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outubro 25, 2004
"Já acabámos com o blog"
Recebi o texto que a seguir reproduzo por correio-e, desconhecendo quem é o autor e qual a veracidade do episódio nele descrito.
A ser verdade, trata-se de um caso interessante de influência política no intuito de abafar uma voz incómoda, uma situação velha como as sociedades organizadas e sempre actual.
Exmo. Sr. ou Sr.ª:
Vem isto a propósito do caso Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.
Nasci e tenho vivido num pequeno concelho (Pombal) do Litoral-Centro (Distrito de Leiria).
Não milito em nenhum grupo partidário. Sou um simples cidadão nascido seis anos antes do 25 de Abril de 1974.
E como cidadão, ingénuo a pensar que haveria liberdade de expressão e de opinião, criei em Julho passado um "blog" na Internet que pretendia ser um espaço de reflexão e de debate de ideias, com críticas construtivas, sobre o que está a acontecer na minha Terra.
Nomeadamente sobre a actividade da respectiva Câmara Municipal e outras instituições.
Esse "blog" num espaço de dois meses registou mais de 6.700 visitas, tendo sido comentado em grande número por outros cidadãos/munícipes.
A respectiva autarquia, presidida pelo social-democrata Eng. Narciso Mota, nunca usou o princípio do contraditório. Apesar de reconhecer que alguns dos temas abordados tinham a sua veracidade, alterou alguns procedimentos, dando razão ao que por lá se escrevia.
Reconhecendo que o "blog" era incómodo para o Poder (leia-se, Câmara Municipal), o senhor presidente entendeu que a melhor forma de usar o "contraditório" era acabar com o mesmo.
Vai daí, entrou em contacto com a direcção/administração da empresa onde eu trabalhava e denunciou a sua existência, fazendo ver que o "blog" era "gerido" em horas de expediente.
A direcção da empresa de imediato, e justificando que aquela situação lesava a relação institucional com a Câmara Municipal, até porque necessitava desta para legalizar algumas situações pendentes, despediu-me.
Isto, não argumentando com falta de profissionalismo ou de produtividade.
Mas sim, porque o senhor presidente da Câmara assim os contactou para o efeito.
Esclareci a situação e comprometi-me a eliminar de imediato o "blog", o que foi feito e aceite.
Precisamente um mês depois, e pelo meio alguns encontros realizados entre o presidente da Câmara e a direcção/administração da empresa, fui novamente confrontado com o despedimento. E perante duas opções: instauração de processo disciplinar ou demissão voluntária, optei pela segunda.
Ou seja, a intervenção do senhor presidente da Câmara Municipal de Pombal neste processo é um facto. Tanto o é que um dos seus vereadores afirmou perante algumas pessoas "já acabámos com o blog".
Esta situação é notoriamente idêntica à que aconteceu com o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Na sua proporção, obviamente. Mas, com um senão. O meu futuro. Estou desempregado, com duas crianças de 20 meses para criar, casa e carro para pagar. E esposa também desempregada.
E tanto mais que, ainda há dias, ouvi da boca de um eventual empregador: "reconheço que és a pessoa indicada para o meu projecto, mas quando o senhor presidente da Câmara soubesse, caía o Carmo e a Trindade. E eu não quero ter problemas com esse senhor".
É triste que 30 anos depois de uma revolução, ainda haja quem de uma forma nojenta e vergonhosa, censure as vozes discordantes para que estas não expressem livremente as suas opiniões.
Com os melhores cumprimentos
Atentamente
Orlando Manuel S. Cardoso
Rua Paul Harris, nº 13 - 1º Esq
3100-502 Pombal
Telef.: 236213594 - 936354363
E-mail: orlando.cardoso@zmail.pt
Publicado por FG Santos às outubro 25, 2004 05:00 PM
Comentários
Por estas e por outras, nunca se deve assinar um blogue com um nome verdadeiro.
Publicado por: Viriato em outubro 25, 2004 06:05 PM
Caro Viriato,
Não creio que seja um perigo assinar o blogue com nome verdadeiro. Enfim, depende do que se escreve, da profissão de cada um, etc. No seu caso, por exemplo, não vejo que constituisse qualquer problema.
Abraço,
PG
Publicado por: pedro guedes em outubro 25, 2004 06:17 PM
Se assinasse com o meu nome, teria que ter muito mais atenção ao que escrevo... Seria uma auto-censura. Assim, sou livre para dizer o que penso.
No entanto, se fosse hoje, escreveria no meu blogue com um pseudónimo.
É claro que isto é apenas a minha opinião...
Publicado por: Viriato em outubro 25, 2004 10:09 PM
Por uma questão de legítima defesa dos nossos direitos, e para evitar aborrecimentos como os descritos a que de outra maneira nos estaríamos a sujeitar, devemos sempre escrever sob pseudónimo e preferencialmente num espaço albergado nos EUA, imune à censura dos tiranetes de pacotilha que continuam a pulular em Portugal.
No caso concreto, estranho todavia que o visado não haja processado judicialmente a empresa em causa, pois o seu despedimento, a terem-se passado as coisas como narra, foi totalmente ilegal.
Publicado por: JSarto em outubro 26, 2004 02:33 AM
É com enormíssimo júbilo que constato que o JSarto também considera que ter o blogue sediado nos Estados Unidos da América é a nossa defesa contra a moraça, a tirania e a opressão.
Mais uma vez, agora como no passado, os 'oprimidos' rumam,desta feita de barquinho blogosférico, aos EUA onde a Estátua da Liberdade nos saúda e ilumina, aconchegando-nos a alma dorida pela repressão e pelo lápis azul tão costumeiro do Velho Continente (um dia destes, por este andar, o pessoal que tem o blogue em Portugal ainda vai ter uma surpresa desagradável).
Apesar de todos os defeitos que se lhe possam assacar, os EUA são, sem dúvida, o país do mundo com mais liberdade de expressão, devido á sua própria História e irresistíveis dinâmicas internas.
Publicado por: Nelson Buiça em outubro 26, 2004 03:14 AM
Caro Sarto, suponho que o despedimento, embora aparentemente ilegal, possa ter tido como base o facto de o visado utilizar a internet no local de trabalho para actividades que nada tinham a ver com esse trabalho. Tudo depende das normas que as empresas que disponibilizam internet aos seus empregados definem como uso possível ou aceitável.
Publicado por: FG Santos em outubro 26, 2004 09:33 AM
Esse texto veio publicado na "Tribuna dos Leitores" do caderno local Sul a 21 do corrente. Recortei-o e datei-o como costumo fazer com o que considero insólito. Eu por vezes actualizo o meu blogue no escritório, mas com pleno conhecimento da minha entidade patronal, a quem o solicitei, assumindo que tudo faria para não cometer abusos. No caso vertente não me custa a acreditar que houvesse uma boa quantidade de tempo gasto a dizer mal do presidente da Camara local. Se fosse com o meu dinheiro, também não gostaria. Também me parece que o autor sabia bem disso, pois quando lhe propuseram uma saída voluntária ou um processo disciplinar, ele optou imediatamente pela primeira hipótese, o que sugere que não teria bases para se defender de um processo disciplinar. O que me impressiona no texto é a sua enorme candura.
Publicado por: O Velho da Montanha em outubro 26, 2004 06:46 PM