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maio 20, 2005

Fim de tarde

Estava um dia deslumbrante, um sol explêndido, uma luz como só nos países mediterrânicos. Parou o carro junto ao rio. Do parque contíguo chegava o eco dos gritos das crianças, brincando animadamente. A passarada chilreava incessantemente. A natureza explodia de vida.
A mulher fartara-se. Anos e anos a chegar tarde, sábados e às vezes domingos no escritório, pouca ou nenhuma vida de casal – deixara-o. Não tinha filhos. Na verdade casara com a empresa – nela passava mais de 10 horas por dia, nela investia o melhor das suas forças e energia. Ganhava bem.
Estava só.
Há uns tempos que se falava em reestruturações, deslocalizações, downsizing, redimensionamento. Frequentavam-se cursos de formação sobre o tema.
Um dia chamaram-no. Dificuldades, excesso de pessoal, cash flow negativo…
Aos seus ouvidos continuavam a chegar os ecos do parque. Como deveria ser bom ter filhos. Ou mesmo sobrinhos. A sua infância estava longe. Os amigos – espalhados pelo país, cada um com a sua vida, os seus problemas.
Continuou a beber. Não gostava muito de álcool mas queria ficar entorpecido. Certamente custaria menos. Suava abundantemente, menos pelo calor que pela tensão da situação.
Um dia os pais compraram-lhe um combóio eléctrico. Um sonho. Ainda ouvia o ruído do brinquedo, trinta e cinco anos depois.
Que saudades da A. Fora dela que verdadeiramente gostara. Noites em claro a pensar naqueles olhos calmos e meigos. Nunca conseguiu demonstrar o que sentia por ela. Foi sempre uma relação contemplativa, amistosa mas algo distante.
Como lhe custara fazer o curso. Com boas notas mas desgastado física e psicologicamente. O emprego surgiria poucos meses depois. O emprego de uma vida: cansativo e exigente mas enriquecedor.
Agora tinha tempo. Muito tempo. Cada vez menos tempo. Mais um pouco de álcool. Quase adormecia. Fechou os olhos e teve finalmente coragem.
O ruído ecoou por todo o lado. Os pássaros deixaram de cantar. O mundo parecia ter ficado suspenso, parado.
O sol poente, lá longe, verteu uma lágrima.

Publicado por FG Santos às maio 20, 2005 03:40 PM

Comentários

Se escrever mais textos destes tem-me cá todos os dias. Pode ter a certeza.:)

Publicado por: j.c.t.p em maio 21, 2005 01:57 AM

Prezioso! Eu gustei muito.
Parabens!

Publicado por: Rafael Castela Santos em maio 21, 2005 06:19 PM

O FG rendido à literatura. Bem-vindo!

Publicado por: clark59 em maio 21, 2005 09:32 PM

Muito bom, este texto, mas ponha-se a pau, caro amigo, pois parece-me um tanto ou quanto deprimido.

Publicado por: O Velho da Montanha em maio 23, 2005 05:46 PM