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julho 21, 2005
Exemplo
Um país dito federal em que o Estado federal tem um peso cada vez maior face aos Estados federados; uma democracia que se contenta em funcionar com apenas dois partidos há 200 anos; um sistema de representação que é um convite à corrupção, ao lobbying mais descarado, desprezando-se os interesses das populações; um país militarista, com presença de tropas em todos os continentes, em cerca de 60 países; um país que não está 10 anos sem se envolver directa ou indirectamente numa guerra, assegurando a "dinâmica" da indústria militar; um país que se orgulha da liberdade de expressão que supostamente assegura mas em que os meios de comunicação social estão na mão de poucos investidores, que controlam aquilo que é dito; um país que fala da liberdade mas onde um cidadão não pode sair de casa com a certeza que lá volta são e salvo após um dia de trabalho; um país que fala em valores morais mas que tem estado na vanguarda da dissolução dos mesmos valores; um país que exalta a vida e que, dos ainda não nascidos aos que tiveram o azar de nascer no "país errado", é responsável pela morte diária de centenas e centenas de seres humanos; um país que se constituiu no desprezo pelos nativos que ocupavam o que veio a ser o seu território; um país que se tornou um microcosmos do mundo, numa promiscuidade de povos e raças em tendência crescente de guettização e confronto étnico; um país que é o mais forte do mundo económica e militarmente e que assenta a sua política externa na observância dos interesses, por um lado das grandes multinacionais e, por outro, de um pequeno país de menos de 6 milhões de habitantes situado a milhares de quilómetros das suas fronteiras; um país dotado de condições naturais excepcionais e que, em benefício de umas poucas indústrias, não se coíbe de destruir lentamente esse património natural.
É este país que ainda hoje continua a ser erigido como exemplo a seguir na senda do progresso e da liberdade. O que teria piada não fosse grotescamente trágico.
Publicado por FG Santos às julho 21, 2005 05:51 PM
Comentários
Parabens!
Publicado por: miazuria em julho 21, 2005 07:41 PM
Mais uma vez, FG Santos dispara e acerta na "mouche".
Publicado por: Mendo Ramires em julho 21, 2005 08:17 PM
De facto um belíssimo texto.Ainda assim não posso deixar de fazer um comentário adicional, é para mim ainda mais trágico que nós tenhamos na Europa, por comparação com os EUA, um défice de liberdade de expressão, por muito controlada que seja a imprensa americana ainda assim encontro muito maior variedade de posições por lá, e sobretudo ainda se vai podendo dizer aquilo que por cá é proibido.
Publicado por: Rebatet em julho 21, 2005 09:30 PM
O post é interessantíssimo.
Ao lermos este texto podemos verificar que os EUA (quem mais?!) são a personificação do mal absoluto, um Estado criminoso, um antro de calamidades, o caos total, uma sociedade horrenda e tudo o mais que vem por acréscimo e se pode inferir do texto.
Este texto servirá, estou certo, como um belo prefácio para um livro chamado : 'O Grande Satã'.
No entanto, ao ler estas linhas, levanta-se, inevitavelmente, uma interrogação:
- Se os EUA são este cúmulo de disfuncionalidades e horrores...porque carga de água são a super-potência hegemónica a TODOS os níveis??
É impossível.
Bela interrogação, mas para a qual os críticos e legiões das patrulhas ideológicas da velha Europa que nunca acharam resposta cabal.
Não conseguem sair de argumentações contraditórias que os exasperam ao máximo, pois a realidade desmente isto mesmo. Todos os dias.
É desconcertante para os críticos (e compreendo que seja) que tal país se consiga manter à frente, sabendo que uma sociedade disfuncional nunca se poderia guindar ao 'posto' de super-potência de forma tão prolongada.
E deste raciocínio não conseguem sair, num raciocínio que oscila entre a revolta e a estupefacção.
A Europa (a velha...o que resta dela) comporta-se como uma velha senhora, outrora bela e poderosa, a quem todo o mundo prestava temerosa vassalagem.
Hoje, velha,frágil e tísica, (por DEMÉRITO PRÓPRIO E SUS INTRÍNSECA CULPA) não consegue compreender o facto de já não comandar.
E nem consegue compreender que a culpa do perda do comando é dela própria e não tanto por mérito dos outros.
"É este país que ainda hoje continua a ser erigido como exemplo a seguir na senda do progresso e da liberdade. O que teria piada não fosse grotescamente trágico."
Conhece o caro FG Santos alguma (diga uma, só uma) alternativa credível?
Reitero:
Aquilo que desconcerta vosselências é acharem que os EUA são 'isso' e, sendo 'isso' (oh valha-me Deus) como continuam à frente e relegaram a Europa para 2º plano.
Parece haver europues que nem sequer consideram a hipótese de o 'erro' ser nosso, de que quem está errado somos nós, e que continuam em 'denial' e com enorme vontade do insistir no erro.
Mas, felizmente, a Europa (mais cedo do que tarde) vai mudar de direcção certa e de forma inusitadamente rápida.
Nota: por um momento julguei ter-me enganado e ter ido parar, por acaso, a um qualquer site marxista da linha dura.
Mas logo me dei conta que não, pois nem mesmo nesses sites se chega a apreciações tão devastadoras e arrasadoras.
Há vários raciocínios explícitos e implícitos neste post que me supreenderam muitíssimo, tendo em conta quem os escreveu.
O FG Santos ainda não se conseguiu abstrair da tal busca da sociedade Ideal. Da sociedade 'perfeita', pacífica, do mundo com Estados beneméritos, das 'pombinhas e voar' e isso...
Tal cenário bucólico nunca existiu ao longo da História, por que raio é que haveria de existir precisamente agora?
Publicado por: Nelson Buiça em julho 21, 2005 10:20 PM
Pronto, o FG Santos tocou na "vaca sagrada" do Nelson :)...Ó Nelson você exagera na sua defesa dos EUA, podem ser a super-potência hegemónica a muitos níveis, sobretudo os que estão directamente na dependência do seu poderio militar, mas não são a todos os níveis.Ao contrário do que afirma a nossa blogosfera dita libertária, que mais não faz que debitar tretas do Café Hayek ou do Mises.org e entreter-se em discussões sobre quem conhece Rothbard melhor, os EUA apresentam indicadores socio-económicos piores que alguns países europeus.E não, não é uma conspiração da ONU contra o "american way of life".
Publicado por: Rebatet em julho 21, 2005 10:40 PM
Ah... e olhe que eu nem gosto da ONU e até simpatizo com algumas posições libertárias, não com os princípios normativos que as envolvem mas isso é outra história.
Publicado por: Rebatet em julho 21, 2005 10:43 PM
"Ó Nelson você exagera na sua defesa dos EUA..."
Não Rebatet, não estou minimamente a defender os EUA.
Estou simplesmente a criticar a Europa, que bem merece e, sobretudo, precisa.
Publicado por: Nelson Buiça em julho 21, 2005 10:43 PM
"... eu nem gosto da ONU e até simpatizo com algumas posições libertárias"
Eu também antipatizo com a ONU a simpatizo com certas posições libertárias.
Quanto à ONU, não se preocupa. Tem os dias contados. Vão ser exactamente os EUA a eliminá-la ou esvaziá-la totalmente.
Quanto às posições libertárias....a seu tempo, a seu tempo. O caminho faz-se caminhando, lentamente, mas com firmeza.
Publicado por: Nelson Buiça em julho 21, 2005 10:47 PM
Bom, note o seguinte, eu não sou um libertário, atenção, eu simpatizo com algumas posições libertárias mas sempre subjugadas ao meu pensamento político, que é nacionalista.Repare que ao pé dos "puristas" do pensamento libertário eu serei considerado um socialista ao passo que por alguns sectores socialistas do nacionalismo serei considerado um liberal.Eu acho que o nacionalismo pode beneficiar do pensamento liberal(em termos económicos entenda-se),defendo a economia de mercado e quero um Estado menos interventivo mas ainda assim considero que existem sectores estratégicos onde o Estado deve intervir, esta lógica está submetida àquilo que penso ser o interesse do nacionalismo.
Um libertário quer um Estado minimalista, tendencialmente inexistente, e o único princípio valorativo que conta é o da liberdade individual por si, isto obviamente não me diz nada.Agora eu defendo a descentralização do poder, defendo um Estado pequeno e que legisle o mínimo possível e sobretudo que não interfira na minha liberdade de expressão. Eu gosto de Adam Smith mas também me lembro que ele escreveu "The theory of moral sentiments" que é uma obra que os que se dizem herdeiros do liberalismo clássico e de Smith parecem gostar de ignorar, eu gosto do Maurice Allais,de Ricardo mas também de Keynes, isto é, considero-me liberal, mas não embarco nos devaneios libertários de alguns fiéis da escola austríaca que aliás chegaram ao ponto de insinuar que o Friedamn seria socialista, veja lá, julgo que por causa das propostas dele para os cheques educativos.Lembro o Nelson que ,por exemplo, nos EUA, o partido libertário tem propostas que para mim são absolutamente inaceitávies, como a abertura total das fronteiras para "rebentar" com o Estado Social.Os libertários defendem a livre circulação de pessoas sem restrições algumas,eu não,eles defendem o comércio totalmente livre,eu, por exemplo, acho que existe necessidade de algum proteccionismo comercial,enfim, acho que percebe o meu ponto.
A questão de fundo é esta, eu não sei até que ponto o Nelson é um libertário, porque eu lembro-me do tal programa de governo que escreveu e uma grande parte do dito programa eu subscreveria, calhando o Nelson até é menos libertário do que se pensa, pelo menos já tenho visto posições suas que não são libertárias.
Publicado por: Rebatet em julho 21, 2005 11:35 PM
Não sou totalmente libertário.Não poderia.
Não acredito em ideologias 'servidas' a 100%.
Os purismos dão (deram) mau resultado, pois é sempre necessário ajustar as doutrinas às sociedades.
No meu caso, defendo um Estado minimalista, com intervenção selectiva em vez da chachada socilista de 'intervenção-em-tudo-quanto-é-sítio'.
Minimalista mas musculado, pois uma das incumbências fundamentais do Estado são a manutenção dos aparelhos militar-policial-judicial com eficiência.
É claro que as fronteiras não podem estar escancaradas. Pelo contrário.
Publicado por: Nelson Buiça em julho 22, 2005 12:26 AM
"...é para mim ainda mais trágico que nós tenhamos na Europa, por comparação com os EUA, um défice de liberdade de expressão, por muito controlada que seja a imprensa americana ainda assim encontro muito maior variedade de posições por lá, e sobretudo ainda se vai podendo dizer aquilo que por cá é proibido."
O Rebatet a por os pontos nos ii
Publicado por: Nelson Buiça em julho 22, 2005 12:46 AM
O Nelson não percebeu minimamente onde é que eu queria chegar. Eu em parte alguma do texto fiz comparações entre os EUA e a Europa (e logo eu, eurocéptico militante). Limitei-me a pegar nos princípios que supostamente norteiam a actuação dos EUA para que ficasse claro que a sua prática em nada condiz com aqueles; eu nem sequer critiquei os tais princípios, apenas frisei que não são respeitados por quem os proclama.
Se o fossem o Nelson tinha a mesma posição, enfim, façam o que façam os EUA o nosso liberal de serviço concorda sempre. Tal como diz adorar Rothbard e ao mesmo tempo é entusiasta das guerras preventivas; se alguma vez leu a teoria de Rothbard sobre em que condições um país deve declarar guerra a outro não encontraria UMA semelhança com a doutrina Bush. Não é recorrendo à K7 de que os extremistas de ambos os lados têm a mesma visão dos EUA, não é gozando com os seus críticos, que passa a ter razão.
Já agora, para ser coerente, palavra que fugiu do seu dicionário, ponha uma foto do Rush Limbaugh no "banner" do seu tasco.
Publicado por: FG Santos em julho 22, 2005 10:34 AM
Caro Rebatet, dado que falou em Smith, sugiro a leitura de dois postais por mim escritos em Fevereiro deste ano:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2005/02/adam_smith.html
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2005/02/mais_sobre_adam.html
Publicado por: FG Santos em julho 22, 2005 10:42 AM
!Bingo!
Excelente. Parabens.
Publicado por: Rafael Castela Santos em julho 22, 2005 11:57 AM
Um belíssimo retrato da Yanquilândia, como diria Leonardo Castellani. De bom mesmo, os EUA só têm a liberdade de expressão.
Publicado por: JSarto em julho 22, 2005 12:38 PM
Bom debate entre o Nelson e o Rebatet.
E bem verdade, no capitulo da liberdade de expressao os Estados Unidos sao mais coerentes.
Ate quando?
Por favor, continuem...
Saudacoes
Publicado por: miazuria em julho 22, 2005 01:56 PM