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dezembro 14, 2004

Movimentos e partidos políticos no pós-25 de Abril

O gozo que o jovem Viriato teve ao consultar no site da Comissão Nacional de Eleições a lista dos partidos já extintos levou-me a consultar um precioso livrinho, editado pela SEDES em Agosto de 1974, intitulado “Portugal novo: movimentos e partidos políticos”. Na capa, em destaque, afirma-se “O povo quer saber”!
O livro fala dos movimentos que existiam à época, num total de... 48!
Tanto como os programas, é curioso ver os nomes envolvidos. Assim, por exemplo, no Programa Associação de Estudos para o Progresso Nacional, apresentada como de extrema-direita, encontramos Francisco Lucas Pires. Preconizava-se entre outras coisas, a participação dos trabalhadores nas empresas...
Igualmente apontado como de extrema-direita, o Partido do Progresso contava nas suas fileiras com Fernando Pacheco de Amorim, Francisco Caldeira Cabral e Nuno Cardoso da Silva. Também era favorável à participação dos trabalhadores nas empresas, era anti-comunista e anti-fascista...
Na extrema esquerda o cenário é mais para o hilariante.
O ainda existente MRPP, que contou com nomes “ilustres” como Saldanha Sanches e José Manuel Barroso, era de orientação maoísta. Para além da litania habitual sobre o colonialismo, o imperialismo, etc., etc., o MRPP preconizava ferozmente que se expropriasse todos os monopólios, que se confiscasse os grandes latifúndios, que se exercesse a ditadura firme sobre os exploradores e reaccionários... Dinâmico, o partido tinha o jornal “Bandeira Vermelha” e apoiava-o mais ou menos abertamente “O Comércio do Funchal”, cujo director à época era Vicente Jorge Silva! Criaram-se os CLAC (Comités de Luta Anti-Colonial), mas também havia a RPAC (Resistência Popular Anti-Colonial) e o MPAC (Movimento Popular Anti-Colonial). Havia também a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas, cujo órgão era (agarrem-se bem à cadeira) o Comité Tempestade Revolucionária da Escola Yenan! Também digna de menção era a Associação de Amizade Portugal-China.
A LCI (trotskista) onde, salvo erro, militou o actual deputado Anacleto, propunha a independência imediata para as colónias, o direito de greve ilimitado para todos os assalariados, sem nenhum entrave nem regulamentação legal (!), a supressão imediata do Código Penal e de toda a legislação repressiva da época de Salazar e Caetano, a supressão imediata e definitiva de todas (todas, têm a certeza?) formas de censura na imprensa, rádio e televisão, a liquidação imediata (acalmem-se, leiam o resto) de todas as instituições fascistas e sua substituição por organismos democraticamente (calcula-se) eleitos, extradição e julgamento (por esta ordem!?) de Tomás e Caetano por tribunais populares, liberdade completa (os rapazes eram mesmo divertidos) de associação e reunião, amnistia imediata e incondicional de todos os desertores (aqui o Alegre Manuel de Argel respirou aliviado), sem a sua incorporação posterior nas forças armadas, assegurar a reforma agrária e a aliança operária-camponesa! Sem surpresa, o seu jornal chamava-se “Luta Proletária”.
O sinistro PRP-BR, da gorda especialista em nutrição Isabel do Carmo preconizava a revolução violenta, pois “a burguesia não se deixará desapossar facilmente”. A dita senhora mais o militante Carlos Antunes (esta não vem no livro), pouco antes do 25 de Novembro, apelaram ao Almirante Pinheiro de Azevedo para adoptar o que propunham, que não difere muito do que vimos acima como posições do MRPP e LCI. Relatava o castiço almirante: “ouvi o que tinham para me dizer, chamei-lhes parvos e mandei-os embora”!
Também podia falar do MES e dos seus militantes Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio, mas essa história já todos conhecem.

Publicado por FG Santos às dezembro 14, 2004 11:39 PM

Comentários

Folgo em saber que a juventude (alguma, pelo menos) gosta de andar informada sobre a História de Portugal.
Ó FG, você tem que idade? É que a confusão é tanta que eu tenho medo do livro que você anda a ler.
Já agora, Jorge Sampaio nunca foi militante do MES, saíu no congresso da fundação do movimento. E Ferro Rodrigues foi daqueles que apreciou a saída de todos quantos não gostaram da passagem dessa agremiaçção a partido comunista.
Espero ter sido útil.

Publicado por: clark59 em dezembro 15, 2004 03:14 AM

Caro Clark, tenho 35 anos.
Também sei que o MES virou (ainda) mais à esquerda a meio do PREC, o que levou à deserção de muitos militantes.
O livro que citei li-o há uns 10 anos, ontem limitei-me a dar uma leitura por algumas páginas mais saborosas.
Não levei a mal o tom paternalista da sua missiva.
Um abraço.

Publicado por: FG Santos em dezembro 15, 2004 09:59 AM

Não foi o Durão que andou a roubar mobílias à Universidade para compor a sede do MRPP?

Publicado por: Viriato em dezembro 15, 2004 01:52 PM

Foi.

Publicado por: Mendo Ramires em dezembro 16, 2004 04:17 PM