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julho 11, 2005

O problema islâmico

Não há nada mais ridículo (ou maquiavelicamente demagógico) que ouvir certos analistas (ou mesmo políticos, como Vladimir Putin) declarar que se deve dar caça aos terroristas islâmicos até que se exterminem. Não percebem (ou não querem perceber) que um desses terroristas potenciais pode viver no mesmo prédio que eles, ter uma vida regrada, ser simpático, cívico, bem educado, em resumo: não dar indícios do mínimo potencial terrorista. Mohamed Atta (um dos cérebros do 11 de Setembro) era assim - e muito apreciado era pelos seus vizinhos hamburgueses. A não ser que esses brilhantes analistas queiram enfiar todos os que professam o islamismo (moderados ou não) em campos de concentração...
Parece claro que o combate dos islamistas à conquista do Ocidente assume duas formas: por meio das suas (em alguns casos bem numerosas) comunidades imigrantes, tenta-se ganhar pontos na frente social e cultural, impondo o seu espaço autónomo e por vezes impositivo: é assim que nas escolas francesas as cantinas oferecem alimentação que não ofende os estudantes muçulmanos, tendo a carne de porco saído dos menús.
A outra forma é aquela mais brutal que se manifesta por meio de atentados. A primeira é uma estratégia que visa uma dominação (ou pelo menos um espaço sócio-cultural e mesmo político autónomo dentro de cada país) a longo prazo; a segunda visa claramente objectivos de curto-médio prazo, como seja o fim da participação de certos países em ocupações militares em países islâmicos (inclusivamente quando essa participação se insere em políticas de cooperação com esses mesmos países islâmicos: combate aos extremistas islâmicos nas Filipinas, no Afeganistão, por exemplo).
A solução para ambas as estratégias não é muito evidente, mas terá que passar, no primeiro caso, por uma política de imigração restritiva e com uma estreita monitorização das actividades dos islamistas nos países em causa; no segundo deveria obrigatoriamente passar por um maior respeito pela independência dos países / territórios ocupados, sejam eles a Palestina, o Iraque ou a Chechénia. Em alguns casos, embora lentamente, já se avançou nesse sentido, fosse pelo abandono por parte de Israel de alguns territórios ocupados após 1967 ou 1973 (tendo Ehud Barak dado o “pontapé de saída” com o abandono do Sul do Líbano), fosse pela saída de tropas americanas da Arábia Saudita (presença essa que foi, não se esqueça, um dos primeiros motivos para a cruzada de Bin Laden, dada a “profanação” de alguns dos prinicpais lugares santos do Islão por “infiéis”), “compensada” embora com a invasão do Iraque. Também sabemos que o Iraque e o Irão são ameaças permanentes a Israel e, tal como a Chechénia, peças fundamentais para o abastecimento em petróleo das principais economias mundiais – as tais que pregam cruzadas morais.

Publicado por FG Santos às julho 11, 2005 02:39 PM

Comentários

Meu muito estimado FG Santos:
Este "post" é tão importante que até nem me insurjo contra o anti-benfiquismo que pela sua hábil mão grassou no "Misantropo". Gostaria de acrescentar que, até ao momento, a única revolução islâmica interna com sucesso ocorreu no
país com uma classe média mais próxima das ocidentais - o Irão. E pela mão dos estudantes.
Também pela mão destes chegou o radicalismo ao
poder no Afganistão. Mas aí os serviços secretos
paquistaneses e o dinheiro saudita tiveram a primazia. Além de que se reduziam, nominalmente,
a «estudantes de teologia». Sem significativa correspondência prática, mas enfim.
Quanto ao Putin, eu não daria grande importância
às afirmações. É um óbvio exercício de propaganda
que visa marcar uns pontitos na política externa,
ao meter os tchethenos no mesmo saco do Bin Laden.

Publicado por: Paulo Cunha Porto em julho 11, 2005 07:03 PM