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julho 16, 2005

Actualidade do pensamento do Rei D. Pedro V (II)

Há já alguns meses que publiquei um postal com reflexões do Rei D. Pedro V, tendo o mesmo suscitado o interesse e mesmo entusiasmo de alguns leitores. No seu blogue, prometi ao estimado JM que voltaria a reproduzir mais reflexões do infortunado esposo de D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen. Penitencio-me desta demora perante o fiel leitor boavisteiro e monárquico, com a certeza de que o que se segue não deixará de espantar pela sua actualidade.
Retomando então a obra de Augusto Reis Machado, “O Pensamento do Rei D. Pedro V” (Livraria Avelar Machado, Lisboa, 1941), do capítulo “Pensamento Político e Social” leiamos então o que o jovem soberano tinha a dizer sobre

«GOVERNANTES E GOVERNADOS

Os olhos já vão rompendo a núvem de poeira que se tem levantado diante deles; e o povo algum dia declarar-se-á solenemente contra o escárnio que há 20 anos todos os governos em Portugal dele têm feito. E fatal e tremendo será esse desagravo. Ainda é tempo de remediá-lo, mas não há tempo a perder.
Infelizmente, na nossa terra, conserva-se demasiadamente a lembrança da desordem e dos maus costumes, porque há cinquenta anos que Portugal está sem Governo, verdade que parece um pouco dura, e talvez mesmo que um pouco exagerada, mas que nem por isso deixa de ser uma verdade. Há cinquenta anos que não há autoridade, e que as coisas conservam um resto de ordem que vem do movimento imprimido pelas tradições, que não se podem destruir, e que o acaso, graças a Deus, tem querido prolongar até que as circunstâncias permitam restabelecer as coisas nos seus eixos, e fazer funcionar regularmente o mecanismo constitucional, que por falta de engenheiros, está muitíssimo deteriorado... É preciso um engenheiro hábil, quer ele se chame Rei ou Presidente, Assembleia Nacional ou Governo, porque seja qual for a forma de Governo para ele durar é preciso que governe uma pessoa moral.
Se os governos quiserem hoje ser úteis à sociedade, se eles não quiserem adiantar a época do terrível cataclismo que espera um estado de coisas factício em que o dolo e imoralidade e o ludíbrio do povo ocupa uma parte tão considerável, eles terão que olhar mais pelo povo que padecia em silêncio sem se queixar porque já nem mesmo se sabe queixar.
Para Portugal o mesmo sono forçado dura ainda e as imoralidades dos homens públicos contribuem para o prolongar. Nada há mais fatal que o cepticismo do povo.»

Publicado por FG Santos às julho 16, 2005 11:26 PM

Comentários

Meu caro amigo, agradeço-lhe a atenção e o texto, o qual, com a sua devida autorização, muito gostaria de reproduzir no meu blogue. Receba os meus cumprimentos.

Publicado por: O Velho da Montanha em julho 18, 2005 06:19 PM

Caro amigo, disponha sempre.

Publicado por: FG Santos em julho 18, 2005 07:15 PM

D. Pedro V é um rei que fascina pela sua vasta cultura e profunda sensibilidade. A correspondência com o Tio Preferido - Rei consorte de Inglaterra, Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha, marido da Raínha Vitória - merece, também, especial atenção. Foi mais um daquele génios que Deus quis levar cedo...

Publicado por: Mendo Ramires em julho 20, 2005 03:17 PM