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maio 27, 2005
O 28 de Maio, 79 anos depois (I)
Uma das características dos críticos do regime que se edificou após a Revolução de 28 de Maio de 1926 é o silêncio sobre os anos que o antecederam, como se se tivessem passado na maior tranquilidade democrática, no normal funcionamento das instituições e no meio do desenvolvimento económico e social. Neste aniversário dos 79 anos do 28 de Maio vai este blogue publicar alguns postais que mostram o caos económico, social, administrativo, ético que representaram os 16 anos de República “Democrática”.
Começamos por um episódio elucidativo daquilo a que na altura ainda se não chamava a “cunha”.
«Que se pensou em fazer quando se viu a República estabilizada? Uma administração nova e uma reconstrução do petrechal de trabalho do País? Uma voz o gritou no novo parlamento, com impudor:
Nós também queremos comer!
E comeram em lauta boda! Prova que não deverá ser esquecida, é que
num só número do Diário do Governo se nomearam 17.000 funcionários públicos.
Esse Diário do Governo é um exemplo do critério que presidia à vida pública do poder (...).
Entre esses trinta suplementos [do Diário do Governo de 10 de Maio de 1919], um merece referência especial: o n.º18. Principia ele com a página 1346. E depois?
Depois segue-se a página 1346-A, 1346-B, 1346-C e assim por diante até ao fim do alfabeto.
Acabaram-se as letras do alfabeto. Acabou o suplemento n.º18? Não, senhores. Continua:
1346-AA, 1346-BB, 1346-CC e assim por diante até ao fim do alfabeto geminado.
E findou aqui o suplemento? Continuou:
1346-AAA, 1346-BBB, 1346-CCC. Depois 1346-AAAA, 1346-AAAAA e assim sucessivamente.
Mas já não havia lugar para todas as letras apostas aos algarismos. Não cabiam no alto da página. E adoptou-se sistema especial, afim de poder continuar a paginação. Em vez de 1346-AAAAAA, escreveu-se 1346-6A.
E depois 1346-7A. E depois 1346-8A, 1346-9A até esgotar o alfabeto. E por fim veio 1346-10A. Por fim 1346-10C.
Com isto findou a fadigosa jornada desta paginação extraordinária. Aquele 1346-10C correspondia a este número:
1346-CCCCCCCCCC!
Aquela voz que regougara no parlamento: - «Nós também queremos comer!» fora obedecida.
Assim se nomearam cerca de 17.000 funcionários públicos novos, sem se curar das suas aptidões, nem da possibilidade de os instalar em qualquer serviço do Estado. Urgia arranjar onde os meter. Como? Despedindo velhos e novos que por qualquer forma pudessem ser apontados como pouco fervorosos na lealdade ao regime. Para isso se ordenou uma devassa colossal. Por esse motivo muitos servidores do Estado perderam o pão. Não se acusavam nem se julgavam. Eram demitidos, poque assim o exigia a necessidade de colocar todos os novos funcionários. Mesmo assim não foi possível arranjar lugar para todos. E durante largo tempo foi assunto de comentários não só a incompetência de numerosos funcionários, a quem só se exigira o atestado de “bom republicano”, mas a falta de carteira e até de repartição onde trabalhassem.»
“O que eles fizeram... O que nós fizemos...”, Cadernos da Revolução Nacional, Edições SNI, Novembro de 1945, pp. 9-11.
Publicado por FG Santos às maio 27, 2005 04:20 PM
Comentários
Tem razão quando critica a bandalheira da I República mas............
5 de Outubro, 28 de maio e 25 de Abril.
Eis três datas nefastas, que supostamente se 'contradizem', mas que estão íntimamente ligadas por uma relação causal.
São três datas NEGRAS, VERGONHOSAS E NEFASTAS.
Se tentarmos imaginar o que seria Portugal hoje se nestas 3 datas nada se tivesse passado.......verificamos que Portugal seria hoje, muito provavelmente, um país INFINITAMENTE MELHOR.
Três, Tristes datas!
Enfim, uma merda.....
Publicado por: Nelson Buiça em maio 27, 2005 06:40 PM