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julho 13, 2005

Brandos Costumes

Anteontem enchi-me de coragem para o que encarei como uma sessão de uma hora e um quarto de puro masoquismo. Trinta anos após a sua estreia, ia finalmente visionar o famoso filme “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos.
Filmado em 1972 e 1973, o filme seria certamente cortado de fio a pavio pela censura mas o advento do 25/4 permitiu a sua estreia intacto, beneficiando até de um maior acesso a imagens de arquivo, que aparecem frequentemente ao longo da película.
Sabia que o filme pretendia ser uma sátira ao salazarismo, ao gosto das análises da época. Curiosamente, acaba por se ver relativamente bem.
O centro da intriga é uma família da média burguesia:
- o pai, austero, representa o republicano anti-clerical mas amante da ordem; o filme mostra-o relativamente acomodado à realidade do Estado Novo;
- a sua mãe representa a memória da Monarquia; o filme caracteriza-a como representante de um época já distante; é bastante mal tratada pela nora;
- esta, ao contrário do marido, é bastante devota;
- tal como a filha mais velha, que representa a solteirona frustrada e que se agarra à religião;
- a filha mais velha é o símbolo do futuro (!): revoltada, inconformada com o sistema e amiga de subversivos de café.
Perante este quadro não seria de esperar muito do filme, a não ser uma amostra de cinema “engagé” e extremamente datado.
Mas a realização, feita ao ralenti, é hábil e a montagem inteligente; algumas cenas acabam por ser cómicas contra a vontade do realizador, pois de tão caricaturais só podem fazer rir.
O melhor do filme aqui para este vosso amigo reaça são as imagens de época, que constituem talvez um quarto do tempo total da fita. Podemos assim (re)ver o famoso discurso de Salazar, em Braga, nos dez anos da Revolução de Maio; as grandes marés humanas no Terreiro do Paço, para ouvir o ditador; a cerimónia de inaguração do Estádio Nacional, com as belíssimas coreografias filmadas por António Lopes Ribeiro (*), com as bandeiras da Mocidade Portuguesa a adejar ao vento em planos épicos; e até um excerto de “Chaimite”, o famoso filme de Jorge Brum do Canto dedicado à gesta de Mouzinho (impressionante a cena da captura do Gungunhana, com os dois homens a olharem-se fixamente, até que o régulo desvia o olhar para o chão, em sinal de derrota inelutável). Lamentáveis são os longos momentos de um plano fixo de Salazar já cadáver, tão longos como cruéis.
O final do filme é também caricato: a família começa a ouvir um ruído vindo da rua; são os soldados que trazem a Revolução triunfante; o pai cai logo da cadeira (que imaginação!); a mãe e a filha mais velha, num esgar de desespero, parecem pressentir o desmoronar de um mundo; a filha mais nova, que começara instantes antes a ler o famoso (como sinistro) início do “Manifesto do Partido Comunista”, «A História da sociedade até aqui é a história da luta de classes», repete-o incessantemente; vão-se ouvindo vozes em fundo, num crescendo imparável, a repetir a mesma frase. Estava dado o mote para o Verão Quente…

(*) Este excelente documentário está disponível no mercado como extra no DVD de “A Menina da Rádio”, o filme de Arthur Duarte.

Publicado por FG Santos às julho 13, 2005 12:14 PM

Comentários

O FGSantos tem agora de ver o "Imperador das Berlengas"...

Publicado por: JSarto em julho 14, 2005 10:20 AM