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outubro 30, 2004

O processo eleitoral norte-americano

Segundo o Independent, a polémica em torno do processo eleitoral nas presidenciais americanas de 2 de Novembro pode ser ainda maior que há quatro anos. Com efeito, truques sujos de ambos os lados, embora possivelmente mais intensos do lado Republicano, prometem ensombrar a votação.
Foram já registados casos de destruição de formulários de recenseamento de eleitores Democratas e os Republicanos vão “plantar” os chamados “challengers” nos locais de voto, com o intuito de intimidar os negros e levar estes a não votar, táctica que costuma dar resultados.
Em alguns estados, como a Flórida, o voto é agora feito por meio de máquinas electrónicas que não terão sido testadas o suficiente para garantir fiabilidade e ainda por cima não permitem que o voto assim expresso passe para papel, tornando virtualmente impossível verificar a acuidade dos resultados dados pelas ditas máquinas, que além disso não estão imunes a pirataria informática.
Em suma, um cenário muito pouco animador e que dá uma ideia bastante degradante do estado a que as coisas chegaram nos EUA. Embora este país tenha um longo historial de batota política, de assassinatos envolvendo homens políticos, as coisas parecem pender cada vez mais para métodos terceiro-mundistas. Uma lástima.

Publicado por FG Santos às 11:09 PM | Comentários (1)

outubro 29, 2004

O crash em Wall Street foi há 75 anos

Faz precisamente hoje 75 anos que se deu o crash em Wall Street, arruinando milhares de investidores, arrastando para a falência milhares de empresas e bancos, empurrando milhões de americanos para a pobreza e, face à lentidão da administração Hoover em lidar com a questão, abriu caminho para a futura vitória de Roosevelt nas presidenciais de 1932.
Hoje muita gente contesta que o New Deal tenha ajudado a colocar a economia americana no rumo certo, há quem argumente que teve o efeito de prolongar a recessão mais tempo ainda. E Roosevelt ainda acabou com o padrão ouro, confiscando todo o ouro detido pelos cidadãos:
«In addition to cancelling the redemption of dollars into gold, Roosevelt in 1933 committed another criminal act: literally confiscating all gold and bullion held by Americans, exchanging them for arbitrarily valued "dollars." (in Causa Liberal, artigo de 22.10.2004).
A nível político a administração Roosevelt abriu caminho para o hoje chamado "politicamente correcto", seja na forma como acarinhou as chamadas minorias, seja no apoio escandaloso que veio a dar à URSS, o que não admira quando se constata o número incrível de filo e cripto comunistas que a ela pertenciam. Mas isso será matéria para um post futuro.

Publicado por FG Santos às 04:57 PM | Comentários (2)

Cem mil mortos

Um estudo hoje publicado sustenta que a intervenção militar no Iraque terá já provocado cem mil mortos civis.
Uma guerra cujo leimotiv oficial era falso (seja a questão das armas de destruição massiva ou o alegado e nunca provado apoio de Saddam Hussein à Al-Qaeda) causou em pouco mais de um ano tanta miséria, morte, destruição e, nunca será de mais dizê-lo, um novo albergue para a jihad internacional.
Os verdadeiros motivos terão sido o controlo de uma parte importante das reservas mundiais de petróleo, a eliminação de um inimigo de Israel, pressão sobre os outros estados árabes do Médio Oriente...
Eliminou-se um ditador sanguinário mas criou-se um imbróglio naquele país cuja resolução será quase tão complicada como pacificar o Afeganistão.

Publicado por FG Santos às 11:42 AM

outubro 28, 2004

Integralismo Lusitano, uma síntese

O excelente blogue Semiramis publicou em 29 de Fevereiro deste ano um texto de José Manuel Alves Quintas sobre a génese e a evolução do Integralismo Lusitano.
Dado o seu inegável interesse, e porque pode servir de aperitivo para que aqueles que pouco conhecem do movimento queiram aprofundar a pesquisa, aqui o deixo reproduzido, com a devida vénia.

Integralismo Lusitano — uma síntese
Por José Manuel Alves Quintas
1. A formação, 1913-16
A expressão "Integralismo Lusitano" foi usada pela primeira vez por Luís de Almeida Braga na revista Alma Portuguesa (Gand, 1913) designando um projecto de regeneração de Portugal.

Em 1913, Almeida Braga exprimia-se em termos religiosos e filosófico-estéticos, se bem que com evidente intencionalidade político-cultural, reagindo ao Saudosismo gnóstico de Teixeira de Pascoaes (O Espírito Lusitano ou o Saudosismo, 1912) e ao movimento da "Nova Renascença" (criado pelo grupo de republicanos portuenses da revista A Águia). Na vertente político-religiosa, estes defendiam que o regime republicano abria novas possibilidades de regeneração para Portugal, mas que esta só se concretizaria se fossem quebrados definitivamente os laços com a Igreja Católica; Almeida Braga, interpretando o recém-implantado regime republicano como uma nova etapa no processo de decadência, advogava que a regeneração só seria possível através de um retorno à integralidade do espírito católico que fizera Portugal.

Esta era uma visão partilhada por um grupo de jovens estudantes monárquicos, exilados na sequência da sua participação nas incursões da Galiza comandadas por Paiva Couceiro – entre os quais se contava também Simeão Pinto de Mesquita e Francisco Rolão Preto —, que contestavam, afinal, no plano religioso e filosófico-estético, uma das expressões culturais da ofensiva anti-clerical republicana.
O projecto integralista lusitano, porém, depressa transbordou para o plano político. Em 1914, na revista Nação Portuguesa, sob a direcção de Alberto de Monsaraz, a expressão "Integralismo Lusitano" designava já um índice de soluções sob o título "monarquia tradicional, orgânica, anti-parlamentar". Tanto quanto promover o renascimento do espírito católico na alma dos portugueses, criar uma nova literatura e uma nova arte despojada do espírito romântico do século anterior, havia agora que trazer de novo à luz do dia os princípios políticos da antiga Monarquia portuguesa.
Para os integralistas, não haveria uma verdadeira regeneração portuguesa sem o retomar das suas antigas tradições políticas. A Monarquia do absolutismo Iluminista (introduzida em Portugal pelo Marquês de Pombal no século XVIII), bem como a sucedânea Monarquia da Carta (importada pelos liberais de novecentos), tinham sido estrangeirismos descaracterizadores, responsáveis pela subversão dos princípios democráticos e populares da antiga Monarquia.
Se bem que os integralistas recuperassem o espírito dos Vencidos da Vida ao defenderem o imperativo regeneracionista de um "reaportuguesamento de Portugal", iam agora mais fundo: era necessário recuperar o antigo pensamento político português que, do mesmo passo, reconhecera os foros e liberdades da República (das comunas urbanas, dos concelhos rurais, etc.), estabelecera as regras da sua representação em Cortes e definira o conteúdo dos pactos que os Reis, sob pena de Deposição, juravam respeitar.
E foi em torno desse princípio orientador - "reaportuguesar Portugal" - que um grupo de jovens monárquicos, que não se reconheciam na Monarquia deposta — como Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga, José Pequito Rebelo —, se reuniu com um grupo de republicanos entretanto convertidos ao monarquismo por se não reconhecerem na República recém-implantada — António Sardinha, João do Amaral, Domingos Garcia Pulido, entre outros.
Em 1914, os integralistas apresentaram um índice de soluções politicas e afirmaram obediência a D. Manuel II. O seu propósito, no entanto, ainda não visava uma intervenção política na direcção da conquista do poder. Antes de mais, havia que lembrar aos próprios monárquicos o que fora a antiga Monarquia portuguesa; era necessário voltar a semear as ideias do pensamento político português, ler de novo autores como Álvaro Pais, Frei António de Beja, Jerónimo Osório, Diogo de Paiva, Frei Manuel dos Anjos, Frei Jacinto de Deus, Sousa de Macedo, Pinto Ribeiro, Velasco de Gouveia…
A primeira reacção dos políticos que defendiam os regimes constitucionais modernos, tanto monárquicos como republicanos, foi a de se fazerem desentendidos, acusando os integralistas de cópia de um movimento político neo-monárquico que, naquela época, fazia furor em Paris — a Action française. Bem diversa foi a reacção do velho "Vencido da Vida” Ramalho Ortigão que, na Carta de um Velho a um Novo (1914), depôs as suas armas perante aquela “nova ala de namorados”, explicando em que consistia a sua “incontestável superioridade”: estes tinham “admiravelmente pressentido a necessidade culminante da reeducação integral do povo português” («Filhos de Ramires» - a herança de «Os Vencidos da Vida»).
Em 1915, na vaga de crescente activismo monárquico, os integralistas acabaram sendo catapultados a um lugar de destaque entre os manuelistas, apesar do seu programa contrastar vivamente com o modernismo político da maioria. Ao realizarem um ciclo de conferências na Liga Naval de Lisboa, alertando para o perigo de uma absorção pelo Reino de Espanha, o seu violento desfecho — as instalações da Liga Naval foram assaltadas e destruídas, sem que Luís de Almeida Braga tivesse apresentado A Lição dos Factos — acabou por projectá-los para a ribalta política.

2. A esperança restauracionista, 1916-19
Com a entrada de Portugal na Grande Guerra, em Abril de 1916, os integralistas lusitanos decidem anunciar a sua transformação em organização política. No Manifesto subscrito pela Junta Central recém-constituída, reafirmaram obediência a D. Manuel II e a sua confiança na aliança luso-britânica, chamando os restantes monárquicos a cerrar fileiras em torno da Pátria em guerra.
Com a chegada ao poder de Sidónio Pais, os integralistas colaboraram activamente na situação presidencialista que se esboçou. O propósito Sidonista de acolher uma representação socioprofissional no Senado tinha para eles profundo significado político: pôr fim ao monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos (regime parlamentar), permitindo a representação dos municípios, dos sindicatos operários, dos grémios profissionais e patronais, etc., era dar um primeiro passo no sentido do restabelecimento da democracia orgânica da antiga Monarquia portuguesa.
Na sequência do assassínio de Sidónio Pais, os integralistas entenderam que soara a hora da restauração do Trono. Face à imediata reacção dos partidos, que de novo se arrimaram ao poder com o intuito de restabelecer o parlamentarismo, os integralistas vêm a desempenhar activo papel no desencadear do pronunciamento restauracionista de Janeiro de 1919 (ver Os combates pela bandeira azul e branca, 1910-1919), no Porto e em Lisboa (Monsanto). A Restauração declarou em vigor a Carta Constitucional, mas isso não impediu que os integralistas manifestassem aceitar a nova ordem. Primum vivere, deinde philosophare era o princípio que adoptavam; agarravam “a parte prática e positiva" da obra restauradora.

3. Redefinição estratégica, 1919-22.
Durante a denominada "Monarquia do Norte", houve destacados monárquicos, como Alfredo Pimenta, que só souberam dos acontecimentos através dos jornais. Os integralistas, directamente envolvidos nas acções político-militares que rodearam os pronunciamentos, retirarão graves conclusões da derrota, procedendo a uma completa reavaliação da sua posição, tanto na questão dinástica, como na questão política.
Na questão dinástica, interpretando o imobilismo de D. Manuel II, no decurso dos acontecimentos, como um sinal de incapacidade e fraqueza, decidem desligar-se da sua obediência, declarando colocar “o interesse nacional acima da Pessoa do Rei”.
Na questão política, desfeita a aliança com os manuelistas, resolvem assumir a integralidade do seu ideário. Em 1919, ficara definitivamente enterrada a Monarquia da Carta. A resolução do problema nacional teria doravante que passar por um Pacto a estabelecer entre “o Rei, os municípios, e os trabalhadores de todas as classes e profissões organizados corporativamente”.
Estabelecidas negociações com o ramo legitimista da Casa de Bragança vem então a obter-se o Acordo de Bronnbach (1920), pelo qual a Junta Central do Integralismo Lusitano e o Partido Legitimista fizeram o reconhecimento conjunto do neto do Rei D. Miguel I, D. Duarte Nuno de Bragança.
Perto de 2 anos depois, o pacto dinástico de Paris ainda veio colher de surpresa os partidários de D. Duarte Nuno. Porém, e enquanto os manuelistas rejubilavam com os termos do acordo, no dia imediato, os Integralistas Lusitanos e os Legitimistas recusaram-se a reconhecê-lo e a acatá-lo.
A questão criada pelo Pacto de Paris só ficou definitivamente resolvida em 1926, quando a Tutora de D. Duarte Nuno, D. Aldegundes de Bragança, o repudiou formalmente, mas, para os integralistas, havia um equívoco maior que, mais tarde ou mais cedo, acabaria também por ceder: o de se alicerçar um regime nas clientelas partidárias, fossem elas monárquicas ou republicanas. A 1ª República, ao reproduzir o modelo parlamentar da Monarquia deposta, organizando-se por hierarquias de políticos e de caciques, acabaria também por ruir. Para os integralistas, era decerto necessário continuar a promover o princípio monárquico, mas era agora absolutamente imprescindível refazer as corporações, os sindicatos, e organizar uma acção nacional paramilitar com forças voluntárias e audazes. Deixava de bastar uma simples restauração do Trono. A luta a travar não se podia cingir ao plano estritamente político. Estava aberta a via que vem a desembocar no Movimento Nacional-Sindicalista: Alberto de Monsaraz reedita a Cartilha do Operário e Francisco Rolão Preto é cooptado para a Junta Central do Integralismo Lusitano (1922).
4. Os esfacelamentos, 1922-34.
Durante os anos 20 os integralistas vêm a alimentar muitas esperanças e a sofrer não menos contrariedades e decepções.
Em 1925, a morte de António Sardinha, quando tinha apenas 37 anos, foi sentida como uma grande perda. A Junta Central ficava sem aquele que, dada a força mística do seu Verbo, e apesar do ascendente de Hipólito Raposo, muitos consideravam ser o líder dos integralistas.
De imediato, o Integralismo Lusitano desempenhará papel de relevo nas movimentações político-militares que levaram ao derrube do regime parlamentarista, em 28 de Maio de 1926. Pouco depois do general Gomes da Costa ter sido afastado da direcção da Ditadura Militar, porém, a Junta Central integralista ("Primeira Geração") começou a fazer sentir as suas reservas acerca da evolução da situação política. As prevenções e cautelas que estes faziam sentir junto da sua hoste acabaram por não encontrar acolhimento. Muitos persistiram colaborando com a Ditadura, sucedendo-se as dissidências e cisões: em 1927, desvincularam-se José Maria Ribeiro da Silva, Pedro Teotónio Pereira, Manuel Múrias, Rodrigues Cavalheiro, Marcelo Caetano, Pedro de Moura e Sá; em 1928, Manuel Múrias consumou a sua dissidência; em 1929, deu-se a ruptura definitiva de Teotónio Pereira e Marcelo Caetano, dissolvendo o Instituto António Sardinha; em 1930, deu-se a dissidência de João do Amaral.

Consumada definitivamente a ruptura entre os mestres do Integralismo Lusitano e a Ditadura, em 1931, e perante a referida sucessão de dissidências e deserções, Alberto de Monsaraz e Rolão Preto, in extremis, ainda tentaram recuperar alguma influencia no curso dos acontecimentos, suspendendo a reivindicação do Trono e autonomizando o Movimento Nacional-Sindicalista. O insucesso foi total. Ao tentarem aliciar as juventudes influenciadas pelos fascismos, recorrendo a métodos similares de organização e de propaganda, acabaram por ser confundidos com os próprios fascistas. E se não deixavam de denunciar os princípios políticos dos fascismos, por modernistas ou retintamente jacobinos — “totalitarismos divinizadores do Estado”, foi a expressão usada por Rolão Preto em entrevista à United Press —, a verdade é que a natureza comunitária e personalista do ideário Nacional-Sindicalista acabou por confundir e desiludir mais do que atrair.
Tal como acontecera com a "Segunda Geração" integralista, também a juventude atraída para o Nacional-Sindicalismo, que os integralistas pretendiam manter no campo do sindicalismo orgânico e das liberdades, acabou por se transferir para o campo estatista-autoritário do salazarismo emergente que, além do mais, oferecia melhores garantias de realização para ambições profissionais e pessoais.
Em 1932 o Integralismo Lusitano estava já em completa desagregação, impotente para influenciar o curso dos acontecimentos políticos, quando D. Manuel II morreu sem descendência. A par dos restantes organismos monárquicos, acabou por se dissolver para integrar a Causa constituída em torno de D. Duarte Nuno. Uma profunda diferença, no entanto, vai persistir entre o comportamento dos integralistas lusitanos e o dos restantes monárquicos: enquanto a maioria dos antigos apoiantes de D. Manuel II, cedendo ao convite de Salazar, passou a colaborar com o Estado Novo em formação, os integralistas decidiram passar ao combate contra essa nova face do modernismo político português — a “Salazarquia” (expressão de Hipólito Raposo).

5. Sob a «Salazarquia», 1934-74.
Entre os anos 30 e 50, dissolvido o Integralismo Lusitano enquanto organismo político, e desfeita a experiência negativa do Nacional-Sindicalismo, os integralistas da primeira geração não deixaram de denunciar o falso monarquismo de Salazar e a natureza modernista e autocrática do regime do Estado Novo. Entre os restantes monárquicos, porém, a indiferença foi geral, apesar dos sobressaltos: Rui Ulrich, embaixador em Londres, em 1936, foi forçado a demitir-se por ter convidado, para almoçar na Embaixada, D. Duarte Nuno de Bragança; Afonso Lucas foi demitido do Tribunal de Contas, na sequência da publicação de um artigo publicado em A Voz; em 1940, Hipólito Raposo foi preso e desterrado para os Açores, por ter publicado o livro Amar e Servir, onde denunciava a "Salazarquia".
As 3ª e 4ª Gerações do Integralismo Lusitano, porém, vão sendo reunidas e endoutrinadas em torno de revistas como a Gil Vicente (Manuel Alves de Oliveira), jornais como o Aléo (Fernão Pacheco de Castro), editoras como a GAMA (Leão Ramos Ascensão, Centeno Castanho, Fernando Amado), criando-se mesmo, em 1944-45, o Centro Nacional de Cultura.
Em meados dos anos 40, os integralistas espreitam oportunidades de colaboração com o chamado "reviralho": Francisco Rolão Preto vem a ressurgir politicamente através do Movimento de Unidade Democrática; em 1947, Vasco de Carvalho está a conspirar ao lado de Mendes Cabeçadas; dois anos depois, na eleição dos deputados da Assembleia Nacional, é a vez de Pequito Rebelo entrar em concertação com o republicano Cunha Leal, desafiando as candidaturas da União Nacional, respectivamente em Portalegre e Castelo Branco.

Em 1950, os jovens estão já em condições de receber o legado integralista através de uma reactualização doutrinária intitulada "Portugal Restaurado pela Monarquia". Pela mesma altura, surgiram novas publicações, como a revista Cidade Nova (José Carlos Amado, Afonso Botelho, Henrique Barrilaro Ruas) ou jornais como O Debate (António Jacinto Ferreira, Mário Saraiva).
O movimento dos chamados "monárquicos independentes", reunindo grande parte das novas gerações formadas junto dos Mestres do Integralismo Lusitano, apresenta o seu manifesto em 1957. No ano seguinte, Almeida Braga e Rolão Preto surgem a apoiar a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República. Terminavam ali os "anos de chumbo do Estado Novo" (expressão de Fernando Rosas), com os integralistas em melhores circunstâncias para atrair os monárquicos desiludidos.
Até ao derrube do regime do "Estado Novo", em Abril de 1974, sucedem-se as iniciativas com a crescente responsabilidade das novas gerações integralistas, como a Comissão Eleitoral Monárquica, o Movimento da Renovação Portuguesa, ou a editora "Biblioteca do Pensamento Político", promovida por Mário Saraiva. Em 1970, é ainda por intermédio de Mário Saraiva que o ideário integralista vem a obter significativo acolhimento no seio da Causa Monárquica: o livro Razões Reais, no qual ficou sucintamente exposta a sua doutrina política neo-integralista, vem a obter aprovação e adopção pela Comissão Doutrinária da Causa.

Publicado por FG Santos às 06:02 PM | Comentários (2)

outubro 27, 2004

Nacionalismo de Futuro

O blogue Nacionalismo de Futuro marca, no seu último post, uma posição sobre a forma como certas tendências encaram o que deve ser o nacionalismo, que tem muitos pontos de contacto com a minha.
Por a ter já expressado em alguns comentários fui fortemente criticado por quem não gosta que se ponham em causa certas "verdades insofismáveis": é a velha máxima do "se não estás do nosso lado, só podes estar do lado do inimigo" que, de Vasco Gonçalves a Bush filho, tem feito escola.
A questão no fundo é sempre a mesma: há muita gente que adopta teorias totalmente estranhas à nossa história e à nossa forma de ser e estar e se intitula nacionalista. Estão no seu direito, eu é que "não vou por aí".
O que é lamentável é que não se perceba que o facto de essa postura ser criticada não significa que não se ache a imigração massiva um perigo para Portugal.
E acaba esta diatribe com um lamento: muita gente, na área nacional, tem-se abstido de se pronunciar sobre questão tão crucial; não sei se para não criar inimigos, se para não criar divisões, mas o que é certo é que fazem aparentemente auto-censura. Lamento que assim seja, mas também estão no seu direito e não os respeito menos por isso. Cada um sabe de si e os blogues são, até mais ver, para que cada um diga o que quer dizer e só o que quer dizer.

Publicado por FG Santos às 11:56 AM | Comentários (2)

Um voto histórico

O parlamento israelita votou ontem com 67 votos favoráveis em 119 expressos o plano Sharon de retirada do exército da Faixa de Gaza e de desmantelamento dos colonatos naquele território.
Pode ser este um passo importante para se alcançar alguma forma de apaziguamento do conflito israelo-palestiniano. Embora não possa ter um mínimo de simpatia por um líder com esta biografia, é de salientar a coragem política de Sharon em promover esta medida, na base da qual poderão estar algumas das seguintes causas:
- a noção de que a ocupação de Gaza em nada ajuda a resolver o conflito, nem sequer em favor de Israel;
- a percepção de que o tempo de Arafat está a chegar ao fim e que provavelmente a breve trecho o Hamas conseguirá assumir as rédeas do poder na Autoridade Palestiniana; neste cenário, Israel prefere abandonar o terreno;
- dificuldades orçamentais por via do acréscimo das despesas militares desde que Sharon chegou ao poder; não fossem os 3 biliões de dólares de ajuda anual dos EUA e a situação económica seria catastrófica; mesmo assim, são em cada vez maior número os cidadãos israelitas abaixo do limiar de pobreza.
Claro que Benyamin Netanyahou aproveitou para fazer pressão sobre Sharon, alegando que é desejável a realização de um referendo sobre esta matéria.
Após a retirada do sul do Líbano em 2001, decidida por Ehoud Barak, esta nova retirada poderá eventualmente levar as partes a discutir de novo a aplicação do Roteiro para a Paz.

Publicado por FG Santos às 11:16 AM | Comentários (1)

Duas sugestões

Dois blogues que, quanto a mim, merecem ser seguidos com atenção pela sua elevada qualidade, são o Paupratodaaobra e o João Pedro Dias' Blog.
O primeiro, apesar de ter opiniões sobre Israel e a guerra do Iraque diferentes da minha, tem um aguçado sentido de crítica e um anti-comunismo muito bem fundamentado. É um olhar diferente que nos chega da Lusa Atenas.
O segundo acompanha com pertinência a realidade política nacional e da UE.

Publicado por FG Santos às 10:14 AM | Comentários (1)

outubro 26, 2004

«O país está perdido!»

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. (...)»
Sabem que é que escreveu isto? Leiam o subtil artigo de Francisco Sarsfield Cabral no DN de hoje.

Publicado por FG Santos às 05:04 PM | Comentários (2)

outubro 25, 2004

Lucette Destouches, a mulher de Céline (3)

Conclui-se hoje a publicação deste extraordinário documento, que se deseja aprofunde o conhecimentos dos nossos leitores sobre a personalidade e obra de Louis-Ferdinand Céline.

Brisons là. Le magnétophone gêne Mme Céline. La mécanique la fige dans une attitude qui lui paraît sereine. Plus tard, en l’absence de tout micro, elle nous reparlera plus librement de cette époque. De Robert Le Vigan, l'acteur fameux de Goupi Mains Rouges : " Il avait deux obsessions : manger et trahir. L'une n'allait pas sans l'autre. Aussi, chaque jour, dénonçait-il Céline à la Gestapo, rapportant ses propos anti-allemands. Et pourtant ils étaient amis... " (7) De l'Allemagne: " Les nazis pressaient Céline pour qu’il prenne la parole dans un camp de prisonniers français. Céline s'y refusait. S'il parlait, disait-il, il attaquerait l’Allemagne. Et il le fit. Ayant finalement accepté, il tint, en effet, devant le stalag les propos suivants : " En 40, vous ne vous êtes pas battus " et maintenant que l'Allemagne s'effondre, vous ne vous révoltez pas!" Deux heures durant... Résultat ? Nous fûmes incarcérés dans un camp d’objecteurs de conscience!" (8)
— Comment organisait-il son travail d'écrivain ?
— Toutes ses recherches portaient sur le style. Pour toucher le lecteur, pensait-il, il faut adopter son langage. Il recherchait donc une plus grande simplicité. Pour y parvenir, il travaillait d'arrache-pied.
— Est-ce que les mots, par exemple...
— Il en inventait. Il cherchait un rythme, il cherchait à entrer dans les choses et non pas à les voir de l'extérieur. Il restait sur un mot des jours entiers. Et même un mois s'il le fallait.
— Avait-il des plaisirs en dehors de celui que pouvait lui procurer le travail ?
— Il aurait pu en avoir mais il n'en avait pas le temps. Volontairement, il n’a fait que travailler car, physiquement, il n'était pas très solide. Il travaillait une heure ou deux par jour; le reste du temps, il était hébété de fatigue. Il avait vraiment de très graves maladies. Les fièvres qu'il avait contractées lors de son séjour en Afrique, ce bras qui lui faisait horriblement mal puisque, à la fin, il ne pouvait plus du tout écrire... Ce bras mort lui a causé mille douleurs. Mais c’est sa tête surtout ! Soldat, il avait subi un traumatisme crânien. Sans doute, quelque chose a dû éclater à l'intérieur de sa tête. Conséquence : un bourdonnement intermittent, comme un train qui passerait jour et nuit sur votre tête. Et, chaque fois, les crises devenaient un peu plus insupportables. Sa tête éclatait, elle se soulevait... Il restait souvent pendant une demi-heure comme cela. On lui reprochait sa brutalité à l’égard des visiteurs, des journalistes surtout. Supposons que vous l’ayez vu lui et non moi, que vous l’ayez intéressé, il vous aurait longuement intéressé, il vous aurait longuement parlé. Il se serait sans doute énervé. Avant de pouvoir retravailler, il en aurait eu pour trois jours. Aussi était-il avare de son temps. Quand il voyait les gens, il les repoussait, parce qu'il savait qu’il n’avait plus beaucoup de temps. On prétendait alors que c’était un sauvage... Simplement, il économisait son temps. Tenez; il avait toujours eu envie d'aller au musée de la Marine, et pourtant il ne s’est jamais accordé le plaisir de prendre un taxi pour y faire un saut. Jamais on n'a participé à une fête, jamais on n’est allé au cinéma. Il était attaché à son travail, comme s'il avait vécu au Moyen Age. Il adorait les bâtisseurs de cathédrales qui faisaient un énorme travail et qui ne parlaient pas!
— Il croyait d'ailleurs beaucoup au Moyen Age...
— Il souhaitait être anonyme, il ne voulait pas entendre autour de lui : "C’est Céline, c'est le grand." Il s'en fichait. La preuve ? C’est qu'il a pris le nom de Céline pour que l'on ne parle pas de Destouches. Céline, pour lui, c'était un masque, le nom de sa mère. Quand on le reconnaissait, il était malheureux. Ici il avait mis sur sa plaque Destouches, en espérant qu’on ne saurait pas qui il était, non pour se cacher du point de vue politique mais par simple modestie. Jamais il ne relisait ses livres. Pour la Pléiade, lorsqu'il a fallu corriger les épreuves, il en fut malade. Il n’avait aucune vanité, il n'aimait pas la gloire; il aurait simplement aimé que les Français reconnaissent qu'il avait fait un effort en faveur de leur langue. Un point c'est tout !
— A lire et relire ses livres, on sent un Louis-Ferdinand Céline amoureux de l'argent...
— Il avait peur de la misère; il l'a trop connue, étant jeune. Il redoutait de revenir en arrière, de tomber, de traîner dans un hôpital pendant des années. Aussi répétait-il souvent : " Je veux au moins pouvoir finir mes jours dans une chaumière, chez moi et tout seul..." et il avait raison. Vous savez, après le Danemark, il a tout fallu recommencer. Il ne pouvait plus marcher, il ne voyait plus. Il avait eu la pelade, maladie qui date de Philippe-Auguste ; on perd ses cheveux, ses dents. En somme, c’était un mort qui continuait à vivre !
— On se souvient toujours mal de la mort de Céline.
— Oh, il n’y a rien à en dire sinon que la presse, télévision, et cinéma se sont rués sur sa dépouille comme une meute de chacals. Il y en a même qui m'ont téléphoné parce que je n’avais pas voulu annoncer sa mort (9). Ainsi, une journaliste m'a appelée en prétendant être très malade ce qui m'a forcée à lui révéler la nouvelle de sa mort. Ils ont tout essayé... Or il ne voulait personne à son enterrement. Il m’avait dit : "Je veux la fosse commune." Moi, je n’ai pas voulu, j’ai fait venir de Bretagne un petit bout de pierre, mais l’anonymat a été respecté.
— Parmi les gens qui ont beaucoup fait pour que l'on reparle de Céline, il y a Jean-Luc Godard. Il suffit de voir Pierrot le fou...
— Godard est un jeune, plein d’enthousiasme. Il ressemble un peu à un cheval qui s’emballerait. Il ne sait pas encore très bien courir.
— Mais n'aviez-vous pas demandé l'interdiction d’Une femme mariée ?
— Non, je n’ai pas exigé l'interdiction... J'avais trouvé que le texte de Céline n'était pas bien servi, car il n'était pas vulgaire, même lorsqu'il employait la vulgarité. C’est la première qualité de Céline, c'était plus fort que lui, il était... un aristocrate. Aussi me semblait-il que Godard l’avait mal employé...
— A quoi ressemblait une journée de Céline ?
— Je vous l'ai dit : il ne pensait qu'à son travail... Il ne dormait pas, la nuit. Dans notre chambre, j'avais toujours à ma portée un crayon, du papier. Il me disait: "Ecris, écris, écris ça, écris ça!" Et le lendemain, il reprenait tout son ouvrage. Pour un livre, il écrivait, je n'exagère pas, peut-être 90 000 pages. Il ne raturait pas... Il recommençait sans cesse. Il écrivait un roman en entier, puis il recopiait en enlevant ce qu'il trouvait trop lourd ou trop... Il coupait, il le reprenait, comme un dessinateur qui recommence éternellement le même dessin.
— Dans ses livres, Céline a toujours exprimé des ressentiments. Dans la vie, a-t-il exprimé des sentiments?
— Non, non, il avait trop de pudeur mais, vous m'entendez, jamais.
— Même à vous ?
— Il aurait trouvé ça si choquant... Il laissait voir son amitié, son amour, dans sa manière d’étre, dans sa manière de s'occuper des autres. Sa dureté servait à cacher un cœur excessivement sensible, excessivement tendre. C’est à ça qu'il faut penser.
— Etait-ce difficile de vivre avec lui ?
— Evidemment, il souffrait tellement. Il ne pensait jamais à lui, ni pour son habillement, ni pour sa nourriture, ni pour son confort. Il ne voulait pas être aidé. Je ne lui ai jamais vu un moment de faiblesse. Je vous dis, Louis c'était saint Jean la Croix, François d'Assises.
— Quelle était sa position profonde en face de la religion ?
— Il était trop pudique pour en parler. Je crois qu’il a été le plus grand mystique... I1 avait en outre la passion de la nature. Il pouvait s'arrêter devant une petite fleur, devant une source... éperdu d’admiration. Voilà ce qu'était Céline !
Ainsi donc portions-nous des masques. Masques qu’une histoire mal écrite, desservie par les passions, rendent obligatoires. Sans doute ce portrait de Céline par sa femme irritera plus qu'il ne réconciliera amis et ennemis d’un écrivain qui ne voulut ni des uns ni des autres. Mais convenons que tout procès exige le maximum de preuves. En voici une. Sachons en tenir compte.
Pariscope, 26 janvier 1966

Notes
(7) Hervé Le Boterf, biographe de Robert Le Vigan, a contesté, le 2 février 1988, ces accusations. répétées dans la biographie de Frédéric Vitoux.
(8) Raccourci mystérieux : c'est en mars 1942 que Céline fit (avec Lucette) un voyage de cinq jours à Berlin dans le but de confier à une amie danoise, Karen Marie Jensen, la combinaison de son coffre bancaire à Copenhague. Lors de ce voyage, on lui demanda de prononcer une allocution dans un Foyer de travailleurs français en Allemagne. Son discours improvisé déconcerta, si l'on en juge par le compte-rendu publié dans la presse et que Le Bulletin reproduira dans son prochain numéro. En septembre et octobre 1944, lors de son séjour au domaine des Scherz, à Kränzlin, les Destouches côtoyèrent quelques "bibelforchers" (réfractaires du service armé).
(9) Céline est décédé le 1er juillet 1961. Ce n’est que le 3 juillet au soir que Lucette Destouches accepta de laisser publier le communiqué suivant : " L’état de santé de Louis-Ferdinand Céline, atteint depuis quelques jours d’une affection cardiaque, s’est subitement aggravé". L’inhumation eut lieu le lendemain en présence des familiers et de son éditeur, Claude Gallimard.

Publicado por FG Santos às 05:06 PM

"Já acabámos com o blog"

Recebi o texto que a seguir reproduzo por correio-e, desconhecendo quem é o autor e qual a veracidade do episódio nele descrito.
A ser verdade, trata-se de um caso interessante de influência política no intuito de abafar uma voz incómoda, uma situação velha como as sociedades organizadas e sempre actual.

Exmo. Sr. ou Sr.ª:

Vem isto a propósito do caso Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.
Nasci e tenho vivido num pequeno concelho (Pombal) do Litoral-Centro (Distrito de Leiria).
Não milito em nenhum grupo partidário. Sou um simples cidadão nascido seis anos antes do 25 de Abril de 1974.
E como cidadão, ingénuo a pensar que haveria liberdade de expressão e de opinião, criei em Julho passado um "blog" na Internet que pretendia ser um espaço de reflexão e de debate de ideias, com críticas construtivas, sobre o que está a acontecer na minha Terra.
Nomeadamente sobre a actividade da respectiva Câmara Municipal e outras instituições.
Esse "blog" num espaço de dois meses registou mais de 6.700 visitas, tendo sido comentado em grande número por outros cidadãos/munícipes.
A respectiva autarquia, presidida pelo social-democrata Eng. Narciso Mota, nunca usou o princípio do contraditório. Apesar de reconhecer que alguns dos temas abordados tinham a sua veracidade, alterou alguns procedimentos, dando razão ao que por lá se escrevia.
Reconhecendo que o "blog" era incómodo para o Poder (leia-se, Câmara Municipal), o senhor presidente entendeu que a melhor forma de usar o "contraditório" era acabar com o mesmo.
Vai daí, entrou em contacto com a direcção/administração da empresa onde eu trabalhava e denunciou a sua existência, fazendo ver que o "blog" era "gerido" em horas de expediente.
A direcção da empresa de imediato, e justificando que aquela situação lesava a relação institucional com a Câmara Municipal, até porque necessitava desta para legalizar algumas situações pendentes, despediu-me.
Isto, não argumentando com falta de profissionalismo ou de produtividade.
Mas sim, porque o senhor presidente da Câmara assim os contactou para o efeito.
Esclareci a situação e comprometi-me a eliminar de imediato o "blog", o que foi feito e aceite.
Precisamente um mês depois, e pelo meio alguns encontros realizados entre o presidente da Câmara e a direcção/administração da empresa, fui novamente confrontado com o despedimento. E perante duas opções: instauração de processo disciplinar ou demissão voluntária, optei pela segunda.
Ou seja, a intervenção do senhor presidente da Câmara Municipal de Pombal neste processo é um facto. Tanto o é que um dos seus vereadores afirmou perante algumas pessoas "já acabámos com o blog".
Esta situação é notoriamente idêntica à que aconteceu com o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Na sua proporção, obviamente. Mas, com um senão. O meu futuro. Estou desempregado, com duas crianças de 20 meses para criar, casa e carro para pagar. E esposa também desempregada.
E tanto mais que, ainda há dias, ouvi da boca de um eventual empregador: "reconheço que és a pessoa indicada para o meu projecto, mas quando o senhor presidente da Câmara soubesse, caía o Carmo e a Trindade. E eu não quero ter problemas com esse senhor".
É triste que 30 anos depois de uma revolução, ainda haja quem de uma forma nojenta e vergonhosa, censure as vozes discordantes para que estas não expressem livremente as suas opiniões.

Com os melhores cumprimentos

Atentamente

Orlando Manuel S. Cardoso
Rua Paul Harris, nº 13 - 1º Esq
3100-502 Pombal
Telef.: 236213594 - 936354363
E-mail: orlando.cardoso@zmail.pt

Publicado por FG Santos às 05:00 PM | Comentários (7)

Tennyson

Os leitores que se interessaram pela notícia da BBC News referida no anterior artigo terão notado uma referência ao poema de Tennyson sobre a batalha nela evocada.
É esse famoso poema que a seguir se reproduz.


The Charge of the Light Brigade
Alfred, Lord Tennyson

1.
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
"Forward, the Light Brigade!
"Charge for the guns!" he said:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.


2.
"Forward, the Light Brigade!"
Was there a man dismay'd?
Not tho' the soldier knew
Someone had blunder'd:
Their's not to make reply,
Their's not to reason why,
Their's but to do and die:
Into the valley of Death
Rode the six hundred.


3.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of Hell
Rode the six hundred.


4.
Flash'd all their sabres bare,
Flash'd as they turn'd in air,
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wonder'd:
Plunged in the battery-smoke
Right thro' the line they broke;
Cossack and Russian
Reel'd from the sabre stroke
Shatter'd and sunder'd.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.


5.
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volley'd and thunder'd;
Storm'd at with shot and shell,
While horse and hero fell,
They that had fought so well
Came thro' the jaws of Death
Back from the mouth of Hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.


6.
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honor the charge they made,
Honor the Light Brigade,
Noble six hundred.

Publicado por FG Santos às 12:31 PM

A Carga da Brigada Ligeira

Comemoram-se actualmente em Inglaterra os 150 anos do famoso episódio da Carga da Brigada Ligeira durante a guerra da Crimeia. Exemplo máximo do sacrifício de soldados, missão suicida, incompetência dos comandantes de campo – a especulação ainda hoje não terminou.
Sugere-se aos nossos leitores que passem por este site, que recorda o dramático acontecimento, enquadrando-o no âmbito mais geral sobre o que é que estava em jogo na dita guerra: conter a eventual expansão do Império Russo sobre o Império Otomano, tendo-se a este último aliado Inglaterra e França. A aliança inverter-se-ia 60 anos depois na I Guerra Mundial mas as questões geoestratégicas nessa área do globo continuam candentes. A eventual adesão da Turquia à UE terá certamente implicações nos dados do problema.

Publicado por FG Santos às 12:28 PM

outubro 23, 2004

Lucette Destouches, a mulher de Céline (2)

Continuamos hoje a publicação da entrevista dada por Lucette Destouches ao Pariscope em 1966, esperando que seja do agrado dos nossos leitores mais célinianos e, porque não, também daqueles que não conhecem tão bem a obra do grande escritor.
A conclusão será publicada na segunda feira dia 25.

— Et au Danemark, comment ça s'est-il passé ?
— Ça a été très difficile. La prison, puis après, cinq ans durant, une chaumière sans aucun confort, sans électricité, sans rien... On avait à notre disposition uniquement de la tourbe et des bougies. On a vécu cinq ans comme ça, avec 30 en dessous de zéro. Louis était malade. De toute manière, même bien portant, la situation eut été très pénible. J'ignore pourquoi on l'a fait souffrir comme ça. J’avoue que je n'ai pas encore compris. Certes, il a eu contre lui l'acharnement de M.Guy de la Charbonnière (4). On peut dire son nom... C'était un fou, un maniaque. Il avait été nommé, je ne sais pas pourquoi, ambassadeur au Danemark... Avant la Libération, il était à Vichy. Tout à coup, il a fait volte-face, au dernier moment, et il s'est trouvé ambassadeur à Copenhague. Dans cette ville, il ne se passait rien. Aussi s'est-il précipité sur Céline, qui était pourtant en règle. Enfin, il s'est acharné ! Il a prétendu que Louis avait vendu la ligne Maginot [sic]... n'importe quoi ! Il a donc fallu l'arrêter. Les Danois n'y tenaient pas. Mais l'autre insistait, menaçait le Danemark d'une guerre [resic] si Céline n'était pas arrêté. En définitive, les Danois furent convaincus de tenir là une pièce très rare, un criminel de guerre. On a demandé une commission rogatoire, ce qui se fait d'habitude. Mais personne n'est venu, parce que personne n'avait rien à dire. Il n'empêche qu'on l'a gardé en prison deux ans, dans la cellule des condamnés à mort, sans air, sans... Juste un petit soupirail et, pour nourriture, trois carottes et un citron. Une fois par semaine, j’allais le voir. Toutes nos rencontres se tenaient en anglais, la seule langue autorisée. Dans sa cellule, il était enchaîné. Ce qu'il en rapporte dans ses livres est d'ailleurs au-dessous de la vérité. ça a été bien plus dur qu'il ne le dit.
— Mais, sans doute, son activité en France durant l'occupation...
— On ne lui a reproché que Les beaux draps. Or, ce livre, il l'avait écrit avant la guerre, pas sous les Allemands (5). Hélas ! il n'a été publié qu'en 1941, je crois. Il n'y avait que ça, parce qu'il n'a rien fait de répréhensible durant l'occupation. Mais croyez-vous qu'il y ait encore quelque intérêt à revenir sur ces vieilles histoires ?
— Il nous semble difficile d'oublier de tels événements.
— Louis n'était pas un politique. Il l'a crié partout. Il souhaitait simplement que l'homme soit mieux dans sa peau, qu'il ne soit pas déçu, pas trop malheureux, et enfin qu'il soit un idéaliste. Il n'aimait pas les catégories... Mais je ne trouve pas qu'il soit intéressant de continuer sur ce terrain.
— Pourquoi pas ?
— Bon... A un moment donné, il a déclaré : " Il ne faut pas faire la guerre ". Il a eu peur. Vous comprenez, quand on a subi comme lui le choc de 14, on n'a qu'une obsession : en finir avec les guerres. Aussi, par tous les moyens, a-t-il voulu éviter 39. Il l'a dit brutalement, parce que tout ce qu’il faisait était direct. Les gens n’ont pas entendu, n’ont pas écouté. Après, ce n’était plus la peine d'en reparler... Malheureusement, ceux qui ont voulu s'en servir politiquement en ont profité. Mais ce n’était pas son but. Il souhaitait ne prévenir que le Français. Il ne faut pas le mélanger avec la guerre, c'est cela qui est embêtant. Durant l'occupation il a tout de suite vu qu’il était de trop. C’était fini, il n’avait plus rien à dire. Au contraire, tout ce qu’il aurait pu raconter l’aurait situé du côté où il n’avait pas envie de se trouver. Ainsi, puisqu'il faut vous parler de cette malheureuse histoire juive, il n’a pas voulu les accuser car il ne souhaitait pas qu’on les inquiète. Lorsqu'il a écrit sur eux, il n’a jamais pensé à ce qui est ensuite advenu. Et pourtant, il a refusé les ponts d'or qu’on lui a offerts pour qu’il prenne parti. Il est même allé jusqu'à se battre avec des gens qui lui tenaient de tels propos... D’ailleurs, il s'est rapidement aperçu que le problème juif était dépassé par la menace chinoise. Cela dit, tout ceci est oublié.
— Mais Simone de Beauvoir, dans ses Mémoires, parle toujours de Céline comme d'un fasciste (6).
— Fasciste ? C’est idiot. Il faudra qu'elle ravale ce qu'elle a dit. Elle sera obligée, car c’est tellement bête comme accusation. Elle se rend ridicule par de tels propos. Tout ça, c'est de la jalousie... Je sais, d’autre part, que Sartre aurait bien aimé que Louis s’occupe... il écrivait à l’époque, Les Mouches. Louis n’avait contre lui aucun préjugé. Tout simplement, il avait décidé de ne rien faire puisque c'était l’occupation. Il déplorait même que Les beaux draps aient été publiés. Les seuls contacts qu’il ait eus avec les Allemands, c’est lorsqu'il fallait leur demander un peu d'essence pour sa moto, pour lui permettre d'aller à Bezons, où il était médecin du dispensaire. Et parfois des laissez-passer, des petites choses comme ça, mais de ça je préfère ne pas en parler. Louis ne voulait pas en entendre parler. Aussi ne devrais-je rien en dire... oui, des laissez-passer pour des gens qu’il voulait aider A part ça, il n'a rien fait durant la guerre, rien du tout. A Sartre, il lui a... quand il lui a demandé ça, il lui a répondu : " Non, je n'ai rien à faire avec les Allemands."
— C'est ce que Paulhan, un des dirigeants de la Résistance, a toujours affirmé.
— Il a raison car ce que l’on a reproché à Louis, c'est de s’être isolé, de s’être coupé des deux camps en présence.
— Mais était-ce bien choisir la liberté que de ne pas s'engager dans une telle période ?
— Je vous le répète encore une fois, Louis n'était pas un politique. " Je suis un artisan, disait-il, je forge la langue française. " Ça l'irritait, cette langue qui était trop longue à s’exprimer : il souhaitait la raccourcir, la rendre plus imagée, plus virile, plus forte. Il y est d'ailleurs parvenu puisque tout le monde, aujourd'hui, essaie de l’imiter.
— Reconnaître la beauté de l'enveloppe n'empêche pas les lecteurs de rechigner sur la lettre, c'est-à-dire le contenu.
— Contenu... contenu, quoi ! Tenez, Louis, c’était saint François d'Assises, saint Vincent de Paul, voilà . Il disait : " Des gens souffrent et il ne faut pas qu'ils souffrent ". Il allait vers ceux qui étaient malheureux. Aussi, dans ce combat, était-il tout seul. Il a hurlé, tant qu'il a pu, pour défendre les misérables. C'est vraiment ça, la vérité. Ici, on avait remarqué un pauvre type tout vieux, ce qu’on appelle un économiquement faible. On le voyait, tous les soirs, remonter la côte, de plus en plus courbé... avec un morceau de pain qu'il allait chercher sans doute assez loin. Eh bien, Louis pleurait sur cet homme-là. Ça paraît ridicule de l’avouer ainsi. C’était son obsession, ce pauvre homme. Ça, c'était le fond de Céline. Et comment le faire admettre au monde ? Ce bonhomme qui cassait tout...
— Et de quelle façon se comportaient les gens ?
— Très mal ! Ils ne comprenaient pas qu'un homme puisse s'occuper d’eux. Les nécessiteux, eux-mêmes, étaient toujours très étonnés qu'il puisse leur consacrer quatre heures pour les soigner. Sa vie entière tourne autour de ces petites choses. Ce qui, dès lors, paraît extraordinaire, c'est qu'il ait pu bâtir une œuvre aussi importante, alors qu'il était obsédé par un enfant qui toussait, par un vieillard qui souffrait... Il me semble cependant que cela se voit lorsqu'on le lit, même dans le Voyage au bout de la nuit... Ça saute tellement aux yeux que l'on n’a même pas besoin de l’expliquer.
— Surtout les trois premières pages du Voyage...
— C'est un cri d’horreur contre la souffrance. Toute sa vie, il est allé jusqu'au bout. A la vérité, s'il est parti pour l'Allemagne, c'était pour connaître la vérité, pour savoir vraiment ce qu'il en était. Il est allé se mettre dans la fournaise alors qu’il aurait pu, par mille occasions, débarquer en Angleterre [sic] ou en Espagne. Il aurait pu se mettre à l'abri. Il a refusé. Il a voulu jeter un coup d'œil sur l'Allemagne pour ensuite rejoindre le Danemark, où il avait de l’argent. Croyez-moi, il était poussé par la curiosité ! Même en 40, on aurait pu très facilement disparaître en Angleterre. En effet, on suivait l'exode, on disposait d'une ambulance. Lorsqu'on est arrivé à La Rochelle, on nous a embarqués sur un bateau... Louis s'est récrié, il voulait rester en France, car c'était son devoir.
— Cependant son antisémitisme...
— Il faut le localiser dans le temps. Tout est si simple. Pourquoi rabâcher ?

Notes:
(4) Sur Guy de Girard de Charbonnière, on consultera avec profit le troisième tome de la biographie de Céline par François Gibault, Cavalier de l'Apocalypse (1944-1961), Mercure de France, 1981.
(5) La rédaction des Beaux draps fut entamée en décembre 1940 et achevée en janvier 1941.
(6) C'est dans La Force de l'Age (Gallimard, 1960) que Simone de Beauvoir note que dans Mort à crédit, " il y a un certain mépris haineux des petites gens qui est une attitude préfasciste " [sic]

Publicado por FG Santos às 06:45 PM

outubro 22, 2004

Aspectos culturais de um país "europeu"

Segundo sondagem recente, cerca de um terço das mulheres turcas pensam que é justo que sejam espancadas pelos maridos caso com eles discutam, recusem ter relações ou forem demasiado gastadoras.

Publicado por FG Santos às 04:35 PM | Comentários (3)

Inaudito

Parece que mais de 2000 reservistas britânicos que foram enviados para o Iraque não sabem manusear correctamente uma espingarda.
Um deles está inclusivamente a responder em tribunal pela morte de um colega.
Tony Blair já exigiu resposta às chefias militares. Terá sido apenas incompetência por parte destas ou o resultado de pressões do governo para o disponibilizar de um determinado número de soldados, sendo que nem todos estavam preparados?

Publicado por FG Santos às 04:12 PM

Criminalizar o pensamento

O excelente site (pelo menos para quem, como eu, gosta de reflexões que não sejam toldadas pelo politicamente correcto) Cronicles Magazine apresenta, sob o título reproduzido no cabeçalho desta entrada, uma crítica pertinente a uma nova lei que já foi aprovada no Congresso norte-americano que cria um gabinete dentro do Departamento de Estado (ou MNE) encarregue de monitorizar (vigiar será talvez o termo mais correcto) o anti-semitismo em todo o mundo.
Argumentando que o DE já divulga relatórios sobre abusos contra os direitos humanos, Samuel Francis acha que o que efectivamente está em causa é tornar ilegal qualquer crítica aos judeus, pois mesmo que um ou mais sejam criticados por factos que nada tenham a ver com a sua etnia ou religião, será sempre possível acusar esses críticos de serem motivados por anti-semitismo. Outro objectivo seria tornar virtualmente um crime emitir críticas à actuação do estado hebraico.
A ler, atentamente.

Publicado por FG Santos às 10:16 AM | Comentários (1)

outubro 21, 2004

Lucette Destouches, a mulher de Céline (1)

O Bulletin Célinien publicou em tempos uma entrevista que Lucette Destouches, a mulher do grande escritor, concedeu ao Pariscope, poucos anos após a morte de Céline.
Escusado dizer que se trata de um documento excepcional, que ajuda a compreender a personalidade do polémico "artisan du langage". É além disso um testemunho comovente, que nos transporta para o universo sofrido e tão humano de alguém que nunca fez gala disso, pelo contrário.
Dada a extensão da entrevista, ela será repartida por três posts.
Boa leitura.

Entretien avec Lucette Destouches
Marc-Edouard Nabe publiera prochainement chez Gallimard un livre entièrement consacré à celle qui vécut avec Céline durant vingt-cinq ans, de 1936 à sa mort. Ce ne sera pas le premier livre la concernant puisque Pol Vandromme est l'auteur d'une subtile analyse de son personnage romanesque, Du côté de Céline, Lili, parue en 1983.
En attendant, nous avons exhumé une des plus importantes interviews qu'elle ait données à la presse. Cet entretien fut réalisé (au magnétophone) par Philippe Caloni et Gérard Guégan, cinq ans après la mort de Céline. Il y est question de Rigodon car sa parution était alors annoncée. Il faudra, en fait, encore attendre trois ans avant de le voir édité.
Nous avons tenu à reproduire ce document dans son intégralité même si, sur certains points, Lucette Destouches ne craint pas de conforter la légende célinienne. Si son plaidoyer décline parfois la défense forgée par Céline soi-même, au moins était-elle, on peut le croire, de bonne foi. Depuis, près de trente ans ont passé et certaines affirmations (aucune prise de position de Céline sous l'occupation, rédaction des Beaux draps antérieure à celle-ci, etc.) ne résistent plus à l'épreuve des faits aujourd'hui attestés. Reste le témoignage, irremplaçable, sur l'homme qu'elle a connu. Emouvant, car sincère et pudique à la fois, il méritait assurément d'être redécouvert.

D’abord, il y avait les chiens. Trois énormes blocs menaçants, remparts vivants contre l’intrus. Ensuite, leur maîtresse. Collants noirs, turban rose, image classique d'une danseuse qui ne l’est pas moins. Lucette Almanzor maître de ballet dans cette villa du bas-Meudon, semblait inquiète. " Vous venez pour mes cours ? ". Question sans réponse. " Pour Céline, alors ? ". Nous hésitons : " Oh, pour les deux... " Elle feignit de ne pas remarquer ce mensonge. Inévitablement, d'autres s’ensuivirent. Chacun joua ce jeu, plus révélateur en fait de notre façon de penser que ne l’aurait été un exposé de principes, sec et imprécis.
— Est-il vrai qu'un autre roman de Céline va paraître ?
— Oui, il s’agit de Rigodon. Il y a maintenant quatre ans, depuis la mort de Louis, que nous y travaillons. On le reprend, on le déchiffre... Mais il sera prêt très prochainement. Pour le mettre en forme, ça n'a donc pas été facile. Nous ne disposions que d'un brouillon. Définitif, cependant !(1) Seulement, il ne l’avait pas recopié au propre. Or, comme il écrivait avec difficulté, ayant très mal au bras, nous avons eu beaucoup de peine.
— Comment avez-vous exactement procédé ?
— C’est mon avocat qui s'en est occupé, qui l'a recopié lui-même, à la main, aidé de sa secrétaire, sans rien déranger, en respectant tout...(2) Certes, il reste quelques mots indéchiffrables, mais l'essentiel est que ce soit fini.
— Qu'allez-vous faire pour ces mots indéchiffrables ?
— Je respecterai tout, c’est-à-dire que je n'en mettrai pas un autre. Sans doute, ce sont des mots qu’il avait inventés, et si nous ne parvenons pas à les retrouver, autant les laisser en blanc. Je les ferai photographier et je les placerai à la fin du livre. Ainsi pourra-t-on juger de leur sens présumé.
— Que représente ce livre dans l'œuvre de Céline ?
— C'est la suite de Nord, la relation de notre traversée de l'Allemagne dans les deux sens pour ensuite aboutir au Danemark. ça dure vingt et un jours.
— Et il l'a écrit en combien de temps ?
— Il le ruminait depuis longtemps, il y pensait sans cesse. Et puis, il a mis deux ans; il est allé très vite pour ce livre.
— Vous qui l'avez lu, ça se présente comment ?
— Je vous l'ai dit, c'est la suite de Nord c’est-à-dire que c'est aussi bon. C’est l’aboutissement de tout son travail, de ses études sur le français, le plus précis, le plus simple, celui qui donne le plus de...
— Pourquoi ce titre ?
— Il en avait choisi plusieurs. Rigodon lui semblait plus approprié. Nous avons donc traversé cette Allemagne en feu. Les armées étaient en déroute. Elles rentraient au pays. C'était la fin... Les Russes, les Américains, les Français, de toutes parts, envahissaient l'Allemagne. Aussi étions-nous bousculés. Tantôt, on avançait, tantôt on reculait... Or, le rigodon est une danse : un pas en avant, un pas en arrière. D’où son choix pour le titre.
— Avez-vous la moindre idée sur la façon dont ce livre va être accueilli ? Va-t-il dissiper le malentendu qui...
— Il n'y a pas de malentendu avec Céline, ce sont les autres qui l'ont créé. Céline n'était qu’un écrivain... Il y a toujours des idiots, et comment les empêcher d’agir ? Mais, un jour, tout cela disparaîtra. Il ne restera plus que l'écrivain ou le médecin. Il a essayé d'aider les gens, mais il n'a jamais fait de politique. Ça ne l'intéressait pas.
— Vraiment, ça ne l'intéressait pas du tout ?
— Oh ! non, pas du tout ! Mais il est à craindre qu'on l'étouffera (3). Savez-vous que je ne peux aller dans une librairie demander du Céline sans qu'on me réponde qu'il n'y en a pas. C'est quand même extraordinaire ! Aussi ne donnerai-je Rigodon que si je vois réapparaître les autres livres. Sinon, ce n'est pas la peine, car c'est à l'éditeur, n'est-ce pas, de faire son travail, ou à celui qui diffuse... A quoi servirait alors une publication si on ne peut la trouver en boutique ?
— Vous donne-t-on les raisons de cette absence ?
— Non, non... Ils ne l'ont pas, c'est tout ! Toutefois, il est étrange qu'ils n’envoient pas une commande à Hachette [NDLR : diffuseur de Gallimard à l'époque]. Il y a des gens qui m'écrivent pour me demander où l'on .peut trouver Céline. Souvent, je les envoie chez Gallimard. Quelques jours après, ils m'écrivent à nouveau pour me dire que Gallimard aussi en manque. Où passent-ils donc ? Veut-on favoriser ceux qui imitent Céline ? A la Nationale, certains de ses livres ont disparu ; Les beaux draps ou l'Hommage à Zola, par exemple...
— En donnant Rigodon à un éditeur ne craignez-vous pas qu'il subisse le sort des autres ?
— Ce n’est pas son intérêt... Je ne sais pas encore ce que va en dire Gallimard. Je ne lui en ai pas encore parlé. Qu'aurait fait Louis, à ma place ? Mais comment savoir puisqu'il est mort le jour même où il a terminé avec ce livre.
— N'allait-il pas entreprendre autre chose ?
— Oui, mais c'était différent, c’était un livre pour moi. Sur la danse...Comme tous les jours, je lui parlais de la danse, il m'avait dit : " Je vais en faire un livre, mon dernier. " Il ne voulait plus écrire de romans, c’était terminé. Sur la danse, c'était autre chose, des anecdotes, des petits trucs, c'était amusant...
— Pourquoi ne voulait-il plus écrire de romans ?
— Il trouvait qu’il n’avait plus rien à dire... C’était une époque finie, il était très fatigué. Il est mort d'épuisement, d’ailleurs.
— Vivait-il isolé du reste des écrivains ?
— Il ne recevait jamais personne. Comment l’aurait-il pu avec le travail qu'il poursuivait et son état de santé ? Et puis, ce n'était pas un homme de lettres, c'était un médecin qui aimait le français, qui souhaitait le perfectionner. Il avait trouvé sa manière à lui de l'écrire, et il la perfectionnait sans répit.
— Exerçait-il ici ?
— Il n'était pas installé, mais il aimait tellement la médecine qu'il était toujours disposé à donner un conseil. Toujours gratuitement, d'ailleurs. Il était médecin et non commerçant. Mais, depuis la prison, depuis le Danemark, il avait perdu toute sa vigueur d'antan. Aussi conservait-il toutes ses forces pour travailler à ses livres.
— Au Danemark, des écrivains se sont-ils manifestés auprès de lui ?
— Il y a eu Paraz, qui a été gentil, qui lui a écrit, et Marcel... oui, Marcel Aymé. C'était un ami très sincère, mais autrement...il ne fréquentait personne .
— Lisait-il d'autres écrivains, des modernes ?
— Evidemment, il regardait ce qui se faisait. Il se documentait sur leur travail. Il avait son avis personnel: il ne voulait pas qu’on ébauche un roman mais qu’on l’écrive. Ce qui l'intéressait, ce n'était pas le roman, c’était l’écriture. Tenez, il aimait bien les correspondances historiques. Mais les modernes, très peu !
— Mais n'y avait-il pas des écrivains contemporains qu'il portait dans son cœur ?
— Il ne jugeait pas... Sans exiger qu’on l’imite, il voulait que l'on travaille : il trouvait toujours que les auteurs ne travaillaient pas assez, même s'ils étaient très doués, qu'ils n'allaient jamais jusqu'au bout de leur travail... Sauf pour Marcel Aymé, qui, selon lui, était un conteur extraordinaire. En fait, il lui arrivait souvent de relire La Fontaine.

Notas:
(1) En réalité, il ne s'agissait pas de la mise au point définitive du texte.
(2) Sans doute André Damien. C'est en 1968 que François Gibault deviendra le conseil de Lucette Destouches.
(3) Il convient de rappeler qu'en 1966 la diffusion et l'audience de l' œuvre de Céline n'avaient rien de comparables à celles d'aujourd’hui.

Publicado por FG Santos às 05:21 PM

Fidel Castro caíu...

Após um dos seus inúmeros discursos, em Havana, o "Líder Máximo" caíu, podendo ter feito algumas fracturas.
Claro que aproveitou para gracejar sobre a forma como a imprensa internacional iria glosar o caricato episódio. Se fosse a ele, preocupava-me: Salazar caíu, Bush Pai caíu, até Guterres caíu, e não muito tempo depois destas quedas ambos se viam, por motivos de saúde ou eleitorais, afastados do poder.
Será desta?
Entretanto, aqui ainda não chegou nenhuma foto do infausto acontecimento.
P.S., perdão P.C.: talvez O Anacleto possa vir aqui inspirar-se para as duras batalhas que se avizinham...

Publicado por FG Santos às 11:48 AM | Comentários (3)

outubro 20, 2004

Nobreza Humana

Confesso que as discussões que por vezes travo na blogosfera me deixam fatigado e com uma sensação de desgosto, sobretudo quando vejo que há desavenças entre pessoas de valor, mas que parece não quererem ver o ponto de vista do outro (e a culpa há-de ser regra geral de ambos).
Foi após mais uma destas tricas que me veio parar ao correio-e um texto apócrifo com o título deste post. Vinha num português um bocado "macaco", de modo que alterei algumas frases mas mesmo assim não ficou perfeito.
É esse texto que aqui vos deixo.

"Tudo que é nobre é difícil de ser alcançado."
Spinoza

NOBREZA HUMANA

Possivelmente já ouviu ao menos falar sobre os três tenores. O italiano Luciano Pavarotti, os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras. É possível mesmo que os tenha visto na TV, abrilhantando eventos como o campeonato do mundo de futebol.
O que talvez não saiba é que Plácido Domingo é madrileno e José Carreras é catalão. E que há uma grande rivalidade entre madrilenos e catalães. Plácido e Carreras não fugiram à regra. Em 1984, por questões políticas, tornaram-se inimigos.
Sempre muito requisitados em todo o mundo, ambos faziam constar em seus contratos que só se apresentariam se o outro não fosse convidado.
Em 1987, Carreras ganhou um inimigo mais implacável que Plácido Domingo. Foi surpreendido por um terrível diagnóstico de leucemia. Submeteu-se a vários tratamentos, como auto-transplante de medula óssea e trocas de sangue. Por isso, era obrigado a viajar mensalmente aos Estados Unidos.
Claro que sem condições para trabalhar, e com o alto custo das viagens e do tratamento, logo sua razoável fortuna acabou. Sem condições financeiras para prosseguir o tratamento, Carreras tomou conhecimento de uma instituição em Madrid, denominada Fundación Hermosa. Fora criada com a finalidade única de apoiar a recuperação de leucémicos. Graças ao apoio dessa fundação, ele venceu a doença. E voltou a cantar.
Tornando a receber altos cachets, tratou de se associar à fundação. Foi então que, lendo os estatutos, descobriu que o fundador, maior colaborador e presidente era Plácido Domingo. Mais do que isso. Descobriu que a fundação fora criada, em princípio, para o atender a ele, Carreras. E que Plácido se mantinha no anonimato para não o constranger por ter que aceitar auxílio de um inimigo. Momento extraordinário, e muito comovente aconteceu durante uma
apresentação de Plácido, em Madrid. De forma imprevista, Carreras interrompeu o evento e se ajoelhou a seus pés. Pediu-lhe desculpas. Depois, publicamente agradeceu-lhe o seu contributo para o seu restabelecimento.
Mais tarde, quando concedia uma entrevista na capital espanhola, uma repórter perguntou a Plácido Domingo por que é que ele criara a Fundación Hermosa. Afinal, além de beneficiar um inimigo, ele concedera a oportunidade de renascer a um dos poucos artistas que poderiam fazer-lhe alguma concorrência.
A resposta de Plácido Domingo foi curta e definitiva: "porque uma voz como essa não se podia perder".

Publicado por FG Santos às 05:04 PM | Comentários (1)

Os Schtroumpfs Negros

A propósito de uma polémica que anda por na blogosfera veio-me à lembrança uma BD que li dezenas de vezes quando miúdo e que me voltou às mãos agora que o meu mais novo (5 anos) está também a ficar fanático: trata-se de "Os Schtroumpfs Negros", da série dos simpáticos serezinhos azuis, da autoria do genial Peyo.
A comunidade Schtroumpf vive em harmonia sob a liderança incontestada mas benevolente do Grão Schtroumpf. Um dia um schtroumpf é mordido pela mosca Bzz e... fica negro! Além disso, perde a consciência e só quer morder os outros, o que, quando sucede, os torna negros também! As alusões ao mundo real são mais ou menos evidentes.
Já no fim do livro, dos 100 schtroumpfs, 90 são negros e vão atacar a aldeia onde se escondem os 10 resistentes. O azul que os vê avançar corre para a aldeia aos gritos de "Vêm aí os Negros!"...
A edição portuguesa, que eu saiba, está esgotada há muito mas qualquer loja FNAC tem álbuns da série, é questão de procurar. Boa leitura.

Publicado por FG Santos às 04:17 PM | Comentários (2)

outubro 19, 2004

O tio Timóteo

N'"A Tragédia da Rua das Flores", de Eça, o tio de Vítor, Timóteo de seu nome, era assinante do Times, de Londres, pois não suportava a imprensa nacional. Um dia em que lhe não chegou às mãos o matutino britânico, folheou horrorizado o Diário Popular, lendo algumas notícias tipo "Fulano de tal nomeado para tal lugar", "Fulana foi vista com o seu novo vestido algures" e outras coisas relevantíssimas para o destino pátrio. E rematava a leitura do pasquim dizendo: "E é um país, isto?"...
Vem a propósito esta lembrança, não porque queira fazer algum comentário à imprensa que temos hoje, mas porque a falta que o tio Timóteo sentia do Times também eu a sinto quando alguns blogues da minha preferência ficam alguns dias sem textos novos... Neste momento, sinto a falta de novas deste, deste e deste, e tão diferentes que eles são, e tantas divergências neles encontro com as minhas posições, e tão indispensáveis para um dia a dia mais motivador!

Publicado por FG Santos às 04:54 PM | Comentários (4)

Manuel Monteiro

Muitos blogues da área nacional têm quase diria uma obsessão em criticar Manuel Monteiro, líder do PND. A situação compreende-se: o jovem dirigente parece na verdade mais preocupado em chegar a um lugar de poder do que em defender com unhas e dentes as ideias que proclama.
Exemplo disso parece ser o aparente namoro ao PS no sentido de formar uma eventual coligação, que seria no fundo do interesse de ambos: os socialistas porque dificilmente obterão maioria absoluta e Sócrates não parece inclinado a coligar-se à sua esquerda; o PND porque seria a forma de chegar ao poder.
Desde que o PSD se coligou com o PP que Monteiro terá percebido que só com o PS “é que lá ia”. Até já existe um precedente semelhante, com a (efémera) coligação PS/CDS pouco antes do advento da AD.
Desta forma, MM, que surgira como um crítico feroz do sistema e dos deputados “sangessugas” (expressão sua), parece ter-se rendido às prebendas de que poderá beneficiar um dia. Não ajuda a credibilizar a classe política, mais a mais porque em dado momento ele “parecia diferente”.
Confesso que no início simpatizei com o personagem. MM surgia com um discurso diferente, inovador e... de direita assumida sem complexos: críticas à classe política pelo seu conformismo e falta de transparência de processos, críticas ferozes (que muito me agradaram) ao tratado de Maastricht e ao federalismo, críticas ao sistema educativo e apelo a que se voltasse a um sistema que efectivamente avaliasse os alunos e não promovesse a passagem de ano dos que o não mereciam. Até à sua recusa em apoiar Cavaco Silva contra Sampaio mostrou um homem que parecia não renegar as suas ideias (ao contrário de Portas que, após anos a “cascar” no cavaquismo nas páginas do “Independente” declarou grotescamente o seu apoio ao homem de Boliqueime).
Depois foi “golpe de Estado” interno no PP, a travessia do deserto, os estudos em Paris e temos de volta um homem que agora advoga um sistema presidencialista à francesa (Mitterrand, antes de ser presidente – claro! – caracterizara esse sistema como o golpe de Estado permanente), o seu apoio à eventual candidatura de... Cavaco Silva (!), o namoro implícito ao PS e a um grupo de euro-deputados assumidamente federalista...
Um político como os outros.

Publicado por FG Santos às 11:44 AM | Comentários (4)

outubro 18, 2004

Darfur

Decorre em Tripoli, na Líbia, uma mini-cimeira sobre a crise na província sudanesa de Darfur, onde milícias árabes vêm praticando, perante a complacência senão mesmo conivência do governo de Karthoum, uma política de limpeza étnica.
A oposição espera poucos resultados práticos deste encontro patrocinado pelo grande democrata Muammar Khadafi.
Um retrato arrepiante deste drama foi publicado no Independent, sendo uma leitura a não perder por quantos se interessam por mais este arrepiante exemplo do estado em que se encontra o continente africano.

Publicado por FG Santos às 12:12 PM

Eleições do Atlântico aos Urais

Alberto João Jardim conseguiu a oitava maioria absoluta nas Eleições Regionais na Madeira.
Empolgado, afirmou que "o PSD cometeu alguns exageros, excessos de benevolências e de transigências, levando no côco mas fazendo favores ao adversário, sendo bem educado com uns senhores que eram autênticos agentes da subversão contra nós. Isso acabou, acabou o porreirismo."
E terminou em grande estilo PREC: "Abaixo o fascismo! Abaixo os colonialistas!"

Carlos César conseguiu novamente a maioria nas Eleições Regionais açorianas.
"Todos nós aprendemos muito com eleições. Nestas eleições todos nós voltámos a aprender muito. Os políticos, os comentadores, os órgãos de comunicação social. Até o Governo da República aprendeu hoje uma grande lição".

Pelos vistos, não é só a TVI que não "grama" contraditórios. A nossa classe política detesta aturar as "bocas" da comunicação social, no entanto já de si tão subserviente ao sistema.

O que eles deviam mesmo gostar era de governar na Bielorrússia. Aí, ao menos, a oposição é silenciada e os jornais encerrados. Ai que inveja!

Publicado por FG Santos às 10:38 AM | Comentários (1)

outubro 16, 2004

Nelson Buíça, liberalismo e o que mais se há-de ver

À laia de boca a um texto meu em que dizia que não era por não concordar com nem que fossem uns 75% daquilo que era dito num qualquer blogue que deixaria de o linkar se achasse que tinha qualidade, o Nelson, curioso como sempre, quis saber se era a ele que eu me estava a referir.
Não era ele que eu tinha em mente.
O nosso amigo da Invicta não gosta do comunismo. Eu também não.
É patriota e gosta do seu país. Eu também.
Encara a liberdade como um valor a defender. Eu também, eventualmente nos seus limites é que divergimos. Porque ao definirmos os limites que ela deve ter estamos no fundo a dizer que há outros valores que ela não pode desrespeitar. Poderá ser o interesse nacional, uma situação limite de crise societal, ou muito simplesmente... a liberdade do outro.
Ele gosta das monarquias constitucionais. Eu sou monárquico porque, entre outros motivos, acho uma vergonha que o chefe de Estado represente apenas um leque de opinião da sociedade. E acho que o soberano deve submeter-se aos princípios de interesse geral expressos numa Constituição.
O Nelson acha que fascismo e comunismo são as duas faces da mesma moeda, que é a opressão dos povos por um Estado super-poderoso subjugado a uma ideia de sociedade totalitária. Está em parte correcto na forma, no conteúdo é tema que daria não para outro post mas para volumes inteiros de especulação e análise comparada de sistemas políticos. De qualquer modo prometo voltar ao tema.
Ele é liberal, quase diria “à outrance”. Eu não sou anti-liberal, acho que o liberalismo pode funcionar relativamente bem num país se este não abdicar do controlo daquilo que passa pela sua fronteira: sejam bens e serviços, sejam pessoas. Não é o que se passa actualmente, e muito menos na nossa UE sovietóide. A intervenção do Estado deverá ser discreta mas em última análise deve submeter-se não à eficiência económica mas ao interesse nacional e ao respeito pela dignidade da sua população e condições de vida.
O Nelson acredita que a liderança mundial dos EUA é algo de bom para o mundo. Tenho grandes reservas a este respeito, as consequências políticas, económicas, sociais e culturais dessa intervenção são em muitas circunstâncias desastrosas para a paz, para o equilíbrio das nações, para a sua independência, para a afirmação da sua cultura...
Ele concorda com o apoio americano a Israel. Compreendo que um país como o estado hebreu, cercado de potenciais inimigos, vive num equilíbrio precário. Não aceito de modo algum que esse facto leve a superpotência dominante a fechar os olhos a todas as atrocidades que têm sido cometidas por Israel desde 1948. Se aceitamos barbaridades “porque os outros também as fazem ou são piores” entramos no campo da barbárie pura e simples e do retrocesso civilizacional.
O Nelson gosta do debate aberto e franco de ideias. Apesar dos pontos acima em que estamos em alguma sintonia, este é aquele em que essa sintonia é perfeita.

Publicado por FG Santos às 06:44 PM | Comentários (4)

outubro 15, 2004

Poema dedicado ao Corcunda

When I Have Borne in Memory What Has Tamed

When I have borne in memory what has tamed
Great Nations, how ennobling thoughts depart
When men change swords for ledgers, and desert
The student's bower for gold, some fears unnamed
I had, my Country -am I to be blamed?
Now, when I think of thee, and what thou art,
Verily, in the bottom of my heart,
Of those unfilial fears I am ashamed.
For dearly must we prize thee; we who find
In thee a bulwark for the cause of men;
And I by my affection was beguiled:
What wonder if a Poet now and then,
Among the many movements of his mind,
Felt for thee as a lover or a child!

(William Wordsworth)

Publicado por FG Santos às 04:57 PM | Comentários (1)

Uma boa notícia

O corajoso oposicionista ao sinistro regime de Robert Mugabe, Morgan Tsvangirai, foi ilibado por um tribunal zimbabueano, das acusações que sobre ele pendiam de alegadamente ter planeado assassinar o presidente.
Independentemente das críticas que têm sido feitas à táctica que Tsangvirai tem utilizado para fazer mossa ao corrupto regime, há que louvar a sua extraordinária coragem e dedicação à causa que abraçou de contribuir verdadeiramente para que o Estado de Direito exista naquele país, que, sob o comando de Mugabe, apresenta hoje uma economia em colapso, com escassez de alimentos e matérias, inflação rondando os 300% e metade (!) da população adulta desempregada.
O sector agrícola está no caos e na penúria depois da demagógica e criminosa política de redistribuição (na verdade, extorsão, em favor de antigos combatentes pela independência) de terras e o país, potencialmente riquíssimo, encontra-se como... quase todos os outros do mesmo continente.

Publicado por FG Santos às 03:17 PM | Comentários (5)

Citação

Situação curiosa ocorrida comigo há pouco. O pacote de açúcar que acompanhava o meu café ao almoço tinha a seguinte citação, que ofereço a estes dois amigos:
«Nada surpreende quando tudo surpreende.» Antoine de Rivarol.

Publicado por FG Santos às 03:03 PM

Links, amigos, turras e cabeçadas

Após um dia de ausência, dado que foi passado longe de computadores, aqui volto ao convívio com os meus amáveis leitores.
Confesso que fiquei muito agradado com três situações que testemunhei ao embarcar nesta aventura que é ser um blogger:
- a solidariedade que leva os blogues amigos a recomendarem-se uns aos outros, criando uma espécie de onda difusora da "boa nova"; é reconfortante;
- uma "lei" não escrita (no fundo também ela solidária) que conduz a que "quem me põe o link, por mim linkado será";
- a amizade, mesmo entre quem não se conhece senão via net, é em muitos casos mais forte que qualquer consideração política, ideológica, estética, etc. Quem vir a lista de blogues recomendados neste site poderá constatar quão variadas são as tendências por ela representadas.
Uma coisa vos garanto: posso pôr um "link" a um blogue com cujas ideias não concorde digamos aí a mais de 75%. O que não farei é "linkar" blogues que ache não têm qualidade.

Publicado por FG Santos às 12:28 PM | Comentários (2)

outubro 13, 2004

Fragas, solidão, luta pelos conques, morte

Tenho estado a ler os "Contos da Montanha", de Miguel Torga.
Não pegava num livro do grande escritor transmontano há uma década, sensivelmente, e não pude deixar de ficar impressionado com a força narrativa, a descrição quase épica da paisagem nordestina, o drama quotidiano, a sombra da morte...
O link acima remete para uma biografia do médico e escritor, lançando algumas pistas para a compreensão da sua personalidade e da sua obra. A sua independência de julgamento, a sua crítica aos intelectuais, o seu amor à Pátria, tornam-no bem simpático aos meus olhos.
Mas a sua obra vale por si mesma.
Já agora, será que certo bloguista transmontano tem algo a dizer sobre a vida e obra de Adolfo Coelho da Rocha, vulgo Miguel Torga? Fica o desafio.

Publicado por FG Santos às 11:56 AM | Comentários (13)

Nova biografia de Lucien Rebatet

(Post dedicado especialmente ao Pedro Guedes e ao BOS.)

Lucien Rebatet é mais um dos escritores malditos do país de Molière. Polemista em diversos jornais, o seu panfleto "Les Décombres", best seller da Ocupação, manchou-lhe a reputação entre os bem pensantes, dado o apoio mais ou menos explícito às políticas hitlerianas, que este vosso servidor, já agora, não pode deixar de condenar.
Mas, tal como Céline, o génio das letras que era Rebatet não merecia ser ofuscado pelos seus escritos políticos. A sua criatividade e os recursos da sua escrita são absolutamente notáveis, creio não exagerar ao considerá-lo um dos maiores homens de letras do séc. XX.
Condenado à morte, posteriormente perdoado e finalmente libertado em 1954, teve assim oportunidade de, além do livro já citado e de "Les Deux Etendards", gigantesco romance terminado ainda na prisão, publicar uma excelente "Histoire de la Musique" (embora contenha injustiças flagrantes, nomeadamente em relação ao meu bem amado Anton Bruckner) e "Les Epis Mûrs".
Muito recentemente saíu uma nova biografia do grande escritor, à qual o semanário Rivarol (onde de resto LR escreveu até falecer em 1972) dedicou um texto na sua edição de 1 de Outubro, que a seguir se reproduz, com a devida vénia.

Pol Vandromme avait donné en 1968, toujours aux Editions Universitaires, un Rebatet réédité il y a deux ans chez Pardès. Le même éditeur propose, dans la collection “Qui suis-je?”, un nouveau Rebatet (3) dû, cette fois, à Pascal Ifri.
J’ai dit en son temps tout le bien que je pensais de l’essai d’Ifri “Les Deux étendards de Lucien Rebatet: dossier d’un chef-d’œuvre”, publié en 2001 à l’Age d’Homme. La biographie qu’il nous donne aujourd’hui présente les mêmes qualités de sérieux et d’objectivité, s’agissant d’un écrivain toujours maudit, alors que, constate l’auteur, “Louis-Ferdinand Céline, dont les pamphlets n’ont rien à envier à ceux de Rebatet, est à présent largement reconnu comme un géant de la littérature, que Robert Brasillach et Pierre Drieu La Rochelle sont redevenus fréquentables”.
Il faut rendre grâces à l’auteur d’avoir su raison garder face au phénomène Rebatet et d’avoir abordé la part la plus sulfureuse de l’œuvre sans se croire tenu aux gesticulations habituelles. Une telle réserve, un tel désir de comprendre sans toutefois faire preuve de la moindre complaisance sont assez rares pour être signalés.
Tout se trouve, sous une forme ramassée, dans ce petit livre remarquablement documenté: la biographie, les écrits militants, dont Les Décombres et d’autres moins connus, les articles de critique d’art, de cinéma et Une histoire de la musique, les romans, Les Deux étendards et Les Epis mûrs.
On voit bien, certes, combien est artificiel ce découpage qui conduit inévitablement à quelques redites. Ni l’auteur, ni l’œuvre ne se prêtent à un tel saucissonnage. Le militant et l’esthète ne font qu’un, le pamphlétaire ne s’efface jamais complètement devant le romancier. D’autre part, était-il possible de faire autrement sans abdiquer un souci de clarté à porter au crédit du biographe? On ne lui fera donc pas grief d’un plan qui répond aux canons universitaires.
Tel qu’il est, cet ouvrage présente un réel intérêt. Il propose notamment, à partir de ses articles dans RIVAROL, une analyse de l’évolution politique de Rebatet qui n’est pas dépourvue de pertinence. Et il fait mention des romans inachevés ou inédits, des milliers de pages dormant dans des tiroirs, au désespoir des fidèles de l’écrivain…

P.-L. Moudenc

3) Rebatet. Editions Pardès, coll. “Qui suis-je?”, 128 pages, chronologie, bibliographie, abondante iconographie, 12 €

Publicado por FG Santos às 11:13 AM | Comentários (4)

outubro 12, 2004

"All in the Family"

Não sei se os meus caros leitores conhecem esta famosa série norte-americana, que prendeu milhões de espectadores ao ecrã nos anos 70.
Desde há cerca de um ano que tem vindo a ser difundida no canal SIC Gold, até há pouco um episódio de 2ª a 6ª feira, actualmente dois por dia (o que é um exagero), entre as 22.00 e as 23.00.
O enredo é simples: trata-se de uma família de classe média-baixa que vive no bairro de Queens (o nome deste bairro é uma homenagem à nossa Catarina de Bragança - esta nota fica para outro post), em Nova Iorque.
O personagem principal, Archie Bunker, é o "bread winner", o americano conservador, republicano, vagamente racista, assustado por assistir ao desmoronar de uma certa tradição, um modo de vida, varrido pela modernidade da ascensão social dos negros, da predominância crescente dos judeus na engrenagem do poder político e económico, da liberdade sexual, etc.
Embora seja caracterizado como o típico "bigot" (preconceituoso), a série "permite-lhe" ter tiradas que hoje em dia seriam impossíveis de ver em TV ou cinema.
«Os responsáveis pelos tumultos e pilhagens em Los Angeles são aqueles que não se consegue ver à noite...»
«O Dr. Shapiro está a passar o fim de semana no local preferido da sua tribo - Miami.»
Consultando a lista telefónica, letra C: «Cohen, Cohen, Cohen... Nova Iorque está na mão dos judeus!»
Depois de ter sido assaltado, pergunta-lhe a filha: «Foste atrás do ladrão?» Resposta: «Não, se tivesse ido ele tinha levado a coça da vida dele. Mas depois deixei para os chuis, é para isso que serve a violência policial!»
«O problema com os negros e os direitos civis foi a Eleanor Roosevelt ter começado a falar deles, até aí eles estavam nos seus ghettos e ninguém lhes ligava nenhuma!»
Querendo baptizar o neto depara-se com um padre oriental: «Sr. Padre, desejava que fosse uma cerimónia normal americana, sem dragões nem bombinhas.»
«O homem é superior à mulher, está na Bíblia. Deus fez o Homem à sua imagem. Depois, de uma costela sua fez a Mulher - produto de segunda ("cheaper cut").»
Deixas que nos fazem sorrir mas aqui o que realmente saliento é o tom livre com que se podia falar do mundo em volta.
Para conhecer um pouco mais desta séria, veja-se a página
http://www.museum.tv/archives/etv/A/htmlA/allinthefa/allinthefa.htm

Publicado por FG Santos às 05:41 PM | Comentários (3)

O trampolineiro em Pequim

Um dos meus ódios políticos de estimação é o presidente francês Jacques Chirac.
São tantos os aspectos negativos a apontar-lhe que deixarei aqui apenas um punhado deles:
- os casos de desvio de fundos enquanto maire de Paris são tão evidentes que o homem se agarra à presidência como forma de prolongar no tempo a sua imunidade;
- a sua falta de princípios políticos é flagrante: de euro-céptico a euro-entusiasta, de crítico da imigração a adepto da mesma e da multiculturalidade a todo o custo, e por aí fora;
- a forma como excluiu o Front National do debate político é, pense-se o que se pensar do movimento de Le Pen, no mínimo anti-democrática. A sua recusa em debater com este último entre as duas voltas das presidenciais de 2002 é sintomática desta atitude.
Mas um dos aspectos mais característicos da sua personalidade enquanto homem político é a forma como se rebaixa perante a nomenclatura chinesa, como forma de obter contratos vantajosos para grandes empresas gaulesas. Há poucos meses fez ameaças veladas a Taiwan sobre os propósitos independentistas do novo executivo de Taipei, comportando-se despudoradamente como homem de mão de Pequim. Agora vem apelar ao fim do embargo da UE sobre o comércio de armamento com a China, em vigor desde os acontecimentos da Praça de Tianamen, em 1989.
A notícia detalhada está aqui:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/3728586.stm

Publicado por FG Santos às 11:51 AM | Comentários (6)

outubro 11, 2004

Céline

Aqui se deixa o link para um site dedicado a um dos maiores escritores do séc. XX, tão grande que nem uma atitude politicamente incorrectíssima obviou à sua tremenda popularidade, inclusivamente entre os jovens leitores de hoje.
http://louisferdinandceline.free.fr/index2.htm
E que atitude foi essa? Um anti-semitismo declarado, vertido em páginas de quase delírio persecutório, que, diga-se, causam algum incómodo. Quando se lê "il faut saigner les juifs" (Bagatelles pour un Massacre, 1936) e se sabe o que aconteceu pouco depois (e mesmo já na altura), sente-se um certo arrepio. E não se pense que estou a descontextualizar a frase, o autor repetidas vezes teve oportunidade de declarar a sua hostilidade ao "povo eleito", inclusivamente durante a Ocupação.
Os três chamados panfletos que contribuiram para "demonizar" o escritor são muito difíceis de encontrar à venda (paguei por eles 600+600+500 francos) e não se antevê quando venha a deixar de ser proibido reeditá-los.
E o escritor no meio disto? A obra é demasiado extraordinária para ser beliscada por estes "desvios", o estilo é único, a descrição de um mundo em ruínas é impressionante, o humanismo do autor, embora dissimulado debaixo de uma camada de aparente indeferença pelo género humano, perpassa aqui e ali, remetendo-nos para uma visão desesperada e pessimista da natureza humana.

Publicado por FG Santos às 06:05 PM | Comentários (9)

Liberdade

Um dos aspectos mais nebulosos, por assim dizer, associados a blogues nacionalistas é o seu posicionamento perante a liberdade.
Nas palavras que vertem, nota-se algum desdém pelo princípio filosófico associado àquela palavra, culpada de muitos males, especialmente no "estúpido" séc. XX. A mesma teria também o ónus de ter destruído a independência das nações, a homogeneidade étnica destas, os modos de vida ancestrais e por aí fora.
Já quando se fala em censura nos tempos modernos, os mesmos arremetem contra a falta de... liberdade (de expressão), em que certas e minoritárias correntes de opinião são reprimidas.
Confesso a minha perplexidade perante esta aparente contradição. Acho que é possível defenderem-se as nações num quadro geral de liberdade constitucionalmente consagrada. O problemas das nossas sociedades ocidentais é a submissão do Estado a poderosos interesses económicos e a agendas políticas mais ou menos obscuras. O cerne da questão estará assim não na liberdade em si mas no (mau) uso que dela é feito. Mas isso será tema para um outro post.

Publicado por FG Santos às 05:51 PM | Comentários (3)

Amigos e proximidades

Para concluir os posts introdutórios, cabe referir que a ordenação por ordem alfabética dos blogues recomendados dá situações curiosas: o Último Reduto, que foi o primeiro blogue que conheci, aparece... em último! Já o SG Buíça aparece a seguir a um blogue que tem no título a palavra "sexo"; acho que o Nelson apreciará a coincidência.

Publicado por FG Santos às 05:44 PM | Comentários (1)

«(...) independentemente da cor política»

O título supra, extraído do meu primeiro post, não quer significar que este blogue é ou pretende ser a-político. Uma espreitadela mais ou menos atenta aos blogues recomendados dá logo a entender que por estas bandas se pende mais para a direita...
Isso não significa que se vá aqui fazer bandeira por esta ou aquela ideia. A única bandeira que irá adejar por aqui (além da do meu Belenenses) será a do nosso maltratado país (que bandeira, é outra questão, até aqui o meu coração pende igualmente para o azul e branco!).
Dito isto, este blogue dá as boas vindas tanto a blogues pouco atreitos à democracia, como a outros que a julgam o melhor dos sistemas de governo. No leque de amigos incluem-se todos os que amam o seu país e que não acreditam no politicamente correcto vigente, que à força de querer destruir as nações e qualquer pensamento verdeiramente crítico, tenta encaminhar o nosso mundo para um cenário orwelliano, embora com nuances.

Publicado por FG Santos às 04:10 PM

outubro 08, 2004

... não fazem milagres

Um blogue, pelo menos se for pessoal, é algo um pouco narcisista. Decidimo-nos a partilhar pensamentos e ideias com pessoas que na grande maioria desconhecemos quem são.
Se o blogue tiver como título um ou mais nomes do seu autor então parece que o narcisismo é mesmo flagrante.
Este vosso servidor não o é, e se o seu apelido aparece no título foi mais porque o conhecido provérbio me passou pela cabeça quando cogitava qual o título que ia escolher. Gostava sinceramente que este blogue contribuísse para o debate civilizado sobre temas da actualidade (e a actualidade internacional é tão negligenciada entre nós) e sobre livros e cultura em geral.
Vou manter ligações a sites e blogues que repute de interesse, independentemente da cor política.
Agradeço os vossos comentários pois este blogue existe para que quem o lê daí tire algum proveito.

Publicado por FG Santos às 05:31 PM | Comentários (9)