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abril 27, 2005
Inquérito literário
O caríssimo Pedro Guedes lançou-me o repto de responder ao inquérito literário que lhe enviaram, ainda por cima por motivo de ter elevado grau de exigência. Perante isto, e porque não se faz uma desfeita a um amigo, aqui vão as minhas respostas ao dito inquérito.
1 - Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Deixo a resposta aos amantes de autos-da-fé, especialmente os encapotados, que tentam reescrever a história e desvirtuar o sentido estético ocidental.
2- Já alguma vez ficaste apanhado por um personagem de ficção?
Apanhado, creio que não. Há é claro certos personagens que nos marcam, como o Emílio de "Emílio e os Detectives", que foi em tempos leitura muito grata para os jovens; há também personagens que, mesmo que não nos identifiquemos a 100% com elas não deixam de impressionar, como o Bardamu da "Voyage" de Céline ou o Raskolnikov do "Crime e Castigo" de Dostoievksky.
3 - Qual foi o último livro que compraste?
Ontem mesmo, "Lawrence y los árabes" de Robert Graves. Ainda não tive obviamente tempo de analisar a obra. O tema é de fascínio permanente: creio que se poderá ter uma ideia do maquiavelismo da "gestão da insatisfação" árabe por parte dos ingleses, ao mesmo tempo que se perceberão as raízes da eterna divisão entre aqueles, impedindo a criação da chamada nação árabe.
4 - Qual o último que leste?
Andei a saltitar entre dois, que conclúí praticamente na mesma altura:
- «Teatro Inédito, vol. 1» de Júlio Dinis: compõe-se de três peças escritas pelo autor quando tinha entre 17 e 18 anos. São comédias bastante divertidas, jogando com as convenções sociais, encenando equívocos divertidos pela confusão de identidades. A escrita é já escorreita embora se trate de obras de menor importância.
- «Le Tre Italie del 1943» de Gianni Oliva. Segundo o autor, havia a Itália dos vencedores, a Itália dos vencidos e a Itália de todos os outros, aqueles que se não comprometeram nem com a resistência nem com Salò. Analisa-se em 100 páginas a mentalidade vigente nos três campos, os imperativos morais de cada atitude. Um ensaio muito interessante.
5 - Que livros estás a ler?
«Dom João na Sicília» de Vitaliano Brancati. Escrito em 1941, a acção passa-se na Sicília, mais concretamente em Catânia. Narra os problemas de um indivíduo em lidar com mulheres: da contemplação embevecida à declaração ia um passo demasiado gigantesco para o nosso herói. Ainda não tenho uma ideia completa sobre as intenções do autor mas a narrativa é excelente, com algumas imagens literárias muito conseguidas e com um humor muito subtil e original. Foi editado pelas Edições Asa na colecção Letras do Mundo.
6 - Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
A resposta a esta questão deveria ser espontânea, ou seja, dada mentalmente em menos de um minuto. Mas já ando a pensar nela há uns dias... «Voyage au bout de la nuit», a obra prima de Céline (mas também podia escolher do mesmo autor o soberbo «D'un Château l'autre»); «Frei Luís de Sousa» de Almeida Garrett; «O Balio de Leça» de Arnaldo Gama, um escritor injustamente esquecido; o livro é de um dramatismo impressionante, uma obra verdadeiramente inspirada que devia orgulhar todos os portugueses; «Odisseia» de Homero e a «Eneida» de Virgílio. Mas não posso deixar sem referência outras obras marcantes, como: «Antígona» de Sófocles, «Medeia» de Eurípides, «Vidas Paralelas» de Plutarco, «Os Lusíadas» de Luís de Camões, «Amor de Perdição» de Camilo, «A Tragédia da Rua das Flores» de Eça, «O Velho e o Mar» de Hemmingway, «A Pérola» de John Steinbeck, «O Processo» de Kafka, «A Pele» de Curzio Malaparte; no campo da história e do ensaio «Mes Combats pour Pierre Laval» de René de Chambrun (descrição da luta de décadas pela verdade e pela reabilitação aos olhos dos franceses de um verdadeiro patriota), «Juízo Final» de Franco Nogueira (condições objectivas para a independência nacional, alerta para os perigos novos e velhos que a Nação enfrenta, um testamento comovente e inspirador) e, embora não seja uma obra fora de série, «Le Pacte Germano-Sioniste (1933)» de Jean-Claude Valla, como exemplo de como a História é manipulada e se ocultam factos essenciais para a compreensão da mesma (o autor recorre quase exclusivamente a fontes israelitas).
7 - A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
A três blogueiros muito diferentes uns dos outros e todos estimáveis: Rebatet, Buíça e Luís Bonifácio.
Publicado por FG Santos às abril 27, 2005 01:02 PM