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abril 02, 2005
Uma tarde "com" Rodrigo Emílio
Realizou-se esta tarde uma homenagem a Rodrigo Emílio no Palácio da Independência, em Lisboa. Perante uma assistência que rondava a centena de pessoas, que praticamente preencheu todas as cadeiras disponíveis, o poeta que faleceu há um ano e poucos dias esteve bem presente, fosse pelas evocações de alguns que com ele privaram, fosse pela leitura apaixonada de alguns dos seus poemas, fosse ainda pela música de José Campos e Sousa com poemas de Rodrigo. Após três horas nenhum dos presentes deve ter dado por mal empregue o seu tempo.
A primeira parte da homenagem fez-se de evocações. Falou primeiro o Eng. José Luís Andrade, director da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, que promoveu o evento. O tom foi amargurado face ao rumo que a Pátria tem tomado nas últimas décadas. Ao contrário do anunciado, tanto Carlos Soveral como António José de Brito estiveram ausentes, tendo sido lidos curtos textos que ambos enviaram.
Seguiu-se um dos momentos altos da tarde, com a evocação tão sentida como espirituosa de António Manuel Couto Viana. Desde o estudante até ao soldado, do poeta ao Rodrigo “Exílio”, Couto Viana deu-nos um retrato vivíssimo do bardo, pontuado com alguns episódios pitorescos, como a imagem do poeta trazendo sacos cheios de livros, jornais, escritos, cujo peso contribuía e muito para a sua hérnia, a “hérnia literária” como lhe chamava...
João Bigotte Chorão falou de improviso, falando-nos entre outras coisas de um Rodrigo desalentado, cansado de viver. Já Pinharanda Gomes tentou quebrar um pouco a nota de consenso em que decorria a sessão, questionando-nos, como disse ter questionado Rodrigo, sobre a sua postura perante o mundo, a guerra, a vida. Fez uma importante distinção entre comunidade e sociedade, entre Pátria e Estado. Segundo Pinharanda, a falta de espírito de comunidade tem sido uma constante pelo menos desde o tempo do Marquês de Pombal, digladiando-se o nosso país em confrontos que muito o foram enfraquecendo.
Na segunda parte passou-se à leitura de poemas do homenageado (na primeira já Couto Viana nos deixara um que lhe era dedicado) por, entre outros, António José de Almeida e Luís Serra. As escolhas variaram entre poemas mais militantes e poemas mais reveladores do íntimo do “poeta vestido de soldado”. Os declamadores conseguiram dar um tom bem dramático e quase teatral (no bom sentido) a alguns dos poemas.
E, finalmente, José Campos e Sousa interpretou na íntegra o seu recente álbum “Rodrigamente Cantando”, pela mesma ordem que no disco (à excepção de “Indício de Ouro” que veio depois do “Azul Lusíada”). O cantor confessou-se muito emocionado e com alguma dificuldade em se concentrar na música e nos poemas que ia interpretar. Mas mais uma vez saíu-se bem da empresa, muito bem acompanhado à guitarra portuguesa pelo seu jovem sobrinho Bernardo e, como habitualmente, à gaita-de-foles por António Rangel em dois temas.
Parabéns à SHIP pela iniciativa, que foi, pode-se dizer, coroada de sucesso, deixando, mesmo em quem mal conhecesse Rodrigo Emílio, a mais viva impressão.
Publicado por FG Santos às abril 2, 2005 11:56 PM
Comentários
Um trabalhador assalariado, em funções fora de portas, a esta função faltou. Ainda bem que há Santos que nos contam.
PS. - Esse António José de Brito, que nunca nada me disse, é perito em faltar a estas coisas.. ou tem razões para isso?
Publicado por: clark59 em abril 3, 2005 03:32 AM
Parabéns pela justa homenagem ao Rodrigo.
Foram três horas muito bem passadas, com alguma emoção quanto baste dos intervenientes. Foram lidos textos enviados pelos profs. António José de Brito e Carlos Eduardo de Soveral, José Valle de Figueiredo e Luís Sá Cunha. Na declamação, estiveram Alberto Correia de Barros e o Vítor Luís Rodrigues. Alberto Correia de Barros, António José de Almeida, Vítor Luís Rodriges e Luís António Serra.
Agora, Clark59 tenho a dizer-lhe que o Prof. Brito não é especialista a faltar a a homenagens de amigos, como é o caso do Rodrigo. Tenha respeito por quem não pode ir por justificadíssimas razões de saúde!
Publicado por: Nonas em abril 3, 2005 01:16 PM
Muito boa descrição do que por lá se passou.
www.velhosdorestelo-.blogspot.com
Publicado por: O eterno Espectador em abril 3, 2005 04:26 PM
Mais uma vez, FG Santos tem o enorme mérito de ser o primeiro a tocar nos últimos acontecimentos em primeiro lugar.
No entanto, em relação a esta memorável Homenagem a Rodrigo Emílio, alinho - claramente - pelo ponto-de-vista do Absonante.
Nota 1: A lotação do Salão Nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (200 pessoas sentadas) estava esgotada.
Nota 2: O primeiro orador não era o Presidente da SHIP.
Publicado por: Mendo Ramires em abril 4, 2005 03:12 AM
O meu (nosso) muito obrigado ao FG Santos, pela prosa em cima e pela simpatia que trespassa, ultrapassa este seu tasco blogosferico. Caro amigo, afinal não era preciso ir levar-nos à estação do oriente mas valeu a pena sempre deu para conversar mais um bocadinho.
Já sabe quando vier ao Porto é obrigatório telefonar.
Um abraço e mais uma vez obrigado.
Publicado por: Legionário em abril 4, 2005 09:13 AM
Caro Mendo, antes de mais obrigado pelas amáveis palavras.
Quanto à assistência, a olho pareceu-me que a sala tinha 10 x 10 filas de cadeiras.
Confessando a minha ignorância, pode esclarecer quem era então o primeiro orador?
Publicado por: FG Santos em abril 4, 2005 10:04 AM
Caro FG Santos o primeiro orador é o Eng. José Luís Andrade que é director e não o Presidente. O Presidente é o Dr. Jorge Rangel.
Feito o esclarecimento, venho dar-lhe os parabéns pela crónica-reportagem da homenagem.
Publicado por: Nonas em abril 4, 2005 01:37 PM
Caro Nonas, obrigado pela correcção, pelos elogios, pelas fotos...
Um abraço.
Publicado por: FG Santos em abril 5, 2005 10:15 AM