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julho 27, 2005

27 de Julho de 1970 - 27 de Julho de 2005

Não é muito fácil para um monárquico convicto elogiar Salazar sem "mas". Estes "mas" prendem-se com a "irreversibilidade" da República, na prática consagrada pelo ditador (ao mesmo tempo que ia acalentando alguma esperança de restauração monárquica); com a centralização excessiva de que a sua admnistração deu provas; com os excessos da polícia política, que ainda por cima tiveram o condão de serem contraproducentes, aumentando o espírito de resistência dos oposicionistas, em particular dos comunistas. Podia também falar do condicionamento industrial, da situação social nos campos, etc., etc.
Mas, sem esquecer o que acima vai escrito, quero também saudar o espírito de dedicação à Nação de que deu provas bastas; a intransigência no que à independência nacional diz respeito; a restauração da credibilidade do país após anos de anarquia republicana; o reequilíbrio financeiro; os grandes programas de obras públicas; a exaltação daquilo a que chamava as grandes certezas: Deus, Pátria, Família, Trabalho; o travão dado a tendências ideológicas mais exaltadas que, se por um lado podiam ter contribuído para que os "mas" que apontei acima fossem menos numerosos, teriam certamente arrastado o nosso país para um conflito mundial de que o Presidente do Conselho sabiamente nos afastou.
Muito mais se deveria dizer nesta data. Como em tudo o que à História da nossa Pátria se refere, que tenhamos orgulho no que de bom foi feito, sem complexos de reconhecer o que de menos bom ocorre sempre.
Que persista, embora actualmente num núcleo cada vez mais restrito de pessoas, o amor à Pátria, o reconhecimento pelas glórias que grandes vultos lhe proporcionaram, o espírito de independência e o respeito pelas verdadeiras tradições.

Publicado por FG Santos às julho 27, 2005 09:38 AM

Comentários

O azar da Monarquia Portuguesa foi o facto de Salazar, pese a sua enorme estatura política - e mesmo patriótica - não passar de um provinciano de Santa Comba Dão, com todos os traumas que isso pôde ter sobre um conceito monárquico. Traçando um paralelo, Franco era um aristocrata que desde inicio trabalhou para a restauração da Monarquia em Espanha. Salazar, no que respeita à Monarquia, apenas a tolerou através da velha Causa Monárquica, dado que a mesma era completamente inóqua e subserviente ao regime. Enfim... Azares!

Publicado por: O Velho da Montanha em julho 27, 2005 10:24 AM

Bom balanço. Notável de um ponto de vista de política pura, as falhas de Salazar, recordando-nos que nenhum regime político humano é perfeito, ocorreram essencialmente ao nível do social: para além das que o meu amigo FGSantos enuncia, poderíamos ainda deplorar o facto de a generalidade da população portuguesa durante esse período não ter conseguido aceder a mais do que um nível de instrução puramente básico, ou a certos abusos lastimáveis sofridos por parte de alguma população nativa dos territórios ultramarinos africanos, antes dos anos 60, e sobre a qual tinhamos uma missão civilizacional nem sempre bem cumprida... Pior, porém, terá sido Salazar não se ter conseguido desprender completamente dos resquícios de um certo espírito proveniente da I República, e não ter impedido que mesmo o seu Estado Novo fosse influenciado por alguns fumos dos "filhos da viúva"...

Todavia, neste género de análises não podemos jamais olvidar o País que o então Presidente do Conselho recebeu - uma massa falida miserável, fruto do desastre que foram o século XIX e o primeiro quartel do século XX portugueses -, bem como a muito adversa conjuntura internacional em que o Estado Novo se movimentou, sobretudo no período da sua implantação - os anos 30 da crise mundial, seguidos pela II Grande Guerra -, factos que se repercutem de sobremaneira na conjuntura interna e cujos efeitos habitualmente, por ignorância ou má fé, costumam ser atribuídos exclusivamente à responsabilidade do mesmo Salazar.

Publicado por: JSarto em julho 27, 2005 10:31 AM

"poderíamos ainda deplorar o facto de a generalidade da população portuguesa durante esse período não ter conseguido aceder a mais do que um nível de instrução puramente básico"

Levanto o nosso amigo JSarto pertinente questão: a meu ver, o que é de lamentar é que efectivamente muitos não tenham tido acesso à instrução primária, que por si só valia mais do que qualquer licenciatura dos tempos correntes. As várias pessoas que conheço e que não avançaram para além da antiga quarta classe não sabem menos - antes pelo contrário - do que 90% dos MBA's que por aí andam...

Publicado por: pedro guedes em julho 27, 2005 05:22 PM

Essa falta de instrução repercute-se ainda hoje nos níveis da formação, cultura e competitividae nacionais.
É claro que as responsabilidades não podem só ser assacadas ao Estado Novo.
Nestes 31 anos a política educativa, mau grado alguns progressos, não tem primado pela qualidade e fizeram-se asneiras incríveis, como a nefasta quase extinção das Escolas Industrias e Politécnicas logo após o 25 do 4, privando assim o país de quadros médios qualificados.

Os resultados de TUDO isto: estão à vista de todos.

Publicado por: Nelson Buiça em julho 27, 2005 05:59 PM

Cá terei eu de vir defender o velho António das reservas que os meus Queridos Amigos lhe opõem.
Lembrem-se que o Estado Novo era um regime dirigido por uma coligação heteróclita. São vários
os passos em que o Presidente do Conselho se queixa de que o exército não quer a restauração.
Mesmo assim, ainda foi avançando nesse campo: revogação das leis do banimento, educação do Príncipe e perservação dos bens da Casa de Bragança, através da solução intermédia da Fundação, convocação do famoso Conselho, após a morte de Carmona, em que só Cancela d`Abreu e Mário de Figueiredo defenderam o regresso do Rei.
Depois parou; mas com a guerra de África, certamente pensou que qualquer Monarca alçado ao Trono seria para derrubar quando outros viessem e
o ultramar cedessem. Já se tinha passado por isso...
Quanto ao problema educativo, se o Amigo Sarto tem
razão e o Pedro Guedes a não tem menos, já que só
aparentemente se poderia detectar incompatibilidade entre as duas opiniões, é preciso ver qual o ponto de partida. Quando S. chegou ao poder havia 80% de analfabetos. Quando saiu, cerca de 20%. E entretanto a população duplicou. Harold Bloom é que, com todo o seu peso,
destruiu a versão da pretensa política de fomento da ignorância, posta a correr por Mme. Simone de Beauvoir. Tudo isso pode ser encontrado em «A Cultura Inculta». Claro que, com tal panorama, a prioridade tinha de ser ensinar a ler, escrever e contar. Hoje fazem-se mal as três coisas; e em matéria de conhecimentos gerais estamos conversados..

Publicado por: Paulo Cunha Porto em julho 27, 2005 06:28 PM

Es increible la cantidad de paralelos que existen entre Franco y Salazar. Ambos cometieron el mismo error, impropio de politicos catolicos: no trabar mas la sociedad y el Estado en torno al principio de subsidiariedad. En el caso de Franco algo hizo con los Sindicatos verticales, pero fue insuficiente. Las regiones y, mas aun, los municipios tienen una esfera y una competencia que les son propias y que actuan contrapesando el poder central estatal. Franco fallo en esto.
Respecto al tema educativo Franco hizo la Universidad disponible para la gran masa, pero con ello diluyo mucho la calidad de la educacion superior en Espana en los anos sesenta. A las quejas de FG Santos y de JSarto sobre la educacion en Portugal en el regimen de Salazar el contrapunto de Pedro Guedes viene de maravilla porque es asi: la educacion secundaria de aquellos anos era mejor que la universitaria de nuestros dias.
Se prueba que esta cibertertulia entre FG Santos, JSarto, Pedro Guedes y Paulo Cunha Porto arroja luz sobre lo bueno y lo malo de aquel regimen sin tapujos y sin intereses de ningun tipo salvo servir a la verdad. Una prueba mas de que los blogs son de los pocos espacios de libertad e informacion "privilegiada" de que uno dispone.

Publicado por: Rafael Castela Santos em julho 28, 2005 01:55 PM