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dezembro 29, 2004
Rodrigo Emílio e o Margarido
Ao meu baú das preciosidades fui desencantar esta prosa deliciosa do saudoso Rodrigo Emílio que, a brincar, a brincar, diz muita coisa séria.
É extraordinária a forma como parece escrever em prosa versejando, sempre com o "mot juste". E, claro, para além da forma, o conteúdo é precioso. Degustem.
DESFOLHANDO O MARGARIDO
Margarido é um nome lindo – mas só no feminino. No masculino é um absurdo.
Pode mesmo dizer-se que nunca um apelido se pareceu tanto com um nome próprio e que nunca um nome (im)próprio se pareceu tanto com uma alcunha.
Mas o nome é o menos. O pior é o resto.
Encurtando caminho e abreviando razões: Alfredo Margarido tomou-se de amores por um dos meus textículos – melhor dizendo: por um “Elogio da Raça” proposto a destino nas colunas de “Acção” – e usou e abusou dele em PÚBLICO (1), sem conta, peso e medida, como um forcené; e logo no cabeçalho. “EXTREMA-DIREITA LIQUIDA LUSO-TROPICALISMO” s’écrie Margarido, encantado da vida, chamando a título tão lícita ilacção.
Ora, é bom que quem ainda agora não saiba, fique mesmo a saber que a gente, aqui, escreve sempre e só escreve o que nos passa pela cabeça e não o que passa pelos pés do Margarido... Pois não sabe muito bem o Margarido que quem liquidou o luso-tropicalismo – e pretendeu liquidar, inclusivamente, a extrema-direita – foram a esquerda, a meia-esquerda e a extrema-esquerda que temos o infortúnio de aí ter?!... Não estaria o Margarido a dormir sentado, quando administrou a PÚBLICO, e ao PÚBLICO, tamanha protérvia?... O Margarido é parvo? Ou faz-se?... Ou é ele parvo e, com receio de o não parecer suficientemente – receio, de resto, infundado -, em cima de ser parvo, faz-se?!...
Tivesse tido Margarido o bom-senso de concluir e retirar, da leitura do meu texto, que a extrema-direita não chupa o luso-tropicalismo marxista vigente no antigo Ultramar português, nem com molho de Durão Barroso, e já eu aqui não estaria agora a derramar o meu latim...
Na sequência da sua palinódia, o nosso impagável Margarido exulta igualmente à brava pelo facto – e com o facto – de ter eu sacrificado muito do meu pensamento racial àquilo que ele considera terem sido os “desígnios históricos do salazarismo”. Como se a inteireza, integridade e salvaguarda do nosso império ultramarino, e o indeclinável dever de o defender, não só na medida do possível, mas ainda e sobretudo na medida do impossível, não figurassem também – e também não fulgurassem – entre os “desígnios históricos da I República”!... Ou ignorará o Margarido que até o hereje do Afonso Costa apodava de “sagrada” a intangibilidade territorial da nossa soberania além-mar-em-África-e-no-Oriente?!... E o que dizer, então, do general Norton de Matos?... Esse, Margarido, não fazia a coisa por menos: mandava escarrar patrioticamente na cara de quem se atrevesse a indiciar – por pensamentos, palavras ou obras – o mais ténue propósito de atentar contra a estrutura imperial da Pátria. Mais: intimava a comunidade a dar ordem de expulsão ao meliante e a desfazer-se dele para sempre, e no mais curto prazo de tempo. O Margarido sabia disto?
Não, Margarido: nunca o incomparável transcurso luso-tropical foi um projecto histórico de via reduzida e para consumo só de alguns; era, isso sim, um desígnio nacional de fundo e de longo curso, uma empresa histórica colectiva, e uma aposta e um desafio a que só os quadrilheiros d’Abril viraram vergonhosamente a cara e voltaram vergonhosamente as costas.
Por mim, digo, repito, confesso e confirmo que imolei, sim senhor, alguns – ou mesmo muitos – dos meus ideais racialistas mais profundos, no altar da sacratíssima causa ultramarina, e que em plena consciência o fiz; mas como também já tive ocasião de declarar no “Elogio da Raça”, tomara eu continuar a ter de fazer esses e mais outros sacrifícios, porque era, então, sinal seguro de que o Ultramar ainda aí perdurava como projecto e não estava reduzido ao dejecto que é hoje...
A ponta final da peça não deixa, toda ela, de ser péssima, sem favor, até para não destoar do resto; mas que tem pilhas, tem! Porque aí é que o Margarido entra mesmo em delírio – em delirium tremens mental, digamos -, ao derivar para uma teoria de divagações capilares e oftálmicas, sumamente perturbante e claramente perturbada. Topa-se que o Margarido não está bem...! Imaginem só para o que lhe havia de dar?!... Então não é que se põe ele a sonhar alto com uma selecção nacional dos mais belos e esbeltos exemplares da espécie, todos loiros e de olhos azuis?!...
Não sei se, em homem, será esse o seu “tipo”; em mulher, está longe de ser o meu, confesso... E, no entanto, não sou – nunca fui – dos mais esquisitos na matéria... Desde uma negra lusíada, de etnia landim, que em boa hora se cruzou no meu caminho, quando Portugal ainda deitava para o Índico e não tinha, como hoje, o horizonte obturado, até uma creôlinha carioca – por sinal, bastante afrodisíaca... -, tenho eu, Margarido, em verso e em prosa, cantado, “provado” e degustado de tudo um pouco, e muito de tudo – sem a menor relutância.
Mas onde o Margarido quer mesmo chegar, sei eu muito bem...
Em todo o caso, sempre d’aqui lhe faço notar que mesmo os mais “vistosos” hierarcas do Nacional-Socialismo, escapavam, maioritariamente, a semelhante traça física.
Com isto, não estou eu, bem entendido, a insinuar – Deus me livre! – e muito menos a afirmar que Adolf Hitler ou que o Dr. Goebbels fossem tão “morenaços” como o não sei quê Mandela; mas convenhamos que também estavam longe de ser uns “loiraços” tão explosivos como a Cicciolina – que é, de resto, uma “falsa loira”, para lá de ser muito mais coisas (e bem-haja ela!...).
E a respeito de serem “menos merencórios” para a extrema-direita os tempos em que eu escrevia no “Diário da Manhã” (com toda a honra, com todo o orgulho e sem metade do proveito que certa gente aufere com as tonterias que debita ao “Público”), não vá o Margarido sem resposta: esses bons e velhos tempos só eram “menos merencórios” para a extrema-direita, na medida em que também eram “menos merencórios” para Portugal do que os tempos que correm...
Por último, quero ainda que saiba que não sou “completamente barressiano”; limito-me a ser “incompletamente barressiano” e tenho pena, acredite.
Sabe que mais, Margarido?... O que eu quero é que o Margarido vá à fonte, que o Margarido vá à fonte e vá encher a cantarinha... de água chilra. Porque de outra não merece o Margarido beber. E mesmo dessa... Mesmo dessa..., vamos lá com Deus!...
Ora adeus, Margarido!
(1) Jornal “Público” de 14 de Agosto de 1990
Rodrigo Emílio, “Ofensiva”, nº3, Novembro 1990 – Janeiro 1991
Publicado por FG Santos às dezembro 29, 2004 10:03 PM
Comentários
Contrariamente ao que disse outro dia, noutro contexto, agora é: "Não estou nada de acordo, mas apoiado". Só o Rodrigo Emílio para me tirar do sério :)
Publicado por: clark59 em dezembro 30, 2004 04:17 AM
Fiquei curioso. O que se dizia no «Elogio da Raça»?
Publicado por: NC em dezembro 30, 2004 05:39 AM
Rodrigo Emílio é - na Poesia e na Prosa, no Ensaio e na Polémica -, simplesmente, genial!
Publicado por: Mendo Ramires em dezembro 30, 2004 07:49 PM