairar na iminente leitura dos blogues amigos que suspendi por uma semana, sonhei que estava com alguns dos autores desses blogues, num pátio, onde também estava o Dr. ACR, que não conheço pessoalmente. No sonho o dito senhor era mais novo uns vinte anos e estava a ser alvo de críticas de alguns dos circunstantes; um destes, que prefiro não designar (apesar de se tratar de um sonho), tinha uma vassoura na mão para varrer o co-autor do “Nacionalismo de Futuro” para fora do pátio. Não sei o que é que os discípulos do Dr. Freud concluiriam deste delirante momento onírico mas creio que estou a precisar de férias não só do trabalho mas também das polémicas blogueiras...
Publicado por FG Santos às 05:50 PM | Comentários (2)
Medo dos elogios?
Em trânsito entre o Algarve e o Alto Minho, ponho a leitura dos blogues minimamente em dia, notando a excelente forma de muitos deles, não se deixando amolecer pelo calor de Verão.
O amigo BOS lamenta-se dos elogios que recebeu por alturas do segundo aniversário do “Nova Frente”, receando sem dúvida assustar leitores mais avessos a encómios provindos de áreas menos “extremistas” (usemos este termo por simplificação e comodismo). Não concordo com ele: a César o que é de César e a BOS os elogios que merece. Além disso, não era o nosso querido Roger Nimier que dizia que ainda haveríamos de ver as “Bagatelles pour un Massacre” do cher Céline serem estudadas nas faculdades israelitas?...
Publicado por FG Santos às 05:42 PM
agosto 02, 2005
Até breve
Despeço-me dos meus amáveis leitores para umas férias longe de casa e de computadores, alheio por três semanas à blogosfera. O meu regresso fica marcado para o próximo dia 22. Não sendo portanto, como o do poeta, um “Último adeus”, aqui vos deixo o poema homónimo de João de Deus, poeta popular sem concessões ao fácil, de emoção à flor da pena, de atenta sensibilidade às coisas simples, verdadeiras e eternas da existência.
Último adeus
Fique em silêncio eterno a minha lira;
Vai, eflúvio de Deus! Deus te bem fade;
Nesta alma em teu lugar fica a saudade,
Se a essência sobrevive à flor que expira.
Dizer-te adeus não pude; quando ocorre
Tal voz ao lábio, o lábio empalidece,
Como a nota da lira nos falece
Ante a Lua que cai, e o Sol que morre;
Ante o sopro que varre o cedro e o vime,
Ante o sublime aspecto do oceano,
Ante a esposa do Mártir sobre-humano,
Ante tudo o que é grande e que é sublime.
Embora: quando a lâmpada crepita,
Já falta de óleo lânguida esvoaça;
A nuvem estala, ruge a onda, e passa...
Guarda silêncio a abóbada infinita.
JOÃO DE DEUS
Publicado por FG Santos às 02:18 PM | Comentários (4)
agosto 01, 2005
A informação televisiva
Catorze anos depois da crónica de Eurico de Barros que a seguir se reproduz, o que é que mudou no panorama audio-visual português? O estado de coisas abaixo denunciado foi elevado à potência n da subserviência perante a ditadura cultural e ideológica vigente.
«O visitante
Já faz parte do folclore. Não devia, mas faz. É uma vergonha, mas é verdade. A televisão nem sequer se preocupa em disfarçar. É uma pena, mas é assim. Quando Jean-Marie Le Pen veio cá, a RTP saiu disparada da órbita normal e não fez informação, fez comício.
A cena voltou a repetir-se. Augusto Pinochet veio a Portugal e a RTP, em vez de fazer o seu dever, fez o que não devia. Em vez de jornalismo, fez campanha. Entre ter sido democraticamente apeado do poder no Chile e viajado até Portugal, Pinochet podia ter-se convertido ao budismo, aberto um orfanato para receber criancinhas do Terceiro Mundo e abraçado a teologia da libertação, que a RTP teria coberto a sua visita e falado dele exactamente da mesma maneira. Como um ogre totalitário, um Gilles de Rais de um povo inteiro.
Pouco importa que Augusto Pinochet tenha procurado, no tempo de Allende, manter-se fiel à legalidade até ao limite do possível; pouco importa que, com o golpe militar, ele tenha salvo o Chile do caos político, da anarquia civil, do salve-se quem puder institucional, do aqui-d’el-rei social e do buraco negro económico, e pouco importa que, depois de ter feito o que julgou por bem fazer, tenha levado a cabo aquilo que, por exemplo, Fidel Castro, o feitor caquético desse «gulag» tropical chamado Cuba, nem sequer consideraria começar a pensar fazer nem num sonho: eleições democráticas. Mas a ignorância (involuntária ou deliberada) da realidade já faz também parte do cenário da informação televisiva em ocasiões destas, como também o faz o barulhento tempo de antena concedido ao loony leftist de estimação da RTP, o sr. Francisco Louçã, que nestas coisas de visitas de «nazi-fascistas» e «ditadores», é mais certo no pequeno ecrã do que a telenovela a rebater o jantar.
Mas a RTP, se não é burra, faz-se muito bem ao título porque, mais dia menos dia, estão aí dois canais de televisão privados, que irão apostar na informação e apresentar-se como concorrentes fortíssimos da tv de Estado nesta área. E, se forem inteligentes, vão fazer exactamente o inverso da RTP quando de acontecimentos como as visitas de Le Pen ou Pinochet. Isto é, informar, esclarecer e analisar com rigor, objectividade e calma. Se assim for, roubar público aos serviços informativos da RTP vai ser mais fácil do que roubar trocos ao ceguinho.»
Eurico de Barros, “Semanário” de 25/5/1991.
Publicado por FG Santos às 12:15 PM | Comentários (3)