« Carta aberta ao autor do "Nova Frente" | Entrada | Camilo »

março 17, 2005

Contra o iberismo, marchar, marchar

Ontem li, finalmente, o texto de Rafael Castela Santos sobre o iberismo. Aqui seguem as minhas observações ao mesmo.
Diz o Rafael que a união ibérica é, não só contra-natura, como é indesejada pela grande maioria dos espanhóis. Para mim, anti-iberista convicto, tenho como discutível se a união seria ou não contra-natura, pois conseguiria a coincidência política e geográfica da Península Ibérica; mais à frente afirma-se que a Península Ibérica está quase “abocada” por lei natural a ser um só país. Em que ficamos? Natural ou contra-natura? Também gostava que o Rafael mostrasse alguma sondagem que permitisse comprovar que aos espanhóis desagrada a ideia de união ibérica.
Estranha o articulista que os portugueses designem os seus vizinhos por… “vizinhos”, ao passo que estes nos designam por “irmãos”. Com uma história pontuada por invasões castelhanas, incluindo um longo período de 60 anos de domínio espanhol, não é de admirar que os meus compatriotas se limitem a designar os espanhóis por aquilo que são efectivamente: vizinhos, com os quais se pode ter uma boa, uma má ou uma indiferente relação. Vejo muito menos acrimónia dos portugueses face aos espanhóis que o inverso, por muito que se negue isso. Tirando talvez a Galiza, o português é frequentemente olhado de lado em Espanha, e escreve isto quem se desloca com alguma regularidade ao país vizinho há mais de trinta anos.
Também fiquei perplexo ao ler que em Espanha só um ignorante, débil mental ou drogado é que pode desejar a federação ibérica. Embora considere esta como algo perigoso, não deixa de ser uma ideia legítima no campo das ideias políticas, acho que criticar os seus defensores da forma como é feita no artigo é de uma violência descabida.
Diz-se também que os galegos querem continuar espanhóis. É possível. Mas não se diz que Fraga, testa de ferro do castelhanismo na Galiza, impôs aos galegos um modelo linguístico mais próximo do castelhano que do português, subsidiando edições que respeitassem o modelo pretendido, condenando à partida quaisquer aventuras galaico-portuguesas.
Segundo Rafael, as classes cultivadas portuguesas apreciam e conhecem a cultura vizinha. Mas lembre-se que ao longo da história foram sempre as nossas elites que traíram a pátria e foi sempre o povo, a arraia miúda, quem defendeu, se necessário com a vida, a independência nacional.
Fala-se também em cooperação amistosa entre as duas nações por via da política de casamentos. Esta última, conduzida do lado de cá da fronteira com alguma inconsciência, foi um risco quase permanente de diluição da soberania lusa na coroa espanhola.
Por outro lado, pôr a culpa do consulado de Olivares na alta finança internacional é absolver a Espanha de algo de que era única e voluntária culpada.
Também é fácil criticar a Inglaterra: se não fosse esta, há muito que em Portugal se falaria castelhano. Albion nunca foi uma alma caridosa: não há disso nas relações internacionais; mas houve sempre interesses mútuos entre Portugal e Inglaterra, graças aos quais permanecemos independentes, thank God. Para Espanha, Inglaterra sempre foi o inimigo a abater: aquando do Ultimato, logo se organizaram em Espanha manifestações de apoio ao vizinho oprimido pela pérfida Albion! Foi uma forma descarada de beneficiar politicamente dos nossos infortúnios. Todos os iberistas dos dois lados da fronteira participaram entusiasticamente nessas manifestações.
O Rafael fala depois de Marrocos, país no qual se inculca aos miúdos desde tenra idade que a Península Ibérica pertence a Marrocos. Mas não falou da forma como se ensina Aljubarrota, a descoberta do Brasil ou império português aos “niños”.
A ideia de união meta-política, além de não ser de todo desejável, seria obviamente, a concretizar-se, um prelúdio para a integração de Portugal na coroa espanhola. Não sejamos ingénuos!
Já as críticas à Europa são em parte pertinentes, mas Portugal deve procurar os seus parceiros comercias e de cooperação na América, em Inglaterra, em África. Não se deve excluir a Espanha das nossas relações, obviamente, mas tal deve ser feito com cautela e com contrapartidas seguras.
Afirmar que a glória das duas nações é ter expulso o mouro e levado Cristo a todo o mundo, sendo tudo o mais quase irrelevante, é tão redutor que nem sei que diga. A missão civilizadora dos portugueses, que deixou laços afectivos nos povos colonizados de que mais nenhuma nação europeia se pode orgulhar, foi muito para além da cristianização. Houve escravatura, exploração de recursos, imposição de credo; mas também houve respeito por algumas tradições locais, não se condenou milhões de pessoas a morrer na exploração mineira como os nossos vizinhos fizeram na América do Sul. E a divisão nativos / povos colonizados é bem menor e traumática do que aquilo que ainda hoje se vê nos países sul-americanos. E é com esta nota que quero concluir: estas diferenças de tratamento mostram a grande diferença de temperamento entre os portugueses e os espanhóis: aqueles menos desprezadores dos outros povos, misturando-se inclusive com eles, estes mais distantes, violentos, temperamentais. Povos vizinhos e tão diferentes!
Como sugestão de leitura, ao Rafael e a todos os meus leitores, nada como o capítulo “A ameaça permanente ou o milagre da vontade”, do “Juízo Final” de Franco Nogueira. Aí se descrevem as manobras iberistas ao longo da nossa história. E António Sardinha, tão profusamente citado pelo Rafael, é criticado por, não sendo forçosamente iberista, fornecer a quem o é argumentos em grande quantidade.

Publicado por FG Santos às março 17, 2005 03:39 PM

Comentários

Era bom que os Espanhóis pensassem como ele. Mas não pensam.
Também não devem querer a anexação de Portugal. Ter Portugal como mercado aberto para os seus produtos e para dar emprego a espanhóis desempregados (Até as gajas que vendem bilhetes de cinema no Corte Inglês são espanholas) é bastante melhor e custa muito menos.

Publicado por: Luís Bonifácio em março 17, 2005 04:44 PM

Não sei quem foi que, pela vez primeira, crismou de "irmãos" os espanhóis. Não sei quem foi — mas foi com toda a certeza um maçon... Digo eu.

Este postal, caro FG Santos, dava para eu ficar por aqui entretido até de madrugada. Eu também me preocupo com a soberania e independência nacionais (conceitos que, na Europa comunitária, merecem ser grafados com aspas...); eu também me preocupo com a venda de empresas-chave da economia nacional a grupos estrangeiros, nomeadamente espanhóis — mas acho que as "invasões castelhanas" e os "60 anos de domínio espanhol", não sendo obviamente para esquecer, são para ser recordados sem "lendas negras". Somos hoje dois países livres e independentes (e, pelo nosso lado, só não somos mais porque nos vazam a soberania no sumidouro de Bruxelas), europeus e civilizados; não temos os "tiques" das tribos africanas...

Escreve o FG Santos: «Vejo muito menos acrimónia dos portugueses face aos espanhóis que o inverso, por muito que se negue isso. Tirando talvez a Galiza, o português é frequentemente olhado de lado em Espanha, e escreve isto quem se desloca com alguma regularidade ao país vizinho há mais de trinta anos.» Permito-me discordar. Eu também me desloco — e igualmente desde sempre — a Espanha. Entre os meus 16 e vinte e poucos anos, passava invariavelmente as férias na Galiza — e como as férias eram "grandes", por lá estanciava descontraidamente um mês, um mês e meio, às vezes dois (divididos em dois períodos, para vir a casa lavar a roupa). Depois, por motivos profissionais, residi em Espanha cerca de dois anos, repartidos entre Madrid e Málaga. Atrevo-me por isso a dizer que o problema que existirá em Espanha com o «outro» não tem a ver connosco. Entre galegos e castelhanos, ou entre estes e catalães, também há disso. Muitas das nossas queixas radicam infelizmente num complexo de inferioridade deplorável. Estamos sempre há espera que os outros sejam simpáticos e hospitaleiros. Acontece que o português é «simpático» e «hospitaleiro» as mais das vezes por subserviência ao estrangeiro. Pelas costas chama-lhes "camones" e "avecs", mas quando os mesmíssimos "camones" e "avecs" se acercam para esclarecer uma dúvida, o portuguezinho verga a cerviz respeitosamente e explica o trajecto para a macadame com um grande sorriso nos lábios. Eu lamento muito, mas isto é mesmo assim. Ora, os outros povos não tem que se comportar de igual feitio.

Tem razão o FG Santos quando diz que Fraga Iribarne é «testa de ferro do castelhanismo na Galiza» e que «impôs aos galegos um modelo linguístico mais próximo do castelhano que do português, subsidiando edições que respeitassem o modelo pretendido, condenando à partida quaisquer aventuras galaico-portuguesas.» É verdade e está carregadinho de razão, mas — aqui mais uma vez — é problema deles.
Mas onde o FG Santos não tem razão alguma é quando que diz «ao longo da história [portuguesa] foram sempre as nossas elites que traíram a pátria e foi sempre o povo, a arraia miúda, quem defendeu, se necessário com a vida, a independência nacional.»
Visão romãntica (como é bom e abnegado o povinho!...), mas irreal. Não pratiquemos o maniqueísmo social. Tivemos (e temos) a nossa corja de bandidos e traidores harmoniosamente distribuída pelos diversos grupos sociais!
Queixa-se, ao depois, o bloguista de que o Rafael Castela Santos «não falou da forma como se ensina Aljubarrota, a descoberta do Brasil ou império português aos 'niños'». Pois não falou...! Mas, ó FG Santos, nós também contamos malzinho (ou não contamos mesmo) a história da batalha de Toro e outros 'pormenores' da nossa História. (Abro aqui um parênteses para dizer que achei estranho que, no rol das queixas, não haja arrolado a questão de Olivença...)

Como eu escrevi no 1.º de Dezembro de 2003: «É certo que, do lado de lá da fronteira, há quem continue a alimentar o sonho da «União Ibérica». Outrossim, só por isto valeria a pena comemorar o 1º. de Dezembro. Uma nação sem medos é uma nação desarmada.
Foi Carlos V, um flamengo sem pátria, quem no século XVI se lembrou de unificar política, social e culturalmente a Espanha, que até aí não existia, mero conglomerado de nações distintas, cada qual a linguajar para seu canto. Ao flamengo, porém, tanto lhe fazia que em Espanha se falasse o castelhano, o catalão, o vasco, o galego, o hebraico ou o Árabe, como na realidade se falava. Preciso era só que os seus estados espanhóis lhe fornecessem soldados para as guerras — e o ouro das Américas lhas pagasse. Três descendentes seus ostentaram o título de reis de Espanha e de Portugal. Nada que, visto de hoje, nos deva envergonhar. Os Windsors, reis de Inglaterra, são uma dinastia alemã e chegaram a ser simultaneamente reis ingleses e reis alemães — uma grande traulitada na soberba britânica.
O «Plano Ibarretxe» demonstra que a Espanha corre arriscadamente para tempos turbulentos. Nós, no mais velho Estado europeu, com as fronteiras definidas e fixadas desde o século XIV, não queremos viver tais tumultos. Abdicamos dos sobressaltos próprios de um Estado com várias nações — e de várias nações à procura do seu próprio Estado. Não é nada connosco. Amigos, amigos, guerras civis à parte. E é precisamente por causa destes riscos de fragmentação que, em Castela, também há quem defenda inteligentemente a tese de que é melhor, para todos nós, haver dois Estados — e só dois Estados — na Península Ibérica. É o que nos vale.»

E reforço agora: — É o que nos vale, e é com esses que estou. Na defesa intransigente de que, na Península Ibérica, deve haver dois Estados — e só dois Estados. Precisamente os que já existem. Nem um a mais, nem um a menos.

Publicado por: BOS em março 17, 2005 07:56 PM

Alguns comentários a trechos do artigo do amigo FGSantos:

1º)"Vejo muito menos acrimónia dos portugueses face aos espanhóis que o inverso, por muito que se negue isso. Tirando talvez a Galiza, o português é frequentemente olhado de lado em Espanha, e escreve isto quem se desloca com alguma regularidade ao país vizinho há mais de trinta anos".

Gosto muito de viajar por Espanha de automóvel, e todos os anos faço-o, uma ou duas vezes, durante uma semana inteira. É claro que como em toda a parte, há pessoas mais simpáticas e outras menos simpáticas, mas nunca ninguém me olhou de lado. Aliás, reparo que os portugueses, com o seu inefável complexo antifilipino, são muito menos afáveis para com os espanhóis, do que o inverso;

2º)"A missão civilizadora dos portugueses, que deixou laços afectivos nos povos colonizados de que mais nenhuma nação europeia se pode orgulhar, foi muito para além da cristianização. Houve escravatura, exploração de recursos, imposição de credo; mas também houve respeito por algumas tradições locais, não se condenou milhões de pessoas a morrer na exploração mineira como os nossos vizinhos fizeram na América do Sul. E a divisão nativos / povos colonizados é bem menor e traumática do que aquilo que ainda hoje se vê nos países sul-americanos".

Aqui o meu amigo espalha-se completamente ao comprido, ao sobraçar a lenda negra contra a colonização espanhola na América, a qual tem origem protestante anglo-saxónica, e foi reaproveitada nos tempos que correm pela ideologia politicamente correcta. Sem me alongar em demasia, é bastante recordar que as repúblicas hispânicas da América Latina são nações esmagadoramente mestiças - com as prováveis excepções chilena e argentina -, facto que por si só afasta a ideia de um pretenso genocídio cometido pelo conquistador espanhol. Correspondente que é de Chiré, sugerir-lhe-ia que se debruçasse com urgência sobre as obras de Jean Dumont ou as actas das Universidades de Verão, da Renaissance Catholique. E, enfim, sem me alongar muito, suporá o FGSantos que nos engenhos colonias de açucar do Brasil a vida fosse assim tão plácida, sobretudo para a mão-de-obra escrava de origem africana que os suportava?...

3º)"Como sugestão de leitura, ao Rafael e a todos os meus leitores, nada como o capítulo “A ameaça permanente ou o milagre da vontade”, do “Juízo Final” de Franco Nogueira. Aí se descrevem as manobras iberistas ao longo da nossa história. E António Sardinha, tão profusamente citado pelo Rafael, é criticado por, não sendo forçosamente iberista, fornecer a quem o é argumentos em grande quantidade".

Sempre preferirei António Sardinha e o seu empenho na tentativa de ultrapassar os atavismos mentais que continuam a envenenar o saudável relacionamento entre as duas nações soberanas peninsulares, ao cinismo maquiavélico de Franco Nogueira. E sugerir, como o meu amigo faz, que António Sardinha era um iberista, é algo de todo em todo absurdo.

Publicado por: JSarto em março 17, 2005 11:36 PM

" É o que nos vale, e é com esses que estou. Na defesa intransigente de que, na Península Ibérica, deve haver dois Estados — e só dois Estados. Precisamente os que já existem. Nem um a mais, nem um a menos."

Fico de cabelos em pé ao ver um nacionalista dizer coisas destas.
Existem então povos que têm mais direito á autodeterminação que outros.
Povos e identidades, diga-se.
Sim, identidades, que os bascos, p.ex., nem sequer têm uma língua latina, nem sequer são étnicamente indo-europeus e são (tens que reconhecer) uma entidade nacional que nada tem a ver com Castela.
Ainda falas nos identitários rapaz!!!!
Ai, ai, ai...
Porque é que uns têm direito a uma pátria e outros não?
Uns são então 'filhos' e outros 'enteados', não?
os portugueses (e at+e os timorenses) podem ter o seu Estado, e os bascos (e falo neles por serem um exemplo flagrante de duplicidade de critérios que tu aplicas) que se lixem.
Como é que um nacionalista defende um Estado artificial e multinacional(!!)?
Onde está a tão propalada Europa das NAÇÕES (repito: NAÇÕES)?

Se calhar meteste-a na 'gaveta'!
;-)

Publicado por: Nelson Buiça em março 18, 2005 03:59 AM

Só mais uma:

- Os palestinianos podem ter um Estado.

- Os bascos, pelos vistos, não.

Como coerência não está mal não senhor.Pois...

E os curdos? Será que podem?
E os arménios?

Quer rico nacionalismo!


(a Espanha, desculpem o 'mau jeito', NÃO é UMA nação)

Publicado por: Nelson Buiça em março 18, 2005 04:13 AM

Caro Sarto, nunca esperei vê-lo falar de Franco Nogueira dessa maneira. Um espírito superior mas fortemente pragmático e alheio a utopias, conhecedor das chancelarias e dos princípios que regem a política das nações, patriota impecável e que nos quis alertar para os perigos que o nosso país enfrenta. Vejo que para a esquerda ou para a direita é sempre preferível uma utopiazinha que enfrentar a realidade de frente, com medo que ela traia as nossas expectativas.
Quanto a Sardinha, se leu o que escrevi, está lá: "E António Sardinha, tão profusamente citado pelo Rafael, é criticado por, não sendo forçosamente iberista, fornecer a quem o é argumentos em grande quantidade."
Quanto aos nativos da América do Sul, que eu saiba os do Brasil não morreram às "pázadas" em 'meia dúzia' de anos. Não gosto das teorias da culpabilidade europeia mas não posso deixar de reconhecer o mal que foi feito aos povos que lá viviam, muito em particular pelos espanhóis.
E se sou correspondente de Chiré é por que quero aceder a uma visão alternativa das coisas e não abraçá-la acriticamente.

Publicado por: FG Santos em março 18, 2005 09:28 AM

Quanto à extensa mas sempre agradável prosa do BOS, tenho a dizer o seguinte:
- Em Espanha já fui bem e mal tratado, mas no último caso sem comparação com algo que possa ter visto em outro país (à excepção de um imbecil da FNAC de Nice, que se esqueceu de tirar de um dos vários Cahiers Céline que comprei o chip de segurança, soando o apito "anti voleur"; logo o energúmeno me perguntou se era português...); até já tive que ouvir uma "señora" cantarolar baixinho "tu és portugués", com todo o desprezo.
- Se os portugueses têm complexos de inferioridade face aos estrangeiros, não concordo que seja por isso que tratemos muito bem os "camones"; acho que gostamos de receber e tratar bem os visitantes.
- Não falei de Olivença por ser tema conhecido de todos. Mas fazer um paralelo entre Olivença e Gibraltar seria realmente interessante...
- Em relação à questão "uma nação", subcrevo o que o amigo Nelson disse. Parafraseando-o, caro Bruno, isso "é problema deles".
- Para concluir, creio que muitos nacionalistas, como o Bruno, o Sarto, o Pedro Guedes, estão ainda (65 anos depois dos factos) agarrados a uma visão romântica da Espanha vitoriosa da guerra civil, levando-os a olhar com desconfiança para os nacionalismos locais.

Publicado por: FG Santos em março 18, 2005 09:42 AM

Só mais uma nota para o Sarto: o meu último parágrafo no comentário acima não quer obviamente significar que eu ache que o meu amigo aceita acriticamente o que publica Chiré, como é óbvio!
Um abraço.

Publicado por: FG Santos em março 18, 2005 10:03 AM

Primeiro, o Buiça:
Estou profundamente convencido de que um nacionalista português deve defender, como eu defendo, que na Península Ibérica só haja dois Estados. Portugal teria tudo a perder se fosse outro o cenário. Bem podem atirar-me à cara o principío da auto-determinação...! Sou sensível — sou, sim senhor! — à questão das diferenças étnicas e linguísticas, mas é curioso verificar que são os nacionalistas do lado de lá da fronteira os primeiros a defender a Espanha "una, grande e livre". E não se trata — para ir dando uma das respostas ao FG Santos — de ter ainda uma "visão romântica da Espanha vitoriosa da guerra civil". Não. Isto não radica em Franco ou em Primo de Rivera, que eram obviamente pela Espanha "una". Tem que ver com os modernos movimentos nacionalistas espanhóis, da moderna Falange (ou Falanges) à Democracia Nacional, que recusam todos à uma a divisão da sua Pátria. Ora, assim sendo, não sou eu quem vai substitui-los na tarefa da partilha, sobretudo quando tal divisão em nada convém a Portugal.
O Franco Nogueira, que era de facto um diplomata notável, afinava pelo mesmo diapasão. Avisou-nos dos perigos (estou atento), das ameaças à soberania; mas em momento algum defendeu o estraçalhar da Espanha.

E agora, o FG Santos:
Lamento que, em Espanha, já tenhas ouvido "uma 'señora' cantarolar baixinho 'tu és portugués', com todo o desprezo". Nunca passei por tal experiência, que consinto seja traumatizante. Lembro-me de algumas que me cantarolaram a mesma coisa ou coisa parecida, mas com todo o carinho. E sem complexos, de parte a parte. Nem tabus.
Aceito que "gostamos de receber e tratar bem os visitantes". Mas olha que há muito de complexo de inferioridade, há muito de subserviência em certa «simpatia» com que eles são por cá recebidos. E nunca te esqueças que, recebidos embora a sorrisos, os desgraçados são sempre enganados no troco da bica...

Publicado por: BOS em março 18, 2005 10:36 AM

Meu caro FGSantos,

1º) Se reler bem o que afirmei sobre Franco Nogueira, constatará que não contradigo minimamente aquilo que V. escreveu sobre ele. Não duvido do impecável patriotismo de Franco Nogueira, o que não quer dizer que sufrague acriticamente toda a sua visão do mundo, nomeadamente aquela que respeita às relações entre Portugal e Espanha. Outrossim, refuto qualquer tipo de ideias utópicas: porque sou de direita, busco o melhor mundo possível, mas não tento construir o mundo ideal, à imagem do que a esquerda pretende; todavia, e exactamente porque sou de direita, da direita dos valores, os princípios são para mim fundamentais, o que me leva a olhar com profundo desprezo a “realpolitik” tão característica das chancelarias;

2º) Sobre a colonização espanhola da América, verifico que não refutou minimamente aquilo que disse: ora, ninguém é obrigado a gostar de Espanha ou de espanhóis, mas a aversão que o meu amigo sente em relação a tal país leva-o instintiva e injustamente a denegrir todo o seu passado histórico. O certo é que não houve nenhum genocídio índio na América hispânica: como costumava dizer o meu amigo Jacobo San Miguel, ele próprio mestiço, no México ainda hoje há aztecas mais do que suficientes para fazerem parar um comboio. De resto, por contraponto, o FGSantos olvida-se, como bem salientou o BOS, de que nós portugueses também temos as nossas zonas menos claras: por exemplo, quem foram os maiores traficantes de escravos negros de África para a América, é certo que em conluio com muitas tribos africanos que lhes prestaram imprescindível apoio?...

3º) Noto também que o meu amigo tem uma visão romântica sobre os pseudo-nacionalistas bascos e catalães, supondo-os uma espécie de conjurados de 1640. Está rotundamente enganado quanto a esse aspecto: na verdade, são pessoas muitíssimo pouco recomendáveis, todos eles animados por uma ideologia socialista extremista e radical, que está nos antípodas do verdadeiro patriotismo, reivindicando directamente a herança dos criminosos que causaram o desastre de 1936, quando não, como no caso da ETA, assassinos cobardes sem escrúpulos nem remorsos.

4º) Enfim, quanto a Chiré, como muito bem disse, também não aceito sem mais tudo o que por lá se publica e propõe aos leitores, como é óbvio.Há por lá muito bom, bom e menos bom...

Um abraço, igualmente.

Publicado por: JSarto em março 18, 2005 10:41 AM

Caro Sarto, não tenho aversão por Espanha, tenho reserva. E digo-lhe que gostava de não a ter, pois é um país em muitos aspectos cativante. Ano em que não passe pela Galiza é uma tristeza para mim.
Em relação aos nacionalistas bascos e catalães não tenho nenhuma visão romântica e abomino quem quer que seja que tolere o uso da violência ou incite a esta, em particular contra inocentes, para alcançar os seus objectivos políticos. Apenas acho que esses povos têm legitimidade para reclamar maior autonomia e eventualmente a independência; não sei se isso seria bom para Espanha, se seria bom para Portugal. Mas penso que essa possibilidade é legítima, em face da história, das suas peculiaridades. Se esse combate é dirigido actualmente pelas pessoas mais dignas de encómios é outra questão...

Publicado por: FG Santos em março 18, 2005 11:09 AM

Cheguei tarde a esta discussão, pelo que já está tudo dito pelo BOS e pelo Jsarto.
Quero no entanto reforçar que nos 2 anos que aqui levo o contacto profissional e pessoal com centenas de pessoas, de todos os níveis sociais, é absolutamente normal, com excepções que como tal não são a regra. E mais, qualquer espanhol que tenha estado em Portugal gosta de me descrever detalhadamente e, ao mesmo tempo, elogiar os sítios que visitou.
Quanto à independência de algumas comunidades sou contra, por variadas razões que já expus noutro local e, quanto mais não seja, porque por motivos óbvios é preferível, para nós, ter um só interlocutor a ter 1,2,3....n.

Publicado por: JLL em março 18, 2005 11:38 AM

De facto, BOS e JSarto já disseram tudo.

Publicado por: Mendo Ramires em março 18, 2005 04:03 PM

Bem me queria parecer que há duplicidade de critérios.
Há nações de primeira e de segunda, pelos vistos...
Os que podem e os que não podem.
Mas as cartas já estão lançadas

Publicado por: Nelson Buiça em março 18, 2005 06:58 PM