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março 02, 2005
Um país em depressão
O consumo de anti-depressivos em Portugal aumentou 45% nos últimos cinco anos, tornando-se, segundo a ONU, um caso de saúde pública.
Que causas poderemos avançar para explicar o fenómeno? Aumento de desemprego? Insegurança laboral? Pressão no trabalho? Vida sedentária, horas no trânsito? Frustrações as mais diversas?
O que é certo é que a nossa sociedade de forte competição, entre empresas, entre trabalhadores, entre estudantes, é fortemente indutora de ansiedade, de insegurança, de redução da auto-estima. O nosso povo viveu muito tempo num meio algo fechado em que, se a vida não era especialmente boa, era pelo menos "habitual" (como diria alguém) - sabia-se com o que se contava, mesmo que não fosse especialmente exaltante.
Depois fomos confrontados com o "vale tudo", "é tudo nosso", "um mundo novo surgiu" e coisas do género. Passados os delírios colectivos, modernizado o ordenamento jurídico, a economia, a sociedade, passou-se para o delírio consumista - uma nova versão do "tudo é possível", "tudo está ao nosso alcance". Quando a realidade do nosso desenvolvimento deixou de ficar ocultada voltámos à depressão nacional, vagamente contrabalançada episodicamente, fosse com a Expo 98, fosse com o Euro. E assim vamos andando aos sacões, com um humor muito variável, com oscilações quase epilécticas - pelo menos decididamente típicas de um povo mal consigo próprio.
Claro que o fenómeno depressivo é geral às sociedades ocidentais, denunciando um mal estar profundo - uma inadequação da natureza humana à competição extrema, ao urbanismo, à desagregação dos modos de vida tradicionais - numa palavra: ao desenraízamento.
E então toca a tomar Prozac, a tomar indutores do sono, estabilizadores de tensão, eu sei lá. O velho Aldous Huxley é que retratou bem a tara contemporânea no "Admirável Mundo Novo". Estamos lá.
Publicado por FG Santos às março 2, 2005 03:23 PM
Comentários
«Claro que o fenómeno depressivo é geral às sociedades ocidentais, denunciando um mal estar profundo - uma inadequação da natureza humana à competição extrema, ao urbanismo, à desagregação dos modos de vida tradicionais - numa palavra: ao desenraízamento.»
Esta é que é a verdade. Este modo de vida não é sustentável a longo prazo. Ainda vamos dar todos em doidos.
Publicado por: NC em março 2, 2005 05:04 PM
Um Lexotan 1,5mg e isso passa.
Comigo resulta!
:-)
Publicado por: Nelson Buiça em março 2, 2005 08:16 PM
O "Triunfo da Vontade" é o melhor calmante!
Então aquele hino final é relax total!
Bandeiras ao alto
Bem juntas as fileiras...
Publicado por: Legionário em março 3, 2005 10:49 AM
O 'Triunfo da Vontade' vai ser festejado efusivamente, por 99,7% da blogosfera no próximo dia 8 de Maio.
ahahahahahhahahahahahah
Publicado por: Nelson Buiça em março 3, 2005 04:04 PM
Aproveito para confessar algo: no dia 14 de Julho de 1989, então com 16 anos, encontrava-me em Paris.
O hino final foi também relax total, naquela apoteose de milhões nas ruas.
"Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs !
Liberté, Liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs ! (bis)
Sous nos drapeaux, que la victoire"
ehehheheheheh
não resisti.
Publicado por: Nelson Buiça em março 3, 2005 04:09 PM
Um, quem sai aos seus... ;-) Esperemos é que o nosso amigo se fique pelas cantilenas, e não passe aos "fogos de artifício"...
Publicado por: JSarto em março 3, 2005 04:35 PM
Razão tinha o amigo Sarto que sempre sustentou que o Nelson é um filho da Revolução Francesa...
Publicado por: FG Santos em março 3, 2005 07:33 PM
Não não sou.
isto é....
Depende do que entendam como 'filho da Revolução Francesa'.
É uma discussão muito complexa.
Dispenso bem o 'terreur' e mais o Robespierre e o Marat.
Esses até deveriam ser considerados 'desviacionistas contra-revolucionários'.
O fascismo e o nacional-socialismo (como o JSarto bem diz) também são 'filhos' da Revolução Francesa.Muito especialmente no caso do segundo 'ismo'.
Desconheço (eu e muitos outros) porque raio se dá tanta importãncia à Revolução Francesa, como se tivesse sido algi de tããããããããooooo fulcral.
Não foi.
Assim de repente estou logo a lembrar-me de duas Revoluções bem mais importantes:
-A Revolução Industrial, que mudou de forma radical e brutal toda a estrutura das sociedades
-A Revolução de Outubro de 1917, que alterou para sempre o espectro político até então existente.
Escusado será dizer que nenhuma destas revoluções (a francesa, a americana, a industrial, a russa...) 'caíu do céu aos trambolhões'.
Tiveram causas (e raízes) bem concretas que é importante analisar. Não é só verberar, deve-se reflectir.
Ainda por cima, a velha trilogia está na gaveta. Senão vejamos:
-Liberdade? Bem, mais ou menos...
-Igualdade? Entendida no sentido de 'igualitarismo' está em desuso. O capitalismo promove a desigualdade.
-Fraternidade? Ahahaha.....Foi substituída pelo oposto, ou seja: competitividade/competição desenfreada.
Logo: bye bye Revolução Francesa.
Curiosamente foi o capitalismo que enterrou a trilogia.
Quanto à visão do futuro acho vamos para o Admirável Mundo Novo e, em doses algo variáveis (e discretas),......'1984'.
NOTA: o Fukuyama deve ter fumado algo bem potente quando escreveu o que escreveu.
A História não tem fim. Enquanto houver Homem existirá sempre transformação.
A História (de e para nós) termina quando terminar a espécie humana. E só aí.
Publicado por: Nelson Buiça em março 4, 2005 01:28 AM