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julho 27, 2005

Salazar visto por Adriano Moreira

«Um dos primeiros testemunhos prestados sobre a pessoa e a obra de Salazar, nas semanas que se seguiram à sua morte, foi o do prof. Adriano Moreira, em artigo publicado no Diário de Moçambique, da cidade da Beira, em 2 de Agosto. É esse o texto que a seguir se vai ler e cuja oportunidade — infelizmente para todos nós — o tempo decorrido tornou ainda maior:

De vela ao cadáver de Salazar, fui-me lembrando de muitos acontecimentos relacionados com a vida pública da nossa terra, em que a sua presença foi dominante. E também de alguns relacionados apenas com o seu modo de ser, que marcou o estilo do governo e da administração, e o estilo de uma geração de dirigentes. Dos que o seguiram e dos que o combateram. Todos marcados, na sua intimidade mais funda, pelo homem e pela sua acção.
Recordarei aqui duas imagens persistentes. Numa manhã de domingo, do ano de Angola Mártir, fui visitá-lo ao forte do Estoril. Como cheguei a pé, não tocaram a sineta que habitualmente chamava para abrirem os portões do caminho de acesso dos automóveis. Subi a breve escada que ali existe. Ao fundo do pátio, onde se encontra a capela, as portas desta estavam abertas. De frente para o altar, a sós com Deus, Salazar cuidava da toalha, e das flores e das velas. Pensei que não tinha o direito de surpreender esta intimidade. Regressei vagaroso pelo mesmo caminho. Pedi para tocarem a sineta. Quando voltei a subir a breve escada do pátio, já ele estava sentado na sua velha cadeira, mergulhado nos negócios do Estado. Era a imagem de um homem de fé segura, sabendo que haveria de prestar contas. A brevidade da vida iluminada pelos valores eternos. O poder ao serviço de uma ética que o antecede e transcende.
Acrescento outra imagem desse tempo. Recordo os discursos, as notas, as entrevistas, as declarações, em que sucessivamente definia a doutrina nacional de sempre para a crise da época. Tudo escrito pela sua mão. Mas depois, não obstante a urgência e a autoridade pessoal, tinha a humildade de chamar os colaboradores e, em conjunto, discutir, e emendar. A grandeza natural de quem pode aceitar dos outros, sendo sempre o primeiro.
E assim foi exercendo o seu magistério. Com fé em Deus e recebendo agradecido os ensinamentos do povo. Porque nunca pretendeu sabedoria superior à de entender e executar o projecto nacional. E nunca quis mais do que amar até ao último detalhe a maneira portuguesa de estar no mundo, preservando e acrescentando a herança.
O Ultramar foi a última das suas preocupações maiores. Como se, ao crescer em anos e diminuir em vida, quisesse guardar todas as energias para sublinhar a essência das coisas. Todos os cuidados para a trave mestra. Doendo-se por cada jovem sacrificado. Rezando, e esperando que o sacrifício fosse atendido e recompensado. De joelhos perante Deus e de pé diante dos homens. Humilde com o seu povo, orgulhoso perante o mundo.
Assim viveu, acertando ou com erros, mas sempre autêntico. Com princípios. O único remédio conhecido contra a corrupção do poder. E muito principalmente quando se trata de um poder carismático, como era o seu caso. Um desses homens raros que a fadiga da propaganda não consegue multiplicar. Porque ou as vozes vêm do alto ou não existem. Não há processo de substituir o carisma. Por isso, também, essa luz, que tão raramente se acende, é toda absorvida pelo povo, o único herdeiro. Soma-se ao património geral. Inscreve-se no livro de todos. Pertence à História. Transforma-se em raiz.»

Adriano Moreira

In A Rua, n.º 56, 28.04.1977, pág. 14.

Publicado por FG Santos às julho 27, 2005 10:08 AM

Comentários

Esta visão poética e ternurenta, quase doce e angélica do homem Salazar é tão perigosa como a ignorância do mal (muito) que fez a todos nós. Nem é preciso pensar nos presos políticos ou os filhos de Portugal que perderam a juventude nas colónias mortos e estropiados para servirem um sonho de império que é foi um pesadelo. O homem Salazar teria cumprido melhor a sua missão se tivesse morrido com 19 anos em qualquer pântano da Guiné a chorar pela mãe que o recebeu aos bocados num caixão com areia para fazer o peso do corpo que não vinha lá. Um tristeza salazarenta que atormenta a consciência de todos.

Publicado por: João Sem Medo em julho 27, 2005 02:02 PM

A grandeza do homem avalia-se pela forma como criaturas mesquinhas e indignas, que só sabem chafurdar no lodo, continuam vilmente a atirar-se às canelas. Canalhas sem inescrupulosos e cobardes sem valor, que serviram a Pátria nos botequins de Paris e nos prostíbulos de Estocolmo...

Publicado por: José Sem Medo em julho 27, 2005 03:51 PM

ESTE HOMEM QUE É GOVERNO, NÃO QUERIA SER GOVERNO. FOI DEPUTADO; ASSISTIU A UMA ÚNICA SESSÃO E NUNCA MAIS VOLTOU. FOI MINISTRO; DEMOROU-SE CINCO DIAS, FOI-SE EMBORA E NÃO QUERIA MAIS VOLTAR. O GOVERNO FOI-LHE DADO, NÃO O CONQUISTOU, AO MENOS À MANEIRA CLÁSSICA E BEM NOSSA CONHECIDA: NÃO CONSPIROU, NÃO CHEFIOU NENHUM GRUPO, NÃO MANEJOU A INTRIGA, NÃO VENCEU QUAISQUER ADVERSÁRIOS PELA FORÇA ORGANIZADA OU REVOLUCIONÁRIA. NÃO SE APOIA APARENTEMENTE EM NINGUÉM E DIRIGE-SE AMIÚDE À NAÇÃO, ENTIDADE BASTANTE ABSTRACTA PARA APOIO EFICAZ. TEM TODO O AR DE LHE SER INDIFERENTE ESTAR OU IR; EM TODO O CASO, ESTÁ. ESTÁ E HÁ TANTO TEMPO E TÃO TRANQUILAMENTE COMO SE AMEAÇASSE NUNCA MAIS DEIXAR DE ESTAR. SUPORTA OS TRABALHOS DO GOVÊRNO, SOFRE AS INJUSTIÇAS, OS INSULTOS DOS DESVAIRADOS, OS DESPEITOS, AS RAIVAS DOS IMPOTENTES. VAI ENGOLINDO, DE QUANDO EM QUANDO, A SUA CONTA DE SAPOS VIVOS, COMIDA FORÇADA DE POLÍTICOS, SEGUNDO PRETENDIA CLEMANCEAU. E ESTÁ, E FICA.

Fragmento do auto-retrato de Salazar, que ficou clássico e serviu para consolidar "a imagem do homem que estava com sacrifício, por não sentir ambições pessoais".
Extraído do II volume do livro "Salazar", de Franco Nogueira.

Publicado por: A mim me parece em julho 27, 2005 11:42 PM

Em tempo:

O auto-retrato donde foi tirado este fragmento foi escrito em 1932/33, antes da Constituição ser plebiscitada.

Publicado por: A mim me parece em julho 27, 2005 11:46 PM

Parece nos a nós fácil criticar Salazar, mas eu não vejo nele um fascista, como não vejo em Che guevara um comunista!? O Homem é quase sempre, ou sempre moldado pelas força das circunstâncias. Se criticamos Salazar, então teremos de ser coerentes e criticar Cunhal por exemplo.Porquê? Porque ambos defendiam aquilo em que acreditavam.interessa menos as tendências, as cores, e as linhas políticas do que a vontade das pessoas. O que é engraçado é que só se começou a pôr em causa a guerra colonial (As mortes, os feridos, etc) depois do 25 de Abril???

Publicado por: Coluber Briga em julho 29, 2005 12:47 AM

É engraçado, que ao lêr o texto acima, estando eu neste momento a lêr os DISCURSOS, os 6 volumes, e as ENTREVISTAS, não tive dificuldade em perceber a descrição que é feita pelo Exmo. Sr. Prof. Adriano Moreira. Diria até, que se estivesse omitido o nome do visado, não teria dúvida nenhuma em apontar o nome do Sr. Dr. António de Oliveira Salazar.
No dia em que o texto foi publicado, 27 de Julho, estava eu por terras de Santa Comba Dão em comemoração do 35º aniversário da morte daquele que foi indiscutivelmente, o maior estadista de todos os tempos. O Homem de quem muito se fala e pouca gente está habilitada a falar dele por desconhecimento e por conhecerem dele aquilo que alguns actuais historiadores tendenciosos entendem publicar. É pena, é lamentável que Portugal se envergonhe da sua história, que num período considerável e fundamental para a afirmação como Nação independente, deu até hoje a todos nós, o que de bom ainda resta da nossa educação. Seria bom voltarmos ao tempo em que Deus, a Nação e a Família, eram os pilares sobre os quais assentavam o nosso caminho.
Poderia dizer muito mais, mas tenho dificuldade em qualificar tão ilustre Homem que nos governou.
Estou mesmo crente, que tudo o que já foi dito de bom, e se venha a dizer, pecará por defeito.

(seria interessante, se o Sr. prof. Adriano Moreira nos presenteasse com outros textos sobre o Dr. Oliveira Salazar)

Publicado por: João Gomes em agosto 10, 2005 10:55 PM

A raiva espumante que sentem certos quadrantes por Salazar radica em algo muito simples. E que a abrilada e os abrilinos sao o exacto contrario da obra do estadista e de sua pessoa. Salazar foi homem de genio; foi caracter impoluto; sempre colocou os interesses e direitos de Portugal acima de tudo; garantiu a ordem, o pao, o verdadeiro progresso material e a dignidade do povo portugues; defendeu a soberania e a integridade territorial da Nacao. Nao foi Salazar quem retalhou Portugal, quem entregou os seus pedacos ao comunismo sovietico, quem provocou a morte e a miseria de milhoes em Africa e Timor; quem arruinou a economia, quem comprometeu para sempre a existencia de Portgal como nacao independente. Nao -- Estas maravilhosas "conquistas" ficam por conta dos abrilinos e seus herdeiros.

Publicado por: Marcos de Escobar em agosto 21, 2005 05:05 AM