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janeiro 03, 2005

Drieu

Não quis deixar passar este 3 de Janeiro sem lembrar Drieu.
Pierre Drieu La Rochelle (1893-1945) nasceu há precisamente 112 anos.
Votado ao ostracismo por motivos políticos (colaboracionismo), a sua obra não deixou de ser divulgada após a sua morte, dado o seu inegável valor.
Não quero falar do artista “engagé”, as suas ideias são relativamente bem conhecidas (e, de resto, discutíveis – seja a sua adesão ao hitlerismo, seja o seu europeísmo militante, sejam ainda as suas ideias sobre raça e nação).
Quero apenas deixar umas notas sobre alguns dos seus romances mais pessoais. “Blèche”, por exemplo, impressionou-me pela descrição quase mórbida de uma relação impossível. O escritor parecia aliás não poder viver sem mulheres e não poder viver com elas – pelo menos durante muito tempo.
“Le Feu Follet”, pelo menos tanto como “Récit Secret”, é uma obra bastante autobiográfica, narrando o lento caminhar para o fim, uma agonia e um sofrimento interior insuportáveis. Louis Malle realizou uma magnífica versão fílmica, com um extraordinário Maurice Ronet.
O citado “Récit Secret” narra as diversas tentativas suicidas do escritor. É uma leitura triste e quase impossível de não interromper amiúde. O seu “Journal” é um testemunho dos seus últimos meses de vida, escondido numa quinta. Muitas leituras, nomeadamente de clássicos ingleses e muita reflexão sobre o misticismo indiano.
E depois... depois, o fim, procurado desde jovem e finalmente abraçado.

E já que esta é, pode dizer-se, uma semana sob o signo de Rodrigo Emílio, aqui fica uma evocação de Drieu por ele pintada.

«POEMA-BALADA DOS 18 DE MARÇO DE 1945 E 1975»

Em honor, memória e louvor
de Pierre Drieu La Rochelle
que, ao raiar do dia 18 de Março
de 1945, pôs voluntariamente
termo à vida, «para não ser
tocado por mãos sujas».

Ao Artur Anselmo dos anos 60, que me
pôs, em boa hora, no caminho
de Drieu, e que pôs no meu
caminho muito daquilo que eu
mais amo.

Aqui há trinta anos,
e neste mesmo dia
em que te vejo e beijo
pela primeira vez,
não menos desumanos
que os de hoje à beira-Tejo,
eram os tempos, filha,
em todo o chão francês.

Aqui há trinta anos,
e neste mesmo dia,
e a esta mesma hora,
com gestos soberanos,
e só, desaparecia
Drieu, em plena aurora.

O mais senhorial
dos meus irmãos de ideias
não quis tornar atrás,
Depois do Luminal,
Talhou pulsos e veias...,
depois, abriu o gás...

Enquanto passo a mão
à flor da tua pele,
voa-me o coração
p'ra Drieu La Rochelle...


Rodrigo Emílio

Publicado por FG Santos às janeiro 3, 2005 10:50 PM

Comentários

Ó FG, não são 112 anos?

Publicado por: A em janeiro 4, 2005 01:11 AM

Tem toda a razão, obviamente.

Publicado por: FG Santos em janeiro 4, 2005 09:48 AM

Seja abençoado quem evoca o Drieu! :)
Permito-me sublinhar o "Journal" de que o FG Santos já falou. Creio tratar-se de um livro imprescindível, entre o documento histórico e um verdadeiro tratado sobre a natureza humana, as suas forças, fraquezas e sentimentos.
E dado que estamos aqui na 'tugalândia' onde se publica entre o pouco e o nada, sugiro "Gilles", um óptimo romance histórico editado em tempos pela Bertrand e que ainda se arranja. Boas leituras.

Publicado por: pedro guedes em janeiro 4, 2005 03:10 PM

"Gilles" é evidentemente do Drieu, para que fique claro.

E já agora para quem não conheça, dado que o saber não ocupa lugar:
http://www.ifrance.com/drieu-la-rochelle/

Publicado por: pedro guedes em janeiro 4, 2005 03:13 PM