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junho 30, 2005

A lírica de Garrett

O estimado Paulo Cunha Porto, autor de um dos meus blogues preferidos, “O Misantropo Enjaulado”, fez um postal sobre Garrett, manifestando que pouco aprecia a obra daquele que é para mim um dos grandes vultos das letras de Portugal de todos os tempos. Ao Paulo dedico o texto abaixo, que descreve o famoso episódio em que Herculano pôs pela primeira vez a vista em cima de “As Folhas Caidas”.

«Esta obra [“As Folhas Caídas”] escreveu-a Garrett já no declinar da vida. Esteve-lhe na origem a paixão louca do poeta, já então com 54 anos, por Rosa Montufar Infante. Lisboa inteira conhecia e comentava aqueles amores. E quando Garrett deu à estampa os versos da sua paixão, fez aquilo a que poderíamos chamar um strip-tease sentimental.
Mas os versos eram sublimes, e Gomes de Amorim conta-nos a reacção de Herculano quando viu, sobre o balcão da Livraria Bertrand, as provas do livro:
«- Ainda há quem faça disto em Portugal?» - perguntou desdenhoso.
Mas começou a ler. E não parou mais.
«- De quem diabo é isto? Não há senão um homem em Portugal capaz de fazer tais versos. São do Garrett?»
Claro que eram do Garrett. Mas o editor quis saber a opinião do oráculo e arriscou a pergunta: «Que lhe parece?» E o historiador, peremptório, respondeu:
«- Penso que, se Camões fizesse versos de amor na idade em que está Garrett, não era capaz de o igualar. São belíssimos! Aquele diabo não pode com o talento que Deus lhe deu.»

J. Tomaz Ferreira, prefácio de “Viagens na Minha Terra”, Europa-América, 5.ª edição

Publicado por FG Santos às junho 30, 2005 10:05 PM