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julho 31, 2005

Nacionalismo e país real

Parece-me que não pode haver amor à Pátria sem amor às suas tradições e às suas gentes. Não amor acrítico – que não passaria de comodismo intelectual -, mas amor pela riqueza cultural que daquelas sobressai: folclore, literatura oral, hábitos ancestrais, convivência com a natureza, gastronomia, crenças (as mais das vezes de uma ingenuidade comovente)...
Tendo as ideologias nacionalistas nascido em meio urbano, há frequentemente entre elas e o “país real” uma distância assinalável: o ideólogo exalta a Nação e as suas gentes mas amiúde ignora aquilo mesmo que acima designei como devendo ser alvo do seu amor.
Daqui pode advir um fosso enorme entre o nacionalista político e o país que diz defender, tal como há um fosso entre os “outros” políticos, constantemente acusados de estarem desligados do país real. O nacionalista repercutiria assim as taras do “establishment”.
Quantos de nós conseguem identificar a origem geográfica de uma peça musical tradicional? Quem sabe o que é a “Capeia Arraiana”? Quem é que, passeando pelos campos, identifica mais que três ou quatro espécies vegetais? (Ainda me lembro do meu querido avó, silvense de gema, quando em viagem pelo Sul profundo, me ir dizendo que árvore era aquela, que pássaro era aquele, ou contar histórias da província que pareciam originárias de um mundo estranho, de modos e hábitos incomuns para um citadino). Quem é que sabe que há Paderne no Algarve e Paderne no Alto Minho? Ou que no Barrocal Algarvio há uma Aldeia de Tor, de nome irresistivelmente nórdico?...
(Um amigo meu, bretão “exilado” em Boulogne-Billancourt, fala com enorme ternura do filme de Jacques Tati “Há Festa na Aldeia”, que mostra uma França rural perdida na voragem do tempo, com hábitos e uma candura que parecem de há séculos.)
Se a tendência das sociedades ocidentais (e não só) é a urbanização quase total das populações, são as tradições destas que se vão perdendo, no aglomerado uniformizador dos modos de vida, das políticas, do consumo. E mais triste ainda quando as ideologias que as deviam defender são também elas cada vez mais uniformes “across Europe”.

Publicado por FG Santos às julho 31, 2005 04:15 PM

Comentários

Bem visto!
Por estas e outras, é certo e sabido que o Integralismo Lusitano foi a corrente nacionalista que, até hoje, melhor corporizou, de facto, a Alma Portuguesa.

Publicado por: Mendo Ramires em julho 31, 2005 04:59 PM

Não sei se o Integralismo Lusitano foi isso, mas a peça é de facto excelente. De pequenos textos se vai alimentando um sentir, que deverá engrossar um caldo, que inevitavelmente deverá entornar.
Sendo Algarvio, mas de Santa Maria de Harun,de que se conta uma lenda lindíssima, sinto a mesma nostalgia em relação a S Brás de Alportel, terra do meu pai, onde por incúria e crime arderam dos melhores sobreiros deste sítio.

Publicado por: Toupeira em agosto 1, 2005 07:36 PM

Muito boa explanação, é real e apenas plausível o nacionaliosmo que ama as raízes e particularidades do país a q serve.No plano de nacionalismo real e q ostenta apego as raìzes Portugal é bem servido pelo salazarismo, o qual identifica a Pátria como indivisível e una em suas diferenças e particularidades.

Publicado por: A.C.J.A. em agosto 2, 2005 06:10 AM