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junho 23, 2005

O ensino do Português

A leitura do excelente texto do BOS "O Ensino do Português" fez-me recordar os tempos em que estudei a nossa bela língua no liceu.
Se, de facto, o ensino de sujeito-predicado-complemento directo (parece que este hoje se chama "grupo móvel"!?) rigidifica um pouco a construção das frases, por outro ajuda o jovem aluno a estruturar as mesmas, tendo um inegável valor pedagógico. Depois, se ele tiver propensão e interesse para as línguas, tratará de alargar os seus horizontes e não se limitar ao "certinho".
No meu tempo (fiz o 9.º ano em 1984), era obrigatório ler "Os Lusíadas", "Os Maias", as "Viagens na minha Terra". Lembro-me que para a "gajada" eram todos uma seca, como diria o Jacinto da "Cidade e as Serras"... Eram uma obrigação quase tão penosa como perceber a fórmula resolvente ou a lei do anulamento do produto!
Mas aqui entra outro factor, que estudos sucessivos confirmam como fundamental para o sucesso escolar e que na verdade é puro senso comum: o background familiar é muito importante não só para o dito sucesso como para o interesse intelectual, a curiosidade, a pesquisa dos jovens. Ter bons livros em casa, ser estimulado a ler, a interessar-se, é melhor, convenhamos, que não ter à volta mais que o "24 horas" (antigamente dir-se-ia o "Reader's Digest" - até a este nível regredimos!) ou os programas rascas da TVI...
No meu caso particular, nunca precisei de uma professora de português decente (embora ajudasse!) para me interessar pela literatura, de tal forma que os livros que eram apenas recomendados e que portanto não eram alvo de avaliação - comprava-os e lia-os todos. Foi assim que conheci Branquinho da Fonseca, por exemplo (com a sua "Bandeira Negra"), ou Júlio Dinis (com a "Morgadinha").
Quanto ao pobre Luís Vaz, não deixa de ser fundamental compreender a estrutura dos cantos (que certo ex-PM da afeição do Buíça não sabia quantos eram), as partes em que se compõe a obra (Invocação, Dedicatória, etc.) e o número de sílabas por verso, cuja regularidade matemática impressionava deveras a rapaziada.
Não conheço o nível actual dos "setôres" de Português mas uma coisa é certa: a qualidade da língua falada e escrita nos media, pelos próprios políticos, é assustadora. Certas palavras que sempre soube como se escrevem agora suscitam-me dúvidas... E qual de vós não se exaspera quando fala com alguém que não faz uma frase sem um "pronto" ou um execrável "é assim"?
Também aqui, no ensino e no trato do Português, se assassina uma identidade.

Publicado por FG Santos às junho 23, 2005 05:48 PM

Comentários

«Eram uma obrigação quase tão penosa como perceber a fórmula resolvente ou a lei do anulamento do produto!»

Penoso? Qual quê...

Fórmula Resolvente (essencial para resolver equações de segundo grau):

b±√b^2-4ac
--------------
2a

Lei do anulamento do produto (das regras mais básicas e lógicas da matemática):

a(b+x)=0
a=0 V b+x=0
a=0 V x=-b

Não tem nada que saber! :D

Publicado por: Viriato em junho 23, 2005 10:08 PM