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março 24, 2005
Nova Direita ou novo nacionalismo?
O "Nova Frente" apresentou aos seus leitores uma proposta muito interessante para repensar o nacionalismo à margem da eterna confrontação esquerda-direita.
Aqui deixo os meus comentários.
Concordo com o que vai escrito nos dois primeiros parágrafos, de modo que passo desde já ao terceiro e seguintes. Não percebo porque é que a Direita não pode ser liberal: por um lado critica-se o peso do Estado na economia e na sociedade, por outro não se apresentam alternativas no sentido de devolver a estas a liberdade ('liberar') de actuação e escolha sem a presença permanente da "hidra". Sou pela liberalização da economia nacional, mas mantendo controlos alfandegários que protejam sectores produtivos estratégicos para o País. Isto não é fácil de fazer sem ceder aos corporativismos. Seria necessário um departamento, sem grande peso burocrático e com agilidade de actuação, independente, que regulasse estas situações; em caso algum poderiam lá sedear militantes de partidos.
Também diz o BOS que "Como pode, demais disso, a direita moderna procurar as suas raízes doutrinárias no salazarismo, que nasceu e viveu pelo Ultramar, pelo sonho do Império e da nação multirracial, quando a própria definição geográfica da Pátria se alterou abruptamente?" Acho que esta é uma visão muito redutora do salazarismo, que defendeu antes de mais a integridade nacional; na altura isso equivalia a defender o Império; extinto este, porque é que o princípio da integridade nacional, no seu estado actual, deixará de ser válido? Seria o mesmo que dizer aos republicanos que as ideias de Afonso Costa não são válidas porque este não desbaratou as nossas colónias! O princípio da integridade nacional não difere do princípio defendido pelo articulista ("Right or wrong, my country"), que poderia de resto ter citado Salazar e o seu "A pátria não se discute", que só não coincidirá com aquele na aparência, não na substância. Mais a mais, se se diz que "o nacionalismo pode ser entendido como uma ética para a qual cada nação, enquanto nação, constitui um valor supremo", então está-se de acordo com esta perspectiva.
O meu ilustre companheiro das lides blogueiras, ao distanciar-se do salazarismo, está, creio eu, a distanciar-se da questão da multiracialidade preconizada pelo regime. Mas esta tinha sentido precisamente num quadro de defesa do Império; actualmente a questão não se põe; governasse hoje Salazar os nossos 85.000 km2 mais ilhas e ele relegaria certamente para a gaveta o "ideal" multiracial. Por isso, porquê insistir neste ponto?
"Isto quer dizer que o nacionalismo moderno afasta de si qualquer vocação "racista" ou "xenófoba", por muito que isso custe aos flibusteiros da informação." E não só a estes; basta atentar no que escrevem tantos e tantos ditos nacionalistas, que demonstram isso sim o maior desprezo pelos "outros", emporcalhando o bom nome do nacionalismo e fazendo delirar de satisfação os que o combatem, dando-lhes argumentos de sobra para o diabolizar e, quiçá, ilegalizar. Enquanto se insistir em frentismos, em "rassemblements" e não se enfrentar a questão sem pruridos, não há caminho possível para o nacionalismo - a não ser o suicídio.
Sobre a questão da soberania, nada a dizer, até porque a minha insistência no tema é bem conhecida. Controlo de imigração e políticas de natalidade: obviamente estou de acordo.
«Chegou a hora de reaportuguesar Portugal, tornando-O europeu.» Confesso que continuo sem perceber o que é que isto quer dizer. Tornando-o? Mas não o é? O que é que se pretende? Está o BOS, permita-me, obrigado (aliás já o prometeu) a dissertar sobre o que é para si a Europa e qual o nosso papel nela; como é que fica a nossa soberania; e o que é a "Europa das Pátrias" para além de um slogan?
«(...) componente tradicional» - óbvio e desejável. «(...) mas com os olhos postos no futuro, arejado nas ideias, moderno nas práticas, liberal nos costumes» - suponho que fale em abertura, em abandono do espírito tacanho que ainda nos caracteriza; como o conheço razoavelmente compreendo o "liberal nos costumes", mas confesse que é um termo um pouco equívoco...
«(...) e propondo a destino uma estética vanguardista e cosmopolita: uma política global do bom-gosto (...)». Reconhece-se aqui a inspiração de António Ferro - e não vou ser eu a discordar!
Só mais uma nota (em geral aquilo de que não falei é da minha concordância) sobre «defender o fraco do forte». Aqui não posso concordar de todo. Parte-se do princípio, bem esquerdista, de que o forte terá naturalmente propensão a abusar do seu poder, não se lhe reconhecendo o mérito eventual de ser ter alcandorado a essa posição; acho isto contraditório com a ideia de a igualdade de oportunidades permitir aos melhores exercer posições consentâneas com o seu mérito e esforço. «Distribuir equitativamente a riqueza» - pelo que vai escrito atrás não posso estar mais em desacordo: a cada um de acordo com o seu mérito e esforço, precavendo-se contudo situações de indigência.
E mais não digo, pois reconheço o notável esforço de sistematização de ideias feito pelo "Nova Frente".
Publicado por FG Santos às março 24, 2005 10:51 AM
Comentários
Registe-se este texto como o primeiro 'post' de fundo sobre o debate que o BOS lançou ao (re)mexer neste muito antigo - mas, sempre actual - tema. Parabéns, por isso, ao FG Santos.
Publicado por: Mendo Ramires em março 24, 2005 04:34 PM
Eu acho é que, por este andar, o JSarto vai ter que mudar o 'Santos da Casa' de categoria.....para fazer companhia ao SG!
:-))
Publicado por: Nelson Buiça em março 25, 2005 12:03 AM
Estou satisfeito: o FGSantos reconhece que Portugal e EUROPEU!
Mas...reserva-se a questionar o que e que o nosso camarada BOS quer dizer com "chegou a hora de reportuguesar Portugal tornando-o EUROPEU".
Posso explicar: a heranca do tal Portugal multicultural e multiracial (discurso actual do BE)deixou-nos marcas antropologicas vindas de Africa e Asia que continuando a expandir-se tornarao Portugal cada vez menos EUROPEU.
A nao ser que perfilhe a tese do "ius solis": quem nasce aqui e automaticamente Portugues!!!!
A mesma tese de alguns que afirmam que os brancos nascidos em Africa sao africanos!!!!!!
Aqui estamos diante da essencia da questao: para mim, e para muitos, ser Portugues e um legado milenar, etnico que nao pode ser usurpado por "iminvasores" chegados ha dois dias. Entendido?
Publicado por: Miguel Angelo Jardim em março 25, 2005 08:48 AM
Mas afinal o FG Santos já é nacionalista? Não era só «de direita»?
Publicado por: NC em março 26, 2005 03:26 AM
Portugal Continental possui 89.000km2, incluido as aguas interiores da Ria de Aveiro e Ria Formosa. Juntamente com o Portugal Insular(que eu saiba tambem e Portugal)perfaz 92000km2.
Aqui fica a correccao.
E preciso conhecer-se a geografia do pais.
Ah! E fica na Europa. Definitivamente....
Publicado por: Miguel Angelo Jardim em março 26, 2005 08:11 AM
Quero ripostar aos seus comentários, que li atentamente e apreciei. Sem grandes formalismos, assim ao correr da pena (electrónica), e correndo o risco de escrever para aqui outro testamento...
Começando pelo "liberalismo": no meu texto, note-se, não faço menção ao «liberalismo económico». O FG Santos pergunta por que a direita não pode ser liberal. É claro que pode; há até a chamada direita liberal, que incensa o 'mercado'. Eu não vou por aí. No campo económico, entenda-se. Sou pela livre iniciativa, pela redução da carga burocrática, mas entendo que o 'mercado' não é politicamente neutro. Estou à vontade para o dizer porque sempre combati a socialização da economia. Cresci num país que pôs o raio do «socialismo» na Constituição uma década antes de o mesmíssimo socialismo se despedaçar no próprio chão soviético! Quando eu orçava pela idade do Viriato, nosso companheiro blogosférico acabadinho de chegar da viagem de finalistas, estudava numa escola do Estado, via a televisão do Estado, usava os telefones do Estado, e — aos fins-de-semana — o Estado vendia-nos cerveja (!), que tinha o monopólio da dita, através da Unicer e da Centralcer ainda por privatizar. O Estado a vender cerveja — rico serviço público! Quando nos perguntarem se ainda somos do tempo em que 'beber vinho dava de comer a um milhão de portugueses', nós responderemos que não: — somos do tempo em que o Estado vendia cerveja a dez milhões de cobaias do socialismo.
Quanto à integridade nacional: sei muito bem que a política de defesa do Ultramar foi coerente com a tradição portuguesa — os republicanos de 1910-26 teriam feito o mesmo. O que eu digo é que não se pode buscar as raízes doutrinárias do nacionalismo moderno a Salazar e ao seu regime. E não, o «Right or wrong, my country» não encontra parelha no «A Pátria não se discute» salazariano. É que a «Pátria» de Salazar é Portugal, e só Portugal. O que ele queria dizer é que Portugal — na grandeza de então — não se discute. Não pretendia ser um aforismo nacionalista, no sentido em que eu entendo o nacionalismo.
Ao distanciar-me do salazarismo, como o FG Santos afirma, não estou somente a distanciar-me da "questão da multiracialidade": estou mesmo a repudiar o Estado Novo nos seus vários aspectos. Eu não sou nacionalista pelo lado do 28 de Maio, embora saiba que a Revolução Nacional pôs termo (e ainda bem que pôs) à balbúrdia sanguinolenta chamada I República. Acontece que — considerando embora o dr. Salazar um estadista eminente e um escritor primoroso (até nos homens de Estado sou sensível a estas coisas...) — não me identifico minimamente com o cinzentismo estado-novista (sobretudo depois que o Ferro foi 'exilado' para Berna...), o centralismo desmesurado, o país do papel selado e da assinatura reconhecida, das migalhas com que se remunerava o 'pessoal político', do espírito de 'pobrezinhos mas honrados', da vidinha pacata e quase burguesa.
O FG Santos confessa que continua sem perceber o que isto quer dizer: «Chegou a hora de reaportuguesar Portugal, tornando-O europeu.» Eu explico-lhe. É uma frase do grandíssimo Afonso Lopes Vieira (muito melhor ensaísta que poeta, mas isso é a minha avaliação subjectiva), na «Nova Demanda do Graal», quando ainda eram nossas as possessões ultramarinas, veja lá...! Veja lá o amigo FG Santos que até nessa altura, quando Portugal tinha o arco do Sol como Arco do Triunfo, já fazia sentido falar assim! Não se trata de renegar cinco séculos de história. Nada disso! Trata-se tã-só de perceber que, ao fim de tantos séculos de costas voltadas para a Europa, temos que A descobrir (ou redescobrir) sem deixarmos de ser Portugueses; mais: tornando-nos ainda mais Portugueses, se possível for. E porquê? Porque ao cabo de todo este tempo, nós e os restantes europeus, atravessamos um época em que os «choques de civilizações» são (e serão cada vez mais) o prato do dia. E a nossa civilização é europeia; a nossa casa é a Europa — para a civilização da qual contribuimos e que não seria o que é sem o nosso contributo secular. (Aqui entre nós, FG Santos: se vivo fosse, creio bem que o Franco Nogueira chegaria a idêntica conclusão...)
Última nota para a sua última nota: o FG Santos vê no meu «defender o fraco do forte» um "princípio bem esquerdista", e no meu «Distribuir equitativamente a riqueza» uma foram de igualitarismo que não premiaria "cada um de acordo com o seu mérito e esforço". Comecemos por esta última: distribuir com equidade é distribuir com rectidão, com imparcialidade, segundo critérios de justiça; não é dividir as maçãs do saco "igualitariamente", indiferentes ao esforço que cada um produziu para as apanhar. Quanto "à defesa do fraco", é princípio esquerdista porquê? Não se trata, ó FG Santos, de decapitar o "forte" e nivelar socialmente a sociedade — à socialista —, mas de "regulamentar" e "fiscalizar" as relações de domínio. Não é preciso partir-se do princípio de que o forte vai abusar do seu poder; mas até pode acontecer que abuse, ou não?
Publicado por: BOS em março 28, 2005 09:13 PM
Oh por amor de Deus... Vejam lá mas é se acordam e abandonam esta existência virtual de 5 ou 6 gatos pingados. Esta porcaria não interessa para nada a ninguém.
Publicado por: Joanaz de Melo em março 29, 2005 05:29 PM
"Aqui estamos diante da essencia da questao: para mim, e para muitos, ser Portugues e um legado milenar, etnico que nao pode ser usurpado por "iminvasores" chegados ha dois dias. Entendido?"
Pois é, são 9 anos para alguem dos Palop, 13 anos para todos os outros, e não apenas dois dias. Para não mencionar que os filhos de estrangeiros aqui nascidos apenas podem ser portugueses aos 15, 16 anos ou ao atingir a maioridade. Isto é, mente descaradamente, e a mentira, de tão propagada, torna-se verdadeira. Depois espantam-se que os achem loucos, arre.
Publicado por: Joanaz de Melo em março 29, 2005 05:33 PM
Quem mente contumazmente e o Joanaz, nao sao 9 anos meu caro sao 6. Precebeu? 6 anos!
Em temos de uma vida sao "dois" dias...Ou nao e?
Pois e, 15 ou 16 anos e sao depois tao portugueses como eu, ou voce!!!
A meia-verdade, neste caso a sua, e a pior das mentiras, fogo....Nao ha paciencia!
Publicado por: Miguel Angelo Jardim em março 29, 2005 06:16 PM
A sua linguagem ate me fez escrever como falava o Cavaco...
Nao e "precebeu", mas percebeu.Percebeu?
Publicado por: Miguel Angelo Jardim em março 29, 2005 06:19 PM
A contra-resposta do BOS é esclarecedora e clarificadora do seu texto inicial. Por mim, estou esclarecido. Bem-haja.
Publicado por: Mendo Ramires em março 30, 2005 02:32 AM
E mais acrescento:com 16 anos, encartados de bilhetes de identidade, estes "portugueses"(!!!) de plastico ja possuem a "maturidade"suficiente para assaltar, roubar, traficar droga,matar,etc.
Factos,factos meu caro Joanaz de Melo....
Ou sera que voce e daqueles que tem problemas daltonicos quando toca a observar os problemas sociais?
Nao consegue descortinar o preto!
Publicado por: MIguel Angelo Jardim em março 30, 2005 10:46 AM
Na sequência das directas e certeiras observações de Miguel Ângelo Jardim, aconselho a leitura das sábias palavras dos 'insuspeitos' José Pacheco Pereira, na "Sábado", e Carlos Blanco de Morais, no "Diário de Notícias" (de terça-feira). Também estes, ilustres homens-de-cultura e académicos, já viram o problema!
Publicado por: Mendo Ramires em março 30, 2005 03:38 PM