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dezembro 27, 2004
Da comicidade dos políticos à política dos cómicos
Com a sua costumeira verve e agudo sentido de observação, Manuel Maria Múrias pintou o quadro, que abaixo se reproduz, ó quão actual, da classe política portuguesa.
Deliciem-se.
DA COMICIDADE DOS POLÍTICOS À POLÍTICA DOS CÓMICOS
Ao espectacularizar espalhafatosamente a vida social, a televisão espectacularizou espalhafatosamente a vida política. Não há política sem espectáculo e, tal qual o verificava Upton Sinclair vai para setenta anos, já não há espectáculo sem política. Tal como os actores, cujo «pão nosso de cada dia» depende da popularidade (quer dizer: do ser muito conhecido e estimado pelas plateias), os políticos dependem também do favor do público. A maior preocupação deles é chegar à televisão; uma aparição no pequeno écran vale mais do que meia dúzia de discursos ou decretos bem escritos e bem pensados. No início dos anos sessenta o debate televisivo entre Nixon e Kennedy decidiu a vitória nas eleições presidenciais americanas. Nixon era um político «gauche» e antipático; Kennedy parecia um galã do cinema: mesmo que tenha génio, um político sem telegenia dificilmente ganha o poder; um outro, estúpido e bonitinho, vence-o definitivamente na brecha da TV.
Sendo assim os políticos quando se apresentam diante das câmaras da televisão (quinze segundos de som e imagem, uma aparição fugidia) preparam-se apenas para ficar bem, lançar slogans, meia dúzia de palavras superficiais que tenham valor propagandístico. Apregoam-se políticos como se publicitam pasta de dentes. Somente vale o que se fixa nos olhos e nos ouvidos, não interessando o significado do que se diz. A demagogia chegou ao auge nos nossos dias; mas, mesmo assim, só frutifica se o demagogo for telegénico e bem vestido.
O que dá para a publicidade e para a propaganda política, dá para a Propaganda da Fé. Um comentador religioso feio e com má dicção não convence ninguém da existência de Deus. Ninguém estranhou ver eleitos bispos dois antigos comentadores religiosos da televisão portuguesa. Ninguém duvidou nem das suas virtudes apostólicas nem da sua cultura religiosa: — a televisão tinha-as comprovadamente testado em muitas horas de emissão.
Desta maneira se esvaziou a política do seu conteúdo ético. Já não interessa defender e propagar determinadas ideologias e prometer mundos e fundos em função de certos ideais e objectivos programáticos e sócio-políticos. Interessa saber estar, conquistar o sentimentos dos telespectadores massificados, angariar votos emocionais. Uma das fraquezas dos comunistas é essa: — não querendo desagradar à militância mais evoluída, desagradam à grande massa dos eleitores; agradando a estes, desagradam àqueles. De eleição em eleição, o P.C. vai perdendo votos, porque os velhos militantes morrem e os novos aparecidos votantes não são suficientes para colmatar as vagas abertas pelo desaparecimento dos antigos militantes vazados ainda no crisol romântico da mítica luta de classes.
Em consequência já se não estranha ver os srs. ministros transformarem-se em palhaços para surgirem com sorrisos esfusiantes nos programas do Herman José e do Nicolau Breyner. O facto do dr. Mário Soares ter recusado comparecer no programa do Herman José e deste o ter censurado por isso, é um caso excepcional. Recusando, o sr. Soares censura o governo por se sujeitar a semelhantes palhaçadas; se os ministros se tivessem recusado, censura-los-ia mesmamente, aceitando ele. O espectáculo tem que continuar. Herman representa o seu papel; Soares representa o dele. São dois histriões simpáticos e agradáveis. Dois profissionais perfeitos que da política têm o mesmo conceito espectacularista.
Assim se desideologizou a política transformada em espectáculo puro. Não estamos longe do tempo em que se organizarão os governos como se organizavam as companhias teatrais: — o Primeiro Ministro será o galã central, atrás dele alinham-se a dama galã, os característicos, os cómicos, os centrais e os figurantes. Já agora se desconhecem os nomes de muitos membros do governo, secretários e subsecretários de estado anónimos que, obscuros de si, voluntariamente se querem na obscuridade.
O fenómeno não é exclusivamente português. É democrático. Por toda a Europa é evidente a mesma confusão. Envolvidos na política os homens e as mulheres do espectáculo quando chegam ao poder não se mostram piores governantes do que os políticos profissionais. Ronald Reagan foi melhor Presidente dos Estados Unidos (acabou com o império soviético) do que galã de cinema — e duvido que o Nicolau Breyner fosse pior Presidente da Câmara Municipal de Serpa do que o marmanjo comunista que o venceu nas últimas eleições autárquicas. Um bom actor é geralmente um sujeito inteligente e culto; a maioria dos profissionais da política, além de muito estúpidos são verticalmente analfabetos.
Diante dos factos (os actores, futebolistas e dirigentes desportivos, misturados com os ministros, secretários e subsecretários de estado, deputados e autarcas) o estimável público distingue mal onde começa a política e acaba a farsa, e onde principia a farsa e termina o drama. Rindo-se com os actores, ri-se dos políticos. Aquele injustíssimo e ancestral desprezo que, desde a Idade Média, se tinha pelos «cómicos» transmitiu-se inteiramente para os políticos. Um bom actor é quase sempre respeitado, quando não é venerado. Um político, inclusivamente quando é bom, é quase sempre detestado. Uma boa representação esquece-se com rapidez; um mau acto político deixa feridas insanáveis.
Procurar princípios ideológicos num político é, por conseguinte, já agora tão inútil como procurá-los num actor. Quando se fala na representação nacional tanto se pode referir à Assembleia da República como ao Parque Mayer, duas representativas espécies de espectáculo em acelerado estado de decomposição — e, pour cause, pelo mesmo motivo: por falta de representatividade.
Antigamente não ficava bem a um menino ou menina da sociedade fazer-se actor ou actriz. Fazer política, chegar ao poder, determinar os destinos da nação era honroso. Agora nenhuma pessoa de bem se atreve à carreira política, com receio de se ver emporcalhado pelos seus oposicionistas. Para se ser popular com inteira liberdade de costumes é bem melhor representar diante das câmaras de televisão do que nas câmaras parlamentares. Exigem-se naturalmente responsabilidades a um político que não se exigem a um comediante. Ambos mistificam. Um mistifica dizendo que não; o outro mistifica profissionalmente porque é essa a sua função. Uma sessão parlamentar é, no entanto, muito mais maçadora do que uma sessão num teatro de revista.
Logo, compreende-se com facilidade a repugnância que provoca o político — e a alegria que causa um actor. Ser amigo (nesta altura) do sr. Duarte Lima, não é coisa para ufanar seja quem for. Ser-se amigo do Nicolau Breyner, mesmo depois do caso de Serpa, fica bem a qualquer um.
A política do espectáculo desdourou com a nobre arte de servir o bem comum, apanágio da nobreza; o serviço da nação está agora ao serviço dos políticos.
Como espectáculo.
In Agora!, n.º 9, pág. 3, Janeiro/Fevereiro de 1995.
Publicado por FG Santos às dezembro 27, 2004 05:26 PM