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março 20, 2005
Os canhotos
O outrora talentoso Miguel Esteves Cardoso tinha nas páginas do "Espesso" uma coluna de nome "A Causa das Coisas", onde descrevia as taras do povo português. Essas crónicas foram depois reunidas num livro com o mesmo nome, sobressaindo algumas verdadeiramente deliciosas, como a que se segue.
Fiquem, então, com os
CANHOTOS
Para onde foram todos aqueles portugueses que eram tão irresoluvelmente de Esquerda em 1974 e 1975?
Boa pergunta. E a boa resposta é: não foram a nós. Agora querem ser gente às direitas, com uma dose decente de elitismo e um saudável escárneo pelas massas, como convém à conjuntura. Mas, como no fundo, no fundo, atiram às esquerdas, sai-lhes um bocadinho mal o esforço de snobismo, e nem são a Esquerda que já foram nem a Direita que querem ser. São, muito simplesmente, os canhotos.
Os canhotos são uma classe à parte na sociedade portuguesa contemporânea. Regra geral, procuram o cobiçado verniz de “Direita” nos domínios sacrossantos da “Cultura”, onde a canhotice mais se consente.
Dizem cair de joelhos diante do primor artístico de autores retintamente de Direita, para que fique sabido que não confundem a Arte com a Política (isto apesar de não as poderem confundir mais). Os canhotos portugueses adoram, por isso, Céline e Ezra Pound (os dois fascistas de maior talento) e, no Cinema, não há realizadores mais amados do que os grandes reaccionários do cinema americano (Ford, Capra, Kazan).
A maneira como os adoram, porém, é clara e atabalhoadamente canhota e os abraços que lhes dão em público não são, em quase nada, diferentes daqueles abraços que os pugilistas dão nos ringues, para se refazerem depois de uma sesssão particularmente aguda e preocupante de pancadaria.
Frequentam restaurantes com nomes embaraçosamente popularuchos e ementas de luxo, onde o «salmão fumado à Zé do Boné» e o «linguado Catarina Eufémia com champignons de Beja» contracenam, em mangas de camisa e com o “Libération” ao lado, com acesas discussões acerca do potencial revolucionário de tradicionalistas portugueses de génio como Pascoaes, ou Pessoa, ou Agustina.
Os canhotos esqueceram a classe operária de outrora e constituem, em larga medida, a classe operática de hoje. Querem ardentemente esquecer-se de quanto esquerdeceram em idos tempos, e a classe operária é tolerada só na sua acepção extremamente colectiva, radicalmente conceitual e absolutamente abstracta. Ou seja: «classe operária» só se estiver escrita num livro.
Falavam francês e hoje esforçam-se dedicadamente por aprender inglês. Cancelaram as assinaturas do «Nouvel Observateur» (que conheciam afectuosamente por «Nouvel Obs») e debruçam-se arduamente sobre publicações que lhes parecem menos óbvias. Querem ler o «Times» mas, como lhes falta a compreensão da língua, ficam-se pelo «L’Express»...
Seguem religiosamente as séries de televisão inglesas e têm «uma leitura» das telenovelas brasileiras que os sustenta no desejo de parecerem «independentes».
Os canhotos são todos aqueles que deitaram fora os álbuns de Victor Jara e de Pete Seeger e que hoje dizem que sempre adoraram Frank Sinatra ou a Amália Rodrigues. Vão à Gulbenkian e à Cinemateca com o inconfundível ar organizado de matilha, que lhes vem de incontáveis excursões a «manifes» e comícios, seguindo as retrospectivas com a dedicação religiosa que antes votavam à leitura dos textos sagrados de Althusser e Poulantzas.
Entre os canhotos, há os canhotos chiques, que pertenciam a movimentos políticos impecavelmente intelectuais (como o MES ou o MRPP) e os canhotos chicos, que transitaram directamente da cantina da Setenave para o novo refeitório da Arte Moderna, às vezes ainda munidos com as barbas completas e os bornais.
Os canhotos querem fazer tudo direitinho, mas não são absolutamente destros na manipulação da cultura de tradição conservadora, que é, às vezes, declaradamente sinistra. Em Camões, por exemplo, têm uma grande dificuldade em engolir Os Lusíadas e nadam nervosamente por entre os Cantos à procura do IX, que lhes é menos problemático, sempre apoiados pelas bóias de salvação da Lírica.
A proliferação de canhotos, entretanto, vai causando enormes problemas à conjuntura política portuguesa. Num momento em que seria iminentemente útil haver uma Esquerda, repara-se que uma grande parte dela está alinhada à Canhota. A Direita, por sua vez, que não prima em Portugal pela inteligência, vê-se completamente confundida com a invasão dos canhotos pelo território tradicional dentro.
E se a Direita não é destra e a Esquerda é canhota, será de admirar que o Centro esteja sempre inevitavelmente descentrado, ainda mais ao lado do que os próprios lados?
Publicado por FG Santos às março 20, 2005 12:39 PM
Comentários
Este é o Miguel Esteves Cardoso que ainda recentemente afirmou ser o programa eleitoral do Bloco de Esquerda “uma questão de puro bom senso”?... Realmente, a canhotice ataca onde menos se espera… E eu, por mim, como é óbvio, prefiro continuar "insensato".
Publicado por: JSarto em março 21, 2005 11:04 AM
Meu FG Santos. Tem imensa graça você citar este texto de MEC, do qual me lembro perfeitamente e sobre o qual tenho meditado ultimamente, principalmente quando olho para o BE, uma esquerda-caviar completamente "canhota". Lembro-me de ter rido a bom rir com esse texto na altura em que foi publicado no Expresso.
Infelizmente as pessoas vão mudando, e assim como o Herman se tornou numa mediocridade após ter sido o maior humorista Português, assim também o MEC se "perdeu" e hoje em dia falta-me a paciência para os seus textos. Um abraço.
Publicado por: O Velho da Montanha em março 21, 2005 11:30 AM