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dezembro 10, 2004
Entrevista de Manuel Maria Múrias
De poucas pessoas se pode dizer que deixem uma impressão tão viva da sua pessoa ao ler-se uma sua entrevista como sucede, a meu ver, com as declarações de Manuel Maria Múrias ao Expresso que a seguir se transcrevem.
Com o seu estilo truculento e o espírito rebelde que o caracterizava, MMM diz tudo o que lhe ocorre sobre o regime salazarista e o pós-25 de Abril.
Uma sugestão de leitura para o vosso fim de semana.
«Em Agosto fará 68 anos, muitos menos do que a memória de alguns lhe atribui. Pesa mais a fama do que o tempo cronológico a Manuel Maria Múrias. «Um personagem», dizem-no os que o recordam. Truculento, polémico, um gosto confesso pela arruaça, Manuel Maria Múrias representa um estrato social e um pensamento político de uma época ainda próxima mas já incompreensível para as novas gerações. De tamanho imponente, cerca de dois metros de altura, usa as palavras como murros; a fala é áspera e a gargalhada potente. Não é homem de subtilezas estilísticas nem, num dizer antigo, «de arcas encoiradas». Por isso se afirma como fascista respeitador de Salazar mas não salazarista e antimarcelista. Ódios de estimação tem alguns, sendo Mário Soares e Ramiro Valadão dois dos que enuncia. Passou pela RTP nos idos de 60 como chefe de serviços da Informação e Programas. Deixou rasto. É por aí que vamos.
Expresso - Que acusação justificou a sua prisão a seguir ao 25 de Abril?
Manuel Maria Múrias - Nenhuma.
EXP. - Nenhuma?
M.M.M. - Fui preso sem culpa formada.
EXP. - Quanto tempo?
M.M.M. - Sete meses, passados entre Caxias, Peniche e a Penitenciária.
EXP. - Estava a trabalhar onde?
M.M.M. - No jornal Bandarra.
EXP. - Um jornal de extrema-direita?
M.M.M. - O Bandarra era um jornal de direita para o qual fora convidado para director. Como não aceitei, fui falar com o António Pinheiro Torres, que também recusou. Recorri então ao meu amigo e compadre Miguel Freitas da Costa, que aceitou.
EXP. - Mas a sua prisão acontece em consequência de quê?
M.M.M. - Julgo que por ter escrito um artigo no Bandarra a que chamei «O Discurso de Marco António», e cujo leitmotiv eram os doutores Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro. Em síntese, eu dizia que, tratando-se de pessoas tão dignas e honestas, como poderia eu — um desgraçado sem categoria — falar deles ou contra eles? Foi só isto! Dou-lhe a minha palavra de honra.
EXP. - E depois?
M.M.M. - O director do jornal teve de emigrar para Espanha e eu, como já disse, passei sete meses na prisão, sem culpa formada.
EXP. - Reincidiu no jornal A Rua, que criou depois de ter estado preso. Escreveu um artigo insultuoso sobre Mário Soares.
M.M.M. - Chamei-lhe mentiroso, relapso e contumaz. No 28 de Setembro, fui preso — desta vez, legalmente — e, condenado a 14 meses de cadeia. Saí ao fim de sete — imagine-se! — por bom comportamento. Quem mais se encarniçou contra mim foi essa caneta d`oiro chamada Raul Rego. No jornal República exigiu a minha prisão como «salvaguarda da liberdade e da democracia»!
EXP. - É um homem ressabiado?
M.M.M. - Não. Sabe, esqueço as coisas que me desagradam...
EXP. - Como, por exemplo?
M.M.M. - Esqueci Portugal! Não me lembro de nada do que se passa neste país! Nem percebo nada... Agora o Rui Mateus diz que o Soares é um ladrão, porque o Soares lhe chamou ladrão a ele... É tudo uma porcaria!
EXP. - No «antigamente» não era assim também?
M.M.M. - Não, porque havia a Censura e havia um homem que tinha uma indiscutível autoridade: o doutor Salazar!
EXP. - Foi um indefectível de Salazar?
M.M.M. - Quase.
EXP. - Foi-o por influência familiar?
M.M.M. -Também por tradição familiar. No entanto, o meu pai era sobretudo monárquico...
EXP. - Monárquico e integralista?
M.M.M. - Aos 20 e tal anos foi integralista e director da revista de cultura A Nação Portuguesa, órgão da facção integralista, que tinha como secretário de redacção o Marcello Caetano. Mas o meu pai foi também um dos poucos conspiradores civis do 28 de Maio. Amigo pessoal do general Gomes da Costa, o meu pai convidou-o para liderar o 28 de Maio. Foi da nossa casa, na Calçada do Carriche, que o Gomes da Costa saiu para ir para Braga, no automóvel de um sujeito de nome Papacheta.
EXP. - Será que ainda se lembra de, nos finais dos anos 50, ter desencadeado uma cena de pancadaria no Capitólio, onde a companhia brasileira da Maria Delia Costa representava a peça de Brecht A Boa Alma de Sesuan?
M.M.M. - Lembro-me, até fui preso.
EXP. - Preso quando estava a fazer um favor ao regime?
M.M.M. - Preso, e como fascista!
EXP. - Como fascista?! Explique o contra-senso.
M.M.M. - Fui levado para a esquadra, onde me quiseram bater!
EXP. - Mesmo sendo filho do director do Diário da Manhã, o órgão oficioso da União Nacional?
M.M.M. - Nessa altura o meu pai já não era o director do jornal.
EXP. - Não é credível, num regime fascista, ser-se preso como fascista...
M.M.M. -A Della Costa tinha feito uma temporada no teatro Avenida que fora um desastre económico. Sem dinheiro para regressar ao Brasil, pediu um subsídio ao Governo. Apresenta então no Capitólio a peça do Brecht. Eu frequentava um grupo de indivíduos contestatários que se reunia no café Aviz. Nessa altura, a nossa «luta» era contra a Direcção-Geral dos Espectáculos.
EXP. - Contra os excessos ou a tolerância da Censura?
M.M.M. -Achávamos que o coronel que lá estava era uma cavalgadura. Deixava passar coisas impensáveis. O Brecht defendia: «Toda a arte é propaganda»; como o Brecht era comunista, logo a peça era de propaganda comunista. A Censura deixou passar. Tanto pior. Nós vamos lá patear. E assim foi. Sabíamos que havia uma lei que proibia espectáculos que provocassem distúrbios. O nosso objectivo era obrigar a Direcção-Geral dos Espectáculos (DGE) a cumprir a lei. Fomos a primeira vez e não aconteceu nada. A DGE não cumpria a lei nem à porrada. Fomos uma segunda vez e houve porrada, e eu fui preso por um tenente da polícia que estava perdido de riso; ele tinha feito parte do primeiro grupo!
EXP. - Falou num grupo. Pertencia a alguma organização?
M.M.M. - Nunca pertenci a coisa nenhuma.
EXP. - Claro que pertenceu à Mocidade Portuguesa...
M.M.M - Era obrigatório, no meu tempo de liceu. Mas fui expulso em consequência de uma grande zaragata que provoquei. Sempre gostei de andar à porrada! Se, por exemplo, eu estivesse no Terreiro do Paço e soubesse que havia porrada no Campo Grande, ia logo para lá a correr.
EXP. - Privou muito com Salazar?
M.M.M. - Pelo telefone, quando estava na Televisão. Aquando do Maio de 68, lembro-me de terem ligado da Presidência do Conselho para o Telejomal. O Salazar queria falar comigo. Reconheci-lhe a voz, mas pedi-lhe para desligar que eu faria a ligação de seguida. Ninguém me garantia que fosse mesmo o Salazar! No dia seguinte, ele diria ao subsecretário de Estado da Presidência: «Aquele rapazinho que você pôs na Televisão é muito desconfiado.» Desconfiado eu sou, que bem poderia ser um gajo qualquer a imitar-lhe a voz...
EXP. - (...) Voltemos ao telefonema de Salazar.
M.M.M. - Bom, liguei, e foi o próprio Salazar que me atendeu. Disse-me: «Nós, aqui na Presidência, não dispomos de verba para termos os telexes das agências, e a Censura está a mandar as cópias dos telegramas com um grande atraso. Por isso, não sei muito bem como estão a evoluir as coisas em França.» Comecei a fazer-lhe um apanhado das notícias que tínhamos recebido até àquela hora. Mas, como os telexes continuavam a chegar ininterruptamente, propus dar-lhe informações de meia em meia hora. Assim fiz, e foi sempre ele que atendeu o telefone, Até que chegou o telegrama com a notícia do assalto à Bolsa de Paris pelos estudantes...
EXP. - O que indignou muito o Manuel Múrias?
M.M.M. - Qual quê! Estava a torcer pelos estudantes!
EXP. - Em que tom de voz deu a notícia a Salazar? Pesaroso? Eufórico?
M.M.M - Disse-lhe: «Senhor Presidente, os rapazes assaltaram e estão a destruir a Bolsa de Paris.» E Salazar responde-me: «E o senhor todo contente!» [Risos]. Ele sabia que eu tinha fama de anarquista.
EXP. - Nunca pertenceu à União Nacional?
M.M.M. - Não. Nem sequer alguma vez fui corporativista. Sou fascista.
EXP. - Maurrasiano?
M.M.M. - Tanto quanto possível; o Maurras dizia muito mal do Mussolini...
EXP. - Ramiro Valadão defende que o Estado Novo não foi fascista mas corporativista. Está de acordo?
M.M.M. - Deve ser das poucas coisas em que estou de acordo com Valadão. Não houve fascismo, nem sequer corporativismo. Apenas salazarismo. Havia um senhor que tinha autoridade e que mandava.
EXP. - Uma autoridade bem apoiada na polícia política...
M.M.M. - Uma autoridade apoiada no Exército! Se não fosse o Exército não teria existido polícia política. A PIDE não mandava coisíssima nenhuma. A PIDE prendia pessoas.
EXP. - Qual a sua posição em relação à PIDE?
M.M.M. - A PIDE foi uma estupidez política do doutor Salazar. Um erro crasso, com a agravante de ele ter ido buscar a ideia aos democráticos, os primeiros a criar uma polícia política; uma invenção do António Maria da Silva, em 1925. Além disto, a constituição da PIDE foi baseada num erro formal — o ter-se considerado haver dois tipos de crimes: os políticos e os outros...
EXP. - Uma «estupidez», como diz, que encarcerou, torturou e esmagou muitos portugueses.
M.M.M. - Quem não conspirava não ia preso; quem não punha bombas não ia preso!
EXP. - Na sua opinião, os presos políticos deveriam ter um tratamento igual aos de delito comum?
M.M.M. - Exactamente. Não tem de haver uma lei e uma polícia especiais para determinados crimes. Há lei ou não há. Não há crimes políticos: há crimes. As FP-25 o que são? O Otelo o que é senão um assassino?
EXP. - É uma forma redutora de encarar o problema...
M.M.M. - Acha que não é crime que o Palma Inácio — uma grande figura da democracia! — tenha assaltado um banco na Figueira da Foz?
EXP. - Aqui põe-se a questão de os meios justificarem ou não os fins...
M.M.M. - Quando as bombas são postas pelos democratas são boas, e más quando lançadas pelos antidemocratas?
EXP. - Bem, sabe que onde há opressão há resistência. Aliás, foi por uma atitude prepotente do Governo de Salazar que o Manuel Múrias foi parar à Televisão!
M.M.M. - O director de informação que eu fui substituir, o Manuel Figueira, tinha feito a mesma coisa que o Maurice Béjart, no Coliseu, e que lhe valera ser posto na fronteira: um elogio rasgado a John Kennedy, no dia do assassínio do Presidente americano.
EXP. - Não se podia falar bem de Kennedy?
M.M.M. - O Kennedy era nosso inimigo; fez tudo o que lhe foi possível para nos correr de África. Eu nasci num país que ia do Minho a Timor. Agora estou numa merda de um pátio que vai do Minho a Vila Real de Santo António.
EXP. - É um saudosista do Império?
M.M.M. - Sou um saudosista de Portugal, que é uma coisa completamente diferente. Se um país aumenta e diminui por decreto-lei, eu não sou obrigado a respeitar ou a amar o decreto-lei!
EXP. - Voltemos à sua nomeação, em 1963, para substituir Manuel Figueira na RTP.
M.M.M. – Corno já disse, eu fui parar à Televisão por o Manuel Figueira ter perdido a compostura política com a morte do Kennedy. Eu lembro-me de estar em casa de um amigo a ver televisão — na altura eu nem sequer tinha televisor —, e de ter ficado um bocado «lixado». Achei incrível que o Figueira estivesse a fazer um estardalhaço sobre a morte de um sujeito que tinha passado a vida a combater a política do Governo português. No dia seguinte, telefonou-me o meu amigo e padrinho de casamento Eduardo Freitas da Costa, presidente da RTP..
EXP. - Pessoa que nunca tirou da lapela o emblema da Legião Portuguesa?
M.M.M. - É verdade, até ao fim da vida. Não sei se teria sido mesmo enterrado com ele.
EXP. - De que tratava o telefonema do seu padrinho?
M.M.M. - O Freitas da Costa disse-me, exactamente, assim: «Amanhã às quatro horas, você toma posse do cargo de director de Informação da RTP» Respondi-lhe que ele estava maluco. Na altura, eu estava a ganhar «massas» com a montagem de filmes publicitários e de documentários. Além disso, eu fazia política, mas na Brasileira do Chiado.
EXP. - As suas relações eram sobretudo com gente do regime?
M.M.M. - Não. Dava-me com toda a gente. Fui amicíssimo do Almada — pois é... o Almada também foi fascista! Só depois do 25 de Abril é que cortaram relações comigo pessoas que eu conhecia há mais de 30 anos.
EXP. - Como, por exemplo?
M.M.M. - Algumas já morreram e outras estão muito velhas. Não vale a pena desenterrar o que está morto e enterrado. Sabe, eu comecei a trabalhar muito cedo, aos 15 anos. Como o meu pai era director de um jornal, convivi desde rapazola com muita gente conhecida...
EXP. - Que pensa da regionalização?
M.M.M. - Estou-me nas tintas para a regionalização! Portugal agora para mim vai até ao meu portão! Porque me hei-de preocupar com isso quando oiço fazer-se o elogio da descolonização, como a besta — pode escrever — do doutor Mário Soares, que ainda hoje se orgulha da descolonização e diz que o 25 de Abril foi uma revolução incruenta!
EXP. - E não foi?
M.M.M. - Morreram milhões de pessoas! Milhões! Os pretos que morrem de fome e se continuam a matar uns aos outros para mim eram e continuam a ser portugueses!
EXP. - Portugueses mas de segunda, até 1961. Foi preciso o início da guerra colonial para que alterassem o decreto-lei de 1954 que consignava o estatuto de indígenas portugueses aos naturais e assimilados das províncias da Guiné, Angola e Moçambique...
M.M.M. - Estou-me completamente nas tintas para essa treta! Eu tenho só a quarta classe. Nem sequer passei do segundo ano do liceu...
EXP. - Porquê?
M.M.M. - Porque sou estúpido e sempre fui cábula.
EXP. - Apesar de tão insignificantes habilitações escolares, chegou a chefe de divisão na RTP, responsável pela Informação. Valeu-lhe o enfeudamento ao regime?
M.M.M. - Não. Na altura em que fui para a Televisão era chefe da secção de cinema da Junta de Acção Social, um organismo do Ministério das Corporações. Fazia filmes em 16 milímetros que eram passados nas casas do povo por todo o País. Aliás, orgulho-me de ter sido o responsável pela criação do maior circuito de cinema em Portugal, com a montagem de máquinas de projectar de 16 milímetros em todas as casas do povo.
EXP. - Filmes de propaganda política?
M.M.M. - Passávamos filmes do circuito comercial para 16 milímetros e fazíamos um jornal de actualidades — era praticamente o Imagens de Portugal, produzido e realizado pelo Perdigão Queiroga...
EXP. - Também fazia crítica de cinema com o pseudónimo de Manuel Moutinho...
M.M.M. - Sim, e até escrevi um livro, História Breve do Cinema.
EXP. - Como é que o crítico de cinema convivia com as amputações feitas aos filmes pela Censura?
M.M.M. - Por vezes não concordava com os critérios da Censura. Lembro-me de ter visto um filme que viria a ser proibido, o que considerei uma estupidez monstruosa.
EXP. - E as cinematografias importantes como a de Eisenstein? Tivemos de esperar pela Primavera Marcelista para vermos, em Portugal, Ivan, o Terrível e Alexandre Nevski. Só depois do 25 de Abril veríamos O Couraçado Pontemkin.
M.M.M. - Eu vi-os todos muito antes. Recordo-me de o António Vilar, o actor, ter sido preso na estreia de A Linha Geral, do Eisenstem, no Odéon.
EXP. - O que é que Manuel Moutinho achava dos filmes do António Lopes Ribeiro, cineasta do regime?
M.M.M. - Acho o Pai Tirano uma fita sensacional...
EXP. - E A Revolução de Maio?
M.M.M. - É menos boa. Mas aquilo que não se pode negar é a importância do António Lopes Ribeiro no cinema português. A revista Animatógrafo, que ele criou, foi o que me levou a interessar-me pelo cinema. Houve guerras terríveis contra o Lopes Ribeiro. A revista Filmagem, editada pelo Cardoso Lopes Júnior — o homem que editava também O Mosquito, a primeira revista de banda desenhada —, fez, entre 1942 e 1943, uma campanha pura e simplesmente política para destruir o António como realizador de cinema.
EXP. - Salazar apreciava o cinema português?
M.M.M. - Lembro-me de ter assistido a uma sessão de cinema, na Tobis, se não me engano, para ver o filme Camões, do Leitão de Barros. O Barros tinha convencido o Salazar a estar presente e, no final, perguntou-lhe a opinião. Salazar respondeu: «Sabe, fez-me tanto mal à vista...»
EXP. - Disse que o então administrador da RTP Freitas da Costa foi quem lhe telefonou a dizer que ia substituir o jornalista Manuel Figueira. Mas a nomeação vinha da Presidência do Conselho?
M.M.M. - Claro, foi o Paulo Rodrigues...
EXP. - Um subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, de cuja tutela dependia a RTP, e que acabou a dirigir a praça de touros do Campo Pequeno!
M.M.M. - E depois? É o castiço em todo o seu esplendor! Aliás, ele sempre gostou de toiros. Era um especialista.
EXP. - Como se lembraram de si se, como diz, não tinha uma acção política; se fazia política de café?
M.M.M. - Nunca me tinha metido na política mas tinha formação política, recebida, em parte, à mesa da casa de jantar. Lera também alguns livros, conhecia alguns teóricos e era um sujeito muito de direita, mas não fascista...
EXP. - Em que ficamos? Disse já que é fascista!
M.M.M. - Não era, mas já se passaram 40 anos. Na altura, o Jaime Nogueira Pinto considerava-me um liberal; ele é que era fascista. Agora diz que eu é que sou fascista e ele liberal. Eu nunca mudei. Quando é preciso dizer mal digo mal, quando é preciso dizer bem, digo bem.
EXP. - Mas acabou por ir para a RTP...
M.M.M. - Eu só fui para a Televisão porque o meu ministro, o doutor Gonçalves Proença, de quem eu gosto muito, me fez aceitar. Eu não gostava de televisão. Só comprei um aparelho dois dias antes de entrar para A RUA. Eu gosto é de jornais: jornalismo é jornais. Mas houve grande pressões para que eu aceitasse. Inclusive, o Gonçalves Proença chegou a deixar a ameaça velada de que iria ter dificuldade de me manter no lugar na Junta de Acção Social. Ora, nessa altura, eu ganhava mais a fazer filmes publicitários — um filme rendia-me 12 contos! do que os 3500 escudos que me pagava a Junta como chefe de secção.
EXP. - Já disse quem o convenceu, mas não disse como.
M.M.M. - A certa altura, como as pressões continuavam, até envolveram a minha família, fiz bluff. Resolvi dizer que só aceitaria se fosse o doutor Salazar a pedir-me; coisa que achava impensável. Pois, estou em casa quando toca o telefone. Atendi, e era Salazar: «Amanhã, depois de ter tomado posse como director do Telejornal, gostaria que passasse por aqui.»
EXP. - Para lhe dar directivas?
M.M.M. - O doutor Salazar nunca me deu quaisquer instruções. Ele gabava-se de nunca ter visto um telejornal...
EXP. - Acreditava nisso?
M.M.M. - Não, embora eu soubesse que a televisão lhe fazia dores de cabeça! O doutor Salazar nunca me deu quaisquer instruções.
EXP. - Sai da chefia dos telejornais em que ano?
M.M.M. - Quando Marcello Caetano vai para o Governo.
EXP. - Ao contrário de Salazar, Marcello Caetano soube servir-se da televisão.
M.M.M. - Soube, e foi por isso que caiu! Não há ninguém que aguente o que o Marcello fez!
EXP. - Refere-se às Conversas em Família?
M.M.M. - Exactamente! Quando eu disse isso ao Moreira Baptista, ele quase espumava! Eu defendia que um homem na posição de Marcello Caetano não podia banalizar-se. Ora, foi isso que ele fez: banalizou-se.
EXP. - E Salazar não se banalizou porque soube preservar o lado misterioso do poder?
M.M.M. - Um discurso de Salazar era um acontecimento nacional! Recordo-me de ter ido à (então) Assembleia Nacional assistir à preparação da gravação de um discurso. Estava já tudo arranjado: uma mesa comprida onde Salazar se sentaria num dos topos e, ao centro, um lindo arranjo de flores. Sentei-me para o operador ver como resultava o cenário: «Está lindo», disse. «Parece morto!» Claro que, com o «Botas», porque mais velho, seria ainda pior. Ninguém, até ali, se atrevera a dizer-lhe que ele precisava de ser maquilhado. Então, perguntou: «Quem manda aqui?» Respondi-lhe que era eu. «Onde quer que me sente?» Indiquei-lhe o lugar, mas disse-lhe que o cenário e a pouca luz da sala exigiam que ele tivesse de ser maquilhado. Não sem ter demonstrado uma certa perplexidade, acabou por concordar. Por vezes, ao encontrar-me, dizia: «Cá está aquele que me pinta!»
EXP. - Que impressão lhe deixou Marcello Caetano?
M.M.M. -A sensação que o Marcello me deixou foi de ele se ter convencido que mandar era só dar ordens. Nunca lhe passou pela cabeça que Salazar mandava e era obedecido porque consultava as pessoas. Recordo-me de uma das poucas vezes que fui recebido por Salazar, estava ele em Sto. António do Estoril. Começou a conversa comigo assim: «Que lhe parece a visita do Papa a Bombaim?» Parece-me mal, senhor Presidente. Aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o doutor Franco Nogueira, já protestou. «Acha suficiente?», perguntou. Disse-lhe que não achava. «Então, publique lá uma notícia de 20 ou 30 segundos, no telejornal.»
EXP. - Uma pretensão modesta!
M.M.M. - Qual quê! Entrega-me então umas folhas dactilografadas a dois espaços cujo texto dava para um discurso. Chamei-lhe a atenção para o tamanho exagerado do texto; ele pôs os óculos, puxou do relógio e começou a ler em voz baixa. A leitura durou 12 minutos. Percebeu que não podia ser assim e entregou-me o texto para eu o reduzir para os tais dois segundos. Quando acabei, ele leu e fez este reparo: «Sabe quem sabe!»
EXP. - O salazarismo morreu ou não com o pós-guerra?
M.M.M. - Acho que sim. Entrou em agonia logo a seguir ao fim da guerra, só que levou muito tempo a morrer! A única preocupação de Salazar era a integridade do território nacional.
EXP. - Sendo o Manuel Múrias uma pessoa de espírito rebelde, como aceitou defender a ditadura?
M.M.M. - Você é que viveu em ditadura. Eu não! Ainda por cima, fazia parte do Poder!
EXP. - Como exerceu o poder na Televisão?
M.M.M. - Entrei para a Televisão no dia 23 de Dezembro de 1963. Lembro-me de o chefe de redacção, Vasco Teives, ter-me dito que, por ter uma especial consideração pelo Manuel Figueira, não podia dar-me grande colaboração. Respondi-lhe que isso não me afectava mas que deixava bem claro: o primeiro que me desobedecesse ia para a rua.
EXP. - Chegou a cumprir essa ameaça?
M.M.M. - Ninguém me pode acusar de ter cometido qualquer injustiça ou de ter perseguido politicamente quem quer que seja. Apenas castiguei um jornalista do Telejornal — um homem de direita — porque ele desrespeitou as normas.
EXP. - Que normas?
M.M.M. - Depois de eu visar a Agenda, que era feita pelo chefe de redacção, ele acrescentou uma notícia sobre o presidente da RTP. Foi para a rua mesmo contra a vontade da administração, à qual tinha posto a alternativa: ou ia eu ou ele. Optaram por ele.
EXP. - Continua a afirmar que Ramiro Valadão transmitiu imagens de Salazar — já senil — com a intenção de lhe desprestigiar a imagem e abrir o caminho a Marcello Caetano?
M.M.M. - É inteiramente verdade.
EXP. - Valadão diz que o fez apenas para satisfazer a vontade de senhoras amigas de Salazar.
M.M.M. - É mentira! Ele que me diga isso a mim! Para já, é uma mentira inconsistente. As tais «amigas de Salazar» não podiam ter mandado os operadores para a Cruz Vermelha. A única verdade, e toda a gente sabia, é que o doutor Salazar estava mal; completamente arrumado.
EXP. - O Presidente da República não tinha outra escolha?
M.M.M. - O Presidente Thomaz nomeou o Marcello porque era o único que, se fosse afastado, lhe poderia levantar problemas. Ele escreveu isso mesmo no último volume das Memórias. Inclusive, o general Deslandes (chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas), que fora mandatado pelo Exército para ir convidar o Franco Nogueira para presidente do Conselho, disse-lhe: «O senhor Presidente manda e nós obedecemos.»
EXP. - Quem via então para substituir Salazar?
M.M.M. - Marcello tinha sido muito amigo do meu pai. Eu conhecia-o bem. Mas não gostava dele, e isso era público. Aliás, tinha dito isso mesmo ao Moreira Baptista, que era marcelista. Acreditava, na altura, no Franco Nogueira.
EXP. - Sente-se injustiçado?
M.M.M. - Não. Ninguém me fez mal, aliás, ao contrário do que eu teria feito. Eu tinha castigado. Jamais aceitaria o que foi feito com a descolonização! Eu gostava dos pretos!
EXP. - Acha que estes últimos 22 anos de democracia não mudaram o País?
M.M.M. - Acho que sim! Foi, aliás, a democracia que fez com que muitos dos actuais presidentes de câmara — que dantes se vestiam dos alfaiates das respectivas terras — passassem a vestir-se dos alfaiates de luxo e ter a «massa» que têm.»
In Expresso, 20.07.1996
Publicado por FG Santos às dezembro 10, 2004 03:15 PM
Comentários
A entrevista é muito divertida, mas aviso já: quem não conviveu com Múrias tem alguma dificuldade em perceber quando é que as palavras dele são ditas a sério ou quando são puro gozo (provocação para um lado e para outro, como ele se deliciava a fazer).
A entrevista corresponde a uma fase em que Múrias só dava uma entrevista para se divertir, fosse com o entrevistador fosse com os alvejados pelas setas que desferia em várias direcções.
Um puro exercício de espírito.
Publicado por: Manuel Azinhal em dezembro 10, 2004 04:06 PM
Muito obrigado por publicar esta entrevista a MMM que (imperdoávelmente) não conhecia. Como atenuante, o facto de há largos anos não comprar o Expresso.
Publicado por: JLL em dezembro 10, 2004 06:18 PM
Um verdadeiro iconoclasta! Tenho de ler mais coisas escritas por MMM!
Publicado por: JSarto em dezembro 11, 2004 04:01 PM
Só hoje tive ocasião de ler esta entrevista notável... Muito, muito interessante!
O único problema é o que o Manuel afirma! É difícil distinguir o "baile"...
Ainda assim é fundamental...
Agradeço também ao Manuel a publicação prévia dos textos referidos!
Faz muito bem em tirar estas do baú!
Publicado por: O Corcunda em dezembro 11, 2004 08:21 PM
Não consigo encontrar o recorte nem imprimir aqui. É o diabo!
Publicado por: Mendo Ramires em dezembro 14, 2004 04:21 AM