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dezembro 30, 2004
Dos blogues e de quem os faz
Numa altura em que meia blogosfera se entretem a eleger os melhores blogues do ano, reconhecendo o trabalho de quantos dedicam tantas horas do seu tempo livre (que podia ser aproveitado para estar mais tempo com a família, ler mais, ouvir música, ou... trabalhar mais!), talvez não fosse má ideia reflectir sobre o que é que leva tanta gente de idades que irão dos 18 aos 60, pelo menos, a escrever sem saber quantas pessoas os vão ler, com que receptividade e com que regularidade.
Por puro prazer, alguns. Para meia dúzia de amigos que se sabe passarão por lá, outros. Pelo combate das ideias – se calhar a grande maioria. Numa época em que se afirma que as ideologias estão moribundas e o pragmatismo domina, é interessante ver como tantos se esforçam por promover as ideias que mais lhes são caras. Nem fim da história, nem fim das ideias, nem (“n’en déplaise” ao politicamente correcto) fim de algo tão simples e humano como... pensar livremente, pela sua cabeça.
E assim se chega à conclusão que é hoje um cliché mas bem verdadeiro: a blogosfera é um espaço de liberdade.
E quanto aos blogues em particular? Não tenciono nomear os “dez mais”, mas vou discorrer brevemente sobre o que penso de alguns.
ÚLTIMO REDUTO e NOVA FRENTE são para mim dois blogues de referência, quase irmãos: a mesma análise percutante da actualidade, ironia usada com mestria, mais directa com o Pedro, mais emoldurada com trocadilhos com o BOS, os mestres políticos e literários não parecem diferir muito entre ambos. E este vosso servidor pode testemunhar que os dois estimados blogueiros são excelentes interlocutores epistolares, com quem se pode debater ideias com grande abertura de espírito e sem qualquer fanatismo. E capazes de mostrar amizade mesmo a quem, como eu, não conhecem pessoalmente (é só por mais uma semana!).
O PASQUIM DA REACÇÃO é um dos blogues mais atípicos, em particular na área nacional: voltado para a reflexão, em tom quase sempre universitário, sobre questões como o que é o bem ou quais as regras de convivência em sociedade e definidas pelo soberano que permitem fazer desse bem um ideal não inatingível, atraíu adeptos e inimigos entuisiásticos, dada a franqueza com que o Corcunda expõe as suas ideias. É um dos raros na área nacional que faz alguma ponte para o indispensabilíssimo CAUSA LIBERAL. Blogue politicamente incorrecto e revisionista por excelência e onde também se reflecte e muito e bem sobre economia e sociedade.
O SEXO DOS ANJOS, de fina ironia e alta bagagem de referências nacionalistas, alterna curtas sobre a nossa triste política à portuguesa, com longos textos, que apetece imprimir e ler calmamente, de mestres do nosso nacionalismo – ou de outros. Promove também a cultura alentejana e é um incansável promotor de novos blogues...
... o que faz também o FASCISMO EM REDE, embora num âmbito um pouco mais ideológico. Contrariando um pouco o espírito totalitário que algum leitor mais apressado depreendesse que seria o seu, dado o nome, promove uma política notável de promoção de todo e qualquer blogue que contrarie os ideais de esquerda, seja monárquico, fascista, até demo-liberal (vocês sabem de quem é que eu estou a falar!)... O seu acervo documental na área nacionalista é impressionante e constitui, não só para os leitores nacionalistas, mas para qualquer pessoa, leiga ou estudiosa, interessada em aprofundar os seus conhecimentos sobre a ideias do séc. XX, algo de notável.
A CASA DE SARTO parece ser um local onde o tempo parou (e digo-o no melhor dos sentidos): alheio a modas, leva-nos a reflectir sobre os dogmas da fé católica, separando o trigo do joio, isto é, a doutrina fixada pelos doutores da Igreja das modernices saídas de Vatricano II, que descaracterizaram fortemente o catolicismo. Para alguém como eu desprovido de fé mas respeitando enormemente o contributo da Igreja para a história da civilização e para a civilização portuguesa em particular, o Sarto e o Rafael oferecem-nos uma angra de refúgio face ao ruído da modernidade.
PENA E ESPADA traz-nos o combate pelo ideal europeu (um pouco demais para o meu gosto de euro-céptico militante), num estilo marcadamente influenciado pela Nouvelle Droite. O Duarte simpaticamente acolheu uma sugestão minha de escrever mais textos de sua autoria, e mais longos – o que tem acontecido nos últimos meses, para proveito de quantos recusam o politicamente correcto. É um valor seguro.
CEGOS, SURDOS E MUDOS, do misterioso A. (também aqui é só por mais uma semana), é uma tribuna ao melhor estilo “pão-pão, queijo-queijo”, sem espinhas, denunciando-se feroz e ironicamente as taras do regime. Mais um de visita diária obrigatória.
PORTA-BANDEIRA, o jovem Viriato adeja a sua da outra banda, num cenário de difícil convivência multi-étnica, com as convicções e as dúvidas próprias dos 18 anos, com uma sinceridade se calhar sem par na blogosfera. Conseguiu congregar algumas centenas de visitantes diários, um sucesso extraordinário.
Visitante assíduo da blogosfera nacionalista, Nelson Buíça, do SG BUÍÇA, traz-nos um blogue de feição liberal, mas com alguns valores mais de direita dura (posições face ao aborto, à esquerda, ao comunismo). Tem uma verve extraordinária e o seu post sobre as “Marafonas on Waves” é uma obra-prima de ironia mordaz e contundente, que devia figurar em qualquer antologia de blogues. Talvez para forçar um pouco a nota do seu liberalismo, sugere blogues de renas, veados e outra fauna do mesmo jaez.
Num estilo um pouco diferente mas também fortemente irónico e “women lover”, o CLAQUE QUENTE é o blogue mais inteligente da esquerda, capaz de discernir um bom escritor independentemente das suas ideias. Não conheço o autor pessoalmente mas deve ter sido um encalorado abrilista. Também gosta de fulanar na blogosfera nacionalista, apelidando esta tropa de fachos ou talassas! Aqui ninguém lhe chamará esquerdeiro impenitente! Volta e meia escreve ao Pai, mostrando um pouco mais do seu “inner self”. Gosta de andar às turras com o BOS e o Sarto, não conseguindo esconder a enorme estima que por ambos tem.
O texto já vai enorme, devia também falar de excelentes blogues como o SUPER-FLUMINA, O VELHO DA MONTANHA, o BLOGVILLE (que pena espantosa tem o Paulo e que pouco uso dela faz, deixando os seus leitores “sur sa faim”), o GERALDO SEM PAVOR, o NOVA FLORESTA e as CARTAS PORTUGUESAS do Luís Bonifácio, o JOÃO PEDRO DIAS’ BLOG...
Muitos ficam sem referência, mas aqui ao lado listei os que mais estimo.
Para concluir, não posso deixar de referir alguns comentadores sem blogue próprio que, pela sua assiduidade e comentários mais ou menos frequentes, levantam o ânimo do FG - e posso falar no Mendo Ramires, no JL Lencastre, no Legionário, no NC...
A todos um 2005 em grande. E a saga continua.
Publicado por FG Santos às 11:15 PM | Comentários (6)
dezembro 29, 2004
Rodrigo Emílio e o Margarido
Ao meu baú das preciosidades fui desencantar esta prosa deliciosa do saudoso Rodrigo Emílio que, a brincar, a brincar, diz muita coisa séria.
É extraordinária a forma como parece escrever em prosa versejando, sempre com o "mot juste". E, claro, para além da forma, o conteúdo é precioso. Degustem.
DESFOLHANDO O MARGARIDO
Margarido é um nome lindo – mas só no feminino. No masculino é um absurdo.
Pode mesmo dizer-se que nunca um apelido se pareceu tanto com um nome próprio e que nunca um nome (im)próprio se pareceu tanto com uma alcunha.
Mas o nome é o menos. O pior é o resto.
Encurtando caminho e abreviando razões: Alfredo Margarido tomou-se de amores por um dos meus textículos – melhor dizendo: por um “Elogio da Raça” proposto a destino nas colunas de “Acção” – e usou e abusou dele em PÚBLICO (1), sem conta, peso e medida, como um forcené; e logo no cabeçalho. “EXTREMA-DIREITA LIQUIDA LUSO-TROPICALISMO” s’écrie Margarido, encantado da vida, chamando a título tão lícita ilacção.
Ora, é bom que quem ainda agora não saiba, fique mesmo a saber que a gente, aqui, escreve sempre e só escreve o que nos passa pela cabeça e não o que passa pelos pés do Margarido... Pois não sabe muito bem o Margarido que quem liquidou o luso-tropicalismo – e pretendeu liquidar, inclusivamente, a extrema-direita – foram a esquerda, a meia-esquerda e a extrema-esquerda que temos o infortúnio de aí ter?!... Não estaria o Margarido a dormir sentado, quando administrou a PÚBLICO, e ao PÚBLICO, tamanha protérvia?... O Margarido é parvo? Ou faz-se?... Ou é ele parvo e, com receio de o não parecer suficientemente – receio, de resto, infundado -, em cima de ser parvo, faz-se?!...
Tivesse tido Margarido o bom-senso de concluir e retirar, da leitura do meu texto, que a extrema-direita não chupa o luso-tropicalismo marxista vigente no antigo Ultramar português, nem com molho de Durão Barroso, e já eu aqui não estaria agora a derramar o meu latim...
Na sequência da sua palinódia, o nosso impagável Margarido exulta igualmente à brava pelo facto – e com o facto – de ter eu sacrificado muito do meu pensamento racial àquilo que ele considera terem sido os “desígnios históricos do salazarismo”. Como se a inteireza, integridade e salvaguarda do nosso império ultramarino, e o indeclinável dever de o defender, não só na medida do possível, mas ainda e sobretudo na medida do impossível, não figurassem também – e também não fulgurassem – entre os “desígnios históricos da I República”!... Ou ignorará o Margarido que até o hereje do Afonso Costa apodava de “sagrada” a intangibilidade territorial da nossa soberania além-mar-em-África-e-no-Oriente?!... E o que dizer, então, do general Norton de Matos?... Esse, Margarido, não fazia a coisa por menos: mandava escarrar patrioticamente na cara de quem se atrevesse a indiciar – por pensamentos, palavras ou obras – o mais ténue propósito de atentar contra a estrutura imperial da Pátria. Mais: intimava a comunidade a dar ordem de expulsão ao meliante e a desfazer-se dele para sempre, e no mais curto prazo de tempo. O Margarido sabia disto?
Não, Margarido: nunca o incomparável transcurso luso-tropical foi um projecto histórico de via reduzida e para consumo só de alguns; era, isso sim, um desígnio nacional de fundo e de longo curso, uma empresa histórica colectiva, e uma aposta e um desafio a que só os quadrilheiros d’Abril viraram vergonhosamente a cara e voltaram vergonhosamente as costas.
Por mim, digo, repito, confesso e confirmo que imolei, sim senhor, alguns – ou mesmo muitos – dos meus ideais racialistas mais profundos, no altar da sacratíssima causa ultramarina, e que em plena consciência o fiz; mas como também já tive ocasião de declarar no “Elogio da Raça”, tomara eu continuar a ter de fazer esses e mais outros sacrifícios, porque era, então, sinal seguro de que o Ultramar ainda aí perdurava como projecto e não estava reduzido ao dejecto que é hoje...
A ponta final da peça não deixa, toda ela, de ser péssima, sem favor, até para não destoar do resto; mas que tem pilhas, tem! Porque aí é que o Margarido entra mesmo em delírio – em delirium tremens mental, digamos -, ao derivar para uma teoria de divagações capilares e oftálmicas, sumamente perturbante e claramente perturbada. Topa-se que o Margarido não está bem...! Imaginem só para o que lhe havia de dar?!... Então não é que se põe ele a sonhar alto com uma selecção nacional dos mais belos e esbeltos exemplares da espécie, todos loiros e de olhos azuis?!...
Não sei se, em homem, será esse o seu “tipo”; em mulher, está longe de ser o meu, confesso... E, no entanto, não sou – nunca fui – dos mais esquisitos na matéria... Desde uma negra lusíada, de etnia landim, que em boa hora se cruzou no meu caminho, quando Portugal ainda deitava para o Índico e não tinha, como hoje, o horizonte obturado, até uma creôlinha carioca – por sinal, bastante afrodisíaca... -, tenho eu, Margarido, em verso e em prosa, cantado, “provado” e degustado de tudo um pouco, e muito de tudo – sem a menor relutância.
Mas onde o Margarido quer mesmo chegar, sei eu muito bem...
Em todo o caso, sempre d’aqui lhe faço notar que mesmo os mais “vistosos” hierarcas do Nacional-Socialismo, escapavam, maioritariamente, a semelhante traça física.
Com isto, não estou eu, bem entendido, a insinuar – Deus me livre! – e muito menos a afirmar que Adolf Hitler ou que o Dr. Goebbels fossem tão “morenaços” como o não sei quê Mandela; mas convenhamos que também estavam longe de ser uns “loiraços” tão explosivos como a Cicciolina – que é, de resto, uma “falsa loira”, para lá de ser muito mais coisas (e bem-haja ela!...).
E a respeito de serem “menos merencórios” para a extrema-direita os tempos em que eu escrevia no “Diário da Manhã” (com toda a honra, com todo o orgulho e sem metade do proveito que certa gente aufere com as tonterias que debita ao “Público”), não vá o Margarido sem resposta: esses bons e velhos tempos só eram “menos merencórios” para a extrema-direita, na medida em que também eram “menos merencórios” para Portugal do que os tempos que correm...
Por último, quero ainda que saiba que não sou “completamente barressiano”; limito-me a ser “incompletamente barressiano” e tenho pena, acredite.
Sabe que mais, Margarido?... O que eu quero é que o Margarido vá à fonte, que o Margarido vá à fonte e vá encher a cantarinha... de água chilra. Porque de outra não merece o Margarido beber. E mesmo dessa... Mesmo dessa..., vamos lá com Deus!...
Ora adeus, Margarido!
(1) Jornal “Público” de 14 de Agosto de 1990
Rodrigo Emílio, “Ofensiva”, nº3, Novembro 1990 – Janeiro 1991
Publicado por FG Santos às 10:03 PM | Comentários (3)
dezembro 28, 2004
Índia, Paquistão e mísseis
A notícia do contrato de venda de aviões F-16 e de alguns mísseis ao Paquistão por parte dos EUA causou consternação na Índia, dado que desde há três anos que vigorava um embargo americano de venda de armamento àquele país asiático.
A inquietação não é maior entre os indianos por se saber que Condoleeza Rice, a nova secretária de estado (MNE) é bastante menos pró-chinesa que o seu antecessor, Colin Powell, apostando num aumento da importância regional da Índia para contrabalançar uma cada vez maior hegemonia da China.
De resto, os EUA continuarão a ser fornecedores privilegiados de armamento à Índia.
Num contexto de ligeira distensão entre as duas potências nucleares, que impacto poderá ter esta nova corrida aos armamentos, mediada pelos EUA, é um mistério. O Paquistão, em particular, apresenta um peso desmesurado do orçamento de defesa, exercendo este uma forte punção de recursos na economia e impedindo um maior desenvolvimento.
Ao complexo dossier de Cachemira há a acrescentar o constante vai-vem entre o seu território e o do vizinho Afeganistão de combatentes talibãs, inconformados com a ocupação militar americana (18.000 homens no terreno).
Os "estudantes de teologia" contam com inúmeras simpatias no próprio exército paquistanês, o que é mais uma dor de cabeça para Musharraf, o amigo (a contragosto) dos americanos.
Publicado por FG Santos às 06:09 PM
dezembro 27, 2004
Da comicidade dos políticos à política dos cómicos
Com a sua costumeira verve e agudo sentido de observação, Manuel Maria Múrias pintou o quadro, que abaixo se reproduz, ó quão actual, da classe política portuguesa.
Deliciem-se.
DA COMICIDADE DOS POLÍTICOS À POLÍTICA DOS CÓMICOS
Ao espectacularizar espalhafatosamente a vida social, a televisão espectacularizou espalhafatosamente a vida política. Não há política sem espectáculo e, tal qual o verificava Upton Sinclair vai para setenta anos, já não há espectáculo sem política. Tal como os actores, cujo «pão nosso de cada dia» depende da popularidade (quer dizer: do ser muito conhecido e estimado pelas plateias), os políticos dependem também do favor do público. A maior preocupação deles é chegar à televisão; uma aparição no pequeno écran vale mais do que meia dúzia de discursos ou decretos bem escritos e bem pensados. No início dos anos sessenta o debate televisivo entre Nixon e Kennedy decidiu a vitória nas eleições presidenciais americanas. Nixon era um político «gauche» e antipático; Kennedy parecia um galã do cinema: mesmo que tenha génio, um político sem telegenia dificilmente ganha o poder; um outro, estúpido e bonitinho, vence-o definitivamente na brecha da TV.
Sendo assim os políticos quando se apresentam diante das câmaras da televisão (quinze segundos de som e imagem, uma aparição fugidia) preparam-se apenas para ficar bem, lançar slogans, meia dúzia de palavras superficiais que tenham valor propagandístico. Apregoam-se políticos como se publicitam pasta de dentes. Somente vale o que se fixa nos olhos e nos ouvidos, não interessando o significado do que se diz. A demagogia chegou ao auge nos nossos dias; mas, mesmo assim, só frutifica se o demagogo for telegénico e bem vestido.
O que dá para a publicidade e para a propaganda política, dá para a Propaganda da Fé. Um comentador religioso feio e com má dicção não convence ninguém da existência de Deus. Ninguém estranhou ver eleitos bispos dois antigos comentadores religiosos da televisão portuguesa. Ninguém duvidou nem das suas virtudes apostólicas nem da sua cultura religiosa: — a televisão tinha-as comprovadamente testado em muitas horas de emissão.
Desta maneira se esvaziou a política do seu conteúdo ético. Já não interessa defender e propagar determinadas ideologias e prometer mundos e fundos em função de certos ideais e objectivos programáticos e sócio-políticos. Interessa saber estar, conquistar o sentimentos dos telespectadores massificados, angariar votos emocionais. Uma das fraquezas dos comunistas é essa: — não querendo desagradar à militância mais evoluída, desagradam à grande massa dos eleitores; agradando a estes, desagradam àqueles. De eleição em eleição, o P.C. vai perdendo votos, porque os velhos militantes morrem e os novos aparecidos votantes não são suficientes para colmatar as vagas abertas pelo desaparecimento dos antigos militantes vazados ainda no crisol romântico da mítica luta de classes.
Em consequência já se não estranha ver os srs. ministros transformarem-se em palhaços para surgirem com sorrisos esfusiantes nos programas do Herman José e do Nicolau Breyner. O facto do dr. Mário Soares ter recusado comparecer no programa do Herman José e deste o ter censurado por isso, é um caso excepcional. Recusando, o sr. Soares censura o governo por se sujeitar a semelhantes palhaçadas; se os ministros se tivessem recusado, censura-los-ia mesmamente, aceitando ele. O espectáculo tem que continuar. Herman representa o seu papel; Soares representa o dele. São dois histriões simpáticos e agradáveis. Dois profissionais perfeitos que da política têm o mesmo conceito espectacularista.
Assim se desideologizou a política transformada em espectáculo puro. Não estamos longe do tempo em que se organizarão os governos como se organizavam as companhias teatrais: — o Primeiro Ministro será o galã central, atrás dele alinham-se a dama galã, os característicos, os cómicos, os centrais e os figurantes. Já agora se desconhecem os nomes de muitos membros do governo, secretários e subsecretários de estado anónimos que, obscuros de si, voluntariamente se querem na obscuridade.
O fenómeno não é exclusivamente português. É democrático. Por toda a Europa é evidente a mesma confusão. Envolvidos na política os homens e as mulheres do espectáculo quando chegam ao poder não se mostram piores governantes do que os políticos profissionais. Ronald Reagan foi melhor Presidente dos Estados Unidos (acabou com o império soviético) do que galã de cinema — e duvido que o Nicolau Breyner fosse pior Presidente da Câmara Municipal de Serpa do que o marmanjo comunista que o venceu nas últimas eleições autárquicas. Um bom actor é geralmente um sujeito inteligente e culto; a maioria dos profissionais da política, além de muito estúpidos são verticalmente analfabetos.
Diante dos factos (os actores, futebolistas e dirigentes desportivos, misturados com os ministros, secretários e subsecretários de estado, deputados e autarcas) o estimável público distingue mal onde começa a política e acaba a farsa, e onde principia a farsa e termina o drama. Rindo-se com os actores, ri-se dos políticos. Aquele injustíssimo e ancestral desprezo que, desde a Idade Média, se tinha pelos «cómicos» transmitiu-se inteiramente para os políticos. Um bom actor é quase sempre respeitado, quando não é venerado. Um político, inclusivamente quando é bom, é quase sempre detestado. Uma boa representação esquece-se com rapidez; um mau acto político deixa feridas insanáveis.
Procurar princípios ideológicos num político é, por conseguinte, já agora tão inútil como procurá-los num actor. Quando se fala na representação nacional tanto se pode referir à Assembleia da República como ao Parque Mayer, duas representativas espécies de espectáculo em acelerado estado de decomposição — e, pour cause, pelo mesmo motivo: por falta de representatividade.
Antigamente não ficava bem a um menino ou menina da sociedade fazer-se actor ou actriz. Fazer política, chegar ao poder, determinar os destinos da nação era honroso. Agora nenhuma pessoa de bem se atreve à carreira política, com receio de se ver emporcalhado pelos seus oposicionistas. Para se ser popular com inteira liberdade de costumes é bem melhor representar diante das câmaras de televisão do que nas câmaras parlamentares. Exigem-se naturalmente responsabilidades a um político que não se exigem a um comediante. Ambos mistificam. Um mistifica dizendo que não; o outro mistifica profissionalmente porque é essa a sua função. Uma sessão parlamentar é, no entanto, muito mais maçadora do que uma sessão num teatro de revista.
Logo, compreende-se com facilidade a repugnância que provoca o político — e a alegria que causa um actor. Ser amigo (nesta altura) do sr. Duarte Lima, não é coisa para ufanar seja quem for. Ser-se amigo do Nicolau Breyner, mesmo depois do caso de Serpa, fica bem a qualquer um.
A política do espectáculo desdourou com a nobre arte de servir o bem comum, apanágio da nobreza; o serviço da nação está agora ao serviço dos políticos.
Como espectáculo.
In Agora!, n.º 9, pág. 3, Janeiro/Fevereiro de 1995.
Publicado por FG Santos às 05:26 PM
Yanukovich denuncia fraudes ao Supremo Tribunal ucraniano
O candidato do poder Yanukovitch, vencedor da segunda volta das presidenciais ucranianas, não homologada pelo Supremo Tribunal, vem agora apelar ao dito tribunal, alegando fraudes na terceira volta, ganha pelo oposicionista Yushtshenko.
E que dirá agora Putin, que clamou contra a realização da 3ª volta? E a UE, que a exigiu?
Publicado por FG Santos às 05:18 PM
Requiem
REQUIEM NOS CAIS DE LISBOA
Desde Belém ao Beato,
Descarregados de botes,
Empilham-se ao desbarato
Muitos milhares de caixotes.
Numa larga, extensa linha,
Ocupam lados e centro
Do cais; mas não se adivinha
O que contêm lá dentro.
— O que será? — perguntei
A dois ou três empregados.
Respondeu um: — P'lo que sei,
É tudo dos retornados.
Exclamei: - Senhor! Senhor!
(E comecei aos pinotes)
Tanta coisa de valor
Metida à força em caixotes!
Onde estão, que descaminho
Levaram (sabe-se lá!)
As estátuas de Mouzinho
E de Correia de Sá?
Quantas camas, quanto berço
Transformado num caixão?
E não há quem reze o terço,
Quem murmure uma oração?...
Desceu a noite. No escuro,
Perguntei, sem ver mais nada:
— E qual será o futuro
Dessa gente atraiçoada?...
Sem consultar um oráculo,
Eu contemplei, indignado,
O pavoroso espectáculo
Dum império encaixotado.
António Lopes Ribeiro
In «Resistência», nº 128, 15.06.1976, pág. 6.
Publicado por FG Santos às 12:27 PM
Abertura e conservadorismo musicais
- A Antena 2 não se incomodou em fazer uma programação especial para o dia de Natal, afinal deve ser um dia igual aos outros para os seus excelsos responsáveis. (Felizmente que, tal como em anos anteriores, houve um Especial Eurorádio no dia 19 (!), com gravações, cedidas por diversas rádios europeias, de concertos de temática natalícia.) É, aliás, um canal que continua a votar a música contemporânea e portuguesa a um quase total ostracismo, ao mesmo tempo que os programas culturais veiculam quase sempre uma mal dissimuladada ideologia de esquerda. Conservadores numas coisas, "progressistas" noutras.
Quando a Antena 2 transmite gravações de concertos do tempo da "outra senhora" é curioso verificar como os programadores desse tempo apostavam muito mais em compositores do séc. XX (já para não falar nos portugueses, incluindo Lopes Graça, insuspeito de afecto ao regime), muitos deles bem inovadores, que hoje mal se ouvem nas nossas salas de concerto ou na rádio. Tal abertura devia ser um exemplo do obscurantismo cultural vigente à época...
Publicado por FG Santos às 11:40 AM | Comentários (3)
dezembro 26, 2004
Auto-crítica
«Pergunto-me se o nosso país não está amaldiçoado, dado estar constrangido a escolher (para Presidente) entre dois ex-comunistas? (...) Em quinze anos não houve um só homem político que não estivesse manchado pelos maus hábitos do comunismo, que não tenha por este sido afectado, de uma ou outra forma.
«Talvez este debate nunca devesse ter tido lugar. Terá talvez chegado a altura de que se apresente (...) outro tipo de candidato, que não nós dois. O grande problema, que partilhamos, não reside apenas no facto de ambos termos sido membros do partido Comunista. No fim de contas isso se calhar não é nenhuma vergonha, nenhum mal. O Estado à época era assim mesmo. O drama é que nós não temos o direito de conservar a mesma mentalidade quinze anos após o desaparecimento do comunismo na Roménia.»
Palavras do candidato vencedor nas Presidenciais romenas do passado dia 8, Traian Basescu, durante o debate com o candidato derrotado Adrian Nastase, o candidato apoiado pelo Partido Social Democrata do ex-presidente Ion Iliescu, um dos apparatchicks que se desembaraçaram de Ceausescu para melhor continuarem agarrados ao poder.
Certos sectores falam já de uma nova era para a Roménia, com Basescu. Parece-me optimismo a mais mas nada como esperar para ver.
Publicado por FG Santos às 12:31 AM
dezembro 23, 2004
Natal
Este blogue ficará sem actualizações de dia 24 a dia 26.
Desejo a todos os meus leitores um óptimo Natal e um Ano Novo com o que de melhor possam desejar.
NATAL
Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.
Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina
Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.
MIGUEL TORGA, "Diário XII"
Publicado por FG Santos às 12:03 PM | Comentários (6)
dezembro 22, 2004
Poeminha de Natal para Vintila Horia
Poeminha de Natal para Vintila Horia
e para a Constança Filipa, minha segunda filha,
en recuerdo de su càsi clandestina navidad...
(Em memória do grande escritor católico, apostólico, romeno, Vintila Horia, tido como um dos centros e epicentros mentais da Terra mais influentes e operantes no painel do nosso tempo, autor de Deus Nasceu no Exílio e falecido, ele mesmo, no exílio — no seu exílio de Madrid — por altura da Páscoa do ano transacto, — aqui relembrando a diáfana meia-tarde lisboeta de meados de 1979, em que a ele e com ele me juntei, e me jantei, senhorialmente cancionado para o efeito por real deferência e especial alforria do João Bigotte-Chorão, que foi quem fez, a meias comigo, as honras da Casa e a mor e melhor parte das despesas da conversa que vivamente entretecemos, e que longamente mantivemos, de trindade e pucarinho, já se vê, com o nosso, e portentoso, conviva dessa hora: desde logo, o mais sábio, principesco, preclaro e cativante «camponês» que o Danúbio Azul já produziu e que Deus guarde, agora e sempre, accanto a Se!)
À luz de terra estrangeira
foi que pela vez primeira Te palpitou a pupila
e se insinuou sol em teu cílio.
Foi-te berço embalador
todo o desterro espanhol
do teu pai Rodrigo Emílio:
Senhor d'intranquila história...
De toda e qualquer maneira,
minha menina fagueira:
Também Deus Nasceu No Exílio...
(— Pois não é, Vintila Horia?!...)
Natal de 1975
Rodrigo Emílio
Publicado por FG Santos às 04:19 PM
Mais mortos nas minas chinesas
Um acidente numa mina chinesa pode ser notícia mas, infelizmente, não surpreende ninguém, dada a precaridade das condições de trabalho na República Popular.
Responsável pela produção de 35% do total mundial de carvão, a China apresenta para a mesma actividade 85% das mortes anuais em minas. Para além do apagamento do indivíduo numa sociedade que preza o colectivo (e outro triste exemplo é a forma como o país tem lidado com o flagelo da SIDA, condenando dezenas e dezenas de milhar de pessoas a morrer lentamente sem qualquer tratamento), o apetite pelo lucro fácil, ao arrepio das mais elementares normas de segurança, ajuda a explicar o drama.
Um exemplo dramático desta mentalidade, que se transmite aos próprios trabalhadores, é um episódio (relatado há um ano atrás no Courrier International) que se passou numa fábrica chinesa: um operário ficou preso numa engrenagem e, entre desligar a máquina e arriscar-se a ser acusado de sabotar a produção, ou ir chamar o supervisor, o colega do infeliz optou pela segunda possibilidade. Quando o supervisor chegou ao local já era tarde: o pobre tinha sido esmagado.
Publicado por FG Santos às 03:44 PM | Comentários (1)
dezembro 21, 2004
Estrela laranja
Usando como paralelo a infame estrela amarela que os judeus foram obrigados a usar nos territórios ocupados pela Alemanha nazi, alguns colonos judeus decidiram usar na lapela uma estrela laranja como forma de protesto pela evacuação da Faixa de Gaza a que serão obrigados, numa decisão corajosa (há que reconhecê-lo) do executivo Sharon.
Mas a comparação, mesmo indirecta, não deixou de causar mal estar em Israel (e certamente entre os judeus de todo o mundo), dado o carácter "sagrado" de que se reveste o Holocausto entre o Povo Eleito.
Publicado por FG Santos às 04:47 PM | Comentários (4)
Wagner e Verdi
Os fanáticos wagnerianos vão ter que esperar mais uma semana para poder ouvir a transmissão na Antena 2 de "O Crepúsculo dos Deuses", conclusão de "O Anel dos Nibelungos" (já aqui evocada). Isto por uma boa razão: após a conclusão das obras no Teatro Nacional de São Carlos, começa finalmente hoje a temporada lírica e logo com uma obra de Verdi, Simon Boccanegra.
Com o papel principal entregue a Ambrogio Maestri, que impressionou há duas temporadas atrás como Giorgio Germont em "La Traviata", não faltam bons motivos para que quem não se dispôs a gastar entre 25 e 60 euros ao menos disfrute o prazer da boa música pela rádio (a partir das 19.50).
Publicado por FG Santos às 03:51 PM
dezembro 20, 2004
Natal de 71
Vi ontem em DVD editado pelo jornal do sr. Belmiro um documentário de título "Natal de 71".
Nele se evoca o lançamento em 1971 de um LP destinado a ser distribuído por todos os locais onde os nossos soldados combatiam, com o objectivo de levantar o moral das tropas.
Incluem-se diversos testemunhos, nem todos críticos do regime mas o tempo de antena destes bem menor no total da obra, entrecortados por citações raivosas dos "Cús de Judas" de Lobo Antunes, lidas (primorosamente, é justiça dizê-lo) por Rogério Samora.
O documentário é generoso na quantidade de imagens dos nossos combatentes, tentando o espectador (em vão, claro) tentar adivinhar o que ia na cabeça daqueles jovens que sorriem para a câmara.
O referido LP incluía textos dirigidos aos soldados e canções de encorajamento. A edição era do Movimento Nacional Feminino, onde pontificava uma tal Cilinha.
Em contraponto com este disco, relembrava-se também o chamado "Cancioneiro do Niassa", conjunto de canções gravadas em más condições e quase clandestinamente, em que os intérpretes cantavam a angústia do seu dia a dia de soldados. Kaúlza detectou a coisa e declarou-a na prática como "favorável ao inimigo".
Publicado por FG Santos às 12:13 PM | Comentários (1)
dezembro 18, 2004
A traição da Europa aos europeus
Não percam o pequeno texto que o Paulo Paixão publicou no seu Blogville sobre as negociações para a adesão da Turquia à União Soviética da Europa.
É pena que, como o autor diz, o blogue em causa seja "calaceiro", pois priva-nos de mais nacos da sua prosa salpicada de talento.
Publicado por FG Santos às 11:38 PM
Revisionismo dos factos
«Non dimentichiamo che un film è sopratutto sempre una metafora. In questo caso, la metafora di tutti le stragi che i nazisti e i fascisti hanno compiuto nel nostro Paese e in Europa nelle chiese, nelle case, nei campi di grano, nelle nostre piazze e vallate.» Quem assim fala é Vittorio Taviani, co-realizador com o seu irmão Paolo de “A noite de S. Lorenzo” (1983), filme que aborda a tragédia de San Miniato, localidade perto de Pisa onde em 22 de Julho de 1944 uma granada atirada para dentro de uma igreja matou 55 pessoas.
Culpa dos nazis, foi logo o “veredito” unânime. Vem agora descobrir-se que afinal se tratava de uma granada aliada, mais concretamente americana. É o resultado do trabalho de uma comissão de historiadores que abordou o caso, como relata o Corriere della Sera de 24 de Abril deste ano (não posso dar-vos o link pois só possuo a edição em papel. Quem quiser pode pedir-me em formato pdf, pois posso fazer um “scan” do artigo.)
Porque é que citei o sr. Taviani? Porque ele afirma no mesmo Corriere que voltaria a rodar o mesmo filme da mesma forma, pela razão apontada no início deste texto.
Um dos historiadores citados, o sr. Pier Luigi Ballini, afirma que “A memória do anti-fascismo não é apenas a memória vermelha. Mas pode fazer-se revisionismo dos factos, (embora) não é claro dos valores que se afirmaram naquela época”.
Para concluir, refira-se que o título que o centenário diário de Milão escolheu para o artigo foi: “Strage di San Miniato, la verità «americana»”.
Publicado por FG Santos às 05:13 PM | Comentários (3)
dezembro 17, 2004
Sobre a "guerra"
Uma nota curta sobre a guerra de que falo mais abaixo.
A minha posição sobre a chamada "questão racial" em nada mudou: embora não seja um adepto da miscigenação, não alinho em racialismos porque mal do nacionalismo que precisa de ter uma base racial para encontrar a sua razão de ser.
Dito isto, o que quis expressar ao BOS e ao ACR foi que tenho pena que duas pessoas com tanto talento e amor pela sua pátria estejam por assim dizer às turras sobre uma questão que não é menor mas que à força de ser tão falada acaba por parecer ser a única questão importante a debater por quem pretende lutar para evitar o afundamento da nação no magma europeu e mundialista.
Não faço aqui apelos à união e muito menos estou preocupado com os votos de um ou outro partido nas próximas eleições, não acredito que elas tragam nada de novo e positivo para o nacionalismo. A blogosfera é um espaço de liberdade e assim deve continuar.
Publicado por FG Santos às 10:54 PM | Comentários (3)
Getúlio Vargas e o "Estado Novo"
Aqui fica um texto que considero fundamental para compreender a personalidade e a obra política do Presidente Getúlio Vargas (1883-1945), figura fascinante e trágica da história brasileira do século XX.
O homem que corporizou o "Estado Novo" não hesitou em enfrentar as oligarquias instaladas e sofreu por isso.
«Presidente Getúlio Vargas 1883 – 1954
Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja (RS) a 19 de abril de 1883. Foi chefe do governo provisório depois da Revolução de 30, presidente eleito pela constituinte em 17 de julho de 1934, até a implantação da ditadura do Estado Novo em 10 de novembro de 1937. Foi deposto em 29 de outubro de 1945, voltou à presidência em 31 de janeiro de 1951, através do voto popular. Em 1954, pressionado por interesses econômicos estrangeiros com aliados no Brasil como Lacerda e Adhemar de Barros, é levado ao suicídio a 24 de agosto de 1954. Com uma bala no peito ele atrasa o golpe militar em 10 anos e “sai da vida para entrar na história”... Contrariamente ao que todos os governantes fizeram antes dele e vêm fazendo depois dele, o governo Vargas conquistou a vinda de técnicos estrangeiros para incrementar a nossa economia. Todos os outros governantes brasileiros antes e depois de Vargas colocaram, em maior ou menor grau, a economia brasileira a serviço de interesses estrangeiros. Por isso, apesar de todos os seus defeitos, é considerado O MELHOR PRESIDENTE QUE O BRASIL JÁ TEVE EM TODA A HISTÓRIA.
Por volta de 1894 estudou em Ouro Preto (MG), na Escola de Minas. Em 1898 torna-se soldado na guarnição de São Borja e em 1900 matricula-se na Escola Preparatória e de Tática de Rio Pardo (RS). Não permaneceu lá por muito tempo, foi transferido para Porto Alegre (RS) a fim de terminar o serviço militar. Em março de 1904, matricula-se na faculdade de direito de Porto Alegre, onde conhece dois cadetes da escola militar, Pedro Aurélio de Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, dedicando-se, à ocasião, ao estudo das obras de Júlio de Castilhos (positivista, fundador do Partido Republicano no Rio Grande do Sul).
Formou-se em dezembro de 1907, começando a trabalhar como segundo promotor público no tribunal de Porto Alegre, mas voltou a sua cidade natal, São Borja, para exercer as lides de advogado. Em 1909 elegeu-se deputado estadual, foi reeleito novamente em 1913, mas renunciou em sinal de protesto a Borges de Medeiros, que governava o Rio Grande do Sul. Voltou à assembléia legislativa estadual em 1917, e foi reeleito em 1921. Em 1923 torna-se deputado federal, e em 1924 torna-se líder da bancada gaúcha na Câmara. Washington Luís é eleito presidente em 1926 e escolhe Getúlio Vargas como ministro da Fazenda, devido ao seu trabalho na comissão de finanças da Câmara, mas ocupou o cargo por menos de um ano, sendo escolhido como candidato ao governo do Rio Grande do Sul. Eleito, tomou posse a 25 de janeiro de 1928.
Cenário Internacional
A quebra da Bolsa de Valores em Nova Iorque, em 1929, trouxe uma crise sem paralelo ao capitalismo. O mundo capitalista faliu. A única nação que vivia fora da jogatina da Bolsa de Valores, a União Soviética, foi a única infensa ao cataclisma.
O principal produto da pauta de exportações brasileiras à ocasião era o café. Produto de sobremesa. Em situações de crise, as sociedades humanas economizam com o supérfluo. Café é supérfluo. As exportações brasileiras sofrem vertiginoso decréscimo. Justamente os criadores de gado do Rio Grande do Sul e Minas Gerais e os produtores de cana-de-açúcar da Paraíba que são aqueles que “põem o dinheiro na casa chamada Brasil” estão sendo ludibriados pelos coronéis paulistas, que se organizam em torno do paulista Júlio Prestes para a sucessão de Washington Luís, ao invés de respeitar a “política do café-com-leite” que rezava ser agora vez de um político apoiado pelos mineiros. O rompimento é inevitável.
Num primeiro momento Getúlio Vargas, do Rio Grande do Sul e João Pessoa, da Paraíba, formalizam aliança contra os propósitos de Washington Luís.
As eleições que se realizaram no dia 1º de março de 1930 – fraudadas ao extremo – deram a vitória a Júlio Prestes. A Aliança Liberal recusou-se a aceitar a validade das eleições, afirmando que a vitória de Prestes deu-se apenas por meio da fraude. Além do mais os deputados eleitos em estados onde a Aliança conseguiu a vitória, não obtiveram o reconhecimento dos seus mandatos. A partir daí iniciou-se uma conspiração com base no Rio Grande do Sul.
No dia 26 de julho de 1930 João Pessoa foi assassinado por João Dantas. Aquele episódio, que a princípio não guardava características políticas, deu-se por motivos passionais, acabouu servindo como estopim para uma mobilização armada, que efetivamente se realizou a partir do Rio Grande do Sul em 3 de outubro. No dia 10 Vargas partiu de trem rumo a capital federal, temia-se que uma grande batalha se realiza-se em Itararé (fronteira do Estado do Paraná) onde as tropas do governo federal estavam acampadas para deter o avanço das tropas de Vargas. A batalha nunca se realizou pois os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e mais o almirante Isaías de Noronha depuseram Washington Luís e formaram um junta governativa.
Em 3 de novembro de 1930, a junta passa o poder a Vargas que se faz chefe do governo provisório. Tratou de organizar o ministério, chamando Lindolfo Collor para o ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que foi criado no dia 26 de novembro, bem como Francisco Campos que ficou com a pasta da Educação e Osvaldo Aranha com a da Justiça.
Reação dos coronéis paulistas
Em 1932 explodiu a chamada “revolução constitucionalista” de 9 de julho em São Paulo. Aquela “revolução” não passou de uma revolta patrocinada pela oligarquia paulista a pretexto de exigir do governo federal a reconstitucionalização do país. De fato, os coronéis paulistas ansiavam por reassumir o poder através de eleições controladas por eles. A Era Vargas foi o ponto final na política da República Velha.
O movimento foi derrotado e Medeiros preso. Vargas, contudo, se sentiu pressionado a conceder a realização das eleições para uma Assembléia Constituinte em 5 de maio de 1933. A Constituição entrou em vigor em 16 de julho de 1934, juntamente a isso o Congresso realizou eleições indiretas e Vargas seguiu no poder, agora como presidente constitucional.
O período é marcado por polarização ideológica, de um lado a ANL (Aliança Nacional Libertadora) que integra comunistas, liberais, socialistas e cristãos, de um lado, e a AIB (Ação Integralista Brasileira), movimento inspirado pelo nazi-fascismo.
A ANL é posta fora da lei em 11 de julho de 1935. Sua extinção provocou a reação de setores militares identificados com seu programa político, neste contexto eclodiu em novembro de 1935 a chamada “Intentona Comunista” liderada por Luis Carlos Prestes, esta contudo se limitou ao levante de algumas guarnições militares em Natal (RN), Recife (PE) e do 3º Regimento de Infantaria na Praia Vermelha e da Escola de Aviação no Rio de Janeiro. Contava com o apoio do Kremlin mas com escasso apoio popular no Brasil e violenta repressão por parte do Estado varguista, foi sufocado sem grande dificuldade.
As eleições marcadas para 1938 estavam se aproximando, a oligarquia paulista lança a candidatura de Armando Sales de Oliveira, o próprio governo indicara o paraibano José Américo de Almeida. Vargas concebe a idéia de permanecer no poder e fecha o regime inaugurando o Estado Novo a pretexto de deter os planos de um golpe por parte dos comunistas, que queriam lançar o país à uma Guerra. Na realidade, o “Plano Cohen” fora forjado no interior do próprio governo para justificar perante a opinião pública nacional e internacional a sua permanência e o fechamento autoritário que promovia.
No dia 10 de novembro de 1937 Vargas deu o golpe ordenando o cerco do Congresso Nacional, determinando o seu fechamento e fazendo um pronunciamento onde anunciava a promulgação de uma nova Constituição que substituiria a de 1934. Tal Constituição já estava sendo elaborada a algum tempo por Francisco Campos que se inspirara na Constituição autoritária da Polônia, esta ficou, naturalmente, conhecida como "A Polaca".
A Constituição do Estado Novo previa a extinção dos partidos políticos, colocando na ilegalidade inclusive a Ação Integralista Brasileira. Esta tentou golpe, tomando de assalto o Palácio Guanabara em 11 de maio de 1938. Foi frustrada em seus propósitos.
Além da extinção dos partidos políticos, uma série de medidas foram tomadas para reprimir as oposições, tais como a nomeação de Interventores para os Estados, censura aos meios de comunicação realizada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Tal órgão também cuidava de difundir a ideologia do Estado Novo, censurando, arquitetando a propaganda do governo e exercendo o controle sobre a opinião pública.
Em 1943 edita a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que garantia a estabilidade do emprego depois de dez anos de serviço, descanso semanal, regulamentação do trabalho de menores, da mulher e do trabalho noturno; a criação da Previdência Social e a instituição da carteira profissional para maiores de 16 anos que exercessem um emprego; a jornada de trabalho foi fixada em 8 horas de trabalho, antiga reivindicação dos trabalhadores brasileiros.
Em 19 de março de 1931 foi criada a Lei de Sindicalização, ou seja os estatutos dos sindicatos deveriam, a partir daquela medida, ser aprovados pelo ministério do Trabalho. Enfim, Vargas assumia o controle do movimento operário nos moldes da Carta del Lavoro de Benito Mussolini na Itália.
Vargas objetivava com esta política trabalhista, favorável aos operários, conquistar o apoio das massas populares ao governo. Tal política paternalista buscava ainda anular as influências da esquerda, desejando transformar o operariado num setor sob seu controle, para ser usado pelo jogo do poder. A mesma política foi praticada à mesma época por Juan Domingo Perón na Argentina e Lázaro Cárdenas, no México.
Economia
A crise internacional de 1929 que, como vimos acima, atingiu em cheio a economia brasileira, diminuindo nossas exportações, aumentando nossos estoques de café e baixando o preço do produto. Por pressão dos coronéis paulistas, Vargas criou em 1931 o Conselho Nacional do Café que implementou a "política de sustentação" através da compra e queima dos excedentes que estavam estocados em depósitos do governo. A queima de 17,2 milhões de sacas em 1937 e nos anos seguintes provocou a redução dos preços do produto no mercado internacional.
As dificuldades enfrentadas pelo setor agrícola conduziram o governo a investir no desenvolvimento industrial como saída para a nossa dependência externa. A Segunda Guerra Mundial reduziu a oferta de artigos industrializados. Isso obrigou a substituição destas importações, fomentando o desenvolvimento das indústrias locais. Implementa-se ainda uma política de exploração das riquezas nacionais, com o Estado participando das atividades econômicas principalmente aquelas vitais que precisam de estímulo governamental para desenvolver-se, como a siderurgia e a do Petróleo.
As medidas econômicas tinham características nacionalistas, como a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, que iniciou a construção da Usina de Volta Redonda com financiamentos norte-americanos. Isso se deu principalmente devido ao estreitamento das relações entre o Brasil e os EUA em 1942, para fazer face ao esforço de guerra. Neste mesmo ano veio ao Brasil uma Missão Técnica estadunidense que trabalhou em projetos como a Companhia Vale do Rio Doce, que explorava e exportava minérios, e a Hidrelétrica de Paulo Afonso. Vargas cria também o Conselho Nacional do Petróleo que objetivava diminuir a dependência brasileira do combustível, controlando o refino e a distribuição.
Contrariamente ao que todos os governantes fizeram antes dele e vêm fazendo depois dele, o governo Vargas conquistou a vinda de técnicos estrangeiros para incrementar a nossa economia. Todos os outros governantes brasileiros antes e depois de Vargas colocaram, em maior ou menor grau, a economia brasileira a serviço de interesses estrangeiros. Por isso, apesar de todos os seus defeitos, é considerado O MELHOR PRESIDENTE QUE O BRASIL JÁ TEVE EM TODA A HISTÓRIA.
Em troca da ajuda norte-americana, o Brasil deu o seu apoio aos aliados na Segunda Guerra Mundial, rompendo relações diplomáticas com as nações do Eixo. O afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães – reza a lenda que teriam sido navios estadunidenses usando bandeiras nazistas para forçar o Brasil a ingressar na Guerra ao lado dos estadunidenses, contrariamente ao que Perón, por exemplo, na Argentina fez, adotando a neutralidade e aproveitando para crescer. De todo o modo, sob Vargas, o Brasil se aproveitou muito bem da situação para desenvolver-se. O Brasil declara guerra à Alemanha em 22 de agosto de 1942, enviando a FEB (Força Expedicionária Brasileira) para lutar na Itália. Sua participação não foi tão relevante para a vitória dos aliados, mas foi importantíssima para o final do autoritarismo no Brasil. Pracinhas que foram à Europa lutar contra regimes autoritários, voltam ao Brasil e aqui encontram... Um regime autoritário! Getúlio demonstrou-se favorável em 1943 à redemocratização do país, mas só quando a guerra tivesse se encerrado.
Em outubro de 1943 políticos de Minas Gerais, elaboram um manifesto repudiando o Estado Novo, o chamado "Manifesto dos Mineiros". Em 1944 começam a chegar relatórios sobre as tropas brasileiras na guerra que davam conta do desejo de redemocratização.
Em 28 de fevereiro de 1945 a Constituição de 1937 recebeu um ato adicionou que possibilitava fixar as eleições presidenciais e logo destacaram-se duas candidaturas a do Brigadeiro Eduardo Gomes que se opunha a Vargas e a do General Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra de Getúlio.
Neste período também se criaram três partidos políticos, a UDN (União Democrática Nacional) conservadora, direitista e anti-Vargas, o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), criados sob a inspiração de Vargas.
Em 22 de abril concede a anistia a todos os presos políticos, inclusive Luís Carlos Prestes. A 28 de maio fixa a data das eleições para 2 de dezembro daquele ano.
A oposição temia que Getúlio inviabilizasse a realização de eleições presidenciais, como já fizera pelo menos duas vezes, em 1934 e 1938. Progredia a conspiração que desejava depor Getúlio Vargas, o que efetivamente ocorre a 29 de outubro de 1945, quando tropas do Exército cercam o Catete e o obrigaram a renunciar. A presidência foi ocupada interinamente por José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal e Vargas foi para o auto-exílio em São Borja.
Dutra é eleito presidente e Getúlio Senador pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo, além de Deputado Federal pelo Distrito Federal além de mais seis Estados. Optou pelo cargo de Senador, passando à oposição ao governo Dutra. Em 1950 lança sua candidatura à presidência juntamente com Café Filho pelo PTB e PSP (Partido Social Progressista). É eleito e assume o poder a 31 de janeiro de 1951.
Eleito com o propósito de implantar reformas nacionalistas, desde o início do seu mandato sofreu vigorosa oposição por parte da direita – a atuação de Carlos Lacerda, governador do Rio, e de Adhemar de Barros, governador de São Paulo, que em suas freqüentes viagens aos EUA urdiam um golpe contra Getúlio manifestava-se abertamente em artigos vigorosos e em programas de rádio com uma virulência e eloqüência sem paralelo na história nacional. Lacerda foi um canalha. Mas como aquele canalha falava bem, sô!
Getúlio inicia campanha pela nacionalização total do petróleo com o slogan "o petróleo é nosso", o que culminaria com a criação da Petrobrás em 1953. Pelos acordos a que foi compelido a submeter-se a Petrobrás ficaria com o monopólio de perfuração refino de Petróleo, enquanto a distribuição do produto permaneceria com as empresas privadas.
Naquele período Vargas entra em constantes atritos com empresas estrangeiras acusadas de enviar excessivas remessas de lucro ao exterior. Em 1952 um decreto institui o limite de 10% para as tais remessas.
Em 1953 nomeia João Goulart, importante líder do PTB, para o Ministério do Trabalho, com o objetivo de criar uma política trabalhista aproximando os trabalhadores do governo, Goulart concede um aumento de 100% ao Salário Mínimo e é praticamente canonizado pelos trabalhadores brasileiros e crucificado pelo empresariado multinacional.
Jango causava profundo descontentamento entre os militares que em 8 de fevereiro de 1954 entregaram um manifesto ao Ministério da Guerra (Manifesto dos Coronéis). Getúlio pressionado e buscando a conciliação, opta por afastar João Goulart.
Lacerda lidera um poderosa, diabólica e brilhante campanha difamatória contra Getúlio Vargas com vistas a afastá-lo para tornar mais simples a entrega das riquezas brasileiras ao grande capital estadunidense, o que contrariava frontalmente os interesses do povo brasileiro e do presidente Getúlio Vargas. Levanta os ânimos contra o presidente e ele procura mais do que nunca amparar-se nos trabalhadores. A 1º de maio de 1954 concede finalmente o prometido aumento de 100% no Salário Mínimo. A oposição no congresso entra com um pedido de impeachment, mas Getúlio tem maioria.
A imprensa conservadora, particularmente o jornal Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda segue em sua campanha contra o governo. Em 5 de agosto de 1954, Lacerda sofre um atentado que matou o major-aviador Rubens Florentino Vaz. Aquela infelicidade, um agudização da crise política. As investigações demonstraram o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio. Fortunato acabou sendo preso e Lacerda passou a infernizar ainda mais a existência de Getúlio.
A pressão da oposição tornou-se mais intensa, no Congresso e nos meio militares: exigia a renúncia de Vargas. Cria-se um tal clima de tensão que culmina com o tiro que Vargas dá no coração na madrugada de 24 de agosto de 1954. Antes de suicidar-se escreveu uma Carta-Testamento, na realidade seu testamento político. Ei-la:
"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História." (Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)
Lázaro Curvêlo Chaves. Texto revisado a 24 de agosto de 2004
http://www.culturabrasil.pro.br/vargas.htm
Publicado por FG Santos às 10:34 PM
A guerra continua
Com o sistema político a abrir fendas por todos os lados, com figuras do regime envolvidas nas teias da justiça, com a perspectiva próxima de um governo de esquerda, eventualmente uma coligação PS-BE, em que é que alguns nacionalistas gastam uma boa parte das suas energias?
Já adivinharam. Infelizmente, nisto e nisto.
Bem sei que as posições face ao que promete ser o "grande cisma do movimento nacional" são irreconciliáveis mas custa ver tanto talento desperdiçado em "colisões frontais" que, como tenho dito diversas vezes, podem convir a muita gente mas não ao nacionalismo.
Publicado por FG Santos às 10:27 PM
Explicação necessária
Peço imensa desculpa aos meus leitores por este vai e vem de Portugal para o Brasil, em busca de alojamento do "Santos da Casa", mas a minha experiência brasileira foi manifestamente infeliz.
Não só os templates disponíveis eram pouco apelativos, como também era impossível "linkar" os meus próprios artigos.
O Weblogger Brasil é mais um bloco de notas do que um blogue.
Sendo assim, voltei ao Weblog, cuja funcionalidade sempre me seduziu.
Quanto aos custos (mínimo: 60 euros / ano), logo se vê.
Muitas desculpas a todos e em especial aos colegas blogueiros que se tinham dado ao trabalho de alterar o link e agora, se tiverem essa bondade e a paciência que aceito não tenham, terão de alterar novamente.
Vou entretanto incluir por aqui os artigos que editei na outra casa.
Publicado por FG Santos às 10:11 PM | Comentários (4)
dezembro 15, 2004
Emigrei!
Caros amigos,
"Mudei-me" para o Brasil. A minha nova casa é aqui.
Queiram ter a bondade de alterar o link na vossa lista de "recomendados".
Obrigado.
Fico a aguardar a vossa visita.
Publicado por FG Santos às 03:16 PM | Comentários (1)
dezembro 14, 2004
Movimentos e partidos políticos no pós-25 de Abril
O gozo que o jovem Viriato teve ao consultar no site da Comissão Nacional de Eleições a lista dos partidos já extintos levou-me a consultar um precioso livrinho, editado pela SEDES em Agosto de 1974, intitulado “Portugal novo: movimentos e partidos políticos”. Na capa, em destaque, afirma-se “O povo quer saber”!
O livro fala dos movimentos que existiam à época, num total de... 48!
Tanto como os programas, é curioso ver os nomes envolvidos. Assim, por exemplo, no Programa Associação de Estudos para o Progresso Nacional, apresentada como de extrema-direita, encontramos Francisco Lucas Pires. Preconizava-se entre outras coisas, a participação dos trabalhadores nas empresas...
Igualmente apontado como de extrema-direita, o Partido do Progresso contava nas suas fileiras com Fernando Pacheco de Amorim, Francisco Caldeira Cabral e Nuno Cardoso da Silva. Também era favorável à participação dos trabalhadores nas empresas, era anti-comunista e anti-fascista...
Na extrema esquerda o cenário é mais para o hilariante.
O ainda existente MRPP, que contou com nomes “ilustres” como Saldanha Sanches e José Manuel Barroso, era de orientação maoísta. Para além da litania habitual sobre o colonialismo, o imperialismo, etc., etc., o MRPP preconizava ferozmente que se expropriasse todos os monopólios, que se confiscasse os grandes latifúndios, que se exercesse a ditadura firme sobre os exploradores e reaccionários... Dinâmico, o partido tinha o jornal “Bandeira Vermelha” e apoiava-o mais ou menos abertamente “O Comércio do Funchal”, cujo director à época era Vicente Jorge Silva! Criaram-se os CLAC (Comités de Luta Anti-Colonial), mas também havia a RPAC (Resistência Popular Anti-Colonial) e o MPAC (Movimento Popular Anti-Colonial). Havia também a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas, cujo órgão era (agarrem-se bem à cadeira) o Comité Tempestade Revolucionária da Escola Yenan! Também digna de menção era a Associação de Amizade Portugal-China.
A LCI (trotskista) onde, salvo erro, militou o actual deputado Anacleto, propunha a independência imediata para as colónias, o direito de greve ilimitado para todos os assalariados, sem nenhum entrave nem regulamentação legal (!), a supressão imediata do Código Penal e de toda a legislação repressiva da época de Salazar e Caetano, a supressão imediata e definitiva de todas (todas, têm a certeza?) formas de censura na imprensa, rádio e televisão, a liquidação imediata (acalmem-se, leiam o resto) de todas as instituições fascistas e sua substituição por organismos democraticamente (calcula-se) eleitos, extradição e julgamento (por esta ordem!?) de Tomás e Caetano por tribunais populares, liberdade completa (os rapazes eram mesmo divertidos) de associação e reunião, amnistia imediata e incondicional de todos os desertores (aqui o Alegre Manuel de Argel respirou aliviado), sem a sua incorporação posterior nas forças armadas, assegurar a reforma agrária e a aliança operária-camponesa! Sem surpresa, o seu jornal chamava-se “Luta Proletária”.
O sinistro PRP-BR, da gorda especialista em nutrição Isabel do Carmo preconizava a revolução violenta, pois “a burguesia não se deixará desapossar facilmente”. A dita senhora mais o militante Carlos Antunes (esta não vem no livro), pouco antes do 25 de Novembro, apelaram ao Almirante Pinheiro de Azevedo para adoptar o que propunham, que não difere muito do que vimos acima como posições do MRPP e LCI. Relatava o castiço almirante: “ouvi o que tinham para me dizer, chamei-lhes parvos e mandei-os embora”!
Também podia falar do MES e dos seus militantes Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio, mas essa história já todos conhecem.
Publicado por FG Santos às 11:39 PM | Comentários (4)
O Pai Natal era negróide?!?
Julguem vocês mesmos...
A Coca-Cola tem andado a enganar o pessoal!
Publicado por FG Santos às 06:14 PM
Estupidário
Novamente via Super Flumina, um site que se dá ao trabalho de recolher exemplos (infelizmente abundantes) de estúpidas decisões censórias baseadas no politicamente correcto.
Custa a crer que as nossas sociedades tenham descido tão baixo.
E por cá? Esperem pela avalanche socialista e bloquista, em pouco tempo teremos das duas uma: ou vontade de emigrar ou de praticar algo violento.
Publicado por FG Santos às 05:19 PM
Contra as nações, marchar, marchar
Ora aí está algo que une o BE à administração Bush.
Quando toca a desintegrar as nações europeias, as suas especificidades, as suas liberdades, a esquerda e a direita estão sempre de acordo. Sobram sempre uns fanáticos doentes, nostálgicos da idade das trevas, obscuros conspiradores de pacotilha e blogosfera - será que se podem criar konzentrationslager para essa cambada nacionalista?
Publicado por FG Santos às 03:28 PM
dezembro 13, 2004
Espírito de equipa
Que me desculpem os meus leitores benfiquistas e mais aqueles que não gostam de futebol, mas hoje, ao contrário do habitual, vou falar de futebol, mais propriamente do derby lisboeta de ontem, brilhantemente ganho pelo meu clube.
Azar dos azares, vim tarde de uma festa de anos dos arredores de Leiria e já decorria o jogo quando ainda estava na N1. Já perto de Lisboa, com o 3º golo, decidi que ia ver a segunda parte: mesmo que o Belém não marcasse mais nenhum participava na festa!
Felizmente tive oportunidade de vibrar com o magnífico 4º golo, um soberbo remate de José Pedro Salazar...
O Belenenses mostrou ontem como deve jogar uma equipa: com espírito de grupo e entreajuda, todos imbuídos do objectivo comum, havendo lugar para o talento individual, respeitando-se as características de todos, sabendo que todos são indispensáveis para o sucesso do colectivo.
O que vai dito aplica-se na perfeição a qualquer outro grupo, e em particular ao atomizado grupo nacionalista. Quando todos deveriam dar o exemplo e mostrar a mesma atitude que ontem mostrou o Belenenses, há sempre os que preferem jogar na desunião, ridicularizando os que não pensam como eles, explorando até ao limite as diferenças entre concepções.
O que fazem eles, no fundo? O jogo do adversário. Ao vê-los perorar contra certas pessoas de bem que escrevem na blogosfera nacional penso que são mais eficazes no combate anti-nacional que todos os Barnabés e BdEs juntos.
Publicado por FG Santos às 04:45 PM | Comentários (5)
A Mordaça
Sempre atento às manifestações inquietantes do politicamente correcto, o Super Flumina publica mais dois textos que recomendo, sobre tentativas do poder político de impor mordaças e coarctar a livre expressão de ideias.
Como dizia alguém, se a lei anti-homofobia for para diante, deixar-se-á de poder chamar ao maire de paris, Bertrand Delanöe, "Notre Dame de Paris"! Para além de tudo o que significa esta limitação da liberdade de expressão, toda uma tradição ocidental, que mesmo na supostamente obscura Idade Média tinha a sua manifestação nos bobos da corte, a quem se permitia dizer jocosamente o que poucos mais podiam dizer, de caricatura, verbal ou não, do mundo que nos rodeia, aproximando-nos cada vez mais do ideal de sociedades sombrias e receosas típicas do "melhor" estalinismo.
Publicado por FG Santos às 02:55 PM
dezembro 11, 2004
Finis Patriae?
Às vezes acontece-me, tal como ao estimado Manuel Azinhal, tombar no desânimo. Se calhar o comentador Mendo Ramires tem razão: o pessoal de direita é intrinsecamente pessimista. Mas o nosso amor à Pátria e ao que ela tem de melhor leva-nos a retomar a marcha.
«Todo o povo que se esquece da terra em que nasceu e contempla indiferentemente as cores estrangeiras que a proclamam vencida – é um povo morto, uma nação cujo espírito passou enquanto o corpo se dissolve.»
Rebelo da Silva, “Bosquejos Histórico-Literários”
Publicado por FG Santos às 11:13 PM | Comentários (2)
A ameaça permanente
Seria bom que se não pensasse nesta questão apenas no dia 1 de Dezembro de cada ano.
«Encontrar perante si a Espanha deveria constituir para Portugal simples fatalidade geográfica. Mas esta justifica destaque especial: e isso porque do facto se procuram extrair, para lá da fronteira, consequências fundamentais. E estas podem resumir-se em palavras breves: a Espanha quer obter a coincidência da geopolítica e da geoestratégia na Península. De outro modo: Madrid pretende eliminar na Península qualquer dualidade de soberania. Se há na dialéctica peninsular uma constante, é o desejo, o objectivo, a obsessão espanhola de corrigir o que considera a anomalia de um Portugal independente. Essa atitude de sentimento, de pensamento e de acção atravessou os séculos; e foi sempre vivaz.»
Franco Nogueira, "Juízo Final", 1992
Publicado por FG Santos às 10:53 PM
dezembro 10, 2004
Entrevista de Manuel Maria Múrias
De poucas pessoas se pode dizer que deixem uma impressão tão viva da sua pessoa ao ler-se uma sua entrevista como sucede, a meu ver, com as declarações de Manuel Maria Múrias ao Expresso que a seguir se transcrevem.
Com o seu estilo truculento e o espírito rebelde que o caracterizava, MMM diz tudo o que lhe ocorre sobre o regime salazarista e o pós-25 de Abril.
Uma sugestão de leitura para o vosso fim de semana.
«Em Agosto fará 68 anos, muitos menos do que a memória de alguns lhe atribui. Pesa mais a fama do que o tempo cronológico a Manuel Maria Múrias. «Um personagem», dizem-no os que o recordam. Truculento, polémico, um gosto confesso pela arruaça, Manuel Maria Múrias representa um estrato social e um pensamento político de uma época ainda próxima mas já incompreensível para as novas gerações. De tamanho imponente, cerca de dois metros de altura, usa as palavras como murros; a fala é áspera e a gargalhada potente. Não é homem de subtilezas estilísticas nem, num dizer antigo, «de arcas encoiradas». Por isso se afirma como fascista respeitador de Salazar mas não salazarista e antimarcelista. Ódios de estimação tem alguns, sendo Mário Soares e Ramiro Valadão dois dos que enuncia. Passou pela RTP nos idos de 60 como chefe de serviços da Informação e Programas. Deixou rasto. É por aí que vamos.
Expresso - Que acusação justificou a sua prisão a seguir ao 25 de Abril?
Manuel Maria Múrias - Nenhuma.
EXP. - Nenhuma?
M.M.M. - Fui preso sem culpa formada.
EXP. - Quanto tempo?
M.M.M. - Sete meses, passados entre Caxias, Peniche e a Penitenciária.
EXP. - Estava a trabalhar onde?
M.M.M. - No jornal Bandarra.
EXP. - Um jornal de extrema-direita?
M.M.M. - O Bandarra era um jornal de direita para o qual fora convidado para director. Como não aceitei, fui falar com o António Pinheiro Torres, que também recusou. Recorri então ao meu amigo e compadre Miguel Freitas da Costa, que aceitou.
EXP. - Mas a sua prisão acontece em consequência de quê?
M.M.M. - Julgo que por ter escrito um artigo no Bandarra a que chamei «O Discurso de Marco António», e cujo leitmotiv eram os doutores Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro. Em síntese, eu dizia que, tratando-se de pessoas tão dignas e honestas, como poderia eu — um desgraçado sem categoria — falar deles ou contra eles? Foi só isto! Dou-lhe a minha palavra de honra.
EXP. - E depois?
M.M.M. - O director do jornal teve de emigrar para Espanha e eu, como já disse, passei sete meses na prisão, sem culpa formada.
EXP. - Reincidiu no jornal A Rua, que criou depois de ter estado preso. Escreveu um artigo insultuoso sobre Mário Soares.
M.M.M. - Chamei-lhe mentiroso, relapso e contumaz. No 28 de Setembro, fui preso — desta vez, legalmente — e, condenado a 14 meses de cadeia. Saí ao fim de sete — imagine-se! — por bom comportamento. Quem mais se encarniçou contra mim foi essa caneta d`oiro chamada Raul Rego. No jornal República exigiu a minha prisão como «salvaguarda da liberdade e da democracia»!
EXP. - É um homem ressabiado?
M.M.M. - Não. Sabe, esqueço as coisas que me desagradam...
EXP. - Como, por exemplo?
M.M.M. - Esqueci Portugal! Não me lembro de nada do que se passa neste país! Nem percebo nada... Agora o Rui Mateus diz que o Soares é um ladrão, porque o Soares lhe chamou ladrão a ele... É tudo uma porcaria!
EXP. - No «antigamente» não era assim também?
M.M.M. - Não, porque havia a Censura e havia um homem que tinha uma indiscutível autoridade: o doutor Salazar!
EXP. - Foi um indefectível de Salazar?
M.M.M. - Quase.
EXP. - Foi-o por influência familiar?
M.M.M. -Também por tradição familiar. No entanto, o meu pai era sobretudo monárquico...
EXP. - Monárquico e integralista?
M.M.M. - Aos 20 e tal anos foi integralista e director da revista de cultura A Nação Portuguesa, órgão da facção integralista, que tinha como secretário de redacção o Marcello Caetano. Mas o meu pai foi também um dos poucos conspiradores civis do 28 de Maio. Amigo pessoal do general Gomes da Costa, o meu pai convidou-o para liderar o 28 de Maio. Foi da nossa casa, na Calçada do Carriche, que o Gomes da Costa saiu para ir para Braga, no automóvel de um sujeito de nome Papacheta.
EXP. - Será que ainda se lembra de, nos finais dos anos 50, ter desencadeado uma cena de pancadaria no Capitólio, onde a companhia brasileira da Maria Delia Costa representava a peça de Brecht A Boa Alma de Sesuan?
M.M.M. - Lembro-me, até fui preso.
EXP. - Preso quando estava a fazer um favor ao regime?
M.M.M. - Preso, e como fascista!
EXP. - Como fascista?! Explique o contra-senso.
M.M.M. - Fui levado para a esquadra, onde me quiseram bater!
EXP. - Mesmo sendo filho do director do Diário da Manhã, o órgão oficioso da União Nacional?
M.M.M. - Nessa altura o meu pai já não era o director do jornal.
EXP. - Não é credível, num regime fascista, ser-se preso como fascista...
M.M.M. -A Della Costa tinha feito uma temporada no teatro Avenida que fora um desastre económico. Sem dinheiro para regressar ao Brasil, pediu um subsídio ao Governo. Apresenta então no Capitólio a peça do Brecht. Eu frequentava um grupo de indivíduos contestatários que se reunia no café Aviz. Nessa altura, a nossa «luta» era contra a Direcção-Geral dos Espectáculos.
EXP. - Contra os excessos ou a tolerância da Censura?
M.M.M. -Achávamos que o coronel que lá estava era uma cavalgadura. Deixava passar coisas impensáveis. O Brecht defendia: «Toda a arte é propaganda»; como o Brecht era comunista, logo a peça era de propaganda comunista. A Censura deixou passar. Tanto pior. Nós vamos lá patear. E assim foi. Sabíamos que havia uma lei que proibia espectáculos que provocassem distúrbios. O nosso objectivo era obrigar a Direcção-Geral dos Espectáculos (DGE) a cumprir a lei. Fomos a primeira vez e não aconteceu nada. A DGE não cumpria a lei nem à porrada. Fomos uma segunda vez e houve porrada, e eu fui preso por um tenente da polícia que estava perdido de riso; ele tinha feito parte do primeiro grupo!
EXP. - Falou num grupo. Pertencia a alguma organização?
M.M.M. - Nunca pertenci a coisa nenhuma.
EXP. - Claro que pertenceu à Mocidade Portuguesa...
M.M.M - Era obrigatório, no meu tempo de liceu. Mas fui expulso em consequência de uma grande zaragata que provoquei. Sempre gostei de andar à porrada! Se, por exemplo, eu estivesse no Terreiro do Paço e soubesse que havia porrada no Campo Grande, ia logo para lá a correr.
EXP. - Privou muito com Salazar?
M.M.M. - Pelo telefone, quando estava na Televisão. Aquando do Maio de 68, lembro-me de terem ligado da Presidência do Conselho para o Telejomal. O Salazar queria falar comigo. Reconheci-lhe a voz, mas pedi-lhe para desligar que eu faria a ligação de seguida. Ninguém me garantia que fosse mesmo o Salazar! No dia seguinte, ele diria ao subsecretário de Estado da Presidência: «Aquele rapazinho que você pôs na Televisão é muito desconfiado.» Desconfiado eu sou, que bem poderia ser um gajo qualquer a imitar-lhe a voz...
EXP. - (...) Voltemos ao telefonema de Salazar.
M.M.M. - Bom, liguei, e foi o próprio Salazar que me atendeu. Disse-me: «Nós, aqui na Presidência, não dispomos de verba para termos os telexes das agências, e a Censura está a mandar as cópias dos telegramas com um grande atraso. Por isso, não sei muito bem como estão a evoluir as coisas em França.» Comecei a fazer-lhe um apanhado das notícias que tínhamos recebido até àquela hora. Mas, como os telexes continuavam a chegar ininterruptamente, propus dar-lhe informações de meia em meia hora. Assim fiz, e foi sempre ele que atendeu o telefone, Até que chegou o telegrama com a notícia do assalto à Bolsa de Paris pelos estudantes...
EXP. - O que indignou muito o Manuel Múrias?
M.M.M. - Qual quê! Estava a torcer pelos estudantes!
EXP. - Em que tom de voz deu a notícia a Salazar? Pesaroso? Eufórico?
M.M.M - Disse-lhe: «Senhor Presidente, os rapazes assaltaram e estão a destruir a Bolsa de Paris.» E Salazar responde-me: «E o senhor todo contente!» [Risos]. Ele sabia que eu tinha fama de anarquista.
EXP. - Nunca pertenceu à União Nacional?
M.M.M. - Não. Nem sequer alguma vez fui corporativista. Sou fascista.
EXP. - Maurrasiano?
M.M.M. - Tanto quanto possível; o Maurras dizia muito mal do Mussolini...
EXP. - Ramiro Valadão defende que o Estado Novo não foi fascista mas corporativista. Está de acordo?
M.M.M. - Deve ser das poucas coisas em que estou de acordo com Valadão. Não houve fascismo, nem sequer corporativismo. Apenas salazarismo. Havia um senhor que tinha autoridade e que mandava.
EXP. - Uma autoridade bem apoiada na polícia política...
M.M.M. - Uma autoridade apoiada no Exército! Se não fosse o Exército não teria existido polícia política. A PIDE não mandava coisíssima nenhuma. A PIDE prendia pessoas.
EXP. - Qual a sua posição em relação à PIDE?
M.M.M. - A PIDE foi uma estupidez política do doutor Salazar. Um erro crasso, com a agravante de ele ter ido buscar a ideia aos democráticos, os primeiros a criar uma polícia política; uma invenção do António Maria da Silva, em 1925. Além disto, a constituição da PIDE foi baseada num erro formal — o ter-se considerado haver dois tipos de crimes: os políticos e os outros...
EXP. - Uma «estupidez», como diz, que encarcerou, torturou e esmagou muitos portugueses.
M.M.M. - Quem não conspirava não ia preso; quem não punha bombas não ia preso!
EXP. - Na sua opinião, os presos políticos deveriam ter um tratamento igual aos de delito comum?
M.M.M. - Exactamente. Não tem de haver uma lei e uma polícia especiais para determinados crimes. Há lei ou não há. Não há crimes políticos: há crimes. As FP-25 o que são? O Otelo o que é senão um assassino?
EXP. - É uma forma redutora de encarar o problema...
M.M.M. - Acha que não é crime que o Palma Inácio — uma grande figura da democracia! — tenha assaltado um banco na Figueira da Foz?
EXP. - Aqui põe-se a questão de os meios justificarem ou não os fins...
M.M.M. - Quando as bombas são postas pelos democratas são boas, e más quando lançadas pelos antidemocratas?
EXP. - Bem, sabe que onde há opressão há resistência. Aliás, foi por uma atitude prepotente do Governo de Salazar que o Manuel Múrias foi parar à Televisão!
M.M.M. - O director de informação que eu fui substituir, o Manuel Figueira, tinha feito a mesma coisa que o Maurice Béjart, no Coliseu, e que lhe valera ser posto na fronteira: um elogio rasgado a John Kennedy, no dia do assassínio do Presidente americano.
EXP. - Não se podia falar bem de Kennedy?
M.M.M. - O Kennedy era nosso inimigo; fez tudo o que lhe foi possível para nos correr de África. Eu nasci num país que ia do Minho a Timor. Agora estou numa merda de um pátio que vai do Minho a Vila Real de Santo António.
EXP. - É um saudosista do Império?
M.M.M. - Sou um saudosista de Portugal, que é uma coisa completamente diferente. Se um país aumenta e diminui por decreto-lei, eu não sou obrigado a respeitar ou a amar o decreto-lei!
EXP. - Voltemos à sua nomeação, em 1963, para substituir Manuel Figueira na RTP.
M.M.M. – Corno já disse, eu fui parar à Televisão por o Manuel Figueira ter perdido a compostura política com a morte do Kennedy. Eu lembro-me de estar em casa de um amigo a ver televisão — na altura eu nem sequer tinha televisor —, e de ter ficado um bocado «lixado». Achei incrível que o Figueira estivesse a fazer um estardalhaço sobre a morte de um sujeito que tinha passado a vida a combater a política do Governo português. No dia seguinte, telefonou-me o meu amigo e padrinho de casamento Eduardo Freitas da Costa, presidente da RTP..
EXP. - Pessoa que nunca tirou da lapela o emblema da Legião Portuguesa?
M.M.M. - É verdade, até ao fim da vida. Não sei se teria sido mesmo enterrado com ele.
EXP. - De que tratava o telefonema do seu padrinho?
M.M.M. - O Freitas da Costa disse-me, exactamente, assim: «Amanhã às quatro horas, você toma posse do cargo de director de Informação da RTP» Respondi-lhe que ele estava maluco. Na altura, eu estava a ganhar «massas» com a montagem de filmes publicitários e de documentários. Além disso, eu fazia política, mas na Brasileira do Chiado.
EXP. - As suas relações eram sobretudo com gente do regime?
M.M.M. - Não. Dava-me com toda a gente. Fui amicíssimo do Almada — pois é... o Almada também foi fascista! Só depois do 25 de Abril é que cortaram relações comigo pessoas que eu conhecia há mais de 30 anos.
EXP. - Como, por exemplo?
M.M.M. - Algumas já morreram e outras estão muito velhas. Não vale a pena desenterrar o que está morto e enterrado. Sabe, eu comecei a trabalhar muito cedo, aos 15 anos. Como o meu pai era director de um jornal, convivi desde rapazola com muita gente conhecida...
EXP. - Que pensa da regionalização?
M.M.M. - Estou-me nas tintas para a regionalização! Portugal agora para mim vai até ao meu portão! Porque me hei-de preocupar com isso quando oiço fazer-se o elogio da descolonização, como a besta — pode escrever — do doutor Mário Soares, que ainda hoje se orgulha da descolonização e diz que o 25 de Abril foi uma revolução incruenta!
EXP. - E não foi?
M.M.M. - Morreram milhões de pessoas! Milhões! Os pretos que morrem de fome e se continuam a matar uns aos outros para mim eram e continuam a ser portugueses!
EXP. - Portugueses mas de segunda, até 1961. Foi preciso o início da guerra colonial para que alterassem o decreto-lei de 1954 que consignava o estatuto de indígenas portugueses aos naturais e assimilados das províncias da Guiné, Angola e Moçambique...
M.M.M. - Estou-me completamente nas tintas para essa treta! Eu tenho só a quarta classe. Nem sequer passei do segundo ano do liceu...
EXP. - Porquê?
M.M.M. - Porque sou estúpido e sempre fui cábula.
EXP. - Apesar de tão insignificantes habilitações escolares, chegou a chefe de divisão na RTP, responsável pela Informação. Valeu-lhe o enfeudamento ao regime?
M.M.M. - Não. Na altura em que fui para a Televisão era chefe da secção de cinema da Junta de Acção Social, um organismo do Ministério das Corporações. Fazia filmes em 16 milímetros que eram passados nas casas do povo por todo o País. Aliás, orgulho-me de ter sido o responsável pela criação do maior circuito de cinema em Portugal, com a montagem de máquinas de projectar de 16 milímetros em todas as casas do povo.
EXP. - Filmes de propaganda política?
M.M.M. - Passávamos filmes do circuito comercial para 16 milímetros e fazíamos um jornal de actualidades — era praticamente o Imagens de Portugal, produzido e realizado pelo Perdigão Queiroga...
EXP. - Também fazia crítica de cinema com o pseudónimo de Manuel Moutinho...
M.M.M. - Sim, e até escrevi um livro, História Breve do Cinema.
EXP. - Como é que o crítico de cinema convivia com as amputações feitas aos filmes pela Censura?
M.M.M. - Por vezes não concordava com os critérios da Censura. Lembro-me de ter visto um filme que viria a ser proibido, o que considerei uma estupidez monstruosa.
EXP. - E as cinematografias importantes como a de Eisenstein? Tivemos de esperar pela Primavera Marcelista para vermos, em Portugal, Ivan, o Terrível e Alexandre Nevski. Só depois do 25 de Abril veríamos O Couraçado Pontemkin.
M.M.M. - Eu vi-os todos muito antes. Recordo-me de o António Vilar, o actor, ter sido preso na estreia de A Linha Geral, do Eisenstem, no Odéon.
EXP. - O que é que Manuel Moutinho achava dos filmes do António Lopes Ribeiro, cineasta do regime?
M.M.M. - Acho o Pai Tirano uma fita sensacional...
EXP. - E A Revolução de Maio?
M.M.M. - É menos boa. Mas aquilo que não se pode negar é a importância do António Lopes Ribeiro no cinema português. A revista Animatógrafo, que ele criou, foi o que me levou a interessar-me pelo cinema. Houve guerras terríveis contra o Lopes Ribeiro. A revista Filmagem, editada pelo Cardoso Lopes Júnior — o homem que editava também O Mosquito, a primeira revista de banda desenhada —, fez, entre 1942 e 1943, uma campanha pura e simplesmente política para destruir o António como realizador de cinema.
EXP. - Salazar apreciava o cinema português?
M.M.M. - Lembro-me de ter assistido a uma sessão de cinema, na Tobis, se não me engano, para ver o filme Camões, do Leitão de Barros. O Barros tinha convencido o Salazar a estar presente e, no final, perguntou-lhe a opinião. Salazar respondeu: «Sabe, fez-me tanto mal à vista...»
EXP. - Disse que o então administrador da RTP Freitas da Costa foi quem lhe telefonou a dizer que ia substituir o jornalista Manuel Figueira. Mas a nomeação vinha da Presidência do Conselho?
M.M.M. - Claro, foi o Paulo Rodrigues...
EXP. - Um subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, de cuja tutela dependia a RTP, e que acabou a dirigir a praça de touros do Campo Pequeno!
M.M.M. - E depois? É o castiço em todo o seu esplendor! Aliás, ele sempre gostou de toiros. Era um especialista.
EXP. - Como se lembraram de si se, como diz, não tinha uma acção política; se fazia política de café?
M.M.M. - Nunca me tinha metido na política mas tinha formação política, recebida, em parte, à mesa da casa de jantar. Lera também alguns livros, conhecia alguns teóricos e era um sujeito muito de direita, mas não fascista...
EXP. - Em que ficamos? Disse já que é fascista!
M.M.M. - Não era, mas já se passaram 40 anos. Na altura, o Jaime Nogueira Pinto considerava-me um liberal; ele é que era fascista. Agora diz que eu é que sou fascista e ele liberal. Eu nunca mudei. Quando é preciso dizer mal digo mal, quando é preciso dizer bem, digo bem.
EXP. - Mas acabou por ir para a RTP...
M.M.M. - Eu só fui para a Televisão porque o meu ministro, o doutor Gonçalves Proença, de quem eu gosto muito, me fez aceitar. Eu não gostava de televisão. Só comprei um aparelho dois dias antes de entrar para A RUA. Eu gosto é de jornais: jornalismo é jornais. Mas houve grande pressões para que eu aceitasse. Inclusive, o Gonçalves Proença chegou a deixar a ameaça velada de que iria ter dificuldade de me manter no lugar na Junta de Acção Social. Ora, nessa altura, eu ganhava mais a fazer filmes publicitários — um filme rendia-me 12 contos! do que os 3500 escudos que me pagava a Junta como chefe de secção.
EXP. - Já disse quem o convenceu, mas não disse como.
M.M.M. - A certa altura, como as pressões continuavam, até envolveram a minha família, fiz bluff. Resolvi dizer que só aceitaria se fosse o doutor Salazar a pedir-me; coisa que achava impensável. Pois, estou em casa quando toca o telefone. Atendi, e era Salazar: «Amanhã, depois de ter tomado posse como director do Telejornal, gostaria que passasse por aqui.»
EXP. - Para lhe dar directivas?
M.M.M. - O doutor Salazar nunca me deu quaisquer instruções. Ele gabava-se de nunca ter visto um telejornal...
EXP. - Acreditava nisso?
M.M.M. - Não, embora eu soubesse que a televisão lhe fazia dores de cabeça! O doutor Salazar nunca me deu quaisquer instruções.
EXP. - Sai da chefia dos telejornais em que ano?
M.M.M. - Quando Marcello Caetano vai para o Governo.
EXP. - Ao contrário de Salazar, Marcello Caetano soube servir-se da televisão.
M.M.M. - Soube, e foi por isso que caiu! Não há ninguém que aguente o que o Marcello fez!
EXP. - Refere-se às Conversas em Família?
M.M.M. - Exactamente! Quando eu disse isso ao Moreira Baptista, ele quase espumava! Eu defendia que um homem na posição de Marcello Caetano não podia banalizar-se. Ora, foi isso que ele fez: banalizou-se.
EXP. - E Salazar não se banalizou porque soube preservar o lado misterioso do poder?
M.M.M. - Um discurso de Salazar era um acontecimento nacional! Recordo-me de ter ido à (então) Assembleia Nacional assistir à preparação da gravação de um discurso. Estava já tudo arranjado: uma mesa comprida onde Salazar se sentaria num dos topos e, ao centro, um lindo arranjo de flores. Sentei-me para o operador ver como resultava o cenário: «Está lindo», disse. «Parece morto!» Claro que, com o «Botas», porque mais velho, seria ainda pior. Ninguém, até ali, se atrevera a dizer-lhe que ele precisava de ser maquilhado. Então, perguntou: «Quem manda aqui?» Respondi-lhe que era eu. «Onde quer que me sente?» Indiquei-lhe o lugar, mas disse-lhe que o cenário e a pouca luz da sala exigiam que ele tivesse de ser maquilhado. Não sem ter demonstrado uma certa perplexidade, acabou por concordar. Por vezes, ao encontrar-me, dizia: «Cá está aquele que me pinta!»
EXP. - Que impressão lhe deixou Marcello Caetano?
M.M.M. -A sensação que o Marcello me deixou foi de ele se ter convencido que mandar era só dar ordens. Nunca lhe passou pela cabeça que Salazar mandava e era obedecido porque consultava as pessoas. Recordo-me de uma das poucas vezes que fui recebido por Salazar, estava ele em Sto. António do Estoril. Começou a conversa comigo assim: «Que lhe parece a visita do Papa a Bombaim?» Parece-me mal, senhor Presidente. Aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o doutor Franco Nogueira, já protestou. «Acha suficiente?», perguntou. Disse-lhe que não achava. «Então, publique lá uma notícia de 20 ou 30 segundos, no telejornal.»
EXP. - Uma pretensão modesta!
M.M.M. - Qual quê! Entrega-me então umas folhas dactilografadas a dois espaços cujo texto dava para um discurso. Chamei-lhe a atenção para o tamanho exagerado do texto; ele pôs os óculos, puxou do relógio e começou a ler em voz baixa. A leitura durou 12 minutos. Percebeu que não podia ser assim e entregou-me o texto para eu o reduzir para os tais dois segundos. Quando acabei, ele leu e fez este reparo: «Sabe quem sabe!»
EXP. - O salazarismo morreu ou não com o pós-guerra?
M.M.M. - Acho que sim. Entrou em agonia logo a seguir ao fim da guerra, só que levou muito tempo a morrer! A única preocupação de Salazar era a integridade do território nacional.
EXP. - Sendo o Manuel Múrias uma pessoa de espírito rebelde, como aceitou defender a ditadura?
M.M.M. - Você é que viveu em ditadura. Eu não! Ainda por cima, fazia parte do Poder!
EXP. - Como exerceu o poder na Televisão?
M.M.M. - Entrei para a Televisão no dia 23 de Dezembro de 1963. Lembro-me de o chefe de redacção, Vasco Teives, ter-me dito que, por ter uma especial consideração pelo Manuel Figueira, não podia dar-me grande colaboração. Respondi-lhe que isso não me afectava mas que deixava bem claro: o primeiro que me desobedecesse ia para a rua.
EXP. - Chegou a cumprir essa ameaça?
M.M.M. - Ninguém me pode acusar de ter cometido qualquer injustiça ou de ter perseguido politicamente quem quer que seja. Apenas castiguei um jornalista do Telejornal — um homem de direita — porque ele desrespeitou as normas.
EXP. - Que normas?
M.M.M. - Depois de eu visar a Agenda, que era feita pelo chefe de redacção, ele acrescentou uma notícia sobre o presidente da RTP. Foi para a rua mesmo contra a vontade da administração, à qual tinha posto a alternativa: ou ia eu ou ele. Optaram por ele.
EXP. - Continua a afirmar que Ramiro Valadão transmitiu imagens de Salazar — já senil — com a intenção de lhe desprestigiar a imagem e abrir o caminho a Marcello Caetano?
M.M.M. - É inteiramente verdade.
EXP. - Valadão diz que o fez apenas para satisfazer a vontade de senhoras amigas de Salazar.
M.M.M. - É mentira! Ele que me diga isso a mim! Para já, é uma mentira inconsistente. As tais «amigas de Salazar» não podiam ter mandado os operadores para a Cruz Vermelha. A única verdade, e toda a gente sabia, é que o doutor Salazar estava mal; completamente arrumado.
EXP. - O Presidente da República não tinha outra escolha?
M.M.M. - O Presidente Thomaz nomeou o Marcello porque era o único que, se fosse afastado, lhe poderia levantar problemas. Ele escreveu isso mesmo no último volume das Memórias. Inclusive, o general Deslandes (chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas), que fora mandatado pelo Exército para ir convidar o Franco Nogueira para presidente do Conselho, disse-lhe: «O senhor Presidente manda e nós obedecemos.»
EXP. - Quem via então para substituir Salazar?
M.M.M. - Marcello tinha sido muito amigo do meu pai. Eu conhecia-o bem. Mas não gostava dele, e isso era público. Aliás, tinha dito isso mesmo ao Moreira Baptista, que era marcelista. Acreditava, na altura, no Franco Nogueira.
EXP. - Sente-se injustiçado?
M.M.M. - Não. Ninguém me fez mal, aliás, ao contrário do que eu teria feito. Eu tinha castigado. Jamais aceitaria o que foi feito com a descolonização! Eu gostava dos pretos!
EXP. - Acha que estes últimos 22 anos de democracia não mudaram o País?
M.M.M. - Acho que sim! Foi, aliás, a democracia que fez com que muitos dos actuais presidentes de câmara — que dantes se vestiam dos alfaiates das respectivas terras — passassem a vestir-se dos alfaiates de luxo e ter a «massa» que têm.»
In Expresso, 20.07.1996
Publicado por FG Santos às 03:15 PM | Comentários (5)
dezembro 09, 2004
Já que falamos de censura...
Leio no Diário Digital que "O Conselho das Telecomunicações da União Europeia (EU) aprovou, esta quinta-feira, a implementação do programa «Internet Mais Segura», o qual procura oferecer a pais e professores mecanismos capazes de tornar a Internet mais segura para os jovens."
Aparentemente parecia uma boa ideia: estando a net povoada por uns 250 milhões (autêntico!) de sites pornográficos, nada como proteger os jovens que ainda não têm idade nem maturidade para serem confrontados com tal poluição sem ficarem traumatizados e com uma ideia errada ou perversa sobre a sexualidade e as relações homem-mulher (para não falar de outras!).
Mas quem me manda a mim ser ingénuo? Na verdade, a preocupação dos bruxeloses "kommissars" é outra: "(combater) problemas como os contéudos racistas, assim como o spam." Já me tinha esquecido de qual o principal problema das sociedades contemporâneas: o execrado, perigoso, subversivo, animalesco racismo. Quanto ao "porno", quem é que se preocupa com o seu efeito nas mentes jovens? "Essa" censura não seria tolerável numa sociedade aberta como a nossa...
Publicado por FG Santos às 04:01 PM | Comentários (7)
Tentações censórias no Afeganistão
Três anos depois do fim do regime dos "Estudantes de Teologia" (fundamentalistas islâmicos apoiados pelo Paquistão e tolerados - eufemismo - pela Administração Clinton), caracterizado pelo zelo fanático em cumprir os preceitos mais rígidos de uma certa interpretação do Corão, voltam a fazer-se sentir tentações censórias sobre um dos meios de comunicação mais subversivos (no bom e mau sentido) dos tempos modernos: a televisão.
É o que se pode ler no interessante site do "The Institute for War & Peace Reporting".
Uma das queixas prende-se com as imagens que mostrem homem e mulher dançando (!): ao que parece tais cenas podem excitar a rapaziada jovem e promover imoralidade na sociedade!
Outra argumentação é curiosa: fala-se em defesa contra o imperialismo cultural. Mas qual é o país promotor por excelência desse imperialismo cultural? Os libertadores do Afeganistão, claro. Paradoxos de um país "libertado".
Um artigo a ler, atentamente.
Publicado por FG Santos às 03:36 PM | Comentários (2)
dezembro 07, 2004
Soares e Salazar
No dia em que a democracia que temos comemora os 80 anos do ex-presidente da Re(les)pública, parece-me oportuno deixar-vos aqui um texto que Jaime Nogueira Pinto escreveu em 1990, em que faz um paralelo entre Soares e Salazar.
Os meus agradecimentos ao comentador Nonas, que amavelmente me cedeu este e muitos outros documentos, parte dos quais conto partilhar convosco nos próximos tempos.
EXERCÍCIOS DE ESCRITA
O Dr. Mário Soares escreveu sobre o Doutor Oliveira Salazar. Depois do chocarreiro pasquinado de um semanário que, como grande caixa, trouxe uma história de copos, cozinhas e serviço, indo ao ponto de referir episódios relativos a um octogenário diminuído por uma longo enfermidade, havia uma expectativa quase traumática...
Mas o Dr. Soares não foi em chocarrices: foi cauteloso, cuidou das ideias e da prosa, foi descritivo; quase histórico. Se tivermos em conta que Salazar e Soares estão nos antípodas não só ideológicos e políticos mas também de personalidade, de afinidades electivas, de «pele» que o que para um era branco para o outro é negríssimo, que os seus valores políticos são antagónicos, podemos dizer que é um juízo equilibrado.
Dito isto, visto retratado e retratista, pode concluir-se:
O Dr. Salazar era católico. O Dr. Soares é agnóstico.
O Dr. Salazar era nacionalista. O Dr. Soares é democrata.
O Dr. Salazar era pessimista. O Dr. Soares é optimista, não só «antropologicamente», à Schmitt, mas de fio a pavio.
O Dr. Salazar era conservador. O Dr. Soares é liberal.
O Dr. Salazar guiava-se pela razão de Estado. O Dr. Soares guia-se pela intuição.
O Dr. Salazar fazia «política» (a do dia-a-dia) contrariado. O Dr. Soares adora-a.
O Dr. Salazar baniu a política (luta pelo poder) e criou uma classe «política» que sabia administrar o Estado mas não era capaz de lutar pelo poder, como se viu. O Dr. Soares é o grande inventor da classe política que só sabe isso.
Salazar era de poucos amigos. O Dr. Soares tem um amigo a cada esquina. E se não tiver, inventa-o.
O Dr. Salazar não gostava de multidões. O Dr. Soares vai a banhos de...
O Dr. Salazar (como Richelieu) só tinha inimigos funcionais, «do Estado». O Dr. Soares, demasiado humano (como Marcello Caetano), tem inimigos (e amigos) pessoais.
O Dr. Salazar era pobre e vivia «remediadamente»; fazia gala nisso e falava de alto aos ricos, aos «ricaços». O Dr. Soares é abastado, não se importa de o ser, gosta de conviver com os ricos e chamar-lhes empresários.
O Dr. Salazar achava que Portugal era o mais importante. O Dr. Soares acha que é a liberdade.
O Dr. Salazar desconhecia a política espectáculo. O Dr. Soares é um espectáculo político.
O Dr. Salazar, em virtudes e defeitos, era o contrário do português médio. O Dr. Soares é igual.
FINAL
O Dr. Salazar deixou Portugal do mesmo tamanho que o encontrou. No tempo do Dr. Soares, Portugal encolheu um grande pedaço. E de que maneira.
O Dr. Salazar criou um sistema que só podia funciona com ele. O Dr. Soares deixa um sistema que funcionará com ele, sem ele e até contra ele.
O Dr. Soares escreveu sobre o Dr. Salazar. O Dr. Salazar não escreveria sobre o Dr. Soares.
Jaime Nogueira Pinto
In Semanário, 06.08.1990
Publicado por FG Santos às 06:34 PM | Comentários (8)
dezembro 06, 2004
Uma vida falhada
Está a ser julgado em Paris Maxime Brunerie, acusado de tentativa de homicídio contra o Presidente Jacques Chirac.
Diversos psiquiatras analisaram o perfil do acusado, a maior parte pendendo para a sua imputabilidade, ou seja, o indivíduo, embora desequilibrado, não perdeu a noção do acto que estava a praticar.
O seu retrato revela-nos o militante de ultra-direita mais por bravata que por convicção ideológica, mais por vontade de transgressão do que por consequência de uma reflexão sobre a sociedade.
Se Hitchcock fosse vivo teria certamente interesse em retratar o infeliz.
Publicado por FG Santos às 06:01 PM
dezembro 05, 2004
António José de Brito em entrevista
O semanário Independente publicou há cinco anos atrás uma entrevista com António José de Brito, algo de estranhar tendo em conta o panorama conformista da nossa imprensa.
Numa altura em que o estimado Corcunda nos refere que "a Bodleian Library (distinguiu) entre os livros mais importantes sobre o "pensamento conservador" uma obra portuguesa, algo infrequente nas ciências portuguesas. A obra é "Compreender o Pensamento Contra-Revolucionário" de António José de Brito, editada pela Hugin", pareceu-me oportuno disponibilizar a entrevista que se segue.
«Respire fundo. Vai ler algo talvez indigesto para estômagos profundamente democratas. António José de Brito não tem medo das suas opiniões. E convicções. Aos 71 anos, considera-se ainda suficientemente mal comportado para que ninguém lhe diga o que deve dizer, fazer ou por onde ir. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e doutorou-se em Fiosofia, em França. Em 1994, foi aprovado no concurso para professor catedrático da Faculdade de Letras, onde leccionou Filosofia da Linguagem. Nas privadas, deu Filosofia do Direito. Está ligado à Universidade Portucalense e convidaram-no para dar aulas semestrais na Lusófona. Escreveu em jornais como “Diário da Manhã”, “A Rua”, “O Diabo” e outras publicações. É ainda colaborador de algumas. Catorze livros publicados, um dos quais, “Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário”, diz ser aquele onde se terá apurado mais. Tem o mais profundo desprezo pela democracia.
Recebe-nos numa casa atulhada de livros, forrada mesmo. Há exemplares em todas as línguas, por todos os cantos. Vive só e tem um sentido de humor apuradíssimo. Anda cismado com a possibilidade de lhe ser diagnosticado tumor maligno, mas, “nesta idade, mesmo que me metam tubos pela boca ou por trás, já não há o perigo de me habituar”. Diz isto e ri-se. Sobretudo se enxertada da componente política mais radical, a conversa sai inofensiva, familiar, afável, simpática, dir-se-ia estarmos diante de um avozinho querido que já não vemos há muito tempo. Diante de nós está, porém, um fascista. Assumido. Onde dói mais. Ele não gostará que lhe digam isto, mas talvez seja a superioridade moral da democracia a abrir-lhe as portas desta entrevista.
Quando se descobriu “fascista”?
Foi em Coimbra que fiz a minha descoberta ideológica, por alturas de 1945. A leitura da doutrina fascista foi um ponto de partida. Tinha 17 anos e alguma consciência política, era um conservador. E anticomunista, embora não muito consciencializado, diga-se. Aliás, dois ou três anos antes, li coisas sobre o comunismo para me informar, mas só em Coimbra é que me chegaram às mãos trabalhos com interesse, como sejam os trechos escolhidos de Marx sobre Filosofia e Economia. De resto, li também imenso os autores da Seara Nova, António Sérgio, cujo racionalismo bastante me influenciou, e Raul Proença, sobretudo. Na minha juventude, porém, apreciava Salazar, o que, naquela época, era um sentimento bastante generalizado. Mormente porque ele tinha evitado o nosso envolvimento na guerra.
Mas identificava-se com o regime?
Não muito. Aliás, quando Marcelo Caetano surgiu com a liberalização, publiquei um opuscoluzinho chamado “Sobre o momento político actual”, no qual dizia estar ao lado do regime em tudo o que fosse antidemocrático, antiliberal, anticomunista, autoritário e nacionalista, mas contra aspectos demasiado conservadores e de transigência demasiada com o capitalismo. Eu teria sido mais socializante, teria cortado mais as unhas aos grandes capitalistas. Estava mais à direita do regime e de Salazar, embora tivesse com ele pontos em comum, sobretudo quando ele podia falar à vontade, nas entrevistas com o António Ferro...
Mas houve alguma altura em que Salazar não falou à vontade?
A partir de 1945, pode ter a certeza que ele não falava muito à vontade. Embora sob reserva porque é uma informação em terceira mão que me foi contada por um grande amigo e poeta chamado Amândio César, digo-lhe que o Salazar terá enviado uma carta ao Alfredo Pimenta, na qual, a propósito do discurso do “bendigamos a paz, bendigamos a vitória”, teria escrito uma coisa deste género: “Engula esta que eu também a tenho de engolir”.
O senhor é fascista. Salazar era o quê, então?
Era um nacionalista-conservador ou um contra-revolucionário, se quiser. A diferença estará na concepção do Estado, ele entendia-o como limitado. Além disso, era católico. Ora, o fascismo é imanentista, tem grandes influências de Nietzsche e de uma certa leitura italiana de Hegel, sobretudo com Croce e Giovanni Gentile. Este enveredou pelo fascismo e o Croce assumiu o antifascismo, mas sem nunca aceitar os Direitos do Homem.
Também não subscreve a Carta dos Direitos do Homem?
Não subscrevo, obviamente, pois não tenho uma visão pessimista nem optimista do Homem. O Homem, enquanto tal, não tem direitos porque pode errar, praticar amplamente o mal, e pode até ser contra os próprios Direitos do Homem. E como é que se explica um paradoxo destes, vamos admitir que o Homem tem direito a combater os Direitos do Homem? Se não admitirmos, o Homem tem de estar submetido a uma disciplina, não tem direitos inerentes.
Mas voltando a Salazar, lembro-lhe que José Hermano Saraiva disse há pouco tempo que Salazar era antifascista...
Eu sei, eu sei, e até julgo que disse mal, mas foi por bem. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa: até 1945, o Salazar tinha o retrato do Mussolini na sua banca de trabalho. Dizer que ele era antifascista só por graça, pelo amor de Deus! A menos que ele só tivesse o retrato para lhe cuspir.
A PIDE, a censura, que sentimentos lhe geravam?
A PIDE era uma polícia política necessária e este regime também tem uma. É possível que se tivessem cometido excessos, como cometem normalmente as polícias, mas a maior parte dos que foram julgados foram-no apenas por pertencer à PIDE. Quanto à censura, achava-a benemérita, mas muito mal organizada. Veja bem, num regime que se dizia furiosamente anticomunista, pude comprar, em Coimbra, em 1945, os trechos escolhidos de Marx. Não sou partidário da liberdade de expressão e sempre me pareceu que era melhor prevenir que remediar. Aliás, continua a haver crimes de liberdade de expressão, anda toda a gente a processar toda a gente. Nesse sentido, se calhar era melhor que não se difamasse, ou seja, tal artigo não saía, pura e simplesmente. É o que se faz nos outros crimes, para isso é que existe uma PSP. Não se espera que uma pessoa vá matar outra, podendo evitar, evita-se.
A palavra Liberdade diz-lhe alguma coisa?
Liberdade, no sentido de livre arbítrio, diz-me imenso, porque é o sinónimo da responsabilidade. Mas a liberdade não é um fim, é um meio. Há a liberdade útil e boa, mas há a liberdade que é contrária ao interesse nacional, à ordem.
E quem define essa fronteira?
No meu conceito, o governante é que definiria onde está a verdade e o erro. E a liberdade para o erro é uma coisa nociva. A verdade política teria de ser definida por um chefe. E o melhor chefe, para mim, é o rei. Costumo dizer que sou fascista por princípio e monárquico por conclusão. Mas agora também já não há reis, não é? Não há monarquia em parte nenhuma, tem um nome que não corresponde à coisa. Subscrevo o Dali. Quando lhe perguntaram se era ou não possível a restauração da monarquia autêntica na Europa, ele respondeu: com certeza que sim, mas temos um grande adversário. Qual é?, perguntaram. “Os reis”, respondeu ele.
O que é ser fascista, hoje?
Hoje é o mesmo do que ontem, enquanto doutrina. É colocar a ideia de Estado ao nível da vontade universal ou valor supremo. E entender que o homem individual se deve superar, integrando-se no Estado, tornando-se Estado. O ponto fundamental da doutrina fascista é a identificação entre indivíduo e Estado.
Há fascistas em Portugal?
Propriamente fascistas, tal qual eu me identifico, suponho que haverá três ou quatro. Monárquicos, tal qual eu julgo ser, também há muito poucos. E a extrema-direita é bastante residual. Depois há aqueles que se dizem fascistas sem saberem o que isso é, só para causarem um certo escândalo. É um fascismo folclórico. Em Portugal, não temos fascistas, é um problema.
E na Europa?
Na Europa, infelizmente, os movimentos que são considerados de extrema-direita têm um grande cuidado em demarcar-se do fascismo. É o caso, por exemplo, do Movimento Social Italiano (MSI) ou do partido do Le Pen. Também é natural que, havendo algumas organizações fascistas, tenham de se disfarçar, pois a legislação é antifascista, repressiva e muito severa.
Como é que viveu o 25 de Abril de 1974?
Estava no Porto e vivi-o com uma grande amargura. Mas não foi propriamente uma surpresa porque a governação de Marcelo Caetano era o fim do Estado Novo, colocava-o num plano inclinado. Para mim, o 25 de Abril representou o fim do Portugal histórico.
Portugal é o quê, então?
É um triângulo anárquico que vive habilmente à custa da Europa. Daqui a algum tempo deixará de viver e, então, ver-se-á em grandes dificuldades e terá um nível de vida idêntico ao de algumas repúblicas da América Central. Costumam perguntar-me coisas sobre os últimos escândalos, mas normalmente não vejo televisão, excepto filmes policiais e futebol. Sou um exilado do interior. Vivemos num regime onde não pode haver uma autêntica oposição de extrema-direita, porque a lei é severa. Mas também não há pessoas suficientes. Quando nos encontramos, trocamos impressões saudosas sobre isto e aquilo, falamos de obras que vão saindo, aprofundamos os filósofos, vivemos exilados num regime de pluralismo condicionado. De ideologia única, que é a ideologia democrática. Quem não for democrata, pois recolha à privada.
Não será antes uma ditadura liberal? Afinal, os grandes grupos económicos dominam como dominavam antes...
Com o governo socialista, privatiza-se tudo, intervém-se muito menos do que no antigo regime. Nessa altura, havia mais condicionalismos. Agora é que estamos desenfreadamente no capitalismo selvagem. Privatiza-se tudo, não lembra ao Diabo. É o Estado vendido aos bocados, o que é preciso é dinheiro. O socialismo já não está na gaveta, está no fundo da arca.
Esse é um pouco, também, o discurso dos comunistas...
Sim, sim, mas se os comunistas disserem que está a chover, eu, só pelo facto de serem eles a dizer, não vou dizer que está sol...
É-lhe indiferente a actual crise do Estado e do sistema judicial?
Assisto com a maior indiferença e total desdém. Tudo o que acontece de mau é inerente ao sistema. Assim o quiseram, assim o terão. Estou convencido de que tudo isso será arquivado... arquive-se, arquive-se! É tudo boa gente, tudo da mesma esfera. São guerras intestinas entre belos rapazes. Posso dizer, usando as palavras de Guerra Junqueiro sobre a República, é tudo um bacanal de percevejos num colchão podre.
Há quem diga que se vive um clima de fim de regime...
Não sou optimista a esse ponto [risos]. Estou até bastante pessimista...
... e acrescenta que é nestas alturas que surgem as ditaduras...
Não vejo quem possa ditar o que quer que seja, a não ser os professores primários. Se é que ainda fazem ditados. Agora a sério, não acredito que estejamos a viver um período de fim de regime. Infelizmente. Friso muito o advérbio... Infelizmente.
Como analisa o papel da Igreja, hoje?
Não sou católico, mas só lhe posso responder com uma “boutade”: enquanto o Papa for católico, já estou muito satisfeito. Mas pelo andar da carruagem, ainda tenho esperança de ver um Papa ateu. Se durar tempo suficiente, ainda verei esse espectáculo. De resto, lembro apenas que algumas encíclicas, como a de Leão XIII, por exemplo, são profundamente antidemocráticas. A democracia foi uma doutrina condenada por vários papas.
“Muitos dos que me chamaram moderado estão hoje bem colocados a nível político.” A frase é sua. A quem se referia?
Não vou citar nomes e entrar em polémicas porque considero-os absolutamente inúteis. Nem eles mudam nem eu. Posso, no entanto, recordar que alguns estiveram comigo, em 1967 ou 68, num curso de formação nacionalista, em Sintra, e achavam que eu não era suficientemente revolucionário. Estavam lá vários moços que achavam que eu não tinha aquele fervor nacional-revolucionário que eles tinham. Olhe, também lá apareceu o professor Hermano Saraiva... Agora, uns estão em Bruxelas, outros são chefes de gabinete ou estiveram em gabinetes dos governos de Cavaco Silva. E por aí adiante. Vi-os esaparecer, voláteis, a bater as asas. Primeiro, com espanto, mas agora já nada me espanta.
Mas como os define? São fascistas envergonhados?Eu diria é que são fascistas desavergonhados!
Veiga Simão é um desses casos?
Conheci-o em Coimbra, dirigente do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa. Diria que é um homem que sabe seguir os acontecimentos, com muito talento, aliás. Sabe estar na crista da onda. É brilhante e, como digo, já nada me espanta. A democracia soube reciclar muito bem os fascistas e estes também souberam reciclar-se. Têm muito talento e devem olhar para as pessoas como eu julgando que somos idiotas. Consideram-nos uns desmancha-prazeres até porque o argumento deles é sempre o mesmo, ou seja, “não se podia fazer outra coisa”.
Alguma vez a democracia o tentou reciclar a si?
Não, não, teve sempre esse bom gosto, essa delicadeza.
Quais são os adversários que mais respeita?
Em Portugal, devo dizer-lhe que sou muito irrespeitoso para quase toda a gente. Respeitei os comunistas quando eles estavam na clandestinidade, quando se arriscavam. Eram inimigos, mas corajosos. Depois de os ver actuar no 25 de Abril, fugindo às responsabilidades, perdi-lhes um certo respeito.
Que opinião tem de Soares e Cunhal?
Por Álvaro Cunhal tenho algum respeito. Deu a face, arriscou, nunca meteu o comunismo na gaveta. Quanto a Mário Soares, bem... só neste regime pode ser considerado um grande vulto. Sabe uma coisa? Portugal tem um problema gravíssimo, uma doença na coluna, que é a falta de espinha dorsal. O problema é que os ortopedistas não chegam à classe política...
No “Livro Negro do Comunismo” defende-se a tese do paralelismo entre comunismo e fascismo...
É inteiramente errado dizer isso. Nos pressupostos filosóficos e nos objectivos políticos, a diferença é abissal.
Leu o “Mein Kampf”?
Sim, sim...
Gostou?
Não, não gostei, considero ter sido uma coisa ultrapassada pelo próprio Hitler e pela própria legislação nacional-socialista. Aliás, por alturas da ocupação da Renânia, o Hitler dizia: “Eu não sou um escritor, o ‘Mein Kampf’ é uma obra que estou a tentar emendar no campo da acção.
Hitler é uma das suas figuras de referência?
Em alguns aspectos, sim, embora não concorde, por exemplo, com o seu conceito de racismo, sustentado em termos biológicos. É uma referência em termos de solução entre capitalismo e comunismo, na instauração de um Estado autoritário e da identificação do povo tomado como valor, paralelo ao fascismo. O nazismo foi, em certo sentido, um bem, não foi um mal absoluto. Mas deve condenar-se o que é condenável. Se, por hipótese, o holocausto tivesse existido, não deixaria de o condenar. Penso que os inimigos não devem ser eliminados, mas, isso sim, reduzidos a um grau de não-nocividade política. É, aliás, o que fazem as democracias com algumas pessoas, mas sem a coragem de o assumir.
Qual é o seu conceito de racismo?
Num suplemento sobre o racismo nacional-socialista, que publiquei no meu último livro, mostro que muitos dos autores já apelam, não para hereditariedade no sentido biológico, mas sim para aquilo que chamavam a raça da alma. Clauss diz, por exemplo, que “encontramos também em cabelos pretos e corpos baixos, muitas vezes almas loiras e elegantes. A ruptura é, muitas vezes, entre almas e almas, muitas vezes entre a alma e o seu corpo”. Esta é a interpretação que admito. Nesse sentido, pode falar-se em raça tida como um tipo de homem. Um tipo de homem que será, para mim, aquele que se identifique com o Estado, a vontade universal. Stuart Chamberlain, apontado como precursor nesta questão, dizia que “o germanismo reside na maneira de sentir e pensar. O que se mostra germano é germano, descenda de quem descender”. Ora, isto leva-nos a admitir até judeus integrados no pensamento germânico. E não vejo porque não.
Qual é a sua opinião sobre o “caso Pinochet”?
É um disparate, acho tudo isto paradoxal, até, pois ensina os ditadores a não abandonarem o poder. É uma lição para eles, é como dizer “nuncas faças isto senão depois podes ir à Inglaterra e suceder-te qualquer coisa”. É muito pedagógico. O Pinochet foi um homem que abandonou o poder por sua vontade e a meu ver fez mal. Ele não é um fascista, no fundo será um liberal e está muito à minha esquerda. Até lhe dou um exemplo: quando ele estava no poder no Chile, em frente do palacio La Moneda havia um quiosque onde se vendiam jornais a dizer o pior possível de Pinochet.
Publicado por FG Santos às 11:25 PM | Comentários (5)
dezembro 03, 2004
Ensino do Islão
Hoje é só notícias "exaltantes". O meu Alemão não é perfeito mas vai dando para perceber o que vem nos jornais.
Assim, leio no Die Welt que a ministra Renate Künast (Verdes) propõe a introdução do ensino do Islão nas escolas alemãs. "Por que razão se há-de conhecer o conteúdo da Bíblia e não do Islão?", pergunta a verdejante criatura.
"O ensino da religião islâmica dá-nos a oportunidade", diz ela, "de desenvolver um islão europeu (sic) esclarecido (re-sic), o qual não terá qualquer problema (re-re-sic) em se inserir numa sociedade livre e aberta."
E assim vai a nossa Europa, tolerante, aberta (ao que lhe convém), abrangente - numa palavra: suicidária.
Publicado por FG Santos às 05:53 PM | Comentários (7)
Que se ponham a andar daqui para fora!
O belga de origem libanesa Dyab Abou Jah Jah, chefe da Liga Árabe Europeia (!), deu nas vistas o ano passado ao instituir patrulhas em Antuérpia e Ghent para impedir agressões racistas.
Agora volta a fazer falar de si, como nos relata o Rivarol, ao declarar muito simplesmente o seguinte: "Os belgas não se conseguem adaptar à sociedade multicultural. É um facto. Desta forma, o melhor que têm a fazer é emigrar. Quem não se sente bem, o melhor que tem a fazer é ir daqui para fora...".
Publicado por FG Santos às 01:03 PM | Comentários (2)
Eles vêm aí
Com a provável vitória do PS nas próximas legislativas, pergunto-me o que acontecerá ao processo Casa Pia, no qual estão envolvidos vários nomes ligados àquele partido.
Conseguirão os juízes resistir à mais que provável pressão política que virá das bandas do ex-palácio dos Marqueses de Viana, ao Largo do Rato?
E Souto de Moura? Goste-se ou não dele, o que é certo é que desde que foi nomeado PGR se começou a vasculhar os podres da nossa sociedade, quando no tempo do sinistro Cunha Rodrigues tudo o que era processo era arquivado.
Também me interrogo sobre o futuro da liberdade de expressão. Temos que nos preparar para uma ofensiva do politicamente correcto, que não deixará de se fazer sentir na net.
Outros temas na agenda socialista serão certamente a liberalização do aborto, da imigração, uma maior carga ideológica na programação da TV estatal, um relaxamento financeiro para favorecer clientelas, o uso de meios de propaganda estatal para fazer passar a Constituição Europeia em referendo.
Preparem-se para a borrasca.
Publicado por FG Santos às 12:00 PM | Comentários (3)
AAARGH
O título desta entrada mais parece um grito de raiva. Na verdade, o "AAARGH" é um site politicamente incorrecto por excelência - e isto vale para todas as tendências, até lá vem escrito que Brasillach era um poeta medíocre...
Qual o interesse especial do site? Ter cerca de 200 obras prontas a descarregar para os vossos PCs, desde os panfletos de Céline, passando pelos "Décombres" de Rebatet, "The International Jew" de Henry Ford, o famosos mas pouco lido "Dialogue aux enfers entre Machiavel et Montesquieu" de Maurice Joly (por acaso adquiri-o há uns anos na Feira do Livro de Lisboa, no stand do Centro Helen Keller, por tuta e meia!), até obras de Bardèche, António José de Brito, incluindo trabalhos sobre o sionismo, judaísmo, revisionismo...
Que fique aqui dito, já agora, que tenho reservas face aos chamados revisionistas. Embora pareça haver contradições enormes na história oficial da II Guerra, também me parece que boa parte dessa literatura é motivada politicamente. Li "Mémoire en Défense" de Faurrisson e achei a argumentação muito pouco convincente. Mas como acho condenável que se volte aos autos-de-fé bibliotecários, ainda bem que há sites que possibilitam que demos uma espreitadela aos livros desta corrente.
Publicado por FG Santos às 11:07 AM
dezembro 02, 2004
Livros, blogues, entusiasmos...
Diz o Viriato, do Porta Bandeira, que o lançamento em livro dos melhores (?) textos do blogue Barnabé lhe provocou entusiasmo.
Diz o jovem que esse lançamento "é sinal de que o fenómeno blogueiro atingiu elevadas proporções". É possível, mas também o destaque de que o livro em questão está a ser alvo deriva, obviamente, de o blogue em causa estar ligado ao BE que, como se sabe, tem a protecção e o carinho dos mass media em Portugal, sem qualquer correspondência com a adesão popular a esse movimento anti-nacional.
Dito isto, a edição a mim não me entusiasma minimamente, antes me irrita, é mais um indício do triunfo (até ver) dos "Gramsci Boys".
Publicado por FG Santos às 04:43 PM | Comentários (1)
dezembro 01, 2004
Uma Campanha Alegre
E aí está como a grande ocupação do mês são as ELEIÇÕES. (...)
Um deputado é um empregado de confiança. (...) É por meio de votos (que é nomeado), os quais são tiras de papel, onde está escrito um nome, e que se deitam num domingo (...) dentro de umas caixas de pau, que se chamam romanticamente urnas. (...)
O deputado obedece ao Governo, e exerce uma função. Há o apagador, o gritador, o interruptor, o homem dos incidentes, o homem dos precedentes, etc. (...)
O Governo pois nomeia os seus deputados. Estes homens são, naturalmente e logicamente, escolhidos entre os amigos dos ministros. Por dois motivos:
1.º Porque a amizade supõe identidade de interesses, confiança inteira.
2.º Porque sendo a posição de deputado ociosa e rendosa, é coerente que seja dada aos amigos íntimos – àqueles que vão ao enterro dos parentes e trazem o pequerrucho da casa às cabritas.
(Capítulo VIII do Primeiro Livro.)
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos (...).
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País. (...)
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio – a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
(Capítulo IX do Primeiro Livro.)
Junho de 1871
Eça de Queirós, "Uma Campanha Alegre"
Publicado por FG Santos às 02:37 PM | Comentários (2)