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janeiro 19, 2005
Fim d'"O Dia"
"O Sexo dos Anjos" comunica-nos o fim, de certo modo anunciado, do jornal "O Dia", única voz diária que rompia com o conformismo mental ambiente da imprensa portuguesa.
Em estilo de homenagem, deixo aqui dois curtos, mas nem por isso menos interessantes, textos da autoria do seu último director, Antero Silva Resende, que muitos conhecem mais como ex-presidente da Federação Portuguesa de Futebol que como director de jornal não conformista. Talvez alguns se lembrem da sua abortada candidatura à Câmara Municipal de Lisboa pelo CDS. O odioso ex-director do maoísta "Comércio do Funchal" e do belmírico "Público", Vicente Jorge Silva, lançou uma campanha assassina neste último, que levou o CDS a desistir da candidatura de Silva Resende.
Fiquem então com os dois textos prometidos.
LIVRO DA JUSTIÇA
Gostaria que esta coluna tivesse hoje o condão de fazer História — não pelo mérito intrínseco de quem a redige, mas pelo acontecimento a que se reporta: a inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar.
O anúncio feito nos meios televisivos, convocando todos os portugueses, descia ao escrúpulo de referir ex Ultramar, provavelmente lembrados os inspiradores da publicidade de que a palavra já não vigora nas relações diplomáticas e nos cânones oficiais. Mas o Ultramar é uma realidade histórica transcendente, e nela se gravou a corpo inteiro, em caracteres indeléveis, sem as pequeninas restrições dos homens sem fé e sem as grandes restrições dos que se mostraram indignos dessas páginas de glória militar e devoção patriótica.
Cumpre nos, pois, participar nesta grande liturgia de restituição. Um povo que vive de costas voltadas para os seus servidores e para os seus heróis, vai a caminho da ocupação e da rapina. Sem valores a que se arrime e sem exemplos de que se orgulhe cai inexoravelmente nas paisagens sem horizonte.
Eis, portanto, o alto significado desta iniciativa: o grito de alerta da atormentada consciência nacional; e o primeiro sinal visível da retoma da nossa identidade lusíada.
Fica patente desde hoje a todos os de dentro e de fora esta página de abertura do grande livro da Justiça por que espera a Pátria Portuguesa.
Silva Resende
In O Dia, 15.01.1994.
A NOTÍCIA
O jornal Tribune Juive, que se publica em França e é porta-voz das comunidades judaicas fora de Israel e principalmente as ligadas às lojas maçónicas, embandeira em arco com a eleição de Jorge Sampaio para a presidência da República em Portugal. E dá à notícia foros de sensacionalismo: «Jorge Bensaúde de Castillo Branco Sampaio é o Primeiro Presidente português judeu desde a Inquisição» .
Penso que os Portugueses, em geral, desconheciam no actual presidente essa espécie de dupla nacionalidade que os judeus hoje reclamam desde que se instaurou o Estado de Israel: como em geral desconheciam a totalidade dos seus apelidos que reflectem essa ascendência hebraica, aliás de velhas tradições em Portugal.
Conhecendo se a solidariedade que desde sempre reinou entre os judeus fazendo deles o único povo que ao longo dos milénios resistiu a qualquer miscigenação, ficará decifrado o mistério dessa candidatura, os seus estranhas tempos de intervenção, a surpresa de certos apoios e a certeza de vitória que desde o primeiro momento animava os seus oráculos.
Nestas e noutras questões, os judeus não costumam perder.
Evidentemente, a Inquisição é aqui metida como o Pilatos no Credo, pois que a República se fundou em Portugal em 1910; mas como a Tribune Juive nada publica em vão, quer significar que à cabeça do Estado em Portugal é a primeira vez que desde a Inquisição figura um homem de ascendência judaica a qual — sublinha o jornal — prenuncia uma lua de mel diplomática entre Portugal e Israel. E acrescenta: «estas relações eram já excelentes sob os sucessivos mandatos do irmão Mário Soares».
E continua o mesmo jornal: «Sampaio visitou já duas vezes Tel Aviv. E a sua primeira permanência em Israel constituiu para ele verdadeira jornada iniciática pois que, a exemplo da maioria dos judeus portugueses, não tinha recebido nenhuma educação judaica».
Não falta aqui o próprio testemunho de Sampaio dirigido a Benyamin Oran, representante diplomático em Lisboa: «quando visitei Israel senti alguma coisa de muito forte a vibrar dentro de mim e posso dizer que descobri então dentro de mim a minha condição de judeu».
Para completar a descoberta, a notícia, que certamente a maioria dos portugueses desconhecem, refere que Sampaio milita desde a juventude na extrema esquerda e que foi nessa qualidade que o elegeram para a Comissão dos Direitos do Homem do Conselho da Europa.
E aqui está como estes dados, postos festivamente na Tribune Juive, foram estranhamente sonegados na imprensa portuguesa.
Silva Resende
In O Dia, 26.06.1996
Publicado por FG Santos às janeiro 19, 2005 06:56 PM
Comentários
Ah, Bensaúde, Bensaúde...
Publicado por: Nonas em janeiro 20, 2005 06:02 PM