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maio 18, 2005
Morte e presença de Luís de Almeida Braga
Sentida homenagem de Amândio César ao mestre integralista, aqui homenageado:
MORTE E PRESENÇA DE LUÍS DE ALMEIDA BRAGA
Estamos todos demasiado perto da morte de Luís de Almeida Braga para que tenhamos a noção exacta da sua presença, numa obra de doutrinação política que, a poucos dias do seu passamento, ainda se apresenta activa no volume Espada ao Sol. Por isso mesmo não façamos juízos de valor definitivos, nem julguemos o Homem por aquele conjunto de atitudes que não passaram de circunstanciais, trocando se pelo que, de seu ideário, afunda nas raízes de um pensamento, político tradicionalista de que foi revigorante trabalhador e brilhante divulgador, num mestrado de inteligência de que nunca abdicou. Por mim farei o possível por não me afastar desta linha de conduta, mormente tendo em conta que devo à memória de Luís de Almeida Braga este respeito. Pois até aos seus derradeiros dias de cidadão bracarense ele me deu a honra de frequentar o seu escritório e a sua livraria, num momento em que — desviado dos utentes e manuseadores do poder — todos se afastavam do escritório do Campo da Vinha... não fosse essa visita comprometê los! Não fiz parte dessa turma de eunucos e por isso convivi com sua alta inteligência e cultura bem como à sua amizade e espírito de compreensão devo a leitura de volumes que Luís de Almeida Braga me facilitou, na impossibilidade de eu próprio os obter no mercado. E o mestre integralista sabia que eu era monárquico, tradicionalista e católico mas não integralista; sabia que eu não sacrificava ao poder reinante no burgo arquiepiscopal, reflexo de poderes mais altos e de protecções bem conhecidas, embora tivesse, como tenho, uma profunda admiração pela criadora inteligência política do Professor Doutor António de Oliveira Salazar. E ele sabia o. Como sabia da minha profunda admiração — discípulo, que não me canso de o ser e de afirmar que continuo sendo, — de Alfredo Pimenta, meu único mestre de pensamento e de comportamento político. Todas estas circunstâncias não impediam ou obscureciam uma amizade. Porque Luís de Almeida Braga sabia, também, quanto eu o estimava, quanto eu o admirava e quanto eu o acompanhava na maioria das suas posições políticas e intelectuais.
O seu passamento não significou para mim a sua morte. Antes vem reavivar uma presença intelectual e moral que os anos irão engrandecendo e glorificando. A sua terra e as gerações mais jovens são lhe devedoras, ambas, de uma consagração de desagravo por todas as omissões propositadas, por todas as sistemáticas ignorâncias de seu nome e de sua obra e pelo colaboracionismo descarado a uma política de ominoso e repetido ostracismo. E essa consagração e esse desagravo são urgentes que se façam, até para que os mais jovens não suponham que os seus mestres foram avestruzes intelectuais que na hora do perigo meteram e afundaram as suas cabeças nas areias escaldantes do deserto! É urgente — repito. Pois que Luís de Almeida Braga não foi apenas uma espada ao Sol durante os anos agitados da primeira república. Foi sempre uma inteligência ao sol, em todas as repúblicas que se sucederam neste pais. E inteligência ao sol sem tibiezas, sem hesitações, sem reticências e sem atitudes dúbias. Recordo — a exemplo — a sua intervenção em prol da lavoura minhota. Em sessão pública ele defendeu a liberdade dos lavradores em problema que, no momento, era candente para o futuro da lavoura local. Um dos energúmenos que estava presente ao debate e à exposição do autor de Paixão e Graça da Terra não percebeu que as liberdades dos concelhos eram um dos pilares da Monarquia tradicional portuguesa. E com toda a sua esbordante ignorância, adicionada à sua incomensurável falta de escrúpulos, gritou com toda a impetuosidade do seu bojo de avantesma um viva «ao grande democrata Luís de Almeida Braga»!!! O mestre de O Culto da Tradição suspendeu por momentos a leitura da sua lição de portuguesismo, não suspeitando que, tempos depois, essa mesma espectacular ignorância havia de dirigir intelectualmente a máquina política regional!
É evidente que este e outros factos, esta e outras inversões de valores o conduziriam a uma posição de endurecimento, na ortodoxia do pensamento integralista. E que de uma colaboração generosa e gratuita aos primeiros passos da revolução nacional, o recrutamento de personalidades pelo menor valor moral e intelectual o tivesse levado para uma oposição sem reservas e sem medos nas atitudes públicas que então passou a revelar. Foi então que muitos dos que se diziam monárquicos se afastaram dele, temendo que qualquer aproximação pudesse ser considerada como hostilização ao regime... Do afastamento e a título justificativo adiantavam que o Dr. Luís de Almeida Braga era... oposionista. Termo vago em que se enquadrava tudo o que não se sujeitasse aos ditames do então viçoso partido único. Esquecendo se que Luís de Almeida Braga, como monárquico que era, nunca poderia ser aderente de um partido estruturalmente republicano, embora nas suas fileiras militassem alguns monárquicos ingénuos ou então alguns monárquicos que achavam estarem, assim, melhor defendidos os seus interesses e os seus negócios, em vez de viverem a incomodidade da coerência. Essa incomodidade viveu a o autor de Pão Alheio que, na sua terra de nascimento, foi tão exilado como nos tempos em que viveu ausente do solo pátrio, por militantismo nas hostes de Paiva Couceiro. Sim: foi um exilado a cujo convívio só iam aqueles que necessitavam dos seus pareceres jurídicos ou os raros que não tinham receio das possíveis represálias pelo culto da sua amizade. E, aos poucos, o círculo da intencional indiferença ia se fechando em torno dele e da sua acção monárquica, paradoxalmente cada vez mais militante e mais viva! Estranha contradição na vida pública de um dos mais ousados mestres de pensamento nacionalista!
Os seus belos discursos políticos tinham ou passaram apenas a ter oportunidade na barra dos tribunais. Ouvi-lhe alguns e de dois me recordarei para todo o sempre: um, no plenário do Porto e outro no tribunal de Moncorvo. Ainda e sempre o escritor e o jurista fazendo doutrinação, sempre que a propósito e sempre que possível. Que as belas conferências de outros tempos... para essas já não havia sala, ainda que existisse auditório. Nem tudo, era covardia; nem tudo cedeu a pressões e a conluios. Recordo, porém, a sua última presença pública em Braga, numa sessão sobre a Imaculada Conceição. Dois oradores se destacaram: um, Alberto Pinheiro Torres, já no descer da encosta da vida e no termo de uma existência de lutador; o outro, Luís de Almeida Braga, na pujança maior do seu verbo de pensador e de estilista. Eram duas personalidades próximas e afastadas, por constituírem duas representações de gerações diferentes. Mas ambos grandes e numa das derradeiras sessões públicas da inteligência bracarense. O vulto emotivo de Pinheiro Torres crescia à medida que a sua oração se prolongava e foram de delírio as palavras finais da oração à Virgem Imaculada; daí recolheu a palavra Luís de Almeida Braga e foi a apoteose numa tarde inesquecível, em que os valores do espírito pairaram acima da mediocridade habitual das exéquias oratórias do burgo bracarense...
Nunca mais se repetiu este milagre da inteligência. A oratória e a doutrinação dos mestres deixou raros e escassos discípulos. A inteligência pura deu lugar à memória arregimentada; a claridade da expressão passou a ser baça como as madrugadas enevoadas do Inverno. Isso mesmo: a inteligência hibernou ou retirou se. Os raros lampejos — que os houve — nada mais foram do que a confirmação da verdade apontada. E até esses tiveram de ceder lugar à mediocridade do quotidiano.
Foi assim que, aos poucos, Luís de Almeida, Braga passou a ser esquecido na terra a que tanto quis e cujos interesses materiais e espirituais sempre encontraram nele o paladino desassombrado que vinha à liça com a valentia e a verticalidade que pusera nas hostes de Couceiro. E, à sua morte, não houve mesmo o artigo laudatório da Imprensa local que o recordasse, nesse exacto momento em que a sua personalidade já não fazia sombra a ninguém! Sie transit gloria mundi...
No entanto o seu pensamento, depois desta provação, permanece vivo: católico e monárquico, viveu; católico e monárquico morreu. E é esse pensamento que agora se agiganta, liberto o Autor de todas as garras terrenas que lhe coartaram movimentos e que lhe bloquearam a inteligência activa. O nosso respeito pela herança intelectual do Mestre deve concentrar se na maior divulgação desse pensamento; e deve ainda, no render de posições, o situarmo nos onde ele tombou para prosseguirmos numa luta de ideais que é agora mais premente e mais imediata do que nos dias atribulados em que ele viveu. A morte de um capitão general de ideias não significa que as ideias morreram ou que deixaram de palpitar. Não. Importa que na brecha, agora aberta, pela sua morte, todos nós tomemos consciência do que ele representou e das obrigações que nós temos para com a sua amizade e para com a sua doutrina. Só assim seremos dignos de nos considerarmos seus amigos, indefectíveis; só assim seremos dignos de termos sido seus íntimos nos dias cruciais da sua provação na terra.
Morreu um Homem. Mas está vivo o seu exemplo. E estão vivas as ideias mestras pelas quais se bateu na vida terrena e viva a doutrinação que ficou nas páginas imortais de seus livros. Esse o seu testamento político. Sejamos dignos dele.
Amândio César
In «Gil Vicente», n.º 5/6, Maio/Junho de 1970, vol. 21, págs. 75/78
Publicado por FG Santos às maio 18, 2005 05:52 PM
Comentários
A fazer concorrência ao Camisa Negra caro FG Santos?
Publicado por: Rebatet em maio 18, 2005 11:13 PM
Caro Rebatet, concorrência não - complementaridade. O exemplo mais curioso (quiçá engraçado) foi este (veja os comentários):
http://fascismoemrede.blogspot.com/2005/01/yukio-mishima.html
Temos um amigo comum que nos "municia" em textos de autores nacionais e não só. Durante uns tempos inseri menos postais deste género mas se espreitar o arquivo encontrará mais exemplos, de que destaco esta extraordinária entrevista de Manuel Maria Múrias ao "Expresso":
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2004/12/entrevista_de_m.html
Outras vezes recorro ao meu velho arquivo em papel; deste último sugiro-lhe a entrevista de António José de Brito ao "Independente", que ainda dá muito que falar nas hostes nacionalistas:
http://santosdacasa.weblog.com.pt/arquivo/2004/12/antonio_jose_de.html
Um abraço a quem usa tão distinto "nickname".
Publicado por: FG Santos em maio 19, 2005 09:47 AM
Obrigado, FG Santos, e faz favor de traer mais autores integralistas e tradicioais, como Luis de Almeida Braga, a Santos da Casa.
Parabens pela seleccao.
Publicado por: Rafael Castela Santos em maio 19, 2005 07:45 PM
Agradeço também a chamada de atenção para os seus arquivos, ainda não tinha lido a entrevista do MMM,quanto à do professor AJBrito já a conhecia.Já agora gostava de saber por que razão sempre que quero comentar no seu blogue tenho de inserir os meus dados, apesar de marcar a opção "recordar-me" o mecanismo nunca parece funcionar :)...Será só comigo?
Publicado por: Rebatet em maio 19, 2005 10:02 PM
Rebatet, acho que é mesmo do Weblog. Mas quando digito o primeiro caracter seja do nome seja do e-mail seja do URL é logo sugerida a extensão completa dos mesmos.
Publicado por: FG Santos em maio 19, 2005 10:34 PM