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maio 25, 2005

Como "conheci" Céline

Farão no próximo dia 27 111 anos que nasceu Céline, um dos maiores escritores do séc. XX. A sua obra é, apesar do opróbrio a que a quiseram votar, bastante lida (à excepção dos panfletos, que não foram reeditados depois de 1943) e estudada.
Ao contrário da maior parte dos seus leitores, não comecei a ler Céline com a "Voyage" mas sim com a "Mort à Crédit", na edição da Assírio e Alvim, com excelente tradução de Luísa Neto Jorge (já falecida). Na altura o meu francês ainda não era o melhor e esta edição trouxe-me ao conhecimento este magnífico escritor. As primeiras linhas (reproduzidas aqui) agarraram-me logo ao grosso volume. A prosa, escorreita e ríspida, surpreendeu: o autor descrevia sem complacências o ambiente em que nasceu, a família, os vizinhos. Para um leitor desatento parecia um relato sem pingo de humanismo, com um grande desprezo pelas pessoas em geral.
A segunda parte do livro, com um relato maravilhoso, divertido e trágico, da vivência com o inventor genial e incompreendido (outro Semmelweis) Courtial des Péreires mostra a outra faceta de Céline: uma grande ternura por seres a quem a vida não correu de feição, algo mascarada pela ironia delirante da narração.
Obra prima parece pouco para caracterizar este livro soberbo, que não mais deixa o imaginário de quem o leu.

Publicado por FG Santos às maio 25, 2005 03:17 PM