« O 28 de Maio visto por Manuel Maria Múrias | Entrada | Suzanne Bardèche (1910-2005) »

maio 27, 2005

O 28 de Maio, 79 anos depois (II)

Uma das características mais notórias da I República foi o seu anticlericalismo.

«Afonso Costa começou a campanha [em 1911] com uma série de declarações destinadas a chocar a consciência católica. Chamou ao Papa «coveiro da religião»; esclareceu que a religião não resistiria ao assalto da «verdade científica» e que fora usada para «sustentar as mais flagrantes desigualdades sociais»: e parece que até prometeu livrar o país dessa peste medieval «em duas gerações». Depois das ameaças vieram os actos. Em Outubro desenterrou a velha legislação anticlerical do Marquês e do «Mata-Frades» (Joaquim António de Aguiar) e serviu-se dela para expulsar as ordens religiosas e confiscar os respectivos bens. Em Novembro legalizou o divórcio em termos de grande liberalidade (...). De Outubro a Dezembro aboliu também os feriados religiosos (excepto o Natal, que passou a chamar-se, mais laica e republicanamente, «Dia da Família»), os juramentos religiosos nos tribunais e outras fórmulas legalmente consagradas em que se mencionava por tradição, tirania ou descuido o abominável nome de Deus. (...)
O terror principiou no fim de Dezembro de 1910 e cresceu em intensidade até Janeiro de 1913. Depois da revolução, os militantes [do PRP] haviam passado dois meses de inquieta ociosidade, entregues a purificar a sociedade portuguesa dos seus ornamentos monárquicos e religiosos. Calorosamente aplaudidos pelo [jornal] “Mundo” e amargamente criticados pela imprensa moderada, tinham destruído ou retirado brasões, coroas, cruzes, Cristos e santos (com ou sem valor artístico) de edifícios públicos, ruas, praças, parques, igrejas e cemitérios. Também as palavras tinham constituído uma preocupação. (...) Um padre do Porto, por exemplo, meteu-se num enorme sarilho por se ter referido num sermão ao «rei dos animais», expressão que, evidentemente, implicava que as bestas rejeitavam o sistema republicano de governo.»

Vasco Pulido Valente, “O Poder e o Povo” (capítulo 5), Gradiva, 1999.

Publicado por FG Santos às maio 27, 2005 11:53 PM